Eu tava sentado do lado de fora de um mercadinho, tentando dormir em cima de um papelão no concreto duro, quando uma mulher de meia-idade colocou cinquenta dólares no meu copo. Ela não parecia nada especial: cabelo castanho crespo, blusa e calça social. Mas graças a ela eu consegui comprar comida no 7-Eleven por uma semana inteira, e quando os cinquenta acabaram ela voltou com mais cinquenta. Virou rotina: toda semana ela aparecia e me dava cinquenta dólares, e no fim do mês me dava parte das compras dela.
Depois de uns dois meses disso tudo, descobri o nome dela. Era Marianne, trabalhava na igreja local como professora de escola dominical e contadora. Ela nunca tentou me converter nem nada, nem me convidou pra igreja dela, só aparecia e me dava as coisas. Eu tava acostumado com o povinho que dá um dólar de forma cerimoniosa pra se exibir pros filhos ou pros colegas de igreja, então foi uma surpresa bem-vinda ter alguém sendo genuinamente gentil pela primeira vez.
Um dia ela propôs que eu fosse morar com ela. Tinha um quarto sobrando e não queria aluguel. Eu esperei o pior: seita secreta, aliciamento, serial killer. Mas confiei nela. Acho que foi a bondade que ela mostrava que me fez ir contra meu instinto, mas minha consciência provou que tava errada. Na primeira noite que passei lá, ela me deu um pratão de espaguete e acesso livre ao banheiro. Foi a primeira vez em anos que eu me senti aquecido e de barriga cheia.
A casa dela era boa. Dois andares, bairro suburbano tranquilo. Ela me deu meu próprio quarto, já com cama e umas roupas no armário. Nunca me pressionou pra arrumar emprego nem pra ajudar em casa, só me deixou morar lá.
A casa era decorada direto dos anos 80. Vários enfeites de crochê, um monte de cruzes e frases da Bíblia nas paredes, e uma TV gorda com videocassete e decodificador de cabo. O que me incomodava era que todas as fotos pela casa eram de uma velhinha e da família dela, todos loiros. Perguntei pra Marianne e ela disse que cuidava daquela senhora até ela morrer, e que a velhinha deixou a casa e todo o dinheiro pra ela no testamento. Perguntei se a família tinha ficado feliz com isso e ela disse que não, mas que ela devolveu três quartos do dinheiro pra família e isso deixou eles felizes. O dinheiro era uns seis milhões de dólares, nada pra se torcer o nariz. A velhinha era fera em apostas na bolsa.
Morando com a Marianne por dois anos, uma coisa que nunca me desceu direito foi a generosidade extrema dela. Num Dia de Ação de Graças ela convidou um monte de mendigos desconhecidos da cidade pra jantar na casa dela. Um deles achou o cofre e roubou quinhentos dólares, mas ela simplesmente deixou ele levar. Doou o carro dela pra família do lado cuja caranga tinha sido destruída porque o filho adolescente bebeu e dirigiu. E ganhou um carro novo da igreja. Dava 20% do salário que recebia da igreja de volta pra mesma igreja como dízimo. Tiveram que dar um aumento pra ela só pra ela conseguir ter um salário básico. Ela era louca, mas todo mundo amava ela por isso. A cidade inteira chamava ela de anjo do céu. Se eu não conhecesse melhor, ia achar que aquela cidadezinha secretamente a adorava como líder de culto. Mas em algum momento eu aprendi a enxergar ela do ponto de vista deles. É difícil negar o jeito calmo e encantador dela.
Mas ela nunca dormia. Nunca ouvi ela usar o banheiro e nunca vi ela se servir de comida. Fora ir pras reuniões da igreja e outras atividades na cidade, ela passava os dias assistindo TV, até vendo programas antigos em preto e branco de madrugada. Acho que nunca vi ela lendo a Bíblia fora da igreja. Pra qualquer outra pessoa isso seria normal, mas pra ela parecia estranho. Eu sempre atribuía a ela ser uma andarilha silenciosa, uma mijadora silenciosa, alguém que fazia jejum intermitente, que comia quando eu não tava comendo, que tinha decorado a Bíblia inteira. Afinal, ela me abrigava, era generosa demais pra ter algo sinistro por trás.
Numa Black Friday eu insisti pra ela comprar uma TV nova. Ela ficava vendo TV cinza e cheia de chuvisco há anos, então eu quis fazer algo legal pra ela. Arrumei um emprego num fast-food da cidade e juntei grana suficiente pra comprar algo pra ela. Ela precisava receber um pouco de generosidade de vez em quando. Fomos pra cidade grande à noite e entramos numa loja de departamentos que tinha a TV certa dentro do meu orçamento. Não era grande coisa, mas era boa o suficiente pros dois. Quando saímos, fomos abordados por dois caras, um deles com arma. Gritaram que queriam a TV e a Marianne, anjo que era, entregou a TV com um sorriso.
Não sei se foi o jeito que ela entregou ou se o cara tava chapado de crack, mas ele atirou na cabeça da Marianne. Sabendo que tinham ferrado tudo, correram. Eu quis correr atrás, mas a Marianne me segurou, agarrando minha perna.
“Perdoe eles.” Ela disse com voz fraca. Nunca tinha visto ela chorar, e doeu ver aquilo. Mas algo rapidamente secou as lágrimas do meu rosto. O sangue dela era cor de cobre. Mergulhei os dedos nele e ergui contra a luz: estava brilhando.
“Desculpa por ter mentido pra você.” Ela disse. Eu rastejei até ela e a abracei. Minha confusão secou meu rosto.
“Do que você tá falando? Você não fez nada.” Eu disse, mas ela falou outra coisa que transformou minha confusão em irritação.
“Afaste-se.” Ela disse. Comecei a gritar: “Do que você tá falando, Mary, o que você quer dizer?!”
Então o rosto dela começou a derreter. A pele escorreu até um cobre grosso, expondo os músculos do rosto. Eu pulei pra trás. Os músculos derreteram em uma gosma vermelha enquanto revelavam o crânio. Milhares de olhos minúsculos estavam incrustados nos ossos, só um centímetro menores que os olhos castanhos dela. Todos olhando pra mim, olhos de todas as cores me encarando. Eu vomitei no chão, olhei pros braços dela, manchando a blusa rosa cheia de babados, os mesmos olhos cravados nos braços, mãos e dedos me fitando. Rastejei até a parede atrás de mim e gritei.
“Não temas.” Ela disse com uma voz rouca e profunda enquanto rachaduras começaram a se formar e se espalhar entre os milhares de olhos. Uma luz que perfurava todo o esqueleto explodiu em uma claridade intensa. Meus olhos queimaram como se estivessem enfiando ferros quentes nas órbitas. E depois de alguns segundos, ela sumiu. A única coisa que eu conseguia ver na minha visão embaçada era o que sobrou dela: as roupas carbonizadas. Pedacinhos da blusa voaram com o vento, mas eu nem me mexi pra pegar.
A polícia não me interrogou. O beco tinha câmera e o que eles viram foi o mesmo que eu vi. Depois de ficar umas três horas na sala de entrevista, fui questionado por dois caras de terno. Eu não quis me meter em merda de governo, então eles me deixaram em paz, me deram carona no carro da polícia até a casa dela. Eu não tinha carteira de motorista, então tive que chamar o guincho pra trazer o carro dela pra casa. Tive que abrir o cofre pra pegar a grana, foi horrível. A carteira dela tava queimada mas sobreviveu, a polícia me entregou. Só encontrei uns dólares generosos queimados e uma foto queimada que parecia ser ela com a velhinha. Ela não tinha documento nenhum, nem carteira de identidade, nem número de seguro social. Três dias depois um advogado bateu na porta. Disse que ela tinha alterado o testamento um ano antes e que a casa e dois milhões de dólares agora eram meus. Perguntei como ela conseguiu fazer isso sem nenhuma prova de que existia e o advogado disse que era confidencial, então imagino que foi um pouco de boa vontade e generosidade.
Usei parte do dinheiro pro funeral de caixão fechado. A cidade inteira apareceu. Nunca vi tanta gente chorar por um caixão vazio. A polícia achou um dos caras que mataram ela; disseram que o outro morreu de overdose. Acho que uma parte da Marianne, ou seja lá o que ela fosse, continuou vivendo dentro de mim, porque eu não pressionei nenhuma acusação. Ele agora é meu colega de casa. Era só um moleque que seguia o irmão mais velho, então não culpei ele pela Marianne. Ele me ajudou e me guiou pela casa até eu conseguir óculos novos pra cegueira. O dinheiro me ajudou a ficar estável até eu tirar o diploma do ensino médio e até eu virar gerente distrital do fast-food onde trabalhava. Mantive a casa do mesmo jeito, mantive a TV, uma parte de mim quis seguir o exemplo dela e respeitar a velhinha que a abrigou. Eu acredito que ela era um anjo, muita gente acredita, espero que a Marianne olhe pra mim de cima e tenha orgulho do que ajudou a melhorar. Seja gentil. Nem todo mundo pode ser anjo, mas, porra, o mundo precisa de mais deles.


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