Trabalho no turno da madrugada na Universidade St. Jude há seis anos. A maioria das pessoas acha que ser faxineiro é só esfregar chão e esvaziar lixo, mas num lugar tão antigo quanto esse, o negócio é mais saber quais barulhos ignorar. Os canos de vapor sibilam como se estivessem cochichando segredos, e as tábuas velhas do piso rangem sob os fantasmas de alunos que já se foram há muito tempo. Eu gostava do silêncio. Ou melhor, gostava antes.
Minha rota cobre o prédio de Ciências da Vida. É um labirinto de linóleo e luzes fluorescentes que zumbem num tom que dá dor de cabeça. O porão é a pior parte — um emaranhado de depósitos e portas pesadas revestidas de chumbo. Meu supervisor, um cara calejado chamado Artie que tá aqui desde os anos setenta, me deu uma instrução específica logo que eu comecei: “Se você estiver passando pano no Corredor Norte e vir uma porta sem número de sala, continua passando pano. Não olha pra ela, e pelo amor de Deus, não entra.”
Durante seis anos, eu obedeci essa regra. Passava pano no Corredor Norte, via o contorno fraco de uma porta pesada de carvalho aparecer no reflexo do chão molhado, e ficava olhando pras minhas botas até os azulejos secarem e a porta sumir. Mas ontem à noite, os canos do teto estouraram.
O Corredor Norte ficou inundado. Eu tava parado em uns oito centímetros de água, o reflexo tão claro que parecia um espelho. E lá estava ela. A porta. Não era mais só um contorno fraco; era sólida, madeira escura com uma maçaneta de latão que parecia uma cara gritando. O cheiro me acertou em cheio — não era cheiro de papel velho nem de produto de limpeza, mas de ozônio e terra molhada.
Eu devia ter dado meia-volta. Devia ter ligado pro Artie. Mas a porta tava entreaberta, e eu ouvia um som vindo de dentro. Era um tum-tum ritmado, tipo um coração batendo bem devagar. Contra todo instinto que eu tinha, empurrei a porta.
O cômodo lá dentro não caberia de jeito nenhum na fundação do prédio. Era uma câmara circular imensa, forrada com milhares de potes de vidro. Entrei, e a água do corredor me seguiu como se estivesse viva. Cada pote continha algo pulsando — massas cinzentas parecidas com cérebros, ligadas por fios finos de cobre. Elas não tavam só ali paradas; tavam se comunicando. Os fios zumbiam numa frequência baixa que fazia meus dentes doerem.
No centro do cômodo tinha uma mesa. Sentado ali tinha um cara vestindo um uniforme de faxineiro igualzinho ao meu. De costas pra mim.
“Artie?”, sussurrei.
A figura não virou. “O chão tem que ficar molhado”, disse a voz. Parecia a do Artie, mas oca, como se as palavras estivessem saindo de uma caixa de som velha e quebrada. “A umidade conduz a memória. Sem água, os potes secam. E quando secam, a universidade esquece.”
Me aproximei mais, o coração martelando nas costelas. “Esquece o quê?”
O cara finalmente virou. Não era o Artie. Não era ninguém. Era uma casca oca feita da mesma massa cinzenta que eu via nos potes, moldada na forma de um homem. Não tinha olhos, só cavidades fundas cheias daqueles fios de cobre pulsando.
“Esquece da gente”, disse a coisa. Esticou a mão, os dedos se alongando como cera derretendo. “Nós somos a manutenção. Somos os que impedem que a história evapore. Todo aluno que reprova, todo professor que desaparece... acaba nos potes. Os pensamentos deles mantêm as luzes acesas lá em cima.”
Recuei, tropeçando na água. A porta começou a ranger, fechando. A coisa na mesa se levantou, os movimentos bruscos e nada naturais. Não tava tentando me atacar; tava tentando me entregar um rodo.
“Seu turno não acabou”, sibilou. “O Corredor Norte tá secando. Se secar, você vai ser o próximo no pote.”
Eu saí correndo. Me joguei pela porta que tava fechando e caí com tudo no linóleo molhado do corredor. Não parei de correr até chegar no escritório da segurança. Falei que tinha inundação, invasão, qualquer coisa pra fazer eles descerem lá.
Quando voltamos, o corredor tava seco que nem osso. O cano estourado tava selado como se nunca tivesse vazado. E a porta? Sumiu. Nem uma marca na parede.
O Artie tava lá, encostado no carrinho dele, tomando café. Me olhou, os olhos frios e sabidos. Não falou nada. Só me entregou um balde e apontou pro Corredor Norte.
Tô escrevendo isso da sala de descanso. Faltam três horas pro meu turno acabar. Minhas mãos não param de tremer, e meus dentes ainda doem com aquele zumbido. Mas o pior é olhar pro meu próprio reflexo no balde de água com sabão.
Por um segundo, não vi meus olhos. Vi fios de cobre.
O chão tá começando a secar. Tenho que voltar. Tenho que manter ele molhado.


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