Minha mãe tinha começado a fazer trabalho voluntário no teatro comunitário da nossa cidadezinha, e eu implorei pra ir junto. Não queria ficar em casa com meu pai. Ele era um fanático pelos Dallas Cowboys, e as coisas não tinham ido nada bem pro time naquela temporada toda. Aquele dia não foi exceção. Em vez de ficar vendo meu pai emburrado, preferi passar o tempo num teatro velho e empoeirado enquanto minha mãe ficava na sala da diretoria numa reunião do conselho.
O auditório era enorme pra mim na época. Tecido vermelho desbotado forrava as paredes, e arandelas de mau gosto, todas diferentes entre si, estavam espaçadas com precisão ao longo delas, tudo pintado com uma tinta dourada brilhante numa tentativa desesperada de dar uma ilusão de uniformidade. Fileiras de cadeiras antigas de madeira que rangiam estavam escalonadas, e as almofadas estavam detonadas. A maioria mostrava remendos malfeitos aqui e ali. Era um teatro voluntário, afinal, e quando uma pessoa nova entrava pela porta disposta a ajudar, era logo jogada em todo tipo de artesanato e manutenção, independente do nível de habilidade.
É isso que tem de maravilhoso num teatro comunitário: as pessoas que participam são tão exageradas, barulhentas e discrepantes quanto os móveis e acessórios garimpados que tem lá dentro. A única semelhança é a que realmente importa: essa necessidade inexplicável de montar um espetáculo, de gastar o pouco tempo livre que têm pra que o público entre pela porta e esqueça a vida por um instante.
O auditório comportava quatrocentas pessoas, e o piso de concreto descia de forma irregular até um palco velho e surrado. O proscênio era curvado e a borda ondulada que escondia as luzes de ribalta tinha sido montada à mão. Duas colunas falsas sustentavam o arco em cada extremidade, e tudo era pintado de um branco puro, com os sulcos e linhas detalhados em dourado.
Havia dois palcos laterais nas extremidades. Os três – os laterais e o principal – estavam cobertos por cortinas vermelhas gastas e puídas. Naquela noite eu levei meus brinquedos, e comecei a fazer o Batmóvel descer correndo pelo piso inclinado, fugindo de uma chuva imaginária de balas disparadas pelo Coringa e pelo capanga Bob. O único som no lugar inteiro era o dos pneus de plástico trepidando sobre a fina teia de rachaduras no concreto.
Eu achava que estava sozinho. Hoje sei que nunca se está sozinho num teatro.
Corri pelo corredor pra pegar meu brinquedo favorito quando, de repente, todas as luzes do palco acenderam. As cortinas se abriram, e o barulho dos roletes – aquele tec-tec-tec – ecoou pelo auditório. O cenário estava quase pronto: um saloon enfeitado com todos os exageros de uma visão melodramática do velho oeste. Um balcão enorme ocupava todo o lado esquerdo do palco, e a barra de latão na base brilhava nas luzes multicoloridas. Mesas e cadeiras de quebrar de propósito espalhavam-se pelo palco, e a parede do fundo era coberta por um papel de parede verde-menta estampado que descascava em vários pontos. As janelas nos painéis de fundo davam para um cenário pintado de deserto, cheio de cactos caricatos e nuvens fofinhas espalhadas num céu azul demais.
Um homem entrou no palco.
Vestia um terno preto, com polainas brancas sobre os sapatos lustrosos. Segurava uma bengala encimada por uma cobra prateada curvada, e um chapéu de feltro alto estava torto na cabeça. Um bigode oleado sombreava os lábios finos e se enrolava nas pontas. A perfeita encarnação de um canalha desprezível. Um vigarista viscoso que não pensaria duas vezes antes de amarrar uma donzela indefesa nos trilhos do trem.
Ele começou uma recitação safada, detalhando suas ações sombrias e desprezíveis. Eu fiquei ali parado, hipnotizado pela apresentação, seduzido pelo som da voz dele, pelas subidas e descidas, pelo floreio dos braços, pelo jeito que parecia flutuar de um lado pro outro do palco. Quando chegou ao fim do monólogo assassino cheio de maquinações, explodiu numa gargalhada estrondosa e maligna, e depois ficou em silêncio por um instante ao cruzar o olhar comigo.
“Ei, garoto! O que você tá fazendo aqui?” Ele falou num barítono quente de uísque e areia.
“Tô só brincando.”
“Eu também. Eu sou o Roger. Você é o filho da Nell, né?” Assenti com a cabeça. “Sei que você quer fazer filmes um dia.” Assenti de novo. “Já subiu no palco alguma vez?”
“Não, senhor.”
“Vem cá pra cima!” Ele fez sinal pras escadas na lateral do proscênio.
“Tá bom.”
Eu não devia falar com estranhos, mas era óbvio que era alguém que minha mãe conhecia. Fiz o que ele pediu. Meus olhos demoraram um pouco pra se acostumar com as luzes do palco. O auditório à minha frente sumiu, substituído por vermelhos, azuis e verdes. Roger se ajoelhou ao meu lado.
“Todo mundo quer cinema, garoto, mas é aqui que a mágica de verdade acontece. Aqui em cima você pode ser quem quiser, mas isso não é o especial. O que você vê lá fora?”
“Só consigo ver as luzes.”
“Isso. Pode ter qualquer um lá fora. Pode ter centenas, pode ter poucos. Pode ser alguém que vai te levar pra fama e fortuna ou pode ser uma família sem nada procurando uma fuga. Não importa. Todos querem a mesma coisa. Mágica.
Você sobe aqui e interpreta seu papel com tudo que tem. Dá pra ouvir as cadeiras rangendo, o farfalhar discreto dos sacos de pipoca, os suspiros, os assobios de desaprovação e os vaias, e aquele coração disparado num silêncio constrangedor quando alguém esquece a fala.
Bum
Bum
Bum
Bum
Dá pra sentir eles pendurados em cada palavra. O ar fica denso de faz de conta.
Seu nariz fica cheio do cheiro de suor e maquiagem. A sensação de figurinos mal ajustados e acessórios segurados por fita pintada. Você vê os arranhões e buracos nas tábuas, deixados pelos que vieram antes. Tem uma liberdade no palco que não existe em nenhum outro lugar. Você se perde nisso.”
Eu lembro de tudo, palavra por palavra. Quando terminou, ele se levantou.
“Quer ver uma coisa bem legal?”
Segui ele pro palco lateral. Tinha uma forca pequena montada. A corda com a forca balançava, mas não tinha vento nenhum.
“Me matam no final dessa peça.” Ele pegou minha mão e subimos os degraus até a plataforma. “Totalmente seguro. É um truque, mas a plateia não faz ideia de como funciona. Vou te mostrar.”
Ele esticou o braço, puxou a corda e colocou no meu pescoço. Eu estava num sonho, encantado pela atuação dele. Ele deu um passo atrás e me olhou.
“Perfeito. Agora quero que você faça cara de assustado. Isso… assim mesmo, mas tem que virar pro público. Tem que se abrir.”
Fiz o que ele mandou. Imaginei uma plateia lá fora, sentada na ponta das cadeiras, só esperando pra ver o que ia acontecer.
“Tudo que você precisa fazer é puxar aquela alavanca ali.” Olhei pra alavanca de madeira logo ao meu lado.
“E aí?”
“Aí a mágica acontece.” Hesitei. “Tá tudo bem, garoto. Confia em mim.”
Puxei a alavanca e a plataforma despencou debaixo de mim. Senti a corda esticar. Meus pés chutavam o ar e minhas mãos arranhavam a corda no pescoço. Tentei gritar, mas só consegui ofegar. Olhei pro Roger pedindo ajuda, mas ele não estava mais lá. Olhei de novo pro auditório, e juro que lá além das luzes eu vi as silhuetas de pelo menos uma dúzia de pessoas me vendo me enforcar devagar, e depois tudo ficou preto.
Acordei no hospital. Contei pros meus pais o que tinha acontecido, mas dava pra ver que eles não acreditaram em mim.
Pelo visto o cenógrafo ainda não tinha construído a plataforma de segurança escondida na forca. Ninguém fazia ideia de quanto tempo eu fiquei pendurado naquela corda.
Mais tarde me contaram que “Roger” era o nome de um dos fantasmas do teatro. Um ator que morreu em 1977 e sempre fazia os vilões. Ele ia pra todas as apresentações de moto, já vestido como o personagem. Na noite de estreia de A Vergonha de Tombstone, perdeu o controle da moto e foi decapitado ao deslizar debaixo de um caminhão de toras. A lenda diz que ele ronda o teatro, cheio de raiva por nunca ter conseguido fazer sua apresentação.
Minha mãe largou o voluntariado, e por um tempão eu não podia nem chegar perto daquele prédio. Não contei nada pra mais ninguém. Pra todo mundo, eu era só um moleque burro que cometeu um erro idiota.
Podem me chamar de louco, mas quando fiz dezoito anos, voltei. Fiz teste pra uma peça e peguei o papel principal. Apesar de tudo que aconteceu comigo, eu ainda sentia o chamado daquele lugar. Tinha algo dentro de mim que nunca soltou. Algo que me dizia que eu encontraria meu destino naquele palco, mesmo com o medo do que tinha acontecido.
Nunca mais vi o Roger e nunca realizei o sonho de fazer sucesso no cinema, mas conheci o amor da minha vida naquelas tábuas velhas em 96. Depois de quase trinta anos, eu não mudaria porra nenhuma. Siga aquilo que te chama, mesmo que você tenha medo disso. Provavelmente você não vai acabar com o que esperava. Pode acabar com algo ainda melhor.


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