quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Sangue não é mais grosso que água. Pelo menos, não pra mim

Estou escrevendo esse texto no meu notebook, em um motel sujo e brejeiro em Cody, Wyoming. Minha parceira, Maria, está dormindo profundamente, sua pele oliva bonita marcada por cortes horríveis, sangue arterial carmesim todo seco e feio. Nenhum hospital pra ela, nem pra mim. Seria contra a política da empresa.

Vou esclarecer alguns detalhes sobre mim. Fico puto quando as pessoas não são claras como cristal comigo, então achei que deveria fazer o mesmo. Sou Clarke — um detetive que trabalha para uma agência de consultoria privada. Trabalho nessa agência, que eu mesmo me aconselho a não nomear, há uns vinte anos. Vou fazer trinta e quatro esse ano, então eles definitivamente me arrancaram da adolescência. Minha maldita inteligência. A filial de Denver é onde eu trabalho, embora prefira muito mais meu estado natal, Maine. Não tem "campi" por lá, mas enfim. Maria é minha estagiária mais nova, mas suas habilidades forenses são de outro nível, então ela foi promovida a minha parceira. Uma gata suíça, linda, com pele bronzeada e cabelo preto perfeito, penteado igual ao da Elizabeth Taylor. Olhos azuis gelados, embora você nunca adivinharia sua personalidade. Continua doce, mesmo depois que eu gritei com ela por causa do sistema de organização de arquivos dela, que é uma merda. Garota esquisita, por sinal. Não ligo se você se formou em uma universidade suíça de ponta aos dezesseis, ou se era biofísica e cientista forense antes dos vinte e quatro, mas lamber provas não é algo que me agrada. Mas ela nunca fica doente, então quem sou eu pra me importar? Nossa agência não está nas boas com o governo, e eu não sou responsável por ela. Desde que eu me certifique de que ninguém está olhando, ela fica tranquila.

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Nós tínhamos sido designados para um caso — ou melhor, eu. Maria não é importante o suficiente pra tocar casos sozinha. Um cara brutalmente assassinado em Paradise... Paradise Valley, Montana. Normalmente, esses casos são tão mundanos que costumam ser passados pra investigadores de nível mais baixo. Esse era diferente... Nosso cliente, que nos contratou pra resolver o problema, queria desesperadamente um fechamento. Ser absurdamente rico ajudou ele a conseguir nossos serviços. Ele parecia mais preocupado com o desaparecimento da vida selvagem de suas infinitas propriedades em Montana. Como se isso importasse, malditos fazendeiros ricos do governo.

Chegar até Livingston, a cidade grande mais próxima desse vale, foi fácil. Peguei a I-25, entrei na I-90 e segui pra oeste dali. Eu e Maria tivemos um encontrozinho divertido em Billings antes de irmos pra Livingston. Fazer o check-in no motel pra noite — ou noites — foi tranquilo. Maria aceitou calmamente o motel de quinta categoria que eu escolhi. Já estava acostumado a dormir em lugares nojentos, com nojo cravado nas paredes, nos lençóis, nos quartos, e não planejava parar agora.

A viagem até Paradise Valley foi fascinante. Morava em Denver, então subir até Estes Park pra ver os alces era algo que eu curtia quase toda semana. Deveria ter mais animais nessa estrada, no sudoeste montanhoso de Montana, é tudo o que tenho a dizer.

— É tão bonito — Maria murmurou baixinho, olhando pela janela, seus olhos azuis sonolentos apreciando a paisagem.

— É, isso é sua montanhesa nativa falando, senhorita "trabalhei em Billings pra uma corporação que ainda não te contei". Colorado é muito melhor. Ou melhor, Maine. Os Apalaches são tão bonitos quanto, e as árvores não estão tão mortas — falei.

Ela me ignorou, o que era diferente da habitual submissão dela em me ouvir.
— Clarke, não vi nenhum animal. Será que eles estão se escondendo? — acrescentou, pensativa.

— Procura melhor — retruquei. Toda criança acha um animal quando menos espera em viagens de carro. Com certeza ela deveria saber que é melhor calar a boca e continuar procurando.

Foi o fim da conversa. Maria poderia argumentar sem parar — e muitas vezes venceria —, mas dessa vez me poupou de outra explosão de raiva. E de um console quebrado.

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Chegamos à casa do nosso cliente. Uma família rica de fazendeiros, claramente. Vários prédios pra sei lá o que fazendeiros precisam fazer. Colheitadeiras novas e reboques de cavalos. Assobiei. A casa da fazenda em si era enorme, toda de tijolos e estilo colonial. Estranho, pra todos os móveis modernos que tinha. Um homem estava na varanda. Depois que tranquei o carro, Maria pulou pra fora e foi até ele, mostrando suas credenciais da agência e aquele sorriso desarmante e coquete dela, embora ela fosse o oposto de tímida.

— Olá! Eu sou Maria Engel, e este é meu supervisor, Clarke Edwards. Fomos designados pela {Redigido} pra ajudar vocês com um incidente na propriedade de vocês — deixei que ela se apresentasse primeiro, e isso me deu tempo pra avaliar os arredores. E os homens sempre queriam falar com ela, de qualquer jeito.

— Prazer em conhecer você, Maria. Eu sou Joel Whitfield. Meus pais estão dentro de casa, e meus... parentes estão por aí. Tenho certeza de que vocês os viram enquanto dirigiam até aqui. Querem entrar? — Apreciei o microfone escondido que Maria sempre usava. Ele articulava cada palavra claramente. Joel era um cara alto e sorridente. Eu odiava caras sorridentes. Um pouco velho, com uma juba ruiva cobrindo o queixo. Cinquenta e sete anos, se eu tivesse que chutar. Não parecia malvado ou suspeito, mas, por outro lado, minha ex-mulher era uma boneca e me traiu com meu irmão.

— Está um dia maravilhoso, seria uma pena desperdiçá-lo — interrompi. — E os briefings geralmente demoram tanto, senhor... Embora eu tenha quase certeza de que você é do tipo que supera as coisas rápido? — Ele parecia bem calmo depois de ver um corpo brutalizado.

— Ah, de jeito nenhum. Eu arrasto as coisas, pergunte a qualquer um da minha família — Joel sorriu, me levando pro quintal lateral, de onde se avistava o vale. Maria olhou novamente pra mata antes de se juntar a nós no pátio.

— Rapidinho, Joel, só precisamos anotar todos os detalhes básicos. Você encontrou um corpo, certo? — Não estava aqui pra ter uma conversa piegas sobre a vida selvagem e as montanhas de Montana.

— Sim, eu estava com meu pai. Estávamos andando a alguns quilômetros ao sul da nossa fazenda, checando nossas vacas, quando sentimos um cheiro nojento. O vento estava trazendo o cheiro até nós, sabe aquele cheiro de morte, não tem como confundir. E lá estava um cara. Coitado. Não o reconheci de jeito nenhum. O rosto dele estava esmagado, como se uma pedra tivesse caído em cima dele. E ele foi arrastado por facas. O rosto dele estava meticulosamente cortado, assim como o peito. A barriga dele também estava toda esventrada, não sobrou nenhum órgão interno... bom, tenho certeza de que não sobrou nenhum órgão. Até liguei pro meu cunhado, que é médico. Enviei fotos...

— Espera aí, Joel. Quando você encontrou o corpo?

— 7h45 dessa manhã...

— O corpo ainda está lá? Nesse lugar?

— Sim...

— Por que você não chamou a polícia primeiro?

O sorriso de Joel se alargou.

— Tem mais coisa nisso, mas meu primeiro pensamento foi meu sobrinho. Meu sobrinho trabalha pra agência de vocês, não trabalha? Pensei em dar uma alegria pra ele. Parece que ele não está aqui, porém.

— Seu sobrinho? — Não era uma revelação totalmente chocante. Precisava saber o nome do sobrinho antes de continuar. Maria estava ao meu lado, anotando as informações e mais um pouco.

— Philip Bliss. Na verdade, o pai dele, John, foi quem eu mandei mensagem.

— Ah, é? Então a gente trabalha junto. O Phil é paramédico, mas, pelo que parece no seu relato, esse cara está bem morto, senão ele teria vindo junto — não estava tão desconfiado de Joel. Mas ainda assim não era motivo pra não chamar a polícia. Também precisava ver o corpo. Droga, faz tanto tempo que não faço casos assim que estou perdendo a cabeça.

— Ei, onde está o falecido...?

— Espera, posso te contar uma coisa...

— Desculpe, Sr. Whitfield — Maria interrompeu suavemente. — Se a polícia não foi notificada sobre esse incidente, é melhor que o Sr. Edwards e eu vejamos primeiro.

Joel parecia constrangido.

— Só dá pra chegar lá a cavalo ou de quadriciclo — ele fez uma careta. — E eu prometo, tenho uma explicação melhor pra não ter chamado a polícia — ele foi até um quadriciclo perto de um galpão de equipamentos, mas eu o chamei.

— Ei, sei dirigir uma dessas. Tudo bem se eu dirigir, desde que você me dê as direções? — Não ia arriscar deixar alguém, nem parente do Phil, dirigir por mim. — Além disso, você pode nos contar sua explicação enquanto isso.

Joel concordou rápido, parecendo aliviado. Talvez ele fosse só um tio maluco que realmente queria ver o sobrinho.

Droga, eu odeio quadriciclos! Coisas irritantes. Tudo esburacado e barulhento. O microfone da Maria tornava tudo melhor, porém.

— É só passar por essas colinas, até chegarmos a uma cerca de gado... — O vento uivava e matava qualquer chance de Joel ter uma conversa coerente, já que ele não sabia que podíamos entendê-lo apesar dos solavancos. Maria fez sinal pra ele esperar até chegarmos ao destino do falecido.

Bom, pensei. Com certeza tem um corpo morto. Pelo menos ele não está mentindo. Com um grunhido interno de insatisfação, esqueci que o pai dele também tinha visto o corpo. Faz tanto tempo que não resolvo um assassinato simples que estou ficando fraco.

Não tinha muito o que fazer pelo coitado. O rosto dele estava irreconhecível, e ele certamente tinha sido esventrado. Mas tinha algo estranho. As marcas de faca pareciam garras que dilaceraram o corpo. Tinha o equilíbrio perfeito entre controle motor humano e fúria animalística.

— Não foi um humano — Maria sussurrou pra si mesma, mas eu ouvi claramente. Impedi que ela lambesse qualquer coisa. Não sei se ela curte isso ou o quê, mas Joel não precisava ver.

Joel parecia mais chateado do que estressado com o corpo dilacerado de um homem morto.

— Sr. Edwards, quer saber por que não chamei a polícia? — ele disse, ficando mais irritado. Não estava irritado comigo, isso eu sabia. Levantei as sobrancelhas, esperando pela próxima frase. Era uma pergunta.

— Você sabe sobre a reintrodução de lobos em Yellowstone?

Assenti. Fui lá há anos. Vi aquelas bestas peludas. Achei interessante. Com certeza ele não estava insinuando...

— Bom, os policiais daqui são uns frescos, idolatram os lobos como se fossem deuses. Não podem atirar, não podem matar. Mesmo quando você está fornecendo carne e trigo pra América. Mesmo quando está protegendo sua família. Além disso, alces, alces-americanos, veados, não os vemos há meses. Não podemos deixar as crianças saírem depois que escurece, porque EU SEI que temos malditos lobos soltos por aí.

Joel continuou desabafando.

— Eu sei que o que matou essa pobre alma foi um lobo. Você acha que aqueles bastardos em Livingston vão acreditar em mim? Ou o guarda-florestal? Nem fodendo. Já aconteceu antes. Com nossas vacas. Nossos cavalos. Nossos animais. Meus irmãos agora vigiam das janelas com uma espingarda. E não é nenhum lobo manguejão. É um lobo esperto, astuto. É... senciente. Tem mais de um. E ninguém vai acreditar em mim, porque lobos são maravilhosos, incríveis e ótimos. O governo não está mantendo esses lobos em Yellowstone, Sr. Edwards. Eles estão deixando eles vagarem, e agora eles têm gosto por sangue.

Assenti. Fazia sentido. Lobos. Mas o corpo... o assassinato... será que era um assassinato, afinal? Os sinais mostravam uma natureza metodológica. Lobos são espertos, mas não tão espertos quanto um humano. Me perdi em pensamentos.

— Sr. Whitfield, o senhor não quer nenhuma... hum, autoridade pública envolvida de jeito nenhum? — A voz monótona de Maria me acordou.

— Absolutamente não... quero dizer, não realmente, senhorita. Provavelmente seria processado na hora — Maria olhou pra mim.

Deixa eu lamber o sangue. Por favor. Ela suplicou com seus olhos azuis brilhantes. Quis vomitar. É por isso que a gente nunca... deixa pra lá. Limpei a garganta.

— Vamos ter que contatar a BRT da nossa agência, Sr. Whitfield. O senhor poderia preencher este formulário? Vou ter que contatar nosso legista — ou um dos nossos muitos legistas.

— Não temos sinal de celular aqui...

Acuenei com a mão, andando pra que ele me encarasse e não a Maria, que estava fazendo seu ritualzinho.
— Operamos em uma rede privada, Sr. Whitfield.

Vou ter que parar de escrever, estou caindo de sono. Maria ainda está dormindo profundamente. O que quer que tenha entrado no sangue dela agora está no meu também. Não quero dormir, mas a dor das garras cravadas na minha pele é insuportável. Dormir seria a melhor opção. Depois de ver Maria machucada, e depois de levar uma surra, decidi que vou continuar escrevendo sobre esse caso nojento. Sobre meu irmão. Não ligo pra quanto ele é rico, ou se os lobos das redes sociais dele vão apagar meu post imediatamente. As ações dele precisam ser expostas. Eu realmente odeio meu irmão.

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