Foi o grito mais doloroso que eu já ouvi na vida.
Aí acordei.
Faltavam só alguns minutos pro meu turno começar. Me recompus rápido, saí de casa e fui andando.
Mas as coisas que eu tinha visto ficaram na minha cabeça o caminho todo. No sonho, eu tava numa beco escuro. Correndo atrás de alguém. Tudo tava embaçado, como se eu tivesse vendo através de uma camada de neblina. Aí a mulher caiu. Uma mão subiu pro ar e um grito ecoou.
Nem lembro como cheguei no trabalho. O Fred acenou pra mim. Meu amigo mais próximo lá. A gente conversou um pouco. Fiz as tarefas de contabilidade de sempre.
Era só um pesadelo. Só um pesadelo.
Na noite seguinte, eu devia ter trabalhado até umas duas da manhã. Quando abri os olhos de repente, tava num lugar isolado, tipo entre dois prédios.
— Por favor, não… Por favor… Fica longe.
Virei a cabeça pra direita. Uma silhueta masculina tava no chão. Uma mão levantada, implorando.
— Por favor…
O som de um corpo sendo rasgado cortou as palavras dele. Nem um grito saiu. Só o último suspiro do cara. Eu não só ouvi.
Eu senti.
Quando acordei, tava na minha mesa. A luminária tava acesa. O despertador tava tocando do lado. Com dificuldade, estiquei a mão e desliguei. Devia tá com muita pressão no trabalho. Tantos relatórios pra fazer. Tantas coisas pra documentar. Minha mente tava tão emaranhada que devia ser por isso que eu tava tendo esses sonhos.
Então, mais um dia normal. Esqueci o pesadelo. Até ir pra cama naquela noite. Fiquei um tempo sentado na beirada da cama.
E se eu visse de novo?
Deitei e fiquei acordado por um bom tempo.
Outro pesadelo.
Dessa vez, eu não tava lá fora. Tava dentro de uma casa, meus passos ecoando. Uma mulher tava sentada no sofá assistindo TV. Ela não me viu. Eu fui em direção a ela. Mesmo quando tensei o corpo pra parar, nada mudou. Vi a faca na minha mão, levantada no ar. De repente, agarrei o pescoço da mulher e…
Melhor eu não escrever o resto.
E de novo, acordei. Coberto de suor.
O que tá acontecendo comigo?
Nem lembro como cheguei no trabalho. Quando o Fred me viu na porta, os olhos dele se arregalaram.
— Cillian, você tá bem?
Não queria preocupar ele. Só falei que não tinha conseguido dormir. Ele me comprou um café e me aconselhou a tomar um remédio pra dormir naquela noite. Por causa do meu estado, a ideia de remédios não parecia tão absurda. Naquela noite eu tomei e dormi bem, relativamente falando. No dia seguinte fui pro trabalho mais energizado. Nos próximos dias, nem sonhei. Pensei que o pesadelo tinha acabado.
Uns sete dias depois, uma noite, ouvi um choro de repente. Tava dentro de um galpão enorme, ou algo parecido. Mas dessa vez, era mais familiar que os outros lugares.
Era a fábrica abandonada logo fora da cidade. Quando o choro ficou mais alto, olhei pra baixo. Tinha um homem encolhido no chão. Um chute súbito na barriga fez ele se encolher ainda mais. A voz dele sumiu. A luz da lua entrava pela janela quebrada lá em cima. Vi o brilho da lâmina afiada. E então, como sempre, acordei.
Cheguei um pouco atrasado no trabalho. Encontrei meu chefe ranzinza. Tava certo que ele ia me dar uma palestra disciplinar de uma hora. Felizmente, o Fred interveio, disse que eu não tava bem nos últimos dias e me salvou.
— Obrigado, cara — falei. Assim que virei pra sair, ele segurou meu braço.
— Cillian, o que tá rolando?
— O que você quer dizer?
— Chegando no trabalho sem dormir, viajando… Você tá traindo a sua mulher?
— Eu nem sou casado, Fred.
Ele riu e deu um tapa no meu ombro.
— Tô brincando, relaxa um pouco.
Ri junto com ele. Afinal, ele era meu amigo. Não tinha motivo pra não contar o que tava passando. Me sentei e contei sobre os pesadelos que eu tava tendo. As versões menos sangrentas, pelo menos. Quando terminei, uma expressão pensativa tinha se instalado no rosto dele. Falei que eram coisas insignificantes. Mas ele levou tudo muito a sério. Na verdade, eu quase diria… ele tava com medo. Ele me fez um monte de perguntas. O que eu sentia no sonho, por exemplo — não emoções, mas coisas concretas: frio, luz, umidade…
Na maioria, só respondi que não sabia.
Finalmente, pra tranquilizá-lo, acrescentei que ia ver um psicólogo e voltei pro meu trabalho.
Naquela noite, a caminho de casa, começou a chover forte e durou a noite toda. Até lembrei disso enquanto adormecia.
E ao acordar.
Ouvi a chuva mais claramente. Tava encharcado. Tava lá fora. Tinha um lixo ao meu lado. Não conseguia definir exatamente onde tava. Na beirada da calçada, vi um homem gemendo. Pelo jeito que tava vestido, era óbvio que era um morador de rua. Ele tava gritando alguma coisa. O colarinho dele tava sendo puxado pra cima por alguém. Vi aquela faca, a mesma que sempre terminava meus sonhos; dessa vez, sangue pingava do metal frio. O homem soltou um gemido mais agudo. A faca tava prestes a cair e acabar com ele.
Mas parou, no ar, por segundos.
De repente, senti que alguém me observava. Alguém tava me olhando. Mas eu não conseguia ver. Mesmo assim, eu jurava.
Os olhos do morador de rua se desviaram da faca, pra outra coisa.
Aí o som da faca rasgando violentamente o casaco sujo ecoou nos meus ouvidos. Dessa vez… foi diferente. Mais cruel. Mais raivoso.
Acordei tremendo. Puxei o cobertor sobre mim. Tava escuro lá fora. Pensei que ia dormir um pouco mais.
Mas ainda tava com frio. Puxei o cobertor mais forte. O cobertor tava frio também.
Algo tava errado.
Quando liguei a luz, quase gritei com o que vi.
Tava molhado. Minha cama tava molhada. Água pingava onde eu tava em pé. Água escorria de mim. Será que eu tomei banho dormindo? Ou…
Sonhos realistas… os sons… a insônia sem fim…
Na minha mão direita, algo mais pingava junto com a água.
Sangue.
Mas eu não tava ferido.
Tinha manchas no meu pijama também. Pontilhadas.
Lembrei da chuva, quanto tinha caído… tinha parado agora, mas.
Será que foi um sonho? Ou… não foi? Eu matei eles? Todos eles…
Eu fiz isso.
Peguei o celular e liguei pro Fred. Falei pra ele vir na minha casa. Ele me perguntou mil vezes o que tava acontecendo e se eu tava bem. Só falei: vem.
Porque ele era o único que não ia ligar pra polícia quando me visse assim.
Quando ele bateu, corri pra abrir a porta. Como eu tinha imaginado, no instante em que me viu, ele cobriu a boca com a mão.
— Você… O que você fez?
Deixei ele entrar. Tava tremendo de frio, encharcado. Já tinha contado sobre os sonhos que tava tendo. Contei todos os detalhes daquela noite também.
— Acordei encharcado, Fred. E tem sangue. Tem sangue em mim. Eu tô fazendo isso. Não é sonho.
O rosto dele assumiu a expressão mais séria que eu já tinha visto.
— Eu devia ir pra polícia… Devia contar tudo. Eu matei todas aquelas pessoas. Sou um serial killer. Talvez tenha mais que eu nem lembro.
Enquanto eu entrava em pânico, andando de um lado pro outro e falando, ele sussurrou meu nome, fraco.
— Mas eu não fiz isso de boa vontade, eu não sabia. Os corpos… Eu não lembro depois de matar eles.
Ele disse meu nome de novo.
— Talvez eles estejam no meu porão, talvez eu tenha enterrado todos lá. Meu Deus… Eu tenho vivido por dias em cima de tantos cadáveres.
— Calma, Cillian.
Não tinha nem um pingo de pânico na voz dele. Tava me observando andar de um lado pro outro no quarto.
— Como eu posso? Como eu posso me acalmar? Eu sou um serial killer, Fred! Seu amigo é um matador! Como você tá tão calmo?
Até então, eu não tinha percebido. Ele tava sentado no sofá, pensativo. Nenhum sinal de pânico no rosto.
— Você não é um serial killer.
— Como você pode ter certeza? Tem sangue em mim. Tô encharcado. Eu matei aquele cara.
— Você não matou. Você assistiu.
Fiquei paralisado no lugar.
— O quê?
— Você assistiu a todos, Cillian. Acho que… você sempre esteve assistindo.
— Como… Como você sabe disso? Como você sabe que eu não os matei?
— Porque eu matei.
Recuei dois passos, chocado. Antes que eu conseguisse entender o que ele tinha dito, ele falou de novo.
— Eu devia ter percebido antes. Mas você… de algum jeito, você era invisível. Eu sempre senti. Sempre soube que não tava sozinho com eles. Mas quando você começou a falar dos sonhos, tudo ficou claro. Hoje à noite eu te vi, Cillian. Você tava me observando do canto. Como um fantasma. Aí você desapareceu. Você não fez isso. Mas você assistiu.
O Fred se levantou. Veio em minha direção.
— Não sei como isso tá acontecendo. Você… você é algum tipo de Ceifador.
Ele pegou a bolsa que tinha jogado no corredor quando entrou. Fiquei paralisado de choque enquanto ele passava por mim.
— Ainda não descobri o que é isso, Cillian. Você não é normal, você sabe disso agora. E tenho certeza que você não vai pra polícia até entender.
Ele olhou nos meus olhos. Me deu exatamente a mesma sensação que quando eu achava que estava sendo observado. Quando saiu, vi as marcas roxas no braço dele. Eram marcas de dedos, machucando o braço dele. Aquela mão… a mão que subiu no ar segurando a faca…
Ele bateu a porta e foi embora.
Eu ainda não fui à polícia. Não sei o que tá acontecendo, o que tá rolando aqui. Estou escrevendo isso pra ver se alguém pode me ajudar. Com coisas paranormais, ou qualquer campo que isso se encaixe. O Fred vai voltar por mim.
E eu tenho medo que a última coisa que eu assista seja o meu próprio assassinato.


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