Uma coisa que eu lembro é que nosso cachorro nunca entrava na casa com a gente. Ele só rosnava para a porta e até tentava morder a gente se a gente tentasse levá-lo para dentro, com os pelos do lombo arrepiados. Então, a gente sempre tinha que deixá-lo preso do lado de fora quando entrávamos.
A casa tinha dois andares. Lá embaixo, um dos cômodos tinha um piano superlegal, além de fitas de 8 faixas e discos antigos que a gente podia ouvir. A gente passava horas lá, só tocando piano e ouvindo música. Às vezes, meu avô nos dava um balde de giz pastel na sala e a gente desenhava e coloria. Também tinha um computador antigo dos anos 90, com aquele jogo de paciência e um programa de pintura que eu adorava fuçar.
O quarto de cima era onde tinha algo estranho. Eu me lembro da sensação de subir lá — não era exatamente assustador, mas dava uma inquietação. Às vezes, eu subia sozinho só para sentir aquilo, embora não entendesse direito o que estava acontecendo. Hoje, olhando para trás, sei que tinha algo muito errado.
Um dia, a gente foi até lá e meu avô nos deixou dentro de casa enquanto ia cortar a grama do lado de fora. Eu estava brincando com o programa de pintura no computador, que ficava do lado da escada, e minha irmãzinha estava colorindo com giz pastel, como a gente sempre fazia. Daí, eu a ouvi conversando com alguém. Olhei para ela e vi que estava parada no pé da escada, olhando para cima e falando com alguém que eu não via.
Perguntei com quem ela estava conversando, e ela respondeu: "A moça de cima." Levantei e olhei, mas não vi ninguém. Quando falei para ela que não tinha ninguém lá, ela insistiu que uma mulher de vestido vermelho estava no topo da escada.
Eu me lembro de sentir aquela sensação de novo. Aquela inquietação. Não era medo, mas também não era normal. Como era criança, acho que não conseguia processar direito. Enfim, subi lá em cima e minha irmã me seguiu. Abri a porta do quarto de cima, que já estava meio aberta, e lá estava ela. Uma mulher de vestido vermelho, parada bem ao lado de uma portinha na parede. Aquela porta dava acesso ao sótão. Ela olhou direto para mim e disse: "Tem um trem de brinquedo e uns trilhos aí dentro que vocês podem brincar."
Ela parecia ter saído dos anos 50. O cabelo estava impecável, como se tivesse acabado de fazer, e ela usava luvas brancas compridas, quase até o cotovelo. Parecia uma rainha de concurso de beleza. Era muito bonita.
Abri a portinha do sótão e ela apontou onde estava o trem de brinquedo. Era uma caixa de madeira antiga. Entrei no sótão e peguei. Quando saí, minha irmã estava mostrando para ela os desenhos que tinha feito com o giz pastel. Olhei para a mulher e falei: "Peguei!" Por algum motivo, só continuei como se aquilo fosse normal. Sabia que ela era uma estranha, mas não reagi como deveria. Talvez fosse muito novo para entender, ou porque ela parecia tão simpática e bonita. Não sei.
Ela me ajudou a montar o trem e ligá-lo. Funcionou. Dava para ver que era um brinquedo antigo, mas eu achei o máximo. A gente ficou lá com ela por uns trinta minutos. Depois, ouvimos meu avô entrando na casa e chamando a gente. A mulher se levantou e disse: "Bom, preciso ir. Vocês dois vão brincar, e a gente se vê outra hora." Ela sorriu grande. Ainda consigo ver aquele sorriso enquanto escrevo isso. Ela foi até a portinha do sótão e entrou. Lembro de ter falado que estava quente lá dentro. Ela só acenou e fechou a porta atrás de si.
Minha irmã e eu descemos e encontramos meu avô. Ele fez uns sanduíches para a gente, e a gente contou sobre a moça e como ela tinha mostrado onde estava o trem. Ele garantiu que não tinha ninguém no sótão e que eu não deveria entrar lá sem ele, porque fazia muito calor. Acho que ele não deu muita importância. Provavelmente pensou que fosse uma amiga imaginária.
Lembro de ter subido lá de novo naquele dia, antes de irmos embora, para ver se ela tinha voltado. Chequei até o sótão. Não tinha ninguém. Lembro de ter ido para casa e simplesmente esquecido do assunto.
A gente voltou à casa algumas semanas depois. A primeira coisa que fiz foi subir para ver se ela estava lá. O trem ainda estava no lugar, junto com os desenhos que minha irmã tinha levado para mostrar para ela, mas não tinha sinal da mulher.
Naquele dia, minha irmã e eu tocamos piano e ouvimos música dos anos 50 em uma fita de 8 faixas antiga, como de costume. Tentei fazer meu cachorro entrar na casa com a gente, como sempre fazia. E brinquei no programa de pintura do computador, como sempre.
Enquanto pintava uma das minhas "obras-primas", algo chamou minha atenção pelo canto do olho. Era ela. Estava na escada, mais ou menos na metade do caminho entre o andar de cima e o de baixo. Ela fez um gesto para eu ir até ela, e eu fui sem pensar duas vezes. Usava o mesmo vestido vermelho, o mesmo penteado, tudo igual. Senti vontade de avisar meu avô que ela tinha voltado, mas primeiro a segui lá para cima.
Quando cheguei, minha irmãzinha já estava com ela. A mulher tinha mostrado para ela umas bonequinhas que estavam no sótão. A porta do sótão estava aberta. Ela me pediu para pegar uma coisa para ela lá dentro. Falei que meu avô não queria que eu entrasse, porque fazia muito calor. Ela garantiu que não tinha problema e apontou para uma bolsa bege, alguns degraus adentro, à esquerda. Pensei um pouco, mas não queria deixar meu avô bravo. Então, falei que precisava perguntar para ele se podia pegar. Ela só sorriu para mim. Naquele momento, comecei a descer a escada, mas senti que precisava levar minha irmã comigo. Acho que foi o instinto de irmão mais velho falando. Falei para ela vir comigo buscar o vovô.
Disse para a mulher que a gente já voltava e que então eu poderia pegar a bolsa para ela. Minha irmã e eu descemos e entramos em um dos quartos, onde meu avô estava assistindo a um jogo de futebol. Contamos para ele sobre a mulher de novo e que eu precisava pegar uma coisa para ela no sótão. Ele garantiu que não tinha ninguém lá em cima, mas subiu com a gente mesmo assim.
Quando chegamos lá, ela tinha sumido. Meu avô ficou um pouco chateado com a porta do sótão aberta e com mais brinquedos antigos espalhados, mas disse que eu podia pegar só mais uma coisa. Antes de entrar no sótão, olhei em volta procurando a mulher e a chamei, percebendo que nem sabia o nome dela. Meu avô, mais uma vez, garantiu que não tinha ninguém lá. Entrei no sótão e peguei aquela bolsa bege que ela tinha pedido. Tinha um cabide preso nela. Levei para o meu avô, que abriu o zíper e tirou algo de dentro. Era o vestido vermelho da mulher.


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