sábado, 10 de janeiro de 2026

Jantar de Domingo

Desde que me entendo por gente, sempre foi só eu e minha mãe. Meu velho sumiu do mapa, e, sempre que eu insistia no assunto, minha mãe me soltava algum comentário evasivo do tipo "a gente tá melhor sem ele". Quando criança, eu ficava curioso sobre ele; todos os meus amigos tinham pai, então me sentia um pouco estranho por ser o diferente. Com o tempo, cheguei numa idade em que isso não parecia mais tão importante, e, como minha mãe nunca falava dele, acabei esquecendo o cara. Depois disso, me mudei, arrumei um emprego, encontrei uma esposa e me tornei pai, mas ainda assim reservava toda noite de domingo para visitar minha mãe no jantar.

A casa da minha mãe sempre foi tão alegre e cheia de vida, assim como ela mesma. A velha era a alma da festa, e dificilmente tinha um momento chato por lá. Mas, há mais ou menos um ano, comecei a notar pequenas coisas nas minhas visitas semanais. Coisas mínimas, como a casa, que antes estava sempre impecável, agora tinha pratos sujos empilhados na pia, ou as cortinas, que antes ficavam sempre abertas para deixar a luz entrar, agora estavam sempre fechadas. O jeito dela também foi mudando com o passar dos meses: o pavio ficou mais curto, e o senso de humor parecia diminuir a cada semana.

Foi mais ou menos nessa época que minha mãe começou a sair com um cara novo, o Frank. Ela já tinha mencionado ele de passagem algumas vezes ao longo dos anos, então eu sabia que os dois se conheciam há um tempo, mas não fazia ideia de que eram tão próximos — até que, certo domingo, cheguei para o jantar e fui recebido pelo próprio.

Desde a primeira vez que botei os olhos no Frank, ele me deixou desconfortável. Parecia normal, quase familiar de um jeito esquisito, como se fosse daqueles rostos que caem no "vale da estranheza", tirando a boca. Os lábios dele eram tão finos que praticamente não existiam, e a boca era tão larga que quase ia de uma orelha à outra, como um sorriso de Chelsea natural.

Com o passar das semanas, percebi que o Frank não era muito de conversar, a não ser pelo habitual "‘E aí, filho?" quando abria a porta para mim. E, o mais estranho, nunca o vi falar com minha mãe. Na verdade, a única vez que o vi sequer olhar para ela foi quando ela se virava para buscar algo para ele — outra bebida, o jantar. Nada daquilo me cheirava bem, mas a única hora que eu podia questionar minha mãe sobre isso sem ele por perto era pelo telefone, e toda vez ela me dizia: "É assim que ele é". Então, eu sorria educadamente e não criava caso. Contei para minha esposa sobre essas mudanças, mas ela também me disse para não me preocupar, que minha mãe sabia se virar.

Isso foi se arrastando por meses: a cada visita, a casa estava um pouco mais suja, mais escura e, eventualmente, mais úmida e fedida. Logo, comecei a temer a chegada do domingo. Os silêncios desconfortáveis, a escuridão sinistra e um cheiro tão forte que eu quase engasgava assim que o Frank abria a porta. "Problema no encanamento, rapaz", ele dizia, mas eu tinha certeza de que era algo mais. Algo sobrenatural.

Até que minha mãe parou de atender minhas ligações. Minhas visitas aos domingos não passavam de o Frank abrir a porta e me dizer que ela estava doente, ocupada ou fora por aquela noite. Semanas se passaram, depois meses, sem nenhum contato. Eu estava ficando seriamente preocupado. Cheguei a procurar a polícia várias vezes, implorando para que fossem até lá dar uma olhada, mas não tive nenhuma resposta.

Quando o inverno chegou, eu atingi meu limite. Fui até a casa da minha mãe e bati na porta com tanta força que quase a arrebentei. Nada. Bati de novo e de novo, por um tempão, mas nem um barulho de dentro. Depois de muito tempo, tive que desistir, mas, quando me virei para ir embora, ouvi um som: o clique da fechadura.

Meu alívio virou medo em segundos quando me virei e vi uma figura mal iluminada através da fresta da porta agora entreaberta.

— ‘E aí, filho?

Era quase um sussurro, mas inconfundivelmente o Frank.

Ele já tinha se dissolvido na escuridão antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa.

— Onde está minha mãe, Frank? — gritei para o vazio.

— Tá aqui, meu rapaz.

Entrei, e logo fui atingido por aquele cheiro podre, de coisa apodrecendo. Os olhos ardendo, a respiração sufocada, mal conseguia enxergar enquanto avançava pela casa que já foi tão bonita. Lixo cobria o pouco do chão que eu conseguia ver, mofo tomava conta das paredes, e o ar era tão pesado que mal dava para respirar.

— Mãe? — chamei. — Onde você está?

— Aquí dentro, filho — respondeu o Frank, vindo da sala.

Ao entrar no cômodo, consegui distinguir duas figuras no escuro: uma pequena, sentada no sofá, e outra grande — maior do que o Frank — parada perto da janela, com as cortinas bem fechadas.

— Fico feliz que você veio, rapaz — sussurrou a silhueta imponente. — A gente precisa ter uma conversinha.

Enquanto meus olhos se ajustavam à escuridão, vi a figura grande começar a ganhar traços: um rosto estranhamente familiar, lábios quase inexistentes e um sorriso inumano, de orelha a orelha. Era o Frank. Mas mais jovem e muito maior do que antes.

Aterrorizado, mal consegui balbuciar:
— Onde está minha mãe, Frank?

Ele não respondeu, só inclinou levemente a cabeça na direção do sofá. O que vi ali vai me assombrar pelo resto da vida.

Era minha mãe. Caída no sofá, a carne arrancada dos ossos, as entranhas espalhadas pelo chão, meio comidas. Me virei para o Frank, paralisado de terror.

— Agora é só você e eu, garotão! — ele gargalhou, cuspe voando daquela boca monstruosa, parecida com a de um lagarto.

Não sei como, mas consegui me recompor o suficiente para correr dali, longe daquele antro, enquanto o riso gutural do Frank ficava cada vez mais distante atrás de mim.

Não contei para ninguém o que vi naquele dia, exceto para minha esposa e a polícia. Duvido que minha esposa tenha acreditado em mim; acho que ela pensou que eu tive um surto psicótico ou algo do tipo.

A polícia foi até a casa, mas disseram que não encontraram nada. Tudo estava limpo, como se ninguém nunca tivesse estado lá. Nunca mais vi o Frank, mas, pouco tempo depois, comecei a receber cartas.

Cada uma dizia apenas: "E aí, filho, um abraço do Pai".

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