domingo, 11 de janeiro de 2026

Sou paraplégico. Algo conhece a minha casa melhor do que eu

Um acidente de esqui me roubou os sentidos da cintura para baixo, e, pra ser sincero, me sinto um idiota por causa disso. Enquanto algumas pessoas nascem assim ou ficam doentes, eu me diverti demais e fui descuidado o suficiente para perder o que outros rezam todos os dias para ter.

Isso aconteceu há uns nove anos. Desde então, o desespero e o luto pela perda da minha mobilidade diminuíram. Você nunca supera de verdade. Só aprende a viver a vida em torno dessa sensação horrível, como se estivesse andando pela sala contornando um pedregulhão gigante que você não consegue mover. Sempre no canto do olho, mas você só aceita que é assim que vai ser. A pior parte era que eu sempre descobria coisas novas que havia perdido. No começo, você pensa que ser paraplégico significa não poder andar ou dançar, mas, com o passar dos meses, dos anos, você descobre dezenas de pequenas perdas e percebe que, basicamente, está perdendo uma vida inteira. Depois de um tempo, eu já tinha trabalhado o suficiente com a minha terapeuta, então hoje eu diria que estou bem mentalmente.

Eu odiava depender de alguém e me sentia humilhado se alguém tentasse me dar banho ou me ajudar no banheiro, mas graças a Deus pela tecnologia moderna — meus pais conseguiram investir uma grana pesada para tornar a minha casa acessível. Não tenho um andar de cima, só um sótão que praticamente nunca uso e um porão onde lavo roupa e guardo outras tranqueiras.

Nos últimos meses, algo estranho começou a infiltrar no meu bem-estar mental. Nunca tinha pensado no lado sinistro de ser deficiente.

Sabe aquele medo que você tinha de dormir com as pernas de fora ou penduradas para fora da cama? Pensando que algo poderia agarrá-las no escuro? Pois é, no meu caso, às vezes me pergunto se isso aconteceu e eu simplesmente não senti. Se algo passou por elas e eu não percebi.

Contei isso para uma amiga e ela riu, dizendo: "É, e se algum maluco lamber os seus pés no meio da noite e você não sentir? Ele pode até achar que você gostou."

Ela foi de uma ajuda incrível, é claro, mas a minha preocupação também era meio ridícula desde o início.

Certo?

Nos últimos meses, também comecei a me preocupar com o meu bem-estar físico. E se eu estiver ficando mais fraco? Como será a minha vida daqui a dez anos, se já percebo que, aos incríveis 27 anos, fico mais cansado só de passar da cama para a cadeira de rodas todos os dias?

Sério. Você sabe como eu me levanto de manhã: a minha cama se inclina e eu me transfiro para a cadeira de rodas. Como acontece com paraplégicos, as minhas mãos ficaram mais fortes, e isso não costuma ser difícil. Ou pelo menos não era. Comecei a ter dificuldade para sair da cama de manhã. Como se aquilo não fosse a coisa mais fácil do mundo.

Minha confiança levou um baita baque quando percebi isso, mas, há algumas semanas, me levantei meia hora depois de ter ido para a cama e foi tão fácil quanto eu lembrava. Isso me fez pensar. Então comecei a prestar atenção na posição da minha cadeira de rodas pela manhã.

E notei que ela estava um pouco mais longe da cama.

Não o suficiente para eu perceber de imediato, mas o suficiente para me fazer lutar. Será que eu a empurrava sem querer enquanto dormia? Não, ela é bem estável. Brinquei comigo mesmo que alguém estava mexendo nela para me sacanear.

Essa piada foi tão engraçada que ficou na minha cabeça o dia todo.

Outra coisa estranha aconteceu enquanto eu tomava banho. Ouvi um barulho no corredor e passei o resto do tempo tentando entender o que era. Já estava no meio do banho quando aconteceu, e não é como se eu pudesse sair correndo do chuveiro e jogar uma toalha para verificar. Então, depois que terminei, saí do banheiro e não encontrei nada fora do lugar. Mesmo assim, não me senti aliviado.

Ontem, a minha faxineira veio aqui. Ela subiu no sótão para pegar os produtos de limpeza e desceu completamente em silêncio, sem falar comigo o dia todo. Perguntei o que tinha acontecido, e ela me deu uma resposta passivo-agressiva do tipo: "Sei que você não pode facilitar o meu trabalho, mas eu agradeceria se não jogasse todas as suas tranqueiras no sótão." Achei engraçado, já que o sótão não tem um IPL (achamos que seria caro demais instalar um), então a única pessoa que sobe lá é ela. A única forma de eu subir seria escalando as escadas com as mãos, e não sou fã dessa ideia.

Ela vive reclamando, então não levei muito a sério. Ela fica irritada comigo por eu ser deficiente, como se fosse culpa minha. São as duas coisas que as pessoas sentem por você: pena e irritação, quando você está no caminho delas.

Dei um jeito de ignorar. Ela foi embora sem se despedir, então imaginei que estava só tendo um dos seus piripaque. Ainda não sei que tipo de bagunça a irritou tanto no sótão.

Sinceramente, sinto que estou ficando maluco. Hoje acordei com as meias tiradas, e tenho certeza de que estava com elas quando fui dormir. Sinto o sangue latejando nos ouvidos por causa da tensão, e a tontura do medo me dominou completamente. Ainda estou tentando me lembrar se as tirei, mas não consigo.

Tenho mais do que certeza de que não tirei.

Tão certo quanto estou do barulho na minha casa.

Tão certo quanto estou do fato de que não ouvi a minha faxineira sair ontem.

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