A bola saiu rolando do campinho e desceu até perto do riacho. Era pra ter sido a minha bola, mas eu não estava a fim de subir de volta a encosta inteira só pra pegar a bola lá embaixo. O Jake já estava quase descendo a ladeira mesmo.
Eu pisquei e, quando abri os olhos de novo, estava escuro. Escuro de verdade, tipo meia-noite.
“Que porra tá acontecendo?!” gritou o Isaac.
Eu não tinha resposta pra ele. Esperei um grito do Jake, mas nada veio. Ficamos mais ou menos meia hora procurando por ele antes de começar a ficar realmente preocupados. A gente era criança na época. Não passava pela nossa cabeça que ele pudesse estar em perigo de verdade.
No final, decidimos ir embora pra casa. Hoje em dia eu nem lembro mais se a gente pretendia contar pros nossos pais que tinha perdido o Jake ou se simplesmente achamos que ele tinha voltado pra casa sozinho. Quando cheguei em casa, meus pais já me perguntaram se eu tinha visto o Jake. Depois me mandaram direto pra cama. Alguma coisa estava errada. Meus pais nunca tinham me mandado dormir sem tomar banho. Além disso, o jeito deles estava… diferente, meio estranho.
Não dormi bem aquela noite. Nem parecia que era tarde, mas como eu disse, estava um breu total lá fora, parecia meia-noite. No fim, acabei pegando no sono. Fui acordado de repente por uma luz de sol cegante entrando pela janela, como se fosse meio-dia. O relógio marcava 6:04 da manhã.
Aquilo me assustou pra caralho, mas logo lembrei das coisas estranhas que tinham acontecido na noite anterior. Alguma coisa estava muito errada. Desci as escadas e cumprimentei meu pai. Peguei pão e manteiga e fui até a torradeira. Vi um bilhete escrito: “Eu e sua mãe saímos cedo pro trabalho.” Aquilo não fazia o menor sentido. Meu pai estava na cozinha.
Virei pra trás e… não era meu pai. Era uma mulher. O queixo e a cor do cabelo eram parecidos com os da minha mãe… mas não era ela.
Perguntei quem ela era.
Ela respondeu que era minha mãe.
Aquilo me deu um frio na espinha. Saí correndo pela porta, direto pro sol forte. A sensação de cansaço de quem acabou de acordar misturada com aquela luz de meio-dia me deixou enjoado na hora. A ideia de que minha mãe tinha sumido e que tinha uma impostora dentro da minha casa junto com meu pai não ajudava em nada. Comecei a passar mal de verdade. Meu pai me alcançou e eu desmaiei nos braços dele.
“Acorda, filho.”
Era a voz rouca do meu pai. O despertador marcava exatamente 9:30.
“O que aconteceu?”
“Não faço ideia do que você tá falando.”
“Mais cedo tinha uma mulher na nossa cozi—”
“Filho, sua mãe e eu acordamos há dez minutos. Você tá sonhando. É só isso.”
Desci as escadas. Já dava pra ouvir a televisão ligada na sala. Estava no canal de notícias. Uma repórter falava:
“Uma passageira chamada Tasha Wright precisou ser contida por um agente da Aeronáutica após derrubar três comissárias de bordo. Ela foi ouvida afirmando que seu filho foi ao banheiro do avião e não voltou.”
A imagem cortou para uma mulher chorando, sendo escoltada por dois policiais. Ela estava destruída, em prantos. Deu pena.
A repórter continuou antes de a imagem voltar pra ela:
“Não há registro de qualquer menino acompanhando Tasha em nenhuma das imagens das câmeras de segurança.”
O que mais chamou minha atenção foi que, em algum momento do desabafo da Tasha, ela disse algo na linha de que o filho dela tinha desaparecido assim que o sol sumiu. Igualzinho ao Jake. Acho que essas coisas não estão acontecendo só aqui.
No dia seguinte acordei por volta das 6h. Era segunda-feira, tinha aula. Lembro vagamente de acordar e ainda estar escuro lá fora, o que é normal pra essa hora. Mas quando me arrumei, tomei café e saí pra entrar no carro, o sol já estava lá em cima. Não era só “nascer do sol”. Parecia meio-dia pleno.
Pra deixar registrado: eu não considero mais isso coisas estranhas isoladas. Quando o rosto da minha “mãe” não estava certo, eu até tentei me convencer que era porque eu ainda não tinha acordado direito, ou que talvez tivesse sonhado aquela parte. Agora não tem mais como inventar desculpa.
Foi essa “mãe” que me levou pra escola naquele dia. Pelo retrovisor dava pra ver que ela passou a viagem inteira de olhos fechados e respirando fundo e rápido o tempo todo. Mesmo assim dirigia perfeitamente.
Quando chegamos na escola, ouvi um baque e depois um arranhão vindo do forro de compensado do sótão da minha casa. Isso já teria me assustado sozinho, mas o fato de eu estar a quilômetros de distância da minha casa e o barulho ter vindo do céu azul claro… aquilo foi aterrorizante de um jeito muito pior.
Virei pra me despedir de quem quer que estivesse dirigindo o carro da minha mãe, mas quando olhei pro banco do motorista, não tinha ninguém. A fila de desembarque atrás de mim estava cheia de carros, mas nenhum motorista. Só crianças olhando reto pra frente, com o olhar vazio.
Não tinha pra onde ir, então entrei na escola. Fui direto pro banheiro. Fiquei paralisado quando vi um corpo deitado no chão dentro da cabine grande que fica lá no fundo. Estava de pijama. Entrei na cabine e congelei. Era o corpo da minha mãe. Reconheci o pijama — era exatamente o que ela estava usando algumas noites antes, na noite anterior a tudo isso começar. Reconheci o rosto dela… em parte. Parecia que vários ossos do rosto abaixo do nariz tinham sido esmagados. Como se tivessem usado o “quebra-mandíbula” dos bombeiros na cara dela.
Não tem como descrever o que senti parado ali no banheiro ao lado do cadáver da minha mãe. Não sei se isso vem de cima, do espaço, ou de baixo, do inferno. Mas, quanto a mim e à minha cidade, estamos fodidos.
Se você passou por alguma coisa parecida com isso ou se tem acontecido coisas absurdas na sua cidade, por favor, comente aqui embaixo. Talvez ainda tenha esperança.
SOS


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