terça-feira, 5 de maio de 2026

Há um detalhe nesses casos de pessoas desaparecidas de que ninguém está falando

Eu não percebi de uma vez, e, sendo bem sincero, provavelmente nem teria percebido se não tivesse começado a ver os mesmos cartazes repetidas vezes, nos mesmos lugares. O primeiro estava colado em um poste de luz perto do posto de gasolina onde eu paro no caminho de casa depois do trabalho, aquele tipo de poste coberto por camadas de fita velha e papel, onde as pessoas grudam coisas sem nem pensar em quantas já tem ali. Lembro de ficar ali com a bomba abastecendo, sentindo o cheiro de gasolina no ar, olhando só o bastante para registrar a foto e a palavra “DESAPARECIDO” em letras grandes antes de desviar o olhar e conferir quanto ainda faltava pagar.

Alguns dias depois, vi outro naquele mesmo poste, só um pouco mais abaixo, como se alguém tivesse tentado abrir espaço em vez de cobrir o primeiro. Pessoa diferente, nome diferente, mas a estrutura era quase idêntica. O mesmo tipo de foto, a mesma formatação, o mesmo bloco de texto embaixo. Lembro de ter parado um pouco mais daquela vez, lendo mais do cartaz enquanto a impressora do recibo ficava clicando atrás de mim, tentando entender por que aquilo me parecia familiar de um jeito que eu não conseguia identificar na hora.

Depois disso, comecei a perceber mais, não porque eles tivessem aparecido do nada em todo lugar, mas porque eu já tinha visto o suficiente para começarem a se destacar. Um num placa de pare perto do mercado, outro colado na lateral de um ponto de ônibus por onde eu passo às vezes, um parcialmente rasgado num poste de madeira perto do parque. Eles não estavam todos no mesmo lugar, mas também não estavam distantes o bastante para parecerem aleatórios. Era como se todos viessem da mesma região geral, mesmo que eu não conseguisse traçar uma linha clara entre eles.

No começo, eu não conectei nada. Pessoas desaparecem, isso acontece, e na maioria das vezes você não ouve nada além da publicação inicial. Mas havia algo em vê-los com tanta frequência, tão próximos uns dos outros, que me fez começar a lê-los com mais atenção sem nem perceber. Eu me pegava diminuindo o passo quando passava por eles, levando um segundo a mais do que o necessário para ler os nomes, as datas, os últimos lugares onde foram vistos, como se eu estivesse tentando encontrar alguma coisa específica sem saber o quê.

Foi aí que comecei a notar o detalhe. Não era algo óbvio, nem estava destacado como se fosse importante. Era só parte da descrição, aquele tipo de frase que você passaria batido se não estivesse prestando atenção. “Visto pela última vez perto de...” seguido de um local e, às vezes, nem sempre, mas o suficiente para ficar marcado, vinha uma segunda parte no fim. “Visto pela última vez falando com um homem.” Na primeira vez em que percebi isso, não dei muita importância, porque isso é normal — afinal, as pessoas costumam ser vistas com alguém antes de desaparecer — mas depois eu vi de novo em outro cartaz, com uma formulação diferente, mas querendo dizer a mesma coisa, algo como “visto pela última vez conversando com um homem desconhecido” ou “visto pela última vez na companhia de um homem”, e foi aí que aquilo ficou na minha cabeça por mais tempo do que deveria.

Naquele momento ainda parecia coincidência, mas eu comecei a conferir os cartazes antigos também, voltando aos lugares onde eu sabia que eles tinham sido colocados só para ler tudo de novo. Alguns não mencionavam mais ninguém, mas eram tantos os que mencionavam que deixou de parecer acaso. Sempre era algo vago, nunca um nome, nunca uma descrição clara, só “um homem”, e às vezes acrescentavam alguma coisa pequena, como altura aproximada ou roupa, mas nunca o bastante para identificar alguém de verdade, só o bastante para confirmar que havia alguém lá.

Não sei quando isso deixou de ser só notar e passou a ser realmente procurar, mas em algum ponto comecei a prestar mais atenção nas pessoas ao redor daquelas áreas do que eu normalmente prestaria. Não de um jeito óbvio, só olhares rápidos enquanto eu esperava numa fila, ou passava por alguém na calçada, ou ficava um segundo a mais no semáforo tentando ver se alguém se destacava de um jeito que combinasse com o que eu continuava lendo. Ninguém realmente se destacava, e isso deveria ter encerrado a questão.

Mas então eu o vi.

Não percebi de imediato. Ele era só mais uma pessoa na fila do posto, algumas posições à minha frente, segurando uma bebida e alguma coisa pequena do balcão. Nada nele chamava atenção. Altura mediana, talvez na casa dos 30 e poucos, roupas escuras sem nada que se destacasse, o tipo de pessoa que você não lembraria se não estivesse já procurando alguma coisa. O que fez eu notar foi a atendente, que soltou um “oi” rápido para ele, como se o conhecesse; não de um jeito amigável o bastante para significar algo, só familiar o suficiente para registrar. Ele não respondeu direito, apenas colocou as coisas no balcão e ficou esperando.

Lembro de mudar o peso de um pé para o outro, olhar para o visor de preços e depois para ele de novo sem realmente querer, e foi aí que caiu a ficha de que eu já tinha visto aquele homem antes, não uma, mas várias vezes, em lugares diferentes pela cidade. Perto da entrada do mercado, passando pelo parque, parado perto daquele mesmo ponto de ônibus onde um dos cartazes tinha sido colado. Nenhum desses momentos significava nada sozinho, mas, juntos, eles pareciam conectados de um jeito que eu não conseguia explicar.

Eu disse a mim mesmo que aquilo não significava nada, porque é uma cidade pequena e você vê as mesmas pessoas o tempo todo, mas, da próxima vez que vi um dos cartazes, li de outro jeito. Fiquei ali mais tempo do que precisava, lendo aquela linha outra vez e depois olhando para a rua ao redor sem perceber que estava fazendo isso, e, depois disso, comecei a notá-lo mais, não porque ele estivesse de repente em todo lugar, mas porque eu estava prestando atenção agora.

Ele aparecia nos mesmos tipos de lugar onde os cartazes eram colocados, nunca fazendo nada estranho, nunca chamando atenção e, se fosse para dizer alguma coisa, ele se misturava bem demais, como se soubesse exatamente como atravessar um espaço sem ser lembrado. Foi isso que tornou tudo pior, porque eu nunca o vi diretamente com ninguém dos cartazes, mas havia momentos em que parecia que eu tinha acabado de perder alguma coisa, como se eu o visse saindo de um lugar e, um ou dois dias depois, aparecesse um aviso de desaparecimento ali, ou eu passasse por ele na calçada e percebesse que havia um cartaz de pessoa desaparecida colado a poucos metros e eu não tinha notado antes.

Nunca batia de um jeito limpo o bastante para provar alguma coisa, só o suficiente para me incomodar, e eu tentei ignorar depois de um tempo, me impedindo de ler os cartazes com tanta atenção, mas, quando você percebe uma coisa dessas, ela não vai embora de verdade. Só fica ali, esperando alguma coisa confirmar o que você suspeita, e essa confirmação veio há alguns dias.

Eu estava saindo do trabalho mais tarde do que o normal, e as ruas estavam mais silenciosas do que de costume. Não vazias, mas quietas o bastante para você notar os próprios passos mais do que o normal, e lembro de apertar o celular na mão e olhar as horas sem nem precisar, só para ter alguma coisa em que me concentrar enquanto caminhava. Foi então que ouvi passos atrás de mim, não perto o bastante para me dar pânico imediato, só ali, firmes, acompanhando o ritmo de quem anda na mesma direção, e quando virei um pouco o rosto sem olhar totalmente para trás, eu o vi.

Ele caminhava no mesmo ritmo, com a mesma expressão neutra, como se estivesse indo para algum lugar e eu fosse simplesmente alguém na frente dele, e eu voltei a olhar para a frente e continuei andando, mas já sentia aquela mesma tensão começando a crescer no peito. Atravessei a rua na próxima abertura sem deixar isso muito óbvio, e ele atravessou também, e foi aí que engoli seco e percebi o quanto minha boca estava seca. Diminui um pouco o passo, fingindo checar o celular de novo, e os passos dele ajustaram atrás de mim, acompanhando a mudança no ritmo.

Naquela hora eu não me virei. Em vez disso, acelerei e continuei andando até chegar a uma rua mais movimentada, com gente o bastante para eu não me sentir tão exposto, e, quando finalmente olhei para trás, ele tinha sumido. Fiquei parado por um segundo a mais do que devia, vasculhando a rua com os olhos, mas não havia um caminho claro por onde ele pudesse ter ido sem que eu visse, e eu tentei me convencer de que estava exagerando, de que aquilo não provava nada, de que eu tinha ligado pontos que na verdade não estavam ligados.

Isso funcionou por cerca de um dia.

Depois, eu vi o cartaz mais recente.

Ele estava no mesmo poste perto do posto de gasolina, colocado por cima de um dos cartazes mais antigos que já começavam a soltar nas bordas, e eu parei sem perceber e comecei a ler, já sabendo o que procurava antes mesmo de chegar naquela parte. “Visto pela última vez falando com um homem”, e, desta vez, havia uma descrição embaixo dizendo “30 e poucos anos, altura mediana, roupas escuras, sem características identificáveis”, e eu fiquei ali mais tempo do que devia, lendo aquilo de novo e de novo, até deixar de parecer coincidência e começar a parecer alguma coisa sobre a qual eu deveria ter falado antes.

Quando levantei os olhos, ele estava parado do outro lado da rua, sem se mexer, sem fingir estar ocupado, só olhando diretamente para mim como se estivesse esperando que eu o notasse. E, pela primeira vez, não pareceu que eu tinha descoberto alguma coisa.

Pareceu que tinham me descoberto também.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Eu encontrei algo enterrado no deserto que eu não deveria ter tocado

Eu não deveria estar tão longe assim, e o pior de tudo é que eu sabia disso enquanto estava fazendo. Não foi como se eu tivesse me perdido ou cometido um erro sem perceber; eu tomei a decisão de continuar quando deveria ter dado meia-volta. 

Lembro de checar o combustível, olhar para aquele vazio todo e, mesmo assim, dizer a mim mesmo que iria só um pouco mais longe antes de voltar. Não tinha um motivo real, era só aquele sentimento de que eu ainda não tinha visto o suficiente, como se tivesse algo lá fora que valesse a pena ser encontrado se eu avançasse mais um pouco.

O deserto não parece perigoso da forma que as pessoas esperam. Não é barulhento nem opressor; ele só se estende em todas as direções até que tudo comece a parecer igual. Quanto mais tempo você passa nele, mais difícil fica saber se você está realmente avançando ou apenas pisando no mesmo lugar. Eu já tinha passado das áreas onde você ainda pode cruzar com alguém, longe dos lugares que as pessoas exploram por lazer, e quando percebi o quão silencioso tudo tinha ficado, eu já estava sozinho de um jeito que nunca tinha sentido antes.

Notei as pedras antes de entender o que estava vendo, e, a princípio, não parecia nada importante. Parecia um trecho onde rochas tinham se acumulado naturalmente, algo que você nem pensaria duas vezes se estivesse só de passagem, mas algo ali não parecia certo. Quanto mais eu olhava, mais óbvio ficava que elas não estavam espalhadas como deveriam. Elas foram colocadas — não perfeitamente, nem de um jeito que formasse uma forma exata, mas com intenção suficiente para não parecer acidental. Algumas estavam empilhadas, outras espaçadas, formando um círculo frouxo que não era preciso, mas definitivamente não era aleatório.

Parei de andar sem querer e fiquei ali parado, encarando aquilo por mais tempo do que deveria, tentando entender o que era e por que parecia tão estranho. Não era grande, talvez uns seis metros de largura no máximo, mas parecia separado de tudo ao redor, como se alguém tivesse marcado aquele espaço por um motivo e depois o deixado em paz. Lembro de pensar que poderia ser algum tipo de marcador de trilha ou algo deixado por trilheiros, mas isso não fazia sentido conforme eu ficava ali, porque não parecia oficial e não parecia velho.

Quando cheguei mais perto, comecei a notar as marcas nas pedras, e foi o primeiro momento em que algo apertou no meu peito. No começo, achei que fossem apenas arranhões, mas eles também não eram aleatórios; eles se repetiam de formas que não acontecem na natureza. Eu me agachei e passei os dedos sobre uma delas, sentindo os sulcos pressionados na superfície, rasos, mas deliberados, como se alguém os tivesse entalhado rápido, sem se preocupar em deixá-los limpos. Quanto mais eu olhava, mais percebia que não eram apenas marcas deixadas por acidente.

Eram símbolos, e embora eu não conseguisse entendê-los, dava para notar que não eram sem sentido. Havia padrões neles, formas que quase pareciam que deveriam se conectar em algo que eu reconheceria se encarasse por tempo suficiente, mas elas nunca se encaixavam totalmente. Isso me deu uma sensação estranha que eu não conseguia afastar, como se eu estivesse olhando para algo que deveria ser capaz de entender, mas que não conseguia alcançar.

Aquele era o ponto onde eu deveria ter ido embora, mas, em vez disso, entrei no círculo sem realmente decidir. O ar não mudou fisicamente, mas a sensação foi essa, como se o espaço dentro das pedras guardasse algo diferente de tudo o que estava fora. O silêncio parecia mais pesado, mais próximo, e meus passos soaram errados no segundo em que entrei — mais abafados do que deveriam ser, como se o som não estivesse viajando da forma normal. Diminuí o passo sem querer, como se meu corpo estivesse reagindo antes que eu tivesse tempo de pensar.

Fui em direção ao centro, nem com cuidado nem de forma casual, como se algo naquele espaço estivesse me forçando a prestar atenção, e foi aí que notei que o chão parecia diferente em um ponto. Não era óbvio no começo, apenas uma leve mudança no jeito que a areia estava assentada em comparação ao resto, mas, uma vez que vi, aquilo saltou aos olhos. Tinha sido mexido — não recentemente o suficiente para ainda estar solto, mas não fazia tanto tempo assim para ter assentado completamente. Fiquei parado ali por um segundo com um sentimento imediato e pesado de que eu não deveria tocar naquilo.

Não parecia exatamente medo; parecia que eu tinha chegado à beira de algo que não entendia e estava prestes a atravessar o limite. Ignorei esse sentimento e me ajoelhei, afastando a areia devagar no início e depois mais rápido quando senti algo sólido embaixo. Primeiro achei que fosse só uma rocha, algo maior enterrado sob a superfície, mas quanto mais eu descobria, mais óbvio ficava que não era natural.

Era osso, e no segundo em que percebi isso, minhas mãos pararam de se mexer, embora ainda estivessem enterradas na areia. Fiquei encarando, tentando me convencer de que estava errado, mas já havia o suficiente exposto para que eu não pudesse negar por muito tempo. A curva, a superfície lisa, a forma que não pertencia àquele lugar... tudo fez sentido de uma vez de um jeito que me deu um nó no estômago.

Era parte de um crânio.

Eu deveria ter levantado e ido embora ali mesmo, mas não fui, e até agora não entendo totalmente o porquê. A única explicação que tenho é que, uma vez que comecei, senti que precisava ver tudo, como se parar no meio do caminho fosse de alguma forma pior do que terminar o que eu já tinha começado. Então continuei cavando, mesmo com cada parte de mim dizendo para não fazer isso.

Quanto mais areia eu tirava, pior ficava, porque não era apenas um crânio; era um corpo, ou o que restava de um, e não estava disposto da forma que deveria estar. Não estava espalhado como se algo o tivesse despedaçado, e não estava intacto como um sepultamento normal. Os ossos tinham sido movidos, colocados de formas que não batiam com a maneira como um corpo descansa naturalmente. 

Os braços estavam perto demais do tronco, em ângulos errados; as costelas parcialmente expostas, mas fora de lugar; as pernas dobradas levemente para dentro de um jeito que não fazia sentido, a menos que alguém as tivesse colocado assim depois que o corpo já tivesse se decomposto.

Parecia que alguém o tinha desmontado e tentado montar de novo sem entender como as peças se encaixavam originalmente, e essa percepção me deixou enjoado de um jeito que não tinha nada a ver com o que eu estava vendo fisicamente. Aquilo não era algo que o deserto tinha feito; não era erosão, nem animais, nem o tempo. Alguém tinha feito aquilo, e tinha feito com cuidado suficiente para não parecer caótico — apenas parecia errado.

Foi então que notei as outras áreas mexidas e, uma vez que vi uma, vi todas. Pequenos trechos ao redor do centro onde a areia parecia levemente diferente, espaçados de um jeito que seguia o formato do círculo. Eu não precisei cavar para entender o que eram, e esse foi o momento em que a situação mudou de algo que eu não entendia para algo de que eu, de repente, tinha plena consciência de que não deveria estar parado no meio.

Não era apenas um corpo; eram vários, e o que quer que tivesse sido feito ali não tinha sido algo único.
Essa percepção bateu com tanta força que eu levantei rápido demais, com as mãos tremendo, o peito apertado e os olhos percorrendo o círculo como se eu tivesse deixado passar algo importante — e foi aí que eu ouvi. Não foi alto, apenas o som da areia se movendo levemente atrás de mim, como se um peso tivesse sido colocado cuidadosamente onde não faria muito barulho.

Eu me virei na hora, esperando ver alguém ali, mas não havia nada, apenas o deserto aberto se estendendo atrás de mim, vazio em todas as direções. Isso não melhorou as coisas, porque por um segundo eu tive a sensação muito clara de que tinha sido observado o tempo todo enquanto cavava, como se alguém estivesse parado logo do lado de fora do círculo, perto o suficiente para ver tudo o que eu estava fazendo sem que eu notasse.
Fui recuando devagar, sem dar as costas para aquilo, sem querer perder o centro de vista, e no segundo em que saí do círculo de pedras, aquela pressão mudou, como se eu tivesse saído de algo onde não deveria ter entrado. Não fiquei lá depois disso; não tentei entender nada enquanto ainda estava no local. Eu simplesmente fui embora, andando mais rápido do que deveria, tentando não olhar para trás, tentando não pensar no que eu tinha acabado de ver ou no que aquilo significava.

Demorei mais do que o normal para encontrar meu carro, tempo suficiente para eu começar a sentir que tinha pegado o caminho errado, mas finalmente consegui voltar e não parei de me mover até estar dirigindo para bem longe dali.

Não voltei lá e não contei para ninguém pessoalmente, porque não sei como explicar sem que pareça algo que eu inventei, e parte de mim não quer que mais ninguém vá até lá e encontre aquilo.

Mas tem uma coisa que não consigo parar de pensar, e é a parte que não desce, não importa o quanto eu tente ignorar.

Eu não desenterrei o corpo inteiro; só expus parte dele antes de parar. E do jeito que estava arrumado, do jeito que tudo tinha sido colocado de forma tão deliberada, não parecia que tinha sido deixado inacabado.

Parecia que tinha sido interrompido.

Como se alguém tivesse começado algo que pretendia voltar para terminar.

E não consigo afastar a sensação de que, quando eu estava ali cavando, quem quer que tenha colocado aqueles corpos ali não tinha ido embora.

Eles estavam perto o suficiente para me ver.

E a única razão pela qual nada aconteceu é porque eu parei antes que eles precisassem que eu parasse.

domingo, 3 de maio de 2026

Eu ganho a vida sumindo com corpos

Não é tão macabro quanto você pode imaginar, pelo menos para mim. Veja bem, eu trabalhava num necrotério antes de ser demitido por certas "indiscrições". Encontrar um emprego novo com a minha falta de experiência em qualquer outra coisa — sem falar na mancha enorme no meu currículo — se mostrou praticamente impossível. Com o fantasma de morar na rua batendo à porta, acabei indo parar nesse meu ramo atual, e fiquei surpreso com o quão fácil a coisa fluiu. Não tem tanto assassino psicopata por aí quanto se pensa, então a maioria dos meus bicos era com o pessoal do crime organizado; execuções, tiroteios e tudo mais.

Infelizmente, nenhum trabalho é perfeito. Noites em claro, queimaduras químicas, doenças transmissíveis pelo sangue e a desaprovação do governo estão entre os pontos negativos; mas o pior de tudo, com certeza, são os "esquisitos". 

"Esquisitos" é a gíria para o pessoal que deixa cenas bizarras para trás e depois chama alguém para limpar a sujeira, pelo menos aqui na minha área. Veja, os tais psicopatas que mencionei não entram em contato com gente como eu porque eles querem que o trabalho deles seja encontrado. A menos que algo dê errado, eles não querem saber de nós. Quando o pessoal percebeu a natureza estranha desses serviços, cunharam o termo "esquisito".

Eu não socializo muito com meus "colegas de trabalho", mas ouvi pela rádio peão que esses serviços de "esquisitos" têm aparecido na região desde que o mundo é mundo, e tem gente que até pediu as contas e sumiu da área por causa deles. No começo eu fui cético, mas depois que senti o gostinho do meu primeiro serviço desse tipo, eu mesmo considerei mudar de ares.

Não posso te dar uma data exata por razões óbvias, mas era um dia frio de inverno quando recebi a ligação. A voz do outro lado era o equivalente em áudio daquelas cartas de resgate feitas com recortes de letras de revista e coisas do tipo. Não era exatamente uma prática comum, mas eu não tinha experiência suficiente para saber disso na época. A voz recortada me deu uma hora, um local e avisou que eu receberia uma bolada no ato. Eu estava precisando muito da grana, então, quando chegou a hora, peguei minhas ferramentas e dirigi meu calhambeque por mais de uma hora até um prédio coberto de ferrugem e com as janelas estouradas. Já era tarde da noite quando cheguei lá.

Minhas primeiras impressões da cena foram tranquilas. O prédio era uma antiga fábrica de brinquedos que produzia todo tipo de boneca. A falta de janelas deixava o interior frio e úmido. O lugar cheirava a ferrugem e concreto, com aquele toque familiar de moedas de cobre que eu já tinha aprendido a ignorar. Caminhei entre fileiras de peças de bonecas velhas, abandonadas desde quando a fábrica fechou.

Havia uma ausência estranha de qualquer coisa incomum e, em pouco tempo, fiquei inquieto. Eu conseguia sentir o cheiro de um corpo, mas não conseguia vê-lo. Nada naquele lugar parecia certo. Era discreto demais para ser uma cena de crime; parecia mais um lugar para desovar um corpo. Procurei pelo cadáver por um tempão, e o pânico foi batendo quanto mais eu procurava. Seria uma armadilha? A polícia ia arrombar a porta e me prender? Eu estava participando de algum jogo doentio?

Ainda estava um breu total lá fora quando eu o encontrei. Escondido sob uma das prateleiras, um alçapão quase travado pela ferrugem, com o cheiro de podridão saindo de dentro. O alçapão tinha um pedaço de papel rasgado colado com firmeza. No papel, escrito com uma letra delicada, estava a palavra "olá", junto com um rostinho sorridente. 

Embora perturbado pelo bilhete, relaxei um pouco, pensando que o corpo estaria ali embaixo e eu finalmente estaria livre daquele lugar. Erguendo o pesado alçapão de ferro, apontei minha lanterna de dinamo para um porão de madeira. Sem pensar, escorreguei pelo alçapão, mas o chão de madeira apodrecido cedeu.

Caí com um baque úmido. O chão abaixo de mim estava frio, molhado e fedendo a algo que eu nunca tinha sentido antes. Liguei a lanterna e vi onde estava pisando. O chão estava completamente coberto por carne podre, oxidada e marrom; tudo passado num moedor de carne. Eu estava quase com as pernas enterradas até o quadril naquela imundície, e percebi, num terror súbito, que não estava sozinho ali. Algo estava rastejando na minha direção, como um tubarão sob ondas turvas. 

Comecei a me debater para achar uma saída, agarrando desesperadamente as tábuas podres acima de mim. Conforme a coisa se aproximava, ela sugava os resíduos acumulados no chão, espirrando um purê terrível e pastoso. Eu me puxei para fora daquele fosso podre, rezando desesperadamente para que as tábuas não me deixassem morrer.

Me joguei pelo alçapão, rolando no chão frio da fábrica, metade tentando recuperar o fôlego e metade tentando não vomitar. Coberto de carne podre quase liquefeita e tremendo, vi através dos olhos marejados um braço esguio e decomposto, feito da mesma matéria do poço de carne do qual eu acabara de escapar, estendendo-se pelo porão horrendo. Ele tateou o chão por um tempo, apenas para agarrar o alçapão com seus dedos longos e finos e puxá-lo suavemente para fechar.

De boca aberta, devo ter ficado sentado naquele chão frio por pelo menos meia hora antes de conseguir me mexer de novo.

Cerca de um mês depois, recebi uma carta pelo correio. O envelope estava úmido, estufado e fedia a carne podre, trazendo de volta memórias terríveis. Escrito no envelope, com a mesma letra delicada, estavam as palavras "Até breve". Um rostinho sorridente estava desenhado ao lado. Rasguei o envelope gordo com a unha, apenas para encontrar vinte mil dólares em dinheiro vivo.

Não recebi nenhum serviço parecido desde então, mas acho que ainda não estou rico o suficiente para sair recusando trabalho.

O Labirinto do Sono

Encontramos outros sobreviventes. Ninguém consegue sair. Acho que sei o porquê...

Não sei por quanto tempo a gente estava dirigindo.
A Amara estava no banco do passageiro, com os pés no painel, naquele estado entre dormindo e em outro mundo. Eu estava sobrevivendo com três horas de sono e aquele tipo de foco que aparece quando o pânico dura tanto tempo que vira parte da sua personalidade. A rodovia estava deserta há horas. Tudo estava deserto há dias.

A gente não falava sobre o que tinha visto. Chega um ponto em que falar sobre o assunto é o mesmo que viver tudo de novo.

Encontramos a instalação por acaso. A estrada saía da rodovia principal sem nenhum sinal, descendo numa curva, como se estivesse tentando se esconder. A Amara viu primeiro. Ela pôs a mão no meu braço sem dizer nada; eu reduzi a velocidade e nós duas ficamos olhando.

Uma luz branca vinha de algum lugar debaixo da terra. Estável, elétrica e completamente impossível, considerando tudo o que estava rolando na superfície.

Olhamos uma para a outra e entramos.

Tinha umas trinta mulheres lá dentro.

Elas estavam paradas em silêncio quando a gente encostou, e o olhar no rosto delas me deu um nó no peito. Não era alívio, nem boas-vindas. Era algo mais próximo do terror, e, por baixo do terror, algo que parecia luto.

Várias delas estavam armadas.

Eu abaixei o vidro. — Ei, a gente só está procurando por...

— Apaga isso.

Uma mulher já vinha correndo na nossa direção, sussurrando tão forte que parecia que ela estava raspando as palavras no fundo dos dentes.

— O carro. Desliga agora. Você tem noção do que fez?

Saímos devagar. O motor dava aqueles estalos enquanto esfriava.

— É barulhento demais — ela disse. As mãos dela tremiam. Ela olhava para a gente do jeito que você olha para alguém que acabou de cometer um erro terrível por você e não tem como voltar atrás. — Eles ouviram. Eles vão vir agora. Vocês têm que se esconder. Todo mundo. Agora!

E todas as mulheres se mexeram ao mesmo tempo.
Elas se espalharam e cada uma já sabia exatamente para onde ir. Atrás de prateleiras de equipamentos, entre painéis na parede, nos cantos. Elas deitavam ou se encostavam e fechavam os olhos, ficando completa e perfeitamente imóveis.
A mulher agarrou meu pulso antes de se jogar no chão.

— Parede. Olhos fechados. Não se mexa. Não abra os olhos ou você VAI morrer.

Ela fechou os olhos.

Segurei a mão da Amara, achamos um vão entre dois painéis, nos esprememos ali e eu fechei meus olhos.

Eu os ouvi antes de senti-los.

Não parecia barulho de passos, parecia uma mudança na pressão. O ar na instalação ficou pesado, abafado, e então veio um som que eu não sabia dar nome, vindo de várias direções ao mesmo tempo. Portas de metal se escancararam em algum lugar do salão. Tinha um movimento rápido e irregular; de repente parava, e depois corria de novo.
Algo chegou perto de mim. Senti a temperatura cair antes de ouvir qualquer coisa. Uma onda de ar frio e depois algo na minha garganta, depois na minha clavícula. Sem pressa. Eu estava preparada para ser atacada.

Mas a coisa seguiu em frente.

Não sei quanto tempo fiquei ali parada, mas foi o suficiente para as minhas pernas começarem a formigar.

Então, a mulher à minha esquerda fez um som.

Algo baixo e involuntário. O tipo de barulho que o corpo faz quando fica rígido por tempo demais e algo cede sem permissão.

Eles pularam nela instantaneamente.

No caos, a mão dela encontrou minha perna e agarrou, os dedos fechando no meu tornozelo com toda a força que restava, e o impacto do que estava acontecendo com ela me arrastou de lado. Caí com força, com o rosto no concreto frio, algo quente respingou na minha cara, e eu fiquei ali de olhos fechados e não me mexi. Eu não conseguia me mexer. Apertei o rosto contra o chão, fiquei ali, senti a mão dela relaxar no meu tornozelo e não me mexi.
Eventualmente, os sons se afastaram. As portas se fecharam em algum lugar. A pressão aliviou e o ar voltou.

A mulher à minha esquerda não levantou.

O nome dela era Priya. Descobri depois. Ela estava na instalação há duas semanas antes de a gente chegar. Tinha uma filha cuja foto ainda estava no celular, em cima do beliche onde a Priya dormia.
O celular estava lá de manhã, mas a Priya não. O beliche estava arrumado, as coisas organizadas. Ela simplesmente tinha sumido e ninguém disse nada, e eu passei o resto do dia sem pensar nela de novo.
A Sera parecia ser quem mandava no lugar.
Tinha cabelo curto, voz calma e aquele tipo de quietude de quem já sobreviveu a tanta coisa que não parece mais sobrevivência, parece só existência. Ela nos sentou e explicou as regras do jeito que se explica algo que já foi dito vezes demais e não se espera mais que mude nada.

As coisas vinham quando algo era súbito ou barulhento demais. Elas presumiam que eles não tinham olhos. Se você ficasse parado e quieto o suficiente, não tinha "gosto" para eles.

Tinha um alarme. Uma luz vermelha que acendia do nada, sem um padrão que alguém tivesse conseguido descobrir, mas sempre na mesma hora da noite quando acontecia. Quando a luz ficava vermelha, as coisas vinham junto. Trinta segundos, talvez menos, para achar seu lugar e fechar os olhos antes de eles entrarem. No começo, algumas mulheres tentaram desativar o alarme. O que quer que fizessem, não adiantava. O alarme tocava do mesmo jeito e, quando tocava, as coisas vinham mais rápido, como se a própria interferência fosse algo que eles pudessem rastrear.

Armas pioravam tudo. Alguém tentou no início, mas o barulho deixou as coisas em um estado além do frenesi e custou a vida de quatro mulheres até parar.
E a saída. A Sera mencionou isso do jeito que se fala de algo que não vale mais a pena sentir nada a respeito. Não importava o que tentassem, não conseguiam voltar pelo caminho que entraram. Ela não explicou mais nada, e o jeito que ela falou me fez não perguntar.

Os dias entraram num ritmo. Entre as noites, tinha comida, conversas baixas e uma versão de rotina que quase parecia uma vida. Nos movíamos devagar. Falávamos baixo. Existíamos naquela instalação do jeito que se existe em um lugar onde você não tem certeza se pode estar.

Mas algo parecia errado com o meu corpo já naquela época, e eu não me permitia encarar isso de frente.

Eu estava sempre com fome. Não a fome normal que a comida resolve. Uma fome mais profunda, como se algo estivesse sendo tirado de mim em um nível que eu não conseguia localizar. Estava cansada de um jeito que o sono não curava. Eu dizia para mim mesma que era o estresse. Que era tudo o que tínhamos passado antes de achar aquele lugar.
Todas estávamos percebendo, mas nenhuma de nós dizia nada.

Com três semanas, a Amara veio me procurar.

Ela estava quieta há dias, daquele jeito específico de quando está desmontando algo e finalmente tem todas as peças na frente dela. Ela sentou perto e falou baixo.

— Preciso que você faça uma coisa agora, sem pensar antes — disse ela. — Olhe para as suas mãos e conte os seus dedos.

Eu olhei para ela.

— Só faz.

Olhei para as minhas mãos e contei.

Onze.

Contei de novo. Dez. Contei uma terceira vez, me perdi no meio e tive que recomeçar.

— Sabia que, quando você está sonhando, não consegue contar os dedos? — Amara disse baixinho. 

— Seu cérebro não consegue manter o número parado. Ele fica mudando.

Olhei para as mãos de novo. A contagem saía errada de um jeito que eu não conseguia explicar.

Parte de mim quis dizer que ela tinha pirado. Contei meus dedos de novo.

— E aquelas coisas que vêm à noite? — perguntei.

— Elas só existem aqui. Nesta camada.

— E as pessoas que elas matam?

— Morrem aqui e não voltam.

Pensei na Priya. Em como eu não tinha pensado nela nem uma vez desde aquela primeira manhã. Em como o celular dela ainda estava no beliche e nenhuma de nós tinha tocado nele, nem falado o nome dela desde então.

— Amara. Se a gente estiver sonhando o tempo todo... — Parei. — Onde estão os nossos corpos?

Ela não respondeu de imediato.

— O que quer que esteja acontecendo com os nossos corpos no mundo real está vazando para o sonho — disse ela, por fim. — A mente faz isso. Quando o corpo está em perigo, ele não desliga simplesmente. Ele traduz. Ele transforma o que está acontecendo em algo que o cérebro sonhando consiga processar. — Ela me olhou. — Aquelas coisas que vêm à noite... acho que são a versão do sonho para algo que está realmente acontecendo com a gente agora. Em algum lugar real. E a fome que sentimos. O jeito que nossos corpos parecem errados. Isso é real também. São nossos corpos mandando informação pelo único canal que sobrou.

— Então as que morrem aqui... — eu disse.

— Algo está alcançando elas no mundo real — disse ela. — E o sonho é como estamos descobrindo.

Levamos isso para a Sera.

Ela ouviu tudo sem interromper. Quando a Amara terminou, a Sera ficou em silêncio por um longo tempo e eu olhei para o rosto dela, mas não consegui ler nada.

— Conte seus dedos — eu disse.
Sera olhou para mim. Depois olhou para as próprias mãos. Algo mudou na expressão dela e sumiu antes que eu pudesse identificar. Ela não contou.
Ela pegou o caderno, abriu numa página logo no início e colocou na mesa.

— Tenho mantido uma lista — disse ela. — Cada nome que consegui lembrar. Cada mulher que passou por aqui. — Ela virou para nós. Quarenta e sete nomes enchiam a página com uma letra pequena e cuidadosa. — Eu não reconheço um único nome desta lista, exceto os de quem ainda está aqui e o da Priya. — Ela fez uma pausa. — Eu mesma escrevi tudo isso. Eu sei que escrevi. E não consigo lembrar de uma única delas.
Ninguém falou nada.

— Tem que ter um jeito de acordar de propósito — eu disse. — Se a gente se treinar para fazer isso durante o ataque. Quando eles vierem, a gente grita a palavra "acorda" dentro da cabeça, de novo e de novo, até algo quebrar. O problema é que não podemos abrir os olhos para conferir nada sem nos revelarmos. Então, escrever a palavra na pele é o último recurso, algo para olhar se gritar não funcionar. Mas no momento em que você abre o olho, você fica visível para eles. Então tem que ser a última coisa.

— Por que só durante o ataque? — perguntou Sera. — Se estamos sonhando agora, por que não podemos simplesmente acordar agora?

— Porque agora parece completamente real — disse Amara. — Não tem contra o que empurrar. O sonho está estável demais. Mas durante o ataque, o medo cria uma fenda entre as duas camadas. Esse é o único momento em que a borda fica acessível. É a mesma razão pela qual você consegue acordar de um pesadelo, mas quase nunca acorda de um sonho normal. A intensidade é o que abre a porta.
Sera ficou em silêncio por um bom tempo.

— No começo, a gente tentou lutar — disse ela. — Fazer barulho. Resistir. Toda vez que fazíamos isso, vinham mais deles. Mais rápido. Como se algo estivesse se ajustando. — Ela cruzou as mãos sobre a mesa. — Eu achava que eles estavam nos caçando. Não tenho mais tanta certeza.

Ninguém perguntou o que ela achava que era, então.
Escrevemos a palavra ACORDA no lado de dentro dos nossos pulsos esquerdos com caneta preta, por precaução. Amara passou os dias praticando, tentando descobrir como era segurar duas coisas ao mesmo tempo: o sonho e a consciência do sonho, para que, quando chegasse a hora, ela não se perdesse.

Duas noites depois, o alarme tocou e as luzes ficaram vermelhas.

Achei meu lugar entre os painéis. Encostei as costas na parede. Fechei os olhos. Segurei a palavra na mente e esperei.

Eles entraram rápido.

O frio bateu primeiro e depois o som deles se movendo pela sala, e o medo veio junto, puro e total, do tipo que não deixa espaço para mais nada. Gritei a palavra "acorda" na minha cabeça repetidamente e nada aconteceu. Do outro lado da sala, alguém estava sendo atacada, eu ouvia, e o grito que se seguiu foi cortado de um jeito que não vou descrever. Algo mudou. O chão tremeu. Mais sons. Mais de uma pessoa. O quarto estava desabando ao meu redor e eu ainda não estava acordando e não tive escolha, abri os olhos só um pouco para olhar para o meu pulso, as letras estavam se mexendo, e eu gritei a palavra de novo na minha cabeça com tudo o que eu tinha.

Nada aconteceu.

Algo estava vindo na minha direção. Rápido e ficando mais rápido. Meu tempo tinha acabado e eu ainda estava dormindo e ia morrer ali e...

A mão da Amara fechou no meu pulso de algum lugar que não era o sonho.

Frio. Real. Tremendo.

Eu estava acordada.

O ar viciado foi a primeira coisa que notei.

Abri os olhos.

Eram as mesmas paredes, mas detonadas, escuras e velhas. Metade das luzes queimadas. O resto jogava um brilho amarelo pálido sobre tudo, o que fazia a sala parecer algo abandonado no meio de um pensamento.

Havia cápsulas alinhadas nas paredes, organizadas em fileiras pelo chão. Cada uma larga o suficiente para um corpo. Tubos entrando e saindo. A maioria dos monitores acima delas estava apagada. Alguns ainda funcionavam com a pouca energia que restava.

Algumas cápsulas tinham rachado sozinhas. O que estava acontecendo dentro daquelas já rolava há muito tempo antes de a gente acordar, e o que quer que tivesse chegado nelas ainda não tinha nos ouvido, ainda estava focado no que já estava na frente dele, e eu desviei o olhar antes de ver mais do que já tinha visto.

Amara estava do meu lado, com a mão ainda no meu braço, mal conseguindo ficar de pé. Ela estava a pessoa mais magra que eu já tinha visto. Os olhos estavam encovados e "acordados" de um jeito que parecia ter custado tudo o que restava dela.
Olhei para mim mesma e não reconheci o que vi.
A pele dos meus braços estava flácida. Ossos que eu nunca tinha visto antes. Toquei meu rosto e senti o crânio perto demais da superfície, e entendi de uma vez o que a fome estava nos dizendo o tempo todo.

Ao nosso redor, as outras cápsulas estavam seladas. As mulheres ainda lá dentro, ainda apagadas, olhos fechados, monitores rodando. Ainda na instalação, ainda se escondendo da luz vermelha, ainda acreditando que o sonho era o único mundo que existia. Fomos até a cápsula mais próxima e tentamos abrir, mas não conseguimos. Não tínhamos força e não havia nenhum mecanismo por fora que a gente achasse, e o que quer que estivesse na sala com as cápsulas rachadas começou a notar que algo mais estava acordado no prédio. Ouvimos a coisa se ajustando.
Não tinha tempo. Não tinha jeito. A única coisa que podíamos fazer era sair e voltar com ajuda ou com alguma coisa, e esse foi o pensamento que segurei enquanto Amara me puxava para a saída. Tinha um carro lá fora, estacionado com as chaves dentro. Entramos o mais rápido que nossos corpos permitiram. Eu dirigi porque as mãos da Amara não paravam de tremer.

Não sei exatamente quando começou a acontecer.

Não foi em um momento só. Foi como ver uma fotografia desbotar enquanto você a segura. Num minuto eu ainda via as cápsulas claramente; no seguinte, quando buscava a imagem, ela estava mais embaçada. Os detalhes ainda estavam lá, mas tinham parado de parecer algo que aconteceu comigo e começaram a parecer algo que eu ouvi falar uma vez.

Quando chegamos na rodovia principal, eu não saberia dizer como era o interior daquele prédio.
Quando o céu começou a ficar cinza, eu não saberia dizer por que meus braços estavam daquele jeito, ou por que minhas mãos não paravam de tremer, ou por que toda vez que eu olhava para a Amara sentia algo próximo do luto, mas não conseguia achar a que ele pertencia.

Eu sabia que algo tinha acontecido. Conseguia sentir o contorno da coisa. Mas quando tentava pegar os detalhes, não tinha nada lá.
De repente, percebi que estava correndo demais no carro e não lembrava por que estava com tanta pressa. Achei o mapa no banco de trás. Três rotas marcadas com caneta vermelha. Duas delas riscadas com um X com a minha própria letra.

Eu não lembrava de ter riscado aquilo.

Fiquei olhando para os X por um longo tempo e senti algo atrás de uma porta que eu não queria abrir; então dobrei o mapa e o guardei.

A mão da Amara tocou meu braço.

Eu olhei para frente.

Lá na frente na rodovia, onde a estrada fazia a curva e a linha das árvores acabava, uma luz branca vinha de algum lugar debaixo da terra.

Estável. Elétrica.

Olhei para a luz.

Algo em mim disse não. Algo em mim disse para seguir em frente. Tentei segurar esse sentimento, mas ele já tinha ido embora. Olhei para as minhas mãos e parecia que eu tinha dois dedos a mais por algum motivo. Rapidamente, culpei o cansaço.

Amara e eu olhamos uma para a outra e entramos.
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