domingo, 3 de maio de 2026

Eu ganho a vida sumindo com corpos

Não é tão macabro quanto você pode imaginar, pelo menos para mim. Veja bem, eu trabalhava num necrotério antes de ser demitido por certas "indiscrições". Encontrar um emprego novo com a minha falta de experiência em qualquer outra coisa — sem falar na mancha enorme no meu currículo — se mostrou praticamente impossível. Com o fantasma de morar na rua batendo à porta, acabei indo parar nesse meu ramo atual, e fiquei surpreso com o quão fácil a coisa fluiu. Não tem tanto assassino psicopata por aí quanto se pensa, então a maioria dos meus bicos era com o pessoal do crime organizado; execuções, tiroteios e tudo mais.

Infelizmente, nenhum trabalho é perfeito. Noites em claro, queimaduras químicas, doenças transmissíveis pelo sangue e a desaprovação do governo estão entre os pontos negativos; mas o pior de tudo, com certeza, são os "esquisitos". 

"Esquisitos" é a gíria para o pessoal que deixa cenas bizarras para trás e depois chama alguém para limpar a sujeira, pelo menos aqui na minha área. Veja, os tais psicopatas que mencionei não entram em contato com gente como eu porque eles querem que o trabalho deles seja encontrado. A menos que algo dê errado, eles não querem saber de nós. Quando o pessoal percebeu a natureza estranha desses serviços, cunharam o termo "esquisito".

Eu não socializo muito com meus "colegas de trabalho", mas ouvi pela rádio peão que esses serviços de "esquisitos" têm aparecido na região desde que o mundo é mundo, e tem gente que até pediu as contas e sumiu da área por causa deles. No começo eu fui cético, mas depois que senti o gostinho do meu primeiro serviço desse tipo, eu mesmo considerei mudar de ares.

Não posso te dar uma data exata por razões óbvias, mas era um dia frio de inverno quando recebi a ligação. A voz do outro lado era o equivalente em áudio daquelas cartas de resgate feitas com recortes de letras de revista e coisas do tipo. Não era exatamente uma prática comum, mas eu não tinha experiência suficiente para saber disso na época. A voz recortada me deu uma hora, um local e avisou que eu receberia uma bolada no ato. Eu estava precisando muito da grana, então, quando chegou a hora, peguei minhas ferramentas e dirigi meu calhambeque por mais de uma hora até um prédio coberto de ferrugem e com as janelas estouradas. Já era tarde da noite quando cheguei lá.

Minhas primeiras impressões da cena foram tranquilas. O prédio era uma antiga fábrica de brinquedos que produzia todo tipo de boneca. A falta de janelas deixava o interior frio e úmido. O lugar cheirava a ferrugem e concreto, com aquele toque familiar de moedas de cobre que eu já tinha aprendido a ignorar. Caminhei entre fileiras de peças de bonecas velhas, abandonadas desde quando a fábrica fechou.

Havia uma ausência estranha de qualquer coisa incomum e, em pouco tempo, fiquei inquieto. Eu conseguia sentir o cheiro de um corpo, mas não conseguia vê-lo. Nada naquele lugar parecia certo. Era discreto demais para ser uma cena de crime; parecia mais um lugar para desovar um corpo. Procurei pelo cadáver por um tempão, e o pânico foi batendo quanto mais eu procurava. Seria uma armadilha? A polícia ia arrombar a porta e me prender? Eu estava participando de algum jogo doentio?

Ainda estava um breu total lá fora quando eu o encontrei. Escondido sob uma das prateleiras, um alçapão quase travado pela ferrugem, com o cheiro de podridão saindo de dentro. O alçapão tinha um pedaço de papel rasgado colado com firmeza. No papel, escrito com uma letra delicada, estava a palavra "olá", junto com um rostinho sorridente. 

Embora perturbado pelo bilhete, relaxei um pouco, pensando que o corpo estaria ali embaixo e eu finalmente estaria livre daquele lugar. Erguendo o pesado alçapão de ferro, apontei minha lanterna de dinamo para um porão de madeira. Sem pensar, escorreguei pelo alçapão, mas o chão de madeira apodrecido cedeu.

Caí com um baque úmido. O chão abaixo de mim estava frio, molhado e fedendo a algo que eu nunca tinha sentido antes. Liguei a lanterna e vi onde estava pisando. O chão estava completamente coberto por carne podre, oxidada e marrom; tudo passado num moedor de carne. Eu estava quase com as pernas enterradas até o quadril naquela imundície, e percebi, num terror súbito, que não estava sozinho ali. Algo estava rastejando na minha direção, como um tubarão sob ondas turvas. 

Comecei a me debater para achar uma saída, agarrando desesperadamente as tábuas podres acima de mim. Conforme a coisa se aproximava, ela sugava os resíduos acumulados no chão, espirrando um purê terrível e pastoso. Eu me puxei para fora daquele fosso podre, rezando desesperadamente para que as tábuas não me deixassem morrer.

Me joguei pelo alçapão, rolando no chão frio da fábrica, metade tentando recuperar o fôlego e metade tentando não vomitar. Coberto de carne podre quase liquefeita e tremendo, vi através dos olhos marejados um braço esguio e decomposto, feito da mesma matéria do poço de carne do qual eu acabara de escapar, estendendo-se pelo porão horrendo. Ele tateou o chão por um tempo, apenas para agarrar o alçapão com seus dedos longos e finos e puxá-lo suavemente para fechar.

De boca aberta, devo ter ficado sentado naquele chão frio por pelo menos meia hora antes de conseguir me mexer de novo.

Cerca de um mês depois, recebi uma carta pelo correio. O envelope estava úmido, estufado e fedia a carne podre, trazendo de volta memórias terríveis. Escrito no envelope, com a mesma letra delicada, estavam as palavras "Até breve". Um rostinho sorridente estava desenhado ao lado. Rasguei o envelope gordo com a unha, apenas para encontrar vinte mil dólares em dinheiro vivo.

Não recebi nenhum serviço parecido desde então, mas acho que ainda não estou rico o suficiente para sair recusando trabalho.

O Labirinto do Sono

Encontramos outros sobreviventes. Ninguém consegue sair. Acho que sei o porquê...

Não sei por quanto tempo a gente estava dirigindo.
A Amara estava no banco do passageiro, com os pés no painel, naquele estado entre dormindo e em outro mundo. Eu estava sobrevivendo com três horas de sono e aquele tipo de foco que aparece quando o pânico dura tanto tempo que vira parte da sua personalidade. A rodovia estava deserta há horas. Tudo estava deserto há dias.

A gente não falava sobre o que tinha visto. Chega um ponto em que falar sobre o assunto é o mesmo que viver tudo de novo.

Encontramos a instalação por acaso. A estrada saía da rodovia principal sem nenhum sinal, descendo numa curva, como se estivesse tentando se esconder. A Amara viu primeiro. Ela pôs a mão no meu braço sem dizer nada; eu reduzi a velocidade e nós duas ficamos olhando.

Uma luz branca vinha de algum lugar debaixo da terra. Estável, elétrica e completamente impossível, considerando tudo o que estava rolando na superfície.

Olhamos uma para a outra e entramos.

Tinha umas trinta mulheres lá dentro.

Elas estavam paradas em silêncio quando a gente encostou, e o olhar no rosto delas me deu um nó no peito. Não era alívio, nem boas-vindas. Era algo mais próximo do terror, e, por baixo do terror, algo que parecia luto.

Várias delas estavam armadas.

Eu abaixei o vidro. — Ei, a gente só está procurando por...

— Apaga isso.

Uma mulher já vinha correndo na nossa direção, sussurrando tão forte que parecia que ela estava raspando as palavras no fundo dos dentes.

— O carro. Desliga agora. Você tem noção do que fez?

Saímos devagar. O motor dava aqueles estalos enquanto esfriava.

— É barulhento demais — ela disse. As mãos dela tremiam. Ela olhava para a gente do jeito que você olha para alguém que acabou de cometer um erro terrível por você e não tem como voltar atrás. — Eles ouviram. Eles vão vir agora. Vocês têm que se esconder. Todo mundo. Agora!

E todas as mulheres se mexeram ao mesmo tempo.
Elas se espalharam e cada uma já sabia exatamente para onde ir. Atrás de prateleiras de equipamentos, entre painéis na parede, nos cantos. Elas deitavam ou se encostavam e fechavam os olhos, ficando completa e perfeitamente imóveis.
A mulher agarrou meu pulso antes de se jogar no chão.

— Parede. Olhos fechados. Não se mexa. Não abra os olhos ou você VAI morrer.

Ela fechou os olhos.

Segurei a mão da Amara, achamos um vão entre dois painéis, nos esprememos ali e eu fechei meus olhos.

Eu os ouvi antes de senti-los.

Não parecia barulho de passos, parecia uma mudança na pressão. O ar na instalação ficou pesado, abafado, e então veio um som que eu não sabia dar nome, vindo de várias direções ao mesmo tempo. Portas de metal se escancararam em algum lugar do salão. Tinha um movimento rápido e irregular; de repente parava, e depois corria de novo.
Algo chegou perto de mim. Senti a temperatura cair antes de ouvir qualquer coisa. Uma onda de ar frio e depois algo na minha garganta, depois na minha clavícula. Sem pressa. Eu estava preparada para ser atacada.

Mas a coisa seguiu em frente.

Não sei quanto tempo fiquei ali parada, mas foi o suficiente para as minhas pernas começarem a formigar.

Então, a mulher à minha esquerda fez um som.

Algo baixo e involuntário. O tipo de barulho que o corpo faz quando fica rígido por tempo demais e algo cede sem permissão.

Eles pularam nela instantaneamente.

No caos, a mão dela encontrou minha perna e agarrou, os dedos fechando no meu tornozelo com toda a força que restava, e o impacto do que estava acontecendo com ela me arrastou de lado. Caí com força, com o rosto no concreto frio, algo quente respingou na minha cara, e eu fiquei ali de olhos fechados e não me mexi. Eu não conseguia me mexer. Apertei o rosto contra o chão, fiquei ali, senti a mão dela relaxar no meu tornozelo e não me mexi.
Eventualmente, os sons se afastaram. As portas se fecharam em algum lugar. A pressão aliviou e o ar voltou.

A mulher à minha esquerda não levantou.

O nome dela era Priya. Descobri depois. Ela estava na instalação há duas semanas antes de a gente chegar. Tinha uma filha cuja foto ainda estava no celular, em cima do beliche onde a Priya dormia.
O celular estava lá de manhã, mas a Priya não. O beliche estava arrumado, as coisas organizadas. Ela simplesmente tinha sumido e ninguém disse nada, e eu passei o resto do dia sem pensar nela de novo.
A Sera parecia ser quem mandava no lugar.
Tinha cabelo curto, voz calma e aquele tipo de quietude de quem já sobreviveu a tanta coisa que não parece mais sobrevivência, parece só existência. Ela nos sentou e explicou as regras do jeito que se explica algo que já foi dito vezes demais e não se espera mais que mude nada.

As coisas vinham quando algo era súbito ou barulhento demais. Elas presumiam que eles não tinham olhos. Se você ficasse parado e quieto o suficiente, não tinha "gosto" para eles.

Tinha um alarme. Uma luz vermelha que acendia do nada, sem um padrão que alguém tivesse conseguido descobrir, mas sempre na mesma hora da noite quando acontecia. Quando a luz ficava vermelha, as coisas vinham junto. Trinta segundos, talvez menos, para achar seu lugar e fechar os olhos antes de eles entrarem. No começo, algumas mulheres tentaram desativar o alarme. O que quer que fizessem, não adiantava. O alarme tocava do mesmo jeito e, quando tocava, as coisas vinham mais rápido, como se a própria interferência fosse algo que eles pudessem rastrear.

Armas pioravam tudo. Alguém tentou no início, mas o barulho deixou as coisas em um estado além do frenesi e custou a vida de quatro mulheres até parar.
E a saída. A Sera mencionou isso do jeito que se fala de algo que não vale mais a pena sentir nada a respeito. Não importava o que tentassem, não conseguiam voltar pelo caminho que entraram. Ela não explicou mais nada, e o jeito que ela falou me fez não perguntar.

Os dias entraram num ritmo. Entre as noites, tinha comida, conversas baixas e uma versão de rotina que quase parecia uma vida. Nos movíamos devagar. Falávamos baixo. Existíamos naquela instalação do jeito que se existe em um lugar onde você não tem certeza se pode estar.

Mas algo parecia errado com o meu corpo já naquela época, e eu não me permitia encarar isso de frente.

Eu estava sempre com fome. Não a fome normal que a comida resolve. Uma fome mais profunda, como se algo estivesse sendo tirado de mim em um nível que eu não conseguia localizar. Estava cansada de um jeito que o sono não curava. Eu dizia para mim mesma que era o estresse. Que era tudo o que tínhamos passado antes de achar aquele lugar.
Todas estávamos percebendo, mas nenhuma de nós dizia nada.

Com três semanas, a Amara veio me procurar.

Ela estava quieta há dias, daquele jeito específico de quando está desmontando algo e finalmente tem todas as peças na frente dela. Ela sentou perto e falou baixo.

— Preciso que você faça uma coisa agora, sem pensar antes — disse ela. — Olhe para as suas mãos e conte os seus dedos.

Eu olhei para ela.

— Só faz.

Olhei para as minhas mãos e contei.

Onze.

Contei de novo. Dez. Contei uma terceira vez, me perdi no meio e tive que recomeçar.

— Sabia que, quando você está sonhando, não consegue contar os dedos? — Amara disse baixinho. 

— Seu cérebro não consegue manter o número parado. Ele fica mudando.

Olhei para as mãos de novo. A contagem saía errada de um jeito que eu não conseguia explicar.

Parte de mim quis dizer que ela tinha pirado. Contei meus dedos de novo.

— E aquelas coisas que vêm à noite? — perguntei.

— Elas só existem aqui. Nesta camada.

— E as pessoas que elas matam?

— Morrem aqui e não voltam.

Pensei na Priya. Em como eu não tinha pensado nela nem uma vez desde aquela primeira manhã. Em como o celular dela ainda estava no beliche e nenhuma de nós tinha tocado nele, nem falado o nome dela desde então.

— Amara. Se a gente estiver sonhando o tempo todo... — Parei. — Onde estão os nossos corpos?

Ela não respondeu de imediato.

— O que quer que esteja acontecendo com os nossos corpos no mundo real está vazando para o sonho — disse ela, por fim. — A mente faz isso. Quando o corpo está em perigo, ele não desliga simplesmente. Ele traduz. Ele transforma o que está acontecendo em algo que o cérebro sonhando consiga processar. — Ela me olhou. — Aquelas coisas que vêm à noite... acho que são a versão do sonho para algo que está realmente acontecendo com a gente agora. Em algum lugar real. E a fome que sentimos. O jeito que nossos corpos parecem errados. Isso é real também. São nossos corpos mandando informação pelo único canal que sobrou.

— Então as que morrem aqui... — eu disse.

— Algo está alcançando elas no mundo real — disse ela. — E o sonho é como estamos descobrindo.

Levamos isso para a Sera.

Ela ouviu tudo sem interromper. Quando a Amara terminou, a Sera ficou em silêncio por um longo tempo e eu olhei para o rosto dela, mas não consegui ler nada.

— Conte seus dedos — eu disse.
Sera olhou para mim. Depois olhou para as próprias mãos. Algo mudou na expressão dela e sumiu antes que eu pudesse identificar. Ela não contou.
Ela pegou o caderno, abriu numa página logo no início e colocou na mesa.

— Tenho mantido uma lista — disse ela. — Cada nome que consegui lembrar. Cada mulher que passou por aqui. — Ela virou para nós. Quarenta e sete nomes enchiam a página com uma letra pequena e cuidadosa. — Eu não reconheço um único nome desta lista, exceto os de quem ainda está aqui e o da Priya. — Ela fez uma pausa. — Eu mesma escrevi tudo isso. Eu sei que escrevi. E não consigo lembrar de uma única delas.
Ninguém falou nada.

— Tem que ter um jeito de acordar de propósito — eu disse. — Se a gente se treinar para fazer isso durante o ataque. Quando eles vierem, a gente grita a palavra "acorda" dentro da cabeça, de novo e de novo, até algo quebrar. O problema é que não podemos abrir os olhos para conferir nada sem nos revelarmos. Então, escrever a palavra na pele é o último recurso, algo para olhar se gritar não funcionar. Mas no momento em que você abre o olho, você fica visível para eles. Então tem que ser a última coisa.

— Por que só durante o ataque? — perguntou Sera. — Se estamos sonhando agora, por que não podemos simplesmente acordar agora?

— Porque agora parece completamente real — disse Amara. — Não tem contra o que empurrar. O sonho está estável demais. Mas durante o ataque, o medo cria uma fenda entre as duas camadas. Esse é o único momento em que a borda fica acessível. É a mesma razão pela qual você consegue acordar de um pesadelo, mas quase nunca acorda de um sonho normal. A intensidade é o que abre a porta.
Sera ficou em silêncio por um bom tempo.

— No começo, a gente tentou lutar — disse ela. — Fazer barulho. Resistir. Toda vez que fazíamos isso, vinham mais deles. Mais rápido. Como se algo estivesse se ajustando. — Ela cruzou as mãos sobre a mesa. — Eu achava que eles estavam nos caçando. Não tenho mais tanta certeza.

Ninguém perguntou o que ela achava que era, então.
Escrevemos a palavra ACORDA no lado de dentro dos nossos pulsos esquerdos com caneta preta, por precaução. Amara passou os dias praticando, tentando descobrir como era segurar duas coisas ao mesmo tempo: o sonho e a consciência do sonho, para que, quando chegasse a hora, ela não se perdesse.

Duas noites depois, o alarme tocou e as luzes ficaram vermelhas.

Achei meu lugar entre os painéis. Encostei as costas na parede. Fechei os olhos. Segurei a palavra na mente e esperei.

Eles entraram rápido.

O frio bateu primeiro e depois o som deles se movendo pela sala, e o medo veio junto, puro e total, do tipo que não deixa espaço para mais nada. Gritei a palavra "acorda" na minha cabeça repetidamente e nada aconteceu. Do outro lado da sala, alguém estava sendo atacada, eu ouvia, e o grito que se seguiu foi cortado de um jeito que não vou descrever. Algo mudou. O chão tremeu. Mais sons. Mais de uma pessoa. O quarto estava desabando ao meu redor e eu ainda não estava acordando e não tive escolha, abri os olhos só um pouco para olhar para o meu pulso, as letras estavam se mexendo, e eu gritei a palavra de novo na minha cabeça com tudo o que eu tinha.

Nada aconteceu.

Algo estava vindo na minha direção. Rápido e ficando mais rápido. Meu tempo tinha acabado e eu ainda estava dormindo e ia morrer ali e...

A mão da Amara fechou no meu pulso de algum lugar que não era o sonho.

Frio. Real. Tremendo.

Eu estava acordada.

O ar viciado foi a primeira coisa que notei.

Abri os olhos.

Eram as mesmas paredes, mas detonadas, escuras e velhas. Metade das luzes queimadas. O resto jogava um brilho amarelo pálido sobre tudo, o que fazia a sala parecer algo abandonado no meio de um pensamento.

Havia cápsulas alinhadas nas paredes, organizadas em fileiras pelo chão. Cada uma larga o suficiente para um corpo. Tubos entrando e saindo. A maioria dos monitores acima delas estava apagada. Alguns ainda funcionavam com a pouca energia que restava.

Algumas cápsulas tinham rachado sozinhas. O que estava acontecendo dentro daquelas já rolava há muito tempo antes de a gente acordar, e o que quer que tivesse chegado nelas ainda não tinha nos ouvido, ainda estava focado no que já estava na frente dele, e eu desviei o olhar antes de ver mais do que já tinha visto.

Amara estava do meu lado, com a mão ainda no meu braço, mal conseguindo ficar de pé. Ela estava a pessoa mais magra que eu já tinha visto. Os olhos estavam encovados e "acordados" de um jeito que parecia ter custado tudo o que restava dela.
Olhei para mim mesma e não reconheci o que vi.
A pele dos meus braços estava flácida. Ossos que eu nunca tinha visto antes. Toquei meu rosto e senti o crânio perto demais da superfície, e entendi de uma vez o que a fome estava nos dizendo o tempo todo.

Ao nosso redor, as outras cápsulas estavam seladas. As mulheres ainda lá dentro, ainda apagadas, olhos fechados, monitores rodando. Ainda na instalação, ainda se escondendo da luz vermelha, ainda acreditando que o sonho era o único mundo que existia. Fomos até a cápsula mais próxima e tentamos abrir, mas não conseguimos. Não tínhamos força e não havia nenhum mecanismo por fora que a gente achasse, e o que quer que estivesse na sala com as cápsulas rachadas começou a notar que algo mais estava acordado no prédio. Ouvimos a coisa se ajustando.
Não tinha tempo. Não tinha jeito. A única coisa que podíamos fazer era sair e voltar com ajuda ou com alguma coisa, e esse foi o pensamento que segurei enquanto Amara me puxava para a saída. Tinha um carro lá fora, estacionado com as chaves dentro. Entramos o mais rápido que nossos corpos permitiram. Eu dirigi porque as mãos da Amara não paravam de tremer.

Não sei exatamente quando começou a acontecer.

Não foi em um momento só. Foi como ver uma fotografia desbotar enquanto você a segura. Num minuto eu ainda via as cápsulas claramente; no seguinte, quando buscava a imagem, ela estava mais embaçada. Os detalhes ainda estavam lá, mas tinham parado de parecer algo que aconteceu comigo e começaram a parecer algo que eu ouvi falar uma vez.

Quando chegamos na rodovia principal, eu não saberia dizer como era o interior daquele prédio.
Quando o céu começou a ficar cinza, eu não saberia dizer por que meus braços estavam daquele jeito, ou por que minhas mãos não paravam de tremer, ou por que toda vez que eu olhava para a Amara sentia algo próximo do luto, mas não conseguia achar a que ele pertencia.

Eu sabia que algo tinha acontecido. Conseguia sentir o contorno da coisa. Mas quando tentava pegar os detalhes, não tinha nada lá.
De repente, percebi que estava correndo demais no carro e não lembrava por que estava com tanta pressa. Achei o mapa no banco de trás. Três rotas marcadas com caneta vermelha. Duas delas riscadas com um X com a minha própria letra.

Eu não lembrava de ter riscado aquilo.

Fiquei olhando para os X por um longo tempo e senti algo atrás de uma porta que eu não queria abrir; então dobrei o mapa e o guardei.

A mão da Amara tocou meu braço.

Eu olhei para frente.

Lá na frente na rodovia, onde a estrada fazia a curva e a linha das árvores acabava, uma luz branca vinha de algum lugar debaixo da terra.

Estável. Elétrica.

Olhei para a luz.

Algo em mim disse não. Algo em mim disse para seguir em frente. Tentei segurar esse sentimento, mas ele já tinha ido embora. Olhei para as minhas mãos e parecia que eu tinha dois dedos a mais por algum motivo. Rapidamente, culpei o cansaço.

Amara e eu olhamos uma para a outra e entramos.

Bola Azul

Em teoria, digerir meus pensamentos e transformá-los neste texto pode ser uma das piores decisões que eu poderia tomar. Mas, se eu não digerir meus pensamentos acordado, temo que um dia isso aconteça enquanto eu estiver dormindo. Vou manter minha escrita curta, por mim mesmo.

Minha vida não foi fácil. Partindo do pressuposto de que meus sentimentos e minhas memórias não estão mentindo para mim, sobrevivi a uma quantidade enorme de trauma familiar.

Mas esta não é a história sobre isso, ou pelo menos não totalmente.

Por causa desse trauma, eu tenho pouquíssimas lembranças que consigo recuperar ativamente de antes dos 11 anos de idade, mais ou menos. As memórias que lembro não são sequenciais, e eu só consigo estimar de qual período de anos elas podem ser. Todas, exceto a primeira lembrança que consigo recordar da minha vida. Essa lembrança vem de um sonho. Um sonho curto e vívido que acredito ter sido o meu primeiro sonho.

O sonho começa do meu ponto de vista, descendo as escadas do porão da casa dos meus pais. Eu já estava a meio caminho da escada no início do sonho. Lembro claramente da escuridão da escadaria e da sensação de longas tiras do carpete roçando minhas pernas enquanto eu descia. Cheguei ao fim da escada e agora estava no porão acabado. Vi luz vindo da curva ao redor da escada. Minha visão começou a contornar a parede para o outro lado, como se eu tivesse ficado sem corpo. Uma janela do porão, lá no alto do teto, lançava um retângulo de luz sobre um trecho de carpete em uma área aberta do porão, onde minha visão ficou presa. Meu olhar seguiu as partículas de poeira flutuando até que notei algo no meio da luz. Era pequeno, menor do que eu, mas eu não conseguia distinguir o que era. Minha visão avançou só alguns centímetros em direção à silhueta antes de eu conseguir entender o que estava vendo.

Uma bola peluda azul-escura, que parecia coberta por cabelos longos ou pelos de verdade tingidos de azul. Tinha dois olhos ovais, fundos nas órbitas, encarando sem piscar. Os pelos faziam os olhos parecerem raivosos. Um nariz roxo e achatado, no meio do rosto, começou a se contrair enquanto as pupilas tremiam. Quero dizer que ela tinha uma boca, mas se eu tento imaginar a boca sozinha, não consigo. No sonho, porém, eu não tive tempo suficiente para entender o que estava vendo. Fiquei congelado de medo, trocando olhares com a bola azul. De repente, minha visão foi instantaneamente e por completo tomada pelo rosto da bola azul, e as sensações mais horrivelmente dolorosas e aterrorizantes tomaram conta de mim. É difícil explicar como isso era, mas, se eu tentasse, diria que meus sentidos foram esmagados. Meu corpo inteiro ficou tomado por agulhadas intensas, enquanto um som incrivelmente alto e inconcebível me petrificava. Eu tive de passar por isso vendo apenas o rosto da bola azul.

Essa é a última coisa de que me lembro do sonho. Não lembro do que aconteceu quando acordei. Essa não foi a última vez que encontrei a bola azul. De vez em quando eu tinha sonhos que continham a bola azul. Toda vez que a bola azul aparecia, mesmo que eu conseguisse fugir, os sonhos terminavam do mesmo jeito. A única diferença era que a tortura que eu tinha de suportar parecia durar mais a cada vez que isso acontecia.

Quando eu já tinha idade suficiente para falar, lembro de contar, tremendo, aos meus pais sobre meus sonhos com a bola azul. Minha mãe, com uma leve carranca no rosto, olhou para meu pai por um momento antes de se virar de novo e abrir a boca para falar.

“Jogamos a bola azul fora. Quando você se comportava mal, a gente pegava a bola azul e sacudia na sua frente.” Ela disse com suavidade e calma. “Provavelmente não deveríamos ter feito isso. Não era algo que pais deviam fazer. Está tudo bem. Se ainda tivéssemos a bola azul hoje em dia, você acharia hilário.”

Eu era jovem demais para entender o quão doentias eram as palavras dela. Continuei tendo pesadelos com a bola azul até chegar à puberdade. Os sonhos desapareceram e minhas lembranças da bola azul também. Isso foi até uma noite antes da minha corrida de atletismo na oitava série.

Minha mãe e eu estávamos vendo os Muppets na televisão antes de dormir. Alguma coisa na aparência dos Muppets deve ter disparado algo na minha mãe, porque ela mencionou a bola azul de repente. Nem lembro o que ela disse, mas resumiu-se a me lembrar de como era “engraçado”. Ela me mandou para a cama com melatonina naquela noite para que eu dormisse o suficiente para a competição. Que erro do caralho.

Entrei em um sonho que me colocava no centro de uma casa de madeira. O chão e as paredes eram feitos de madeira marrom-escura, com as tábuas se estendendo até cada parede do cômodo. A sala escura estava abarrotada de objetos aleatórios que eu não conseguia nem processar. Havia corredores à minha esquerda e à direita. Escolhi um deles ao acaso e me esgueirei pelo corredor, sentindo a madeira gemer sob meus pés. A saída do corredor levava a outro cômodo, semelhante ao primeiro, mas não igual. Andei por aquela casa vazia assim por o que pareceu ser uma noite inteira de descanso. A casa era claramente não euclidiana e se estendia por uma distância muito maior do que uma casa deveria se estender.

Eventualmente, cheguei a um cômodo que parecia ter um abismo sem fim no centro, com uma tábua de madeira atravessando-o como uma ponte improvisada. Quanto mais tempo eu ficava no cômodo, maior o buraco parecia ficar. Isso continuou até o buraco alcançar de parede a parede. A única forma de atravessar agora era a tábua. A tábua tinha quase o tamanho do meu pé. Aproximei-me dela e fiquei olhando, pensando na travessia. Apoiei o pé esquerdo na tábua e encarei o abismo, sentindo pressão na cabeça enquanto erguia a outra perna. Tremendo, posicionei o pé levantado acima do ponto onde eu queria pisar. Olhei de novo para o buraco, e o buraco pareceu ficar maior outra vez.

Já sem sentir meu corpo, percebi que o buraco não estava realmente ficando maior; minha visão é que estava descendo em direção a ele. Tento pular, voar, nadar ou abrir um menu de pausa para sair da situação. Não posso fazer nada além de assistir enquanto qualquer vestígio de luz vai lentamente desaparecendo conforme sou abaixado no buraco. Passa-se um tempo incalculável em que eu só consigo ver escuridão e neve visual. Comecei a distinguir uma forma se aproximando de mim. À medida que eu chegava mais perto, o movimento da minha visão acelerava. Antes que eu percebesse, eu estava em pé sobre a forma que vi. Mais tábuas de chão, formando um quadrado perfeito.

Não havia paredes ali. Além das bordas do piso havia apenas o vazio puro. Eu conseguia ver esse chão como se estivesse iluminado por luz normal. Havia um silêncio ensurdecedor naquele lugar. Passei a mão para fora da borda do chão. Era mesmo um abismo sem fim. Puxei a mão de volta e senti meu olhar ser atraído para dois olhos perversos, muito abaixo, na escuridão. Reconheci aqueles olhos instantaneamente e comecei a pular com toda a força que podia para sair daquele lugar. Comecei a subir voando, repetindo o movimento de saltar. Olhei rapidamente para baixo e já não conseguia ver o piso quadrado, mas ainda conseguia ver os olhos. Entrei em pânico e me debati para cima com toda a força que pude. Eu conseguia ver o abismo inicial do qual havia saltado enquanto estendia a mão. Minha subida desacelera à medida que me aproximo e, a um braço de distância de alcançar a abertura, sou incapaz de subir mais. A abertura começou a se afastar de mim enquanto eu caía na direção dos olhos, que ficavam cada vez mais perto, mais perto, mais perto, e então eu já não conseguia ver nem sentir mais nada. Minha visão foi instantaneamente tomada pela bola azul, enquanto todos os meus sentidos se eletrificavam de horror e dor. Um desconforto crescente e interminável tomou meu corpo, e eu podia sentir que estava me partindo por causa do estímulo. Eu estava preso encarando a bola azul, incapaz de escapar daquela tortura. A tortura começou a parecer mais longa do que todo o sonho até aquele ponto. Na verdade, não sei quanto tempo aquilo durou. Parecia que eram muitas, muitas noites de sono.

Em algum momento, eu acordei de novo. Fiquei destruído por causa desse sonho e continuei com um desconforto corporal moderado pelos dias seguintes. O tempo passou, e minhas lembranças desse sonho, e da bola azul, desapareceram outra vez.

Mas hoje, no trabalho, eu estava organizando brinquedos no corredor infantil. Peguei uma caixa de brinquedos de apertar. Daqueles que fazem bolhas quando você espreme. Tirei um azul com uma cara boba e pequenos tentáculos elásticos. Isso desencadeou a lembrança da bola azul. Agora estou deitado na cama, apavorado com a possibilidade de ter outro sonho em que a bola azul me torture por semanas.

Minha única esperança é que falar sobre isso possa me ajudar a deixar tudo isso para trás, mas só vou saber amanhã de manhã.

Minha vida não foi fácil. Partindo do pressuposto de que meus sentimentos e minhas memórias não estão mentindo para mim, sobrevivi a uma quantidade enorme de trauma familiar.

Mas esta não é a história sobre isso, ou pelo menos não totalmente.

Por causa desse trauma, eu tenho pouquíssimas lembranças que consigo recuperar ativamente de antes dos 11 anos de idade, mais ou menos. As memórias que lembro não são sequenciais, e eu só consigo estimar de qual período de anos elas podem ser. Todas, exceto a primeira lembrança que consigo recordar da minha vida. Essa lembrança vem de um sonho. Um sonho curto e vívido que acredito ter sido o meu primeiro sonho.

O sonho começa do meu ponto de vista, descendo as escadas do porão da casa dos meus pais. Eu já estava a meio caminho da escada no início do sonho. Lembro claramente da escuridão da escadaria e da sensação de longas tiras do carpete roçando minhas pernas enquanto eu descia. Cheguei ao fim da escada e agora estava no porão acabado. Vi luz vindo da curva ao redor da escada. Minha visão começou a contornar a parede para o outro lado, como se eu tivesse ficado sem corpo. Uma janela do porão, lá no alto do teto, lançava um retângulo de luz sobre um trecho de carpete em uma área aberta do porão, onde minha visão ficou presa. Meu foco seguiu as partículas de poeira flutuando até que notei algo no meio da luz. Era pequeno, menor do que eu, mas eu não conseguia distinguir o que era. Minha visão avançou só alguns centímetros em direção à silhueta antes de eu conseguir entender o que estava vendo.

Uma bola peluda azul-escura, que parecia coberta por cabelos longos ou pelos de verdade tingidos de azul. Tinha dois olhos ovais, fundos nas órbitas, encarando sem piscar. Os pelos faziam os olhos parecerem raivosos. Um nariz roxo e achatado, no meio do rosto, começou a se contrair enquanto as pupilas tremiam. Quero dizer que ela tinha uma boca, mas se eu tento imaginar a boca sozinha, não consigo. No sonho, porém, eu não tive tempo suficiente para entender o que estava vendo. Fiquei congelado de medo, trocando olhares com a bola azul. De repente, minha visão foi instantaneamente e por completo tomada pelo rosto da bola azul, e as sensações mais horrivelmente dolorosas e aterrorizantes tomaram conta de mim. É difícil explicar como isso era, mas, se eu tentasse, diria que meus sentidos foram esmagados.

Meu corpo inteiro ficou tomado por agulhadas intensas, enquanto um som incrivelmente alto e inconcebível me petrificava. Eu tive de passar por isso vendo apenas o rosto da bola azul.

Essa é a última coisa de que me lembro do sonho. Não lembro do que aconteceu quando acordei. Essa não foi a última vez que encontrei a bola azul. De vez em quando eu tinha sonhos que continham a bola azul. Toda vez que a bola azul aparecia, mesmo que eu conseguisse fugir, os sonhos terminavam do mesmo jeito. A única diferença era que a tortura que eu tinha de suportar parecia durar mais a cada vez que isso acontecia.

Quando eu já tinha idade suficiente para falar, lembro de contar, tremendo, aos meus pais sobre meus sonhos com a bola azul. Minha mãe, com uma leve carranca no rosto, olhou para meu pai por um momento antes de se virar de novo e abrir a boca para falar.

“Jogamos a bola azul fora. Quando você se comportava mal, a gente pegava a bola azul e sacudia na sua frente.” Ela disse com suavidade e calma. “Provavelmente não deveríamos ter feito isso. Não era algo que pais deviam fazer. Está tudo bem. Se ainda tivéssemos a bola azul hoje em dia, você acharia hilário.”

Eu era jovem demais para entender o quão doentias eram as palavras dela. Continuei tendo pesadelos com a bola azul até chegar à puberdade. Os sonhos desapareceram e minhas lembranças da bola azul também. Isso foi até uma noite antes da minha corrida de atletismo da oitava série.

Minha mãe e eu estávamos vendo os Muppets na televisão antes de dormir. Alguma coisa na aparência dos Muppets deve ter disparado algo na minha mãe, porque ela mencionou a bola azul de repente. Nem lembro o que ela disse, mas resumiu-se a me lembrar de como era “engraçado”. Ela me mandou para a cama com melatonina naquela noite para que eu dormisse o suficiente para a competição. Que erro do caralho.

Entrei em um sonho que me colocava no centro de uma casa de madeira. O chão e as paredes eram feitos de madeira marrom-escura, com as tábuas se estendendo até cada parede do cômodo. A sala escura estava abarrotada de objetos aleatórios que eu não conseguia nem processar. Havia corredores à minha esquerda e à direita. Escolhi um deles ao acaso e me esgueirei pelo corredor, sentindo a madeira gemer sob meus pés. A saída do corredor levava a outro cômodo, semelhante ao primeiro, mas não igual. Andei por aquela casa vazia assim por o que pareceu ser uma noite inteira de descanso. A casa era claramente não euclidiana e se estendia por uma distância muito maior do que uma casa deveria se estender.

Eventualmente, cheguei a um cômodo que parecia ter um abismo sem fim no centro, com uma tábua de madeira atravessando-o como uma ponte improvisada. Quanto mais tempo eu ficava no cômodo, maior o buraco parecia ficar. Isso continuou até o buraco alcançar de parede a parede. A única forma de atravessar agora era a tábua. A tábua tinha quase o tamanho do meu pé. Aproximei-me dela e fiquei olhando, pensando na travessia. Apoiei o pé esquerdo na tábua e encarei o abismo, sentindo pressão na cabeça enquanto erguia a outra perna. Tremendo, posicionei o pé levantado acima do ponto onde eu queria pisar. Olhei de novo para o buraco, e o buraco pareceu ficar maior outra vez.

Já sem sentir meu corpo, percebi que o buraco não estava realmente ficando maior; minha visão é que estava descendo em direção a ele. Tento pular, voar, nadar ou abrir um menu de pausa para sair da situação. Não posso fazer nada além de assistir enquanto qualquer luz que existisse vai lentamente desaparecendo enquanto sou abaixado no buraco. Passa-se um tempo incalculável em que eu só consigo ver escuridão e neve visual. Comecei a distinguir uma forma se aproximando de mim. À medida que eu chegava mais perto, o movimento da minha visão acelerava. Antes que eu percebesse, eu estava em pé sobre a forma que vi. Mais tábuas de chão, formando um quadrado perfeito.

Não havia paredes ali. Além das bordas do piso havia apenas o vazio puro. Eu conseguia ver esse chão como se estivesse iluminado por luz normal. Havia um silêncio ensurdecedor naquele lugar. Passei a mão para fora da borda do chão. Era mesmo um abismo sem fim. Puxei a mão de volta e senti meu olhar ser atraído para dois olhos perversos, muito abaixo, na escuridão. Reconheci aqueles olhos instantaneamente e comecei a pular com toda a força que podia para sair daquele lugar. Comecei a subir voando, repetindo o movimento de saltar. Olhei rapidamente para baixo e já não conseguia ver o piso quadrado, mas ainda conseguia ver os olhos. Entrei em pânico e me debati para cima com toda a força que pude. Eu conseguia ver o abismo inicial do qual havia saltado enquanto estendia a mão. Minha subida desacelera à medida que me aproximo e, a um braço de distância de alcançar a abertura, sou incapaz de subir mais. A abertura começou a se afastar de mim enquanto eu caía na direção dos olhos, que ficavam cada vez mais perto, mais perto, mais perto, e então eu já não conseguia ver nem sentir mais nada. Minha visão foi instantaneamente tomada pela bola azul, enquanto todos os meus sentidos se eletrificavam de horror e dor. Um desconforto crescente e interminável tomou meu corpo, e eu podia sentir que estava me partindo por causa do estímulo. Eu estava preso encarando a bola azul, incapaz de escapar daquela tortura. A tortura começou a parecer mais longa do que todo o sonho até aquele ponto. Na verdade, não sei quanto tempo aquilo durou. Parecia que eram muitas, muitas noites de sono.

Em algum momento, eu acordei de novo. Fiquei destruído por causa desse sonho e continuei com um desconforto corporal moderado pelos dias seguintes. O tempo passou, e minhas lembranças desse sonho, e da bola azul, desapareceram outra vez.

Mas hoje, no trabalho, eu estava organizando brinquedos no corredor infantil. Peguei uma caixa de brinquedos de apertar. Daqueles que fazem bolhas quando você espreme. Tirei um azul com uma cara boba e pequenos tentáculos elásticos. Isso desencadeou a lembrança da bola azul. Agora estou deitado na cama, apavorado com a possibilidade de ter outro sonho em que a bola azul me torture por semanas.

Minha única esperança é que falar sobre isso possa me ajudar a deixar tudo isso para trás, mas só vou saber amanhã de manhã.

sábado, 2 de maio de 2026

Olhos no Milharal

Eu cresci numa cidade pequena de umas setecentas pessoas, no norte do estado de Nova York. Pra quem não conhece a área ao norte dos boroughs, é na maior parte selvagem: vales e fazendas — e, claro, a população esparsa entre tudo isso.

Pra contextualizar: minha antiga casa ficava à beira da U.S. Route 20, que é a estrada mais longa dos Estados Unidos; vai de Boston, Massachusetts, até Newport, Oregon — cortando Nova York de leste a oeste. O tráfego lá sempre foi intenso, mesmo com a cidade sendo muito rural. Do outro lado da casa havia um milharal que se estendia por milhas.

Os acontecimentos que vou contar aconteceram muitos anos atrás. Acredito que eu devia ter pouco mais de uma dezena de anos quando rolou. Eu não tinha muitos amigos na infância, mas todo mundo se conhecia; ninguém era um estranho. No verão a gente dormia sempre com a porta da frente aberta. Era assim que seguro parecia ser lá em casa; nada jamais faria minha família ou eu nos sentirmos inseguros. Quero deixar claro que o que vou contar não tem correlação alguma com essas coisas.

Um amigo meu estava aqui em casa, e era um dia quente de agosto. Se você cresceu em terras agrícolas — especialmente em milharais — sabe que as plantas de milho liberam muita vapor d’água pra se refrescar no calor; então estava abafado; o ar era pesado e pegajoso. Por privacidade, vou chamar meu amigo de Matt. A gente era bem próximo quando criança e frequentava as casas um do outro. Estávamos nas férias de verão, e ele sugeriu acampar no meu quintal. Tínhamos um bom pedaço com árvores locust e pinheiros no quintal, e uma fogueira improvisada cercada por pedras.

Concordei e começamos a montar nosso acampamento. A maior parte do nosso equipamento tava guardada no sótão do nosso celeiro de gado. Não precisávamos de muito: barraca, cadeiras dobráveis e sacos de dormir. Tínhamos lenha de sobra; provavelmente daria pra noite toda. Enquanto eu desenterrava o resto das coisas, Matt achou dois gravetos e entalhou pontas com seu canivete pra gente tostar marshmallows e cachorros-quentes na fogueira.

Quando começamos, o sol já tinha se posto logo acima da copa das árvores, e a barraca ainda não estava armada. Matt e eu passamos uns dez minutos tentando montá-la com o pouco de luz que restava; sei que metemos tudo meio torto, mas ela permaneceu de pé. Acendemos o fogo com relativa facilidade e quase imediatamente começamos a assar os cachorros-quentes. Não lembro exatamente do que falamos, mas a noite era calma e silenciosa. Uma coisa a notar: à noite o tráfego na 20 some de um jeito incomum. Entre nossa conversa, os grilos e as rãs nas árvores, estava muito quieto.

O que aconteceu depois é meio borrão, mas algumas horas se passaram e as únicas fontes de luz eram a fogueira e a luz do alpendre da casa — que só iluminava parcialmente a entrada e um pedaço do quintal. Matt e eu estávamos cheios de hot dogs e marshmallows. Bocejei; ele também. Perguntei se ele tava pronto pra dormir, ele assentiu e esfregou os olhos. Só então, quando Matt se virou e foi pegar nosso balde d’água pra apagar o fogo que morria, ele congelou.

Não ouvi de primeira, mas na segunda vez que aconteceu senti o couro cabeludo arrepiar e as orelhas aguçarem pro som de algo mexendo lá dentro do milharal. Ficamos os dois petrificados, e eu não conseguia me livrar da sensação de que estávamos sendo observados de todas as direções. Nem um de nós falou nada. Olhando hoje, acho que estávamos apavorados demais pra nos mover, e eu não queria que minhas suspeitas fossem confirmadas. Aquela foi uma das raras vezes que eu implorei pra estar enganado.

O fogo já quase tinha se apagado por completo, mas eu via o Matt remexendo na mochila de dormir enquanto olhava pra direção do campo. A luz da fogueira era fraca demais pra gente enxergar alguma coisa. Depois do que pareceu uma eternidade, ele puxou uma lanterna da mochila e apertou o botão.

Olhos brilhantes. Tantas duplas de olhos brilhando em todas as direções, fixos em nós, que não reagiram quando ele iluminou na direção.

Nem preciso dizer: a gente largou o fogo, desmontou o acampamento e correu o mais rápido que pôde de volta pra casa. Infelizmente, eu tropecei em algo e torci o tornozelo num declive da grama, mas ignorei a dor que queimava até atravessarmos a porta e fechá-la na cara do noite. Passamos o resto da noite no meu quarto, encolhidos debaixo dos cobertores.

Na manhã seguinte, meu tornozelo ainda doía, mas não tanto quanto eu tinha temido. Mancava um pouco, mas dava pra andar. Matt e eu voltamos pro nosso suposto acampamento e encontramos tudo espalhado pelo quintal. A comida que não tínhamos guardado tinha sumido.

No fim do dia, meus pais me disseram que uma grande matilha de coiotes invadiu o pasto de um vizinho fazendeiro e, na noite anterior, matou e devorou um bezerro. Eu nunca teria imaginado que uma matilha de coiotes fizesse uma coisa daquelas, mas não é impossível. Me faz pensar no que poderia ter acontecido se Matt e eu tivéssemos demorado mais pra correr.

Ainda sinto arrepios quando penso nisso.
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