domingo, 2 de agosto de 2026

Mantenha-se afastado da cabana na floresta

Acho que nunca vou saber por que Jim sugeriu essa viagem de acampamento para mim.

Ele era apaixonado por acampar no meio do mato; eu, que nunca tinha dormido em nada além de um colchão grosso, aceitei a ideia por pura gentileza, sem perceber o alcance e a intensidade da viagem que ele planejara. Ele imaginava algo simples: nada além dos sacos de dormir, uma barraca e ração limitada de carne seca — mais o que conseguíssemos caçar ou pescar na floresta —, tudo instalado a vários quilômetros de qualquer sinal de civilização. Como se isso não bastasse, ele marcou a viagem para o fim de novembro e começo de dezembro, garantindo assim mais um obstáculo: o clima severo.

Toda manhã acordávamos, arrumávamos nossas coisas e nos aprofundávamos ainda mais na floresta, onde Jim montava o acampamento de novo. Eu passava a maior parte do dia encolhido no saco de dormir, lendo meu livro, enquanto Jim explorava a mata ou pescava e preparava o jantar.

Os problemas começaram no fim da viagem, quando estávamos a caminho de sair da floresta. Fomos surpreendidos por uma tempestade de neve súbita e inesperada — daquelas em que a gente protege o rosto e semicerram os olhos por causa do vento cortante. Nevascas são raras nessa região dos Estados Unidos, especialmente com essa intensidade. Por isso, Jim provavelmente não estava preparado. Mesmo assim, ele seguia na frente, embora — e ele não queria admitir — ficasse claro que a tempestade tinha desorientado ele por completo.

— Não consigo continuar, cara — falei, perguntando a mim mesmo como deixei Jim me convencer a fazer aquela viagem. — Preciso sentar, ou algo assim.

— Precisamos manter o ritmo — Jim respondeu com um sorriso otimista. — Hipotermia e geladura acontecem rápido com essa temperatura! Tenho certeza de que vamos sair da floresta a qualquer momento.

Depois de mais meia hora caminhando pela neve que não parava de subir, Jim ainda se recusava a admitir que estávamos perdidos. Ele continuava andando, confiante como nunca. Foi durante essa marcha terrível que encontramos uma clareira. Não era uma clareira que tivéssemos atravessado antes; senão, teríamos notado a velha cabana de madeira no meio dela.

Era o que restava de uma casa antiga. A madeira estava escura de tantos anos de decomposição. Todas as janelas estavam quebradas. Nem sequer havia uma porta. Parecia abandonada. Olhei para Jim. Ele sabia exatamente no que eu estava pensando. Olhou para a cabana, depois virou a cabeça para a floresta atrás de nós, ponderando as opções. Não esperei a resposta dele. Comecei a andar em direção à cabana, ouvindo o estalar da neve até os tornozelos a cada passo. No momento em que cruzei a soleira, senti a mão de Jim apertar com força a minha.

— Espera! — ele disse em voz baixa. — E se for propriedade de alguém?

Puxei minha mão livre do aperto dele.

— TEM ALGUÉM AÍ? — gritei da entrada.

A única resposta foi meu eco batendo nas paredes cobertas de mofo.

— Parece vazio pra mim — falei.

Jim soltou um suspiro resignado e olhou de novo para a floresta. Ele tinha sido humilhado; eu sabia disso muito bem. Ao entrar na cabana, ele admitiu que a natureza o tinha vencido, e não o contrário. Não consegui encontrar palavras de consolo; simplesmente não sabia o que dizer.

Atravessamos a entrada e entramos no que parecia ser uma antiga sala de estar. A cada passo, as tábuas do chão rangiam, como se o próprio piso reclamasse de ser pisado. Fomos mais adiante e encontramos uma cozinha, um banheiro e um quarto com uma cama king-size.

— Sei onde vamos passar a noite, acho — falei, olhando para a cama.

Olhei para Jim. Sua expressão era fria. Mais fria que a tempestade.

— Não vamos dormir nessa coisa hoje à noite — ele disse. — Vamos dormir no chão.

— Por quê?

— Estamos acampando! — A irritação e a frustração eram claras na voz dele. — Não podemos simplesmente dormir numa cama. Isso não é coisa de acampador.

Entendi. Era a tentativa dele de se agarrar à ideia de que ainda estávamos acampando. Uma tentativa de convencer a si mesmo de que não tinha desistido, negando a nós dois uma noite confortável na cama.

— Você precisa relaxar, cara.

— Relaxar?! — As rugas na testa de Jim se aprofundaram. — Trabalhei duro pra caramba pra você ter uma boa experiência nessa viagem… e é assim que você me recompensa? Jogando todo meu esforço fora?

— Cara, vamos lá — suspirei. — Você sabe que não foi isso que eu quis dizer. Só estou exausto depois desses dias todos.

— Pffft. Exausto? — Jim resmungou. — Exausto de quê, exatamente? — Ele suspirou. — Quer saber? Dorme aqui. Eu durmo na sala, no chão.

— Tem certeza? — perguntei, sentindo um peso na consciência.

— Sim, está tudo bem! — afirmou, embora o tom dissesse o contrário. — Por que não estaria?

Ele se virou e saiu do quarto, resmungando sozinho enquanto pisava nas tábuas que rangiam.

Pela porta aberta, eu o via estender o saco de dormir no chão da sala. Não gostei de vê-lo chateado.

Talvez eu devesse ter conversado com ele. Talvez devesse ter dormido ao lado dele no chão naquela noite. Talvez as coisas tivessem terminado diferente. Às vezes penso nisso. Mas qual é o sentido de lamentar uma oportunidade que nunca aproveitei?

Estendi meu próprio saco de dormir no lado direito da cama e me enfiei dentro, deixando o braço direito pra fora por conforto. Olhei pela janela quebrada. A tempestade ainda rugia lá fora. O vento uivava como um lobo entre os troncos nus da floresta, e a neve caía como açúcar de confeiteiro.

Apoiei a cabeça no colchão. Imediatamente, minhas pálpebras pesaram como chumbo. Embora ainda houvesse algumas horas de luz do dia, caí num sono profundo.

Lembro de ter acordado em algum momento com o rangido das tábuas. Abri os olhos. A visão estava turva e as pálpebras ardiam de cansaço. Era noite alta, e a tempestade continuava lá fora. A única luz no escuro do quarto vinha dos raios de lua que entravam pela janela quebrada. Vi uma silhueta parada na porta.

— Ei, Jim… — murmurei, lutando contra o sono para manter os olhos abertos.

Não houve movimento na porta. Só ouvi uma respiração pesada.

— Escuta, cara… — continuei, quase dormindo no meio da frase. — Desculpa por ter sido tão inútil essa semana… Acho que essa viagem não é pra mim.

Ainda assim, nada.

— Por favor, só vem deitar, cara. — Baixei a cabeça de volta no colchão e fechei os olhos. — Acho que você merece.

Ouvi as tábuas rangerem e senti a cama se mexer do lado esquerdo. Fiquei surpreso por ele ter aceitado a oferta depois de tanto alarde. Senti um aperto firme na minha mão direita. A mão dele estava tão gelada que quase a retirei no susto.

— Droga, cara! — murmurei. — Você deve estar congelando, hein?

Nenhuma resposta. Não me importei. Estava cansado demais. Só continuei segurando a mão dele.

Quando acordei de novo, foi mais uma vez por causa do rangido das tábuas. Abri os olhos, finalmente descansado. O sol brilhava pela janela quebrada. Olhei para o lado esquerdo: a cama estava vazia. Olhei o relógio; tinha dormido mais de dezesseis horas. Comecei a me perguntar por que Jim não tinha me acordado. Então senti uma ardência na palma da mão. Olhei e vi uma marca de queimadura — uma geladura, exatamente.

— JIM?! — gritei. — PODE VIR AQUI?

Só ouvi meu eco. Comecei a ficar nervoso. Algo estava muito errado.

Saí do saco de dormir e fui até a sala de estar. Jim estava deitado de bruços, com o rosto no chão. O saco de dormir dele estava jogado ao lado.

— Jim, por que você não me acordou? — falei, olhando para ele.

Ele não respondeu. Aproximei-me, cada vez mais tenso. O pescoço dele estava torcido num ângulo estranho — certamente não era um ângulo normal para um pescoço. Os dedos estavam pretos como ébano. Segurei-o pelos ombros.

— Jim, o que aconteceu? Você caiu?

Ele estava gelado e duro como uma tábua. Em pânico, tentei virá-lo para ver o que havia de errado. Então veio o som horrível — exatamente como abrir o zíper de uma mala velha. Consegui virá-lo de costas, só para descobrir que toda a pele do rosto ainda estava congelada, colada no chão onde ele havia deitado.

Recuei, horrorizado, diante dos músculos e tendões expostos. Os olhos dele estavam vazios. Mesmo com os danos no rosto, dava para ver que a mandíbula estava completamente quebrada. A combinação do frio extremo com o rigor mortis tinha distorcido a expressão dele num grito agonizante. Ele estava morto, duro como uma tábua.

Me levantei, dei alguns passos para trás, sem tirar os olhos do rosto dele. Não entendia. O que tinha acontecido? Eu não tinha ouvido ele andar há pouco? Senti tontura. Podia sentir fisicamente o grito preso na garganta. Então veio um embrulho no estômago, e caí de joelhos, vomitando no chão. Rastejei até a entrada da cabana, desesperado por ar fresco.

Foi quando percebi, já na soleira da porta.

Durante a noite, nossas próprias pegadas tinham sido cobertas pela nevasca — não deveriam mais ser visíveis.

Então por que ainda dava para distinguir uma única pegada nova de sapato na neve? E por que ela se afastava da cabana em direção à floresta?

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