segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Meu amigo morreu em uma pegadinha horrível. Eu queria nunca ter descoberto o que deu errado...

As piores mortes, na minha opinião, são as acidentais.

Eu li na semana passada sobre uma mãe que se virou em cima do bebê recém-nascido e o sufocou. Todo ano, crianças pequenas morrem esquecidas em carros quentes. E aí você ouve histórias de moleques brincando, tipo um garoto que se escondeu em um freezer desligado e se asfixiou durante o esconde-esconde.

Dá pra imaginar? Dá pra imaginar ser a pessoa responsável por qualquer uma dessas situações?

Pra mim, isso é muito mais aterrorizante do que qualquer coisa paranormal. Eu prefiro mil vezes ser assombrada por um fantasma do que carregar a culpa de ter machucado alguém sem querer!

Meu marido, Wade, é o oposto total. Ele não liga pra acidentes, mas fica apavorado com filmes de terror sobre demônios ou fantasmas vingativos. Mas, como eu disse pra ele, nada disso é real, então por que ter medo? Ele rebate que acidentes não têm maldade, então não são tão assustadores quanto fantasmas assassinos que talvez sejam reais.

Acho que ele tem razão. Sobre a falta de maldade, não sobre os fantasmas que "talvez" sejam reais — eu sei que não são, porque se fossem, minha melhor amiga com certeza estaria me assombrando.

Acho que, de certa forma, ela está.

É que, toda vez que eu leio sobre uma pegadinha que deu errado... eu paro de respirar por um instante.

A culpa me sufoca. Depois de todos esses anos, eu ainda não sei se foi culpa minha. Nunca me processaram e meus amigos insistem que eu preciso parar de me culpar. Mas como? Como eu sigo em frente, sem saber se foi por causa de mim?

Rosa entrou na mala sozinha. Lakisha e eu ajudamos. A gente tava tudo bêbado, rindo pra caramba. Ela ia surpreender Bolin. Ela tinha uma queda enorme por ele.

Deixa eu voltar um pouco. Deixa eu tentar explicar.

A gente tava numa festa. Nosso grupo de amigos se conhecia há anos, e a gente alugou essa cabana. Eu, meu marido Wade — que na época era só o cara por quem eu babava —, os amigos dele Bolin, Tucker e JB. E as meninas que eram minhas melhores amigas — Lakisha, Rosa e Kay. Teve também uns outros amigos que passaram lá, que a gente conheceu mais cedo no dia enquanto andava de trilha — não lembro mais os nomes deles. O que eu lembro é que todo mundo bebeu pra caralho.

E a Rosa... ela tava na fase de paquera total.

Rosa era minha melhor amiga. Mas ela não era perfeita. Era tipo uma borboleta que pousa em toda flor. Uma verdadeira quebra-corações. Linda e intensa. Eu ficava um pouquinho com inveja da atenção que ela recebia, e ao mesmo tempo admirava pra cacete. Quem quer que estivesse com ela caía de pau, como se ela fosse o amor da vida da pessoa. Mas ela nunca se comprometia de verdade. Tava saindo de vez em quando com o JB, depois seduziu o Wade (o que foi uma sacanagem porque ela sabia que eu gostava dele). Até flertou com bi curiosidade com a Kay.

Agora, os olhos dela tavam no Bolin.

Não lembro de quem foi a ideia dela se esconder na mala — minha ou dela.

Toda a bagagem tava no porão porque era lá que os caras tinham largado quando chegamos na cabana. Lakisha falou algo tipo: "A mala do Bolin é grande o suficiente pra esconder um corpo!" E aí a Rosa — ou eu — teve a brilhante ideia de ela se esconder dentro. E a Rosa resolveu apimentar a pegadinha vestindo lingerie. Quando o Bolin pegasse a mala pro quarto dele e abrisse, ia encontrar uma surpresa sexy.

A gente foi burro, burro, burro. Nenhuma de nós tinha juízo. Ainda mais porque tava todo mundo meio alto.

Assim que a Rosa se espremeu lá dentro, reclamando que o cabelo dela tava preso no zíper, Lakisha e eu fomos encher o saco dos caras pra levarem as malas pros quartos. Lembro que o Bolin entregou a minha — eu tava ficando do lado de fora, numa barraca com a Kay. A cabana não tinha quarto pra todo mundo, e a gente queria dormir debaixo das estrelas. A Kay não fazia ideia da pegadinha e ficou confusa quando eu ficava cutucando o Bolin pra ele entrar e checar a mala dele (piscadela, piscadela). Depois que ele saiu, eu contei pra ela sobre a Rosa. E como a Kay tava sóbria de verdade, ela me disse pra ir dar uma olhada e garantir que a Rosa não tinha ficado presa lá.

Então eu fui checar pra ver se a mala ainda tava no pé da escada.

Pelo menos, acho que fui.

Mas eu tava bêbada.

Enquanto todo mundo tava sentado do lado de fora vendo fogos de artifício mais tarde, eu notei que o Bolin tava sumido e perguntei pro Wade onde ele tinha ido. O Bolin tinha subido pro quarto dele mais cedo. Como ele não voltou, Lakisha e eu achamos que a Rosa tava lá com ele e que a jogada da lingerie tinha colado. Na real, a gente ficou cochichando sobre isso a noite toda (baixinho, pra não deixar os caras com ciúmes).

De manhã, quando o Bolin desceu, Lakisha e eu perguntamos sobre a noite anterior, cheias de sorrisinho maroto. Ele parecia um completo perdido. Aí a Lakisha perguntou onde tava a Rosa e ele continuou perdido. Mas e a mala dele? Ele não tinha aberto? Ele disse que alguém tinha enfiado todas as roupas dele no armário, empilhadas. Ele não sabia por quê, achou que era pegadinha ou algo assim e nem tinha visto a mala.

"Então você nunca abriu?", perguntou a Lakisha.

O pavor brotou na minha barriga. Meu Deus, eu pensei. Meu Deus, meu Deus. A Lakisha tava contando pra ele como a gente tinha tirado as roupas dele e a Rosa tinha se escondido lá dentro pra surpreender ele de lingerie, e o Bolin ficou vermelho e disse que era gay. Gay? Mas a saída dele do armário mal registrou na minha cabeça porque cadê a Rosa? Ninguém sabia. A gente correu pra acordar todo mundo, torcendo pra alguém ter visto ela na noite anterior.

Meu Deus, meu Deus, meu Deus, eu chequei. Não chequei? Eu juro que chequei.

Orações passavam pela minha cabeça. Mas eu tava bêbada. Não tinha certeza se tinha checado mesmo. Desci pro porão...

... lá tava a mala, ainda enfiada no pé da escada.

Estava exatamente onde a gente tinha deixado quando fechamos o zíper com a Rosa dentro na noite anterior.

Ninguém queria abrir a mala. Os caras discutiram sobre quem tinha deixado ela lá. O JB disse que tinha levantado, mas notou o quão pesada tava e pediu pra outra pessoa levar. Cada um achava que o outro ia pegar. O Bolin nem pensou em checar porque achou as roupas empilhadas no armário.

Eu me envergonho de dizer, mas eu saí pra fora quando a Lakisha foi puxar o zíper. O Wade veio e se juntou a mim. Ele me disse que corpos mortos, sangue, coisas assim o aterrorizavam. Enquanto os outros checavam o conteúdo da mala, eu e o Wade ficamos sentados lá fora. Quando a gente ouviu os suspiros e os sussurros de "Meu Deus", os dedos dele apertaram os meus com força, e eu enterrei a cabeça nas mãos e chorei.

Ela tinha se asfixiado, claro. Mas demorou um tempão. A polícia ficou se perguntando por que nenhuma de nós ouviu ela ofegando pedindo ajuda, mas a Kay, envergonhada, contou sobre os fogos de artifício.

Uma pegadinha que deu errado, concluíram as autoridades.

Meus amigos disseram na época, e ainda dizem agora, que no fundo a Rosa era a mais responsável pela própria desgraça. Que ela tinha tomado as próprias decisões. Que todos nós tínhamos um pouquinho de culpa, mas ninguém era totalmente responsável por um acidente trágico.

Mas...

... Foi a minha mão que fechou o zíper.

Eu fico deitada na cama, pensando nela ofegando por ar... Por que ela não gritou? Por que a gente não ouviu nenhum grito abafado?

Eu imagino ela, espremida na escuridão enquanto os pedidos de socorro dela ficam sem resposta, e eu não consigo respirar.

Mas o motivo real de eu estar escrevendo isso é porque essa manhã eu vi uma notícia sobre uma mulher de calcinha encontrada estrangulada na praia. Meu marido trocou de canal na reportagem, e quando eu perguntei por quê, ele pareceu surpreso e disse que achou que podia me abalar.

"Por quê?", eu perguntei. Não era uma pegadinha.

"Achei que podia te lembrar da Rosa. Sabe, a lingerie."

Suponho que essa parte era parecida. Pra ser honesta, essa parte da tragédia nunca tinha me marcado tanto. Mas agora... agora, eu fico pensando em como a gente parou de falar dela depois. Como a morte dela foi só uma notinha rápida na notícia. Nenhum detalhe foi divulgado. No nosso grupo de amigos, a morte da Rosa virou um tabu. Quase como se ela nunca tivesse estado com a gente.

A gente tacitamente concordou em esquecer ela.

Mas quanto mais eu penso nessa reportagem, mais eu sinto aquela sensação daquele dia. Aquela sensação de topo da escada. Tipo olhar pra baixo e ver algo que você não quer ver. Aquele sentimento de Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus de pavor iminente.

E eu tô prestes a passar mal.

Porque o Wade namorou ela também. E amou ela. E eu tô cada vez mais certa de que olhei escada abaixo antes dos fogos e não tinha mala lá. E agora eu tô me perguntando... Se o Wade nunca viu o que tinha na mala, nunca pegou ela, abriu ou mexeu nela, como ele sabia que ela tava de lingerie quando morreu?

domingo, 5 de outubro de 2025

O Efeito dos Navios

Cidades gigantescas sobre os mares — é assim que muita gente descreve os navios da nossa época. E eu mal posso culpá-los. São colossos de verdade, que fazem lembrar o próprio Zeus. Mas eles deixam uma marca diferente em cada alma. Alguns mal notam o precioso subir e descer do navio ao ritmo da respiração do oceano. Outros sentem a ameaça à espreita lá embaixo, uma sombra de perigo — até o reflexo no espelho fica inquieto. Mas a história que eu lembro é de outro tipo.

Foi uma viagem pelas profundezas da noite. À primeira vista, nada de especial — uma travessia do Porto de Dover até Calais, na França, voltando de uma viagem escolar pelo sul da Inglaterra. Mas na meia-noite em ponto, algo fora do comum aconteceu. Eu não estava sozinho; conhecia muita gente a bordo — colegas de escola, na maioria. Tinha um deles, o Vladislav, de quem eu vou falar. Um garoto cheio de força, determinação, amizade e esperteza — mas faltava uma coisa crucial: a capacidade de controlar o seu id quando tomava cafeína. E isso, como se viu, virou o pecado fatal dele.

No tic-tac fatídico do relógio, como se a própria Morte tivesse puxado a medula do pescoço dele, ele desabou. Nem devagar, nem rápido — caiu de joelhos, depois de lado, rolando de costas como uma baleia enorme ofegando em água doce. Ficou ali deitado, quase imóvel — mas respirando. Aí veio a risada. Não aquela risadinha suave, que nasce do coração com alegria ou inocência — mas a risada de um demônio, misturada com o choro de anjos. Ele ria e ria, mas não de alma — dava pra ouvir isso clarinho. Talvez viesse das profundezas do abismo aquático, ou dos cantos escuros da mente inquieta dele.

Ele tentou se levantar — de verdade, tentou. Mas por um bom tempo, não conseguiu. Se contorcia de um lado pro outro como uma galinha sem cabeça. Cobria o rosto como um palhaço apavorado, chutava as pernas como uma criança lutando pra chegar à superfície de um mar implacável.

A agonia dele durou uns quinze minutos, talvez mais. Mas, como o tamanho dessa história sugere, o tormento de Belzebu ainda não tinha acabado. Só que o poder dele estava enfraquecendo; o aperto da cafeína começava a soltar.

Vladislav conseguiu ficar de pé — resistiu ao chamado do mar lá embaixo. Mas a mente dele não estava livre. Ele não estava confuso — não como a gente esperaria. Sabia quem era, de onde vinha. Pelo contrário, parecia que algum conhecimento superior tinha se aberto dentro dele — ou, melhor dizendo, uma visão mais alta. Ele via o invisível. Quando olhava pra você, não olhava pra você — mas pra figura parada na sua frente. Que figura? A figura dos mortos — aqueles que os olhos mortais não conseguem enxergar. Alguns chamariam de alucinação. Ele chamava de espírito.

Ele começou a falar — numa língua que não nasce de gargantas mortais. Falava com aquelas figuras espectrais dos não-vivos. De repente, virou, deu dois passos em direção à parede e parou. Estendeu a mão com um suspiro. "Eles têm medo de mim", os lábios dele sussurraram. "Eles fogem."

A gente queria ajudar, mas o assombro e o terror nos congelaram no lugar. Ninguém se mexeu. Ninguém ousou.

Ele começou a balançar. De um lado pro outro. Não ao acaso — no ritmo, com o suave subir e descer do navio. Se movia junto com ele, um com o próprio casco. A gente não o seguiu. Tinha medo do poder dele. Só ficamos olhando, pra não deixar que ele virasse vítima de si mesmo.

Ele deu três voltas pelo convés antes de a gente ser forçado a descer pros decks de baixo, levando o corpo do Vladislav junto. Ele ainda respondia, andava sozinho, nos ouvia — mas não era mais ele. Era como se os pensamentos dele fossem governados por outro.

Apavorados, sentamos nos nossos assentos do ônibus no porão. Os olhos dele piscaram uma vez — e ele apagou. Segundo as palavras dele depois, dormiu a travessia inteira. Não lembrava de nada — como se alguém tivesse apagado a memória dele. Ou talvez alguém tivesse adicionado algo à nossa.

O que fica certo é isso: a mente dele tinha vagado pra algum lugar bem além do resto de nós.

A Verdade Está no Pudim

Dizem que a prova está no pudim; eles nem imaginam o quão certos estão. Faz quase 60 anos desde aquele dia fatídico. Eu era um garoto de 6 anos e ganhei meu primeiro copinho de pudim. Lembro da textura delicada e cremosa, e do sabor rico de chocolate que derretia na minha língua. Acima de tudo, lembro da voz: doce como néctar e macia como seda. Ela me chamou lá do abismo escavado pela minha colherzinha de plástico, tão fundo e escuro, parecendo se estender além do fundo do copo. "Verdade... está... no... pudim". E, naquele instante, aquilo se queimou na minha mente como um propósito. Um que eu conseguia recordar perfeitamente em cada hora acordado de cada dia, mas que eu não podia compartilhar, porque era uma tarefa só minha. A chave da minha salvação.

Nas décadas seguintes, me dediquei ao estudo das artes da confeitaria. Eu sabia que precisava aperfeiçoar minha arte, afiar minhas habilidades até o ponto de poder cumprir minha missão. Sacrifiquei meus laços com o mundo, rejeitei o amor e a companhia da família em nome de perseguir meu objetivo final. Rodei o mundo inteiro, caçando o conhecimento de cada pudim que eu conseguia encontrar; estudei com os Mestres do Pudim, sem nunca deixar ninguém saber das minhas verdadeiras intenções. Depois de uma vida inteira de estudos e buscas, bem quando eu comecei a achar que todo o meu esforço tinha sido em vão, finalmente encontrei: a chave da minha obsessão vitalícia.

Na noite da minha vitória final, eu me sentei diante do meu prêmio. As obras completas de confeitaria de Pudzuzu, o Maior de Todos os Custardmancers, encadernadas e escritas na pele mais fina de pudim, com tinta de fudge escuro como breu. Joguei o livro aberto e virei direto pra página gravada no fundo da minha mente. Ali, no pergaminho de tapioca, estava a receita que eu sabia que ia estar. Um pudim pra rasgar a realidade ao meio e me levar pros Planos Brûlée, onde o Grande Pudzuzu mora. Meu verdadeiro lar na existência.

Com um fervor danado, eu arrolei as mangas da minha túnica e comecei o trabalho. Primeiro, adicionei o leite comum, açúcar, amido de milho e manteiga pra formar a base do Urpudim. Depois, joguei na panela uma porrada de espécimes exóticos que eu cultivei durante anos de viagens. Olhos de Yorkshire, essência diabética, três almas de coco e o coração de um dos Banana-Homens esquivos, pra citar só alguns. Por fim, adicionei a última peça da receita na panela: duas xícaras do meu próprio sangue. "Hmm-hmm... pudim de sangue", eu murmurei pra mim mesmo, transbordando de expectativa enquanto colocava o pudim no fogo. Quando ferveu, joguei a cabeça pra trás e gritei as palavras inscritas no livro de Pudzuzu: "AKVAR GERN PU'DING!" e me atirei de cabeça na panela. Senti meu corpo inteiro afundar no Urpudim sem fundo, e enquanto minha pele queimava no açúcar derretido, a escuridão me levou.

Acordei de costas, nu e coberto de queimaduras, olhando pro céu claro e ocre. Enquanto me endireitava, ouvi o som inconfundível de rachaduras, tipo vidro se partindo. Olhando pra baixo, vi que eu tava sentado numa camada brilhante e marrom-escura de açúcar queimado, pegajosa ao toque. Ela rachou devagar sob meu peso, revelando um creme amarelo-claro logo abaixo da superfície, mas aguentou firme e me deixou pisar com segurança em cima. Olhando em volta, me vi perto da base de um platô de flan enorme, uns 150 metros de altura, com vários outros pontilhando o horizonte distante, silhuetados pelo sol de chocolate se pondo. Um grito de êxtase puro escapou dos meus lábios. Eu tinha conseguido. Finalmente cheguei aos Planos Brûlée, o trabalho da minha vida tinha valido a pena.

Um som de esguicho chamou minha atenção, e eu me virei pro platô de flan atrás de mim. Uma fenda vertical tava se abrindo no lado dele, subindo uns três quartos da altura. Da fenda, uma forma surgiu: grande, lisa e de composição caramelo, com dois longos talos de olhos saindo da frente e um par de tentáculos mais curtos embaixo. Meu fôlego travou na garganta e eu caí de joelhos em reverência, o chão afundando uns centímetros com o impacto repentino. O que eu achava que era um platô na verdade era uma Lesma de Flan, uma das grandes criaturas mencionadas nos textos dos primeiros Custardmancers; achada como mera lenda. Seus talos de olhos me fitaram por o que pareceu eras, até que finalmente abriu a boca. Da abertura yônica, uma língua de fudge derretido escuro desceu na minha direção, parando a poucos centímetros. Devagar, ela ganhou a forma vaga de um tronco de corpo, e eu consegui ver uma rede de veias vermelhas e azuis pulsantes nas dobras que mudavam o tempo todo. Da cabeça, um par de olhos vítreos borbulhou à superfície, junto com um monte de dentes grandes e tortos.

Os olhos da criatura se fixaram em mim, e os dentes começaram a se mexer como se falassem, mas sem som nenhum. Em vez disso, ouvi as palavras ecoando na minha mente. "Eu... sou... Pudzuzu. O Maior... de... Todos", a voz disse, e eu percebi que o sussurro doce não me era estranho. "Grande Pudzuzu", eu falei, com lágrimas de alegria enchendo meus olhos. "Eu ouvi suas instruções, cheguei aqui, até você. Completei minha tarefa." Pudzuzu me olhou por um momento, os olhos sem piscar penetrando na minha alma. "Não", eles disseram, "Ainda... não." Sem mais uma palavra, eles esticaram e me pegaram pelos braços, a carne fudge fluindo por cima da minha e queimando. Devagar, a Lesma de Flan começou a recolher a língua de volta pra boca, e eu fui erguido no ar. Enquanto nos aproximávamos da entrada da bocarra da grande besta, a cabeça de Pudzuzu se esticou e balançou por um instante antes de se grudar nos meus olhos abertos. Eu gritei enquanto a dor me dominava, uma sensação como se meus nervos tivessem pegado fogo; então, toda sensação parou.

Acordei de supetão no chão da minha cozinha, tomado por uma onda de raiva e tristeza. E minha lugar nos Planos Brûlée? E minhas décadas de trabalho? Eu não tinha sacrificado tudo pra completar minha tarefa!? Foi aí que comecei a notar a mudança. Meu corpo tava macio e liso demais pro minha idade. Sentei e olhei pra panela de cozinhar. No reflexo dela, vi a massa gelatinosa de amarelo-claro que eu tinha virado, com um olho solitário protuberante do creme. Veias pulsantes despontavam da superfície que se mexia o tempo todo do meu novo corpo. Eu tinha alcançado minha salvação! Senti o propósito inundar minha mente de novo. Uma nova tarefa. Não, a verdadeira tarefa. Criar um pudim ainda maior. Um pra rivalizar até com o trabalho do Grande Pudzuzu. Me levantei do chão, estendendo minha forma gloriosa nova pra cima. Logo, todos serão salvos. Logo, todo mundo vai saber que a verdade está no pudim.

sábado, 4 de outubro de 2025

Afogando no Som Deles

Meu nome é Alex. Sou o primeiro clarinetista da banda avançada da escola. Já toquei em bandas de honra estaduais, pratico horas por dia e sei direitinho como fazer uma sala inteira vibrar com o som.

Eu precisava de um lugar pra ensaiar meu solo de audição — algum canto bem quieto. Um amigo falou dessa piscina velha e abandonada no meio da mata, onde ele e o camarada dele iam pra fumar escondido. Achei que, se era tão isolado assim, ia ser perfeito pro meu som.

Então, numa tarde, peguei meu clarinete e caminhei uns quinze minutos pela trilha entre as árvores até achar o lugar.

O ar tava pesado e azedo, tipo água velha misturada com cloro mofado. A piscina ficava afundada no centro de um deque de concreto rachado, a superfície toda rabiscada com grafites que não pareciam... normais. Tinha formas que mais pareciam pintadas do que sprayadas — traços de pincel visíveis, como se o artista tivesse surtado no meio do trampo. Ondas de preto e roxo se enroscando no fundo, e nas paredes, símbolos que pareciam de outra era. Palavras em X vermelhos e xingamentos cercando tudo, como se estivessem zombando de algo sagrado.

Quando entrei, a acústica era surreal. Toquei uma nota de afinação, e o som floresceu ao meu redor — afiado, puro, ecoando de volta como se a piscina quisesse cantar junto comigo. A reverberação era impecável. Perfeita. Quase... viva.

Não resisti — dei um sorriso. Esse era o tipo de espaço que eu amava.

Abri na minha peça favorita, o Canon em Ré. É escrito em tempo cortado, devagar e gracioso, mas quando eu tô no fluxo, acelero um pouco. Levei o clarinete aos lábios e deixei a primeira nota escapar.

O eco veio como uma onda.

Cada nota quicava de volta pelo ar, me envolvendo, inchando. A reverb crescia até eu sentir no peito. Minhas pernas formigavam, as mãos tremiam, e a cada frase, eu me afundava mais no som — como se a piscina estivesse enchendo, nota por nota.

No meio da primeira passada, um arrepio subiu pela minha espinha. O ar ficou grosso, pesado, úmido. Parei um segundo pra ajustar a palheta e vi algo brilhando nas minhas mãos. Água.

Aí veio os passos.

Suaves. Molhados. Bem atrás de mim.

Virei tão rápido que o aro do bocal quase voou — mas não tinha ninguém. O som parou, mas o ar ainda ondulava com a presença dele. Convenci a mim mesmo que era só o eco, talvez um reflexo atrasado. Forcei uma respiração trêmula, levantei o clarinete de novo e continuei tocando.

Ideia péssima.

Quanto mais rápido eu tocava, pior ficava. A acústica não soava natural mais — ela me seguia, dobrando meu ritmo como se algo estivesse tocando junto. A reverb batia cedo demais, pesada demais, e o ar me pressionava. Tentei desacelerar, mas meus dedos não paravam. Meu corpo não obedecia.

Quando o solo chegou na parte rápida, minha respiração engasgou. Parecia que eu tava debaixo d'água, pulmões ardendo, mas eu não conseguia parar de soprar no instrumento. Cada inspiração era um suspiro rouco — cada expiração, um engasgo. As escalas viravam uma frase infinita, um ritmo de afogamento. Meus pés chapinhavam em algo frio.

Olhei pra baixo.

O chão da piscina tava molhado. A água subia devagar, o suficiente pra cobrir meus sapatos — depois os tornozelos — depois as canelas. Mas não tinha de onde vinha. Nenhum ralo, nenhum vazamento. Só subia, água silenciosa.

Aí eu vi — movimento dentro do reflexo. Algo se mexendo no ritmo das minhas notas. A água não tava só subindo; ela tava escutando.

Meu som rachou, e por um segundo, o eco parou de responder. Depois voltou — não como o meu som, mas como o de outra coisa. Uma nota mais grave. Um rosnado embaixo da melodia, como se algo cantasse do fundo.

Larguei o clarinete e corri pra parede, escorregando na superfície lisa. A água avançou mais rápido agora, batendo nos meus joelhos. Arranhei a borda, mas o peso dela me puxava pra baixo — cada vez mais pesado, como se quisesse me prender ali.

E aí eu percebi — a água tava respirando. Puxava quando eu expirava, avançava quando eu ofegava, me acompanhando como um pulmão vivo. O pulso dela era firme, paciente. Faminto.

Os ralos explodiram, jorrando cascatas que enchiam a piscina mais rápido do que eu conseguia escalar. Chegou na minha cintura. Depois nas costelas. Chutei contra a inclinação, músculos gritando. A pressão da água engrossava a cada segundo, me arrastando pro centro. Senti mãos — frias, líquidas — se enrolando nos meus braços, pressionando minhas costas. Não invisíveis. Sem forma. A própria água me segurava.

Gritei, mas saiu em bolhas. Por um instante, achei que era o fim — que eu viraria um som, preso no eco.

Não sei como, mas escapei. Por pouco. Minhas palmas rasparam na borda enquanto eu me arrastava por cima dela. Quando rolei pro pavimento rachado, vi — meu clarinete. Ainda de pé no centro da piscina, intocado.

Aí ele caiu.

A água o jogou pra cima, lançou pra fora da piscina. Bateu no chão do meu lado com um baque molhado, sino primeiro.

Corri. Nem lembro onde larguei o clarinete, só que arranquei a jaqueta encharcada no meio da corrida porque parecia que ela me puxava de volta. Quando cheguei na estrada principal, não ouvia nada além do meu coração martelando.

Em casa, tirei o resto da roupa molhada e joguei do lado da porta.

Se você achar um lugar desses — uma piscina que canta de volta — não toque pra ela.

Porque quando eu me virei... as roupas tinham sumido. E aí ouvi a porta da frente ranger abrindo, e os sons de pés molhados se aproximando da minha porta.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon