quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Eu sou um Banidor, e os caracóis me seguiram até em casa. Preciso de ajuda

Há mais de doze anos faço isso, e até hoje de manhã, eu achava que já tinha visto tudo o que poderia assustar um cara. Acho que estava errado, e agora acho que preciso de ajuda.

Eu lido com assombrações e infestações do tipo sobrenatural. Não exatamente fantasmas. Pra ser honesto, nem sei se acredito neles, mas estou aberto a mudar de ideia se me provarem o contrário.

Não, meu trabalho é com coisas mais diretas. Do tipo que ganha dentes se muita gente no mesmo lugar acredita nelas com força suficiente.

A crença pode fazer as coisas mais estranhas saírem rastejando da escuridão. Mais antigamente, claro, quando cidades inteiras rezavam pro santo errado ou deixavam oferendas na porta achando que eram pro Tomte da região. Homens ingênuos caindo na lábia da Huldra, perdendo a alma no processo.

Coisas assim não acontecem mais com tanta frequência. Nem quando comecei nesse ramo. As ocorrências mudaram com uma humanidade mais complicada, menos definida. Mais misturada, moldada, diversa, suponho. Melhor, porque há menos avistamentos no geral, mas pior porque é muito difícil banir algo que você não conhece bem.

Hoje em dia, a maioria das coisas com que lido pessoalmente não tem nome ou categoria bem definida. São um borrão de histórias meio esquecidas, costuradas com mitos urbanos e crenças pessoais. Cada um de nós tem seus próprios, bem, fantasmas. Onde as costuras da crença se encontram é onde o desastre começa a se formar.

Meu último trabalho parecia simples. Não totalmente desconhecido, o que foi um alívio. Um daqueles casos de “casa vazia, barulhos estranhos, sombras esquisitas”, com pontos extras por ser uma fazenda a poucos minutos de carro da cidade onde moro. Típica do tipo, com uma estrada de cascalho longa e irregular cortando os campos, um laguinho escondido atrás, cheio de juncos. Já estive em uma dúzia de lugares iguais.

A família que vivia lá antes deixou tudo pra trás. Móveis, brinquedos velhos, roupas ainda dobradas nas gavetas, uma panelinha colorida ainda no fogão quebrado. Não sei por quanto tempo a casa ficou vazia, mas era óbvio que os adolescentes da cidade tinham descoberto o lugar, pelos latões de cerveja espalhados e as janelas recém-quebradas. Na lateral da porta, alguém pintou um rosto tosco com três olhos e a boca costurada, em vermelho e preto gritantes. Abaixo, provavelmente com caneta preta, nomes em caligrafias diferentes sob um título: “Desafie a Senhora da Morte”. Merda.

Isso provavelmente foi o estopim, e como a maioria de nós sabe, é tudo o que basta pra começar algo sinistro. Um nome inventado, um desafio qualquer, histórias contadas no escuro. Sozinhas, essas coisas não seriam suficientes pra causar problemas – mas, de novo, a crença é o veneno da criação. Se a história se mantém consistente o suficiente, e muita gente reforça com crença e medo, ela pode se ancorar. Devem ter contado a história de cem jeitos diferentes até que pegou. Como ela vivia no lago, como dava pra ouvi-la pelos ralos, como ela te marcava se você dissesse o nome dela à meia-noite. Esse lugar pode ter sido alimentado por semanas, ou meses, antes de eu chegar. A âncora não seria muito forte, mas poderia estar lá. Isso já era o bastante.

A porta da frente estava emperrada quando tentei abrir, a moldura de madeira deformada pela umidade que entrou pelas janelas quebradas. Quando cedeu, fez um som ao mesmo tempo úmido e seco, como rasgar casca de árvore. Alguns caracóis estavam grudados na parte interna da moldura, pálidos e brilhando, suas conchas coloridas ficando cinza e marrons sob a luz. Passei por cima deles.

O ar lá dentro era frio e pegajoso, com um leve cheiro de musgo, terra e mofo. Cada parede estava coberta de gotículas de condensação. Entre embalagens de comida e pedaços de madeira quebrada: conchas espalhadas. Centenas delas cobriam o chão torto, estalando de leve sob meus pés enquanto eu avançava. Disse a mim mesmo que eles tinham entrado pelas janelas, vindo do lago. Na hora, não importava que a linha d’água mais próxima ficava a quase cinquenta metros morro abaixo.

Fiz a varredura de sempre. Cômodo por cômodo, devagar, cuidadoso, meticuloso. Tentei sentir.

Nada parecia fora do lugar, exceto o cheiro. E, claro, casas abandonadas no meio do nada não cheiram exatamente a outra coisa além de mofo e umidade, mas esse era muito forte. Cheiros de terra costumam ser… sutis? Delicados, talvez. Quase imperceptíveis. Esse era avassalador, mas não exatamente desagradável. Não cheirava a podridão ou cinzas, como seria de esperar se a âncora fosse forte. Só terra, umidade.

A sala de estar era o único lugar não coberto de lixo e grafite. Até que estava intocada, pode-se dizer. Alguém enrolou o tapete e o colocou direitinho num canto. Afastaram o sofá listrado, deixaram o espaço vazio. Não havia conchas no chão: em vez disso, uma tigela parecida com a panela da cozinha, com o mesmo padrão retrô nas laterais. Estava cheia de água, turva e espessa. Um punhado de conchas de caracol de cores diferentes flutuava na superfície, girando preguiçosamente mesmo sem corrente de ar.

Você desenvolve um instinto forte pra âncoras, mas eu ainda não sentia nada. Então, fiz o mínimo: murmurei o encantamento de contenção, joguei sal nos batentes e pendurei uma ferradura de ferro acima da porta da frente. Apaguei os nomes da parede, mas deixei a pintura e o título. Muito trabalho. Abri a porta pra sair, e foi quando ouvi: um arrastar suave vindo de um cômodo ao lado. Lento, constante, como se algo estivesse se arrastando na minha direção. Parei no meio do movimento, tenso. Meu coração de repente ficou audível nos meus ouvidos, mas era o único som que eu escutava. Tum-tum-tum, nada mais. Fiquei assim por pelo menos trinta segundos, depois saí.

Terminei o trabalho, mandei uma mensagem pro meu contato com um relatório de âncora fraca e recomendação de verificar de novo em algumas semanas, e entrei no carro. Cheguei em casa antes de escurecer, jantei, vi um pouco de TV. Coisas normais que se faz à noite. Ainda não sentia nada.

Aí, quando estava me preparando pra dormir, ouvi de novo. O arrastar, vindo do banheiro. Congelei, e por um momento juro que senti: a âncora. Quente, quase ardente, com um cheiro de musgo úmido e podridão. Os pelos dos meus braços se arrepiaram. E do banheiro, algo arrastou de novo.

Sorte que congelei bem no corredor. Peguei o prego de ferro que deixo na mesinha, ao lado das chaves, e fui devagar pro banheiro.

Não sei exatamente o que estava pensando, mas simplesmente… abri a porta com tudo. A luz estava apagada. Fui pro interruptor e parei na hora.

A pia estava meio cheia de água, opaca e levemente verde. Dezenas de caracóis grudados na porcelana, com as cabeças pra fora, circulando sem parar. Juro que dava pra ver os rastros na borda. A água tinha uma ondulação suave, mesmo sem nada tocá-la.

Dei um passo pra trás. Minha respiração parecia quente. O cheiro me atingiu, então. Musgo úmido, umidade, mofo. Algo doce, apodrecendo por baixo.

Uma ondulação maior na água, depois um som suave quando o ralo se abriu e a água começou a descer rápido, como se algo estivesse sugando pelos canos. Deixei o prego cair.

Quando acendi a luz de novo, a pia estava vazia de água. Os caracóis continuavam lá, no entanto. Movendo seus corpos viscosos pela borda, em círculos, sem parar.

Fiquei ali um tempo danado, olhando pra eles. Tentando sentir. A âncora não estava tão forte então, mas parecia estranha, de algum jeito. Não sei explicar. Como se faltasse um ponto de apoio.

Então, cá estou, quase certo de que meti os pés pelas mãos de alguma forma. Não faço ideia de como, no entanto. É por isso que estou escrevendo aqui. Não é como se a gente fizesse happy hour ou tivesse encontros anuais, mas deve ter mais de nós por aí, não é?

Tudo ainda cheira a musgo aqui, e tem outro caracol dos infernos no meu tapete de boas-vindas. Moro no quinto andar, porra. Espero que alguém que tenha alguma ideia do que tá acontecendo leia isso, mesmo que não seja um Banidor. Já procurei no manual e na internet e não achei nada, e não sei por onde começar. Se você sabe alguma coisa sobre âncoras esquisitas, por favor, me ajuda.

Eu toquei uma mixtape que minha primeira namorada fez pra mim há 15 anos. Agora a música tá grudada na minha cabeça, e acho que ela também

Tenho me sentido nostálgico ultimamente. Daquele tipo de nostalgia profunda, que dói no peito, que só te pega mesmo no comecinho dos trinta, quando você percebe que os anos do ensino médio viraram oficialmente "os bons e velhos tempos". É um sentimento perigoso, essa nostalgia. Te faz fazer besteira. Tipo fuçar naquela caixa empoeirada no fundo do armário, aquela com o rótulo "MEMÓRIAS - NÃO ABRIR".

Foi o que eu fiz na semana passada. E lá dentro, debaixo de um monte de ingressos velhos de shows desbotados e fotos granuladas e sem graça, eu encontrei. Um CD solitário, arranhado pra caralho, numa capinha de plástico fina. Não tinha etiqueta, só duas iniciais escritas com canetinha Sharpie prateada desbotada no próprio CD, entrelaçadas num coração. As minhas iniciais, e as dela.

Meu primeiro amor. A gente tinha dezesseis anos. Foi um namoro desajeitado, cheio de emoção adolescente, que queimou forte e depois, inevitavelmente, se apagou. Eu não pensava nela há anos. Mas segurando aquele CD... era como abrir uma cápsula do tempo. Era uma mixtape que ela tinha feito pra mim. Uma relíquia de uma época antes do streaming, antes dos algoritmos te dizerem o que você devia gostar. Uma coleção caprichada de músicas que era a trilha sonora inteira do nosso verão dos dezesseis.

Eu nem tenho mais um toca-CD de verdade. Mas tem um antigo e empoeirado no meu laptop. Com uma lentidão estranha, quase reverente, eu enfiei o disco. O drive zumbiu e clicou, se esforçando pra ler a superfície arranhada. E aí, a primeira faixa começou.

Era uma música indie rock meio obscura, do tipo que provavelmente só era legal pra uns milotinhos no mundo todo, e a gente era dois deles. Era a nossa música. A qualidade do som era uma merda. A transferência digital tava cheia de estalos, cliques e um pulo bem no meio do primeiro refrão, daqueles que irritam. Mas quando o riff de guitarra familiar e tilintante encheu meu apartamento quieto, a sensação foi elétrica. Eu tinha dezesseis de novo. Eu tava dirigindo no carro caindo aos pedaços dela, janelas abertas, o ar do verão grosso e quente, e essa música explodindo nos alto-falantes baratos. A memória era tão viva, tão forte, que doía quase.

Eu ouvi umas três vezes, perdido nessa dor agridoce de um passado que parecia mais real que o presente. Depois, segui com o meu dia.

A primeira vez que eu ouvi por acaso, eu sorri. Eu tava no supermercado, no purgatório estéril e iluminado por fluorescentes da ala dos cereais, tentando decidir entre duas caixas idênticas de flocos de aveia. E pelo sistema de som meia-boca e horrível da loja, eu ouvi. O riff de guitarra tilintante. A nossa música. Eu não ouvia essa música no mundo real há pelo menos dez anos. Olhei pro teto, com um sorriso genuíno e surpreso no rosto. Uma coincidência feliz. Um piscadinha do universo.

No dia seguinte, eu tava no ônibus, indo pro meu trampo de escritório que suga a alma. O busão tava lotado, um mar de casacos úmidos e rostos cansados de manhã. E no meio do ronco chato do motor e do burburinho das conversas, eu ouvi de novo. Saindo fraco dos fones de ouvido do cara do lado. A mesma guitarra tilintante. Os mesmos vocais melancólicos. O som era fino e distante, mas inconfundível. Outra coincidência, pensei, mas um fiozinho de inquietação começou a se entrelaçar na minha mente. O universo tava ficando um pouco grudado demais.

Naquela noite, eu tava no meu apê, tentando relaxar. Ouvi um carro passando na rua lá embaixo, janelas abertas, som no talo. E a música que veio jorrando era a nossa.

Mas dessa vez, eu notei uma coisa que fez os pelinhos do meu braço se arrepiarem.

Era o pulo.

Bem no meio do refrão, a música deu um salto, um soluço digital irritante, antes de continuar. Era o pulo exato, no momento exato, igualzinho ao do meu CD arranhado de quinze anos.

Uma sensação fria e pesada, tipo um bloco de gelo, se instalou no meu estômago. Eu corri pro laptop, coração na boca, e ejeeitei o CD. Segurei ele contra a luz. A superfície era um caos de riscos e amassados, um mapa da nossa descuido adolescente. Isso não era coincidência. Não podia ser.

A música não tava me seguindo. Minha cópia da música tava me seguindo.

Os dias seguintes foram uma descida pra um inferno quieto, rastejante e auditivo. Eu ouvia em todo lugar. Vinha do rádio de um pedreiro do outro lado da rua, som metálico e longe, mas eu ouvia o estalo familiar no marca dos 42 segundos. Eu passava por um café, e a música tava tocando lá dentro, o refrão pulando daquela forma exata e enervante. Eu tava na academia, e ela começou no sistema de som, os riscos e cliques tão claros quanto se estivessem saindo do meu próprio laptop. Olhei em volta, mas ninguém parecia notar. Eles só continuavam malhando, correndo, alheios ao fato de que a trilha do treino deles era um fantasma do meu passado.

Eu tava sendo assombrado, mas por um som. Um arquivo digital específico e danificado que de algum jeito escapou da prisão de plástico e agora tava sangrando pro mundo ao meu redor.

Tentei lutar contra isso. Tentei ouvir outra música, no talo nos fones pra abafar o mundo. Mas ela sempre achava um jeito de entrar. Eu tava num podcast, e a voz do apresentador distorcia, só por um segundo, na melodia da música. O jingle de um comercial na TV virava o riff de guitarra tilintante.

Tentei destruir a fonte.

Tirei o CD do laptop. Ele tava estranhamente quente no toque. Não joguei fora só assim. Sabia que não ia ser o bastante. Levei pro pátio de concreto atrás do prédio e pus no chão. Peguei um martelo e esmaguei. Não parei até virar só uma pilha de poeira cintilante, iridescente, e lascas afiadas de plástico. Varri a poeira pra uma sacola, amarrei bem e enterrei no fundo do lixeiro. Acabou. A conexão tinha que se romper.

Naquela noite, fui pra cama com um alívio profundo e exausto. Dormi, pela primeira vez em o que parecia semanas, um sono pesado e sem sonhos.

E aí, eu acordei com a música.

Não vinha de fora. Não de um carro, ou rádio, ou apartamento do vizinho.

Vinham de dentro da minha própria cabeça.

Era uma versão interna perfeita e metálica da música, tocando num loop implacável e enlouquecedor. E era a versão arranhada. Eu ouvia cada estalo, cada clique. Sentia o pulo no refrão como uma batida perdida no meu próprio peito.

Sentei na cama de supetão, mãos tapando os ouvidos, mas não adiantou porra nenhuma. Tava no meu cérebro.

Eu tava desesperado. Não falava com ela há quinze anos. A gente não tinha terminado bem. Mas ela era a única que podia ter uma resposta. Ela que fez a mixtape. Tinha que saber de algo.

Demorei um dia inteiro de buscas frenéticas e obsessivas pra achar ela. Não tava nas redes sociais. Achei um e-mail de trabalho dela num site de networking profissional. Ela era designer gráfica, morando numa cidade a milhas de distância. Escrevi o e-mail, mãos tremendo tanto que mal digitava.

"Eu sei que isso é loucura", escrevi. "A gente não se fala há anos. Mas preciso te perguntar sobre a mixtape que você fez pra mim no ensino médio. Aquela com a música indie rock. É importante. Por favor, me liga."

Mandei meu número. Não esperava resposta. Mas meu celular tocou menos de uma hora depois.

A voz dela tava diferente, mais grave, mas eu reconheci na hora. "O que você quer?", perguntou, tom frio e desconfiado.

"A mixtape", eu disse, as palavras saindo num jorro de pânico. "A música. Eu ouvi. E agora ela... ela tá me seguindo. Ouço em todo lugar. E é a versão arranhada. Esmaguei o CD, e agora tá na minha cabeça. Não para."

Teve um silêncio longo e pesado do outro lado. Quando ela falou, enfim, a voz era um sussurro engasgado e apavorado. "Meu Deus. Você tocou."

"O que você fez?", perguntei, um pavor novo e gelado se infiltrando em mim. "O que era aquela porra?"

"Foi burrice", disse ela, voz rachando. "A gente era moleque. Queria ser... ousada. Achei na internet. Num fórum antigo e esquisito de ocultismo. Era um ritual. Um feitiço. 'Um nó de amantes pra amarrar duas almas pra sempre com uma música'. Você gravava a música, uma que era especial pros dois, e... e pingava uma gota do seu sangue no disco. E uma gota do dela."

Voltei praquele verão num flash. Lembrei dela furando meu dedo com um alfinete de segurança, depois o dela, rindo como se fosse uma bobagem romântica, pressionando nossos dedos sangrando na superfície brilhante de um CD virgem.

"Achei que era brincadeira", soluçou ela. "Uma palhaçada gótica de adolescente. Nunca pensei que ia... funcionar de verdade."

"Funcionou como?", exigi. "O que isso fez?"

"Não sei!", gritou ela. "O post dizia que criava uma... conexão. Um eco. Que a música virava uma ponte entre a gente. Achei romântico."

A música na minha cabeça, que era um zumbido constante e baixo, de repente aumentou o volume. E enquanto isso, um flash de imagem, uma memória que não era minha, explodiu atrás dos meus olhos.

Eu tô sentada numa mesa de desenho. A luz do abajur é um poço quente e amarelo num logo pela metade. Minha mão segura uma caneta stylus, mas a mão é menor que a minha, mais fina, com um anel prateado no dedo indicador.

Arfei, tropeçando pra trás, cabeça latejando. "Eu... acabei de ver uma coisa", gaguejei no telefone. "Seu escritório. Um logo."

Ouvi uma respiração afiada do outro lado. "Como... como você saberia disso?"

"Qual o seu endereço?", perguntei, um pensamento frio e aterrorizante despontando na minha mente.

Ela ficou quieta um segundo. "Por quê?"

"Só me diz."

Ela disse. Um endereço numa cidade que eu nunca pisei. Uma rua que eu nunca ouvi falar. E enquanto ela falava o nome da rua, eu via. Via a fileira de prédios marrons, a árvore de ginkgo na esquina, a porta vermelha do prédio dela. Eu sabia o endereço sem ela ter dito. O conhecimento tava só... lá. Na minha cabeça.

Isso foi há uma semana. Tá piorando. A música é uma presença constante e enlouquecedora na minha mente. Os flashes tão mais frequentes, mais vivos. Eu vou fazer o jantar e de repente tenho a memória dela brigando com o chefe. Vou tentar dormir e sinto a sensação fantasma do gato dela dormindo no meu peito. A vida dela, as experiências dela, tão sangrando pra dentro da minha.

E é uma rua de mão dupla. Ontem, eu tava cantarolando a música sem querer, um tique nervoso e doido que criei. Meu celular tocou um segundo depois. Era ela.

"Para com isso", sussurrou, voz frenética. "Para. Eu ouvi você. Foi bem no meu ouvido. Como se você tivesse em pé bem atrás de mim. Para."

Eu tô me perdendo. A gente tá se perdendo. A entidade que a gente criou, amarrada àquela peça quebrada e arranhada de música. Tá espremendo nossas duas vidas separadas, nossas duas consciências, numa só. Colapsando quinze anos e mil milhas numa existência única, compartilhada e esquizofrênica.

E acho que sei como tem que acabar.

Essa coisa, essa entidade, é uma conexão entre dois pontos. Precisa de nós dois pra existir. E se um desses pontos for apagado... a ponte tem que cair.

Eu não quero morrer. Mas não aguento viver assim, minha mente um espaço compartilhado com o fantasma de uma pessoa que eu amava, nossos pensamentos e memórias um emaranhado gritante, tudo ao som de uma única música terrível, pulando sem parar. E sei que ela também não aguenta.

Então tô escrevendo isso como... sei lá. Uma confissão? Um aviso? Uma carta de suicídio? Eu só não sei qual de nós vai ter que ser o que faz isso. Mas acho que, se eu for, vou estar salvando nós dois.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Tem um cara que fica aparecendo do lado de fora da minha janela, e ele não para de fazer barulhos de bebê...

Tudo começou há duas semanas — uns chorinhos fracos de bebê vindo lá de fora da janela, uns cinquenta metros pra dentro do meu quintal, que a minha janela dá direto pra lá. No começo, eu conseguia aumentar o ventilador e abafar o som, mas depois de umas noites, ele ficou mais alto — ou mais perto. Tentei espiar pela janela pra achar de onde vinha, mas nada. E agora tava alto demais pra ignorar. Finalmente, numa noite, eu vi a silhueta de um homem, e agarrei a chance. Joguei um casaco e chinelos e saí pra encarar esse maluco, mas de repente caí na real de como isso era perigoso — um estranho fazendo sons de choro de bebê no meu quintal. Peguei o taco de beisebol e fui pra porta dos fundos.

Quando abri a porta, uma parede de chuva me acertou na cara. Tava caindo um toró — lençóis de água batendo na varanda e encharcando meus pés. Minutos antes, o céu tava limpo. Agora parecia que a tempestade tinha rolado só pra me foder.

Apertei o taco e saí, o frio molhado invadindo os chinelos na hora.

"Ei!" gritei pro escuro. A palavra mal saiu da boca. A chuva engoliu tudo, transformando minha voz num eco abafado que morreu antes de chegar nas árvores.

Através da cortina de água, eu mal conseguia ver a silhueta de novo — parada bem onde os choros vinham. Imóvel. Observando.

Levantei o taco e bati forte na cerca, o estalo cortando a chuva. "Tô te avisando!" gritei, a voz tremendo mais do que eu queria. "Some da porra daqui!"

A figura não se mexeu de cara — só ficou lá, encharcada e parada. Aí, devagar, ele se virou e andou pro escuro, a silhueta sumindo atrás da chuva até virar nada.

Fiquei ali um segundo, escutando. Só o barulho da água caindo. Meu coração tava na boca, mas eu me convenci de que tinha acabado. Voltei pra dentro, tranquei a porta e tirei os chinelos encharcados. Quando deitei de novo, o zumbido do ventilador quase me fez achar que tinha sido um sonho ruim.

Aí o choro começou de novo. Mais alto dessa vez. Mais agudo.

Eu congelei. Tava bem do lado de fora da janela.

Minha mão tremia enquanto eu pegava a persiana, o som ficando mais grotesco a cada segundo. Eu puxei ela de uma vez —

E lá tava ele.

A cara dele grudada no vidro, água da chuva escorrendo pela pele pálida e doente. Os olhos afundados, escuros como buracos cavados no crânio. E aquele sorriso — largo, anormal, esticando de orelha a orelha — se contorceu enquanto ele soltava outro choro de bebê, uivante e infantil.

Eu tropecei pra trás, pisando na borda do tapete enquanto corria pro celular. Minhas mãos tremiam tanto que quase larguei ele. "Tem alguém do lado de fora da minha casa!" berrei no telefone. A operadora tentou me acalmar, disse que os policiais tavam a caminho, mas cada segundo parecia uma eternidade.

Eu mantive os olhos grudados na janela o tempo todo. O cara não se mexeu — só ficou com a cara colada no vidro, aquele sorriso horrendo congelado. Aí, quando o som distante das sirenes finalmente chegou nos meus ouvidos, ele se virou e sumiu no escuro.

A polícia demorou uma eternidade pra chegar. Quando eles pintaram, a chuva tinha parado de vez. O ar tava pesado e parado, o tipo de silêncio que parece errado depois de uma tempestade. Eles vasculharam o quintal, checaram a cerca, até fuçaram nas árvores. Nada.

Só pegadas na lama levando até a janela — pegadas que pareciam sumir e desaparecer na metade do caminho de volta pro mato.

Eles me disseram que provavelmente era uma pegadinha, talvez algum idiota passando por ali. Eu assenti e fingi que acreditava. Quando eles foram embora, a casa pareceu mais vazia do que nunca.

Eu deitei de novo, olhando pro teto, tentando me convencer de que tinha acabado. Por um tempo, ficou quieto. Aí veio o som de novo — o choro do bebê.

Mais perto.

Eu me sentei, puto e apavorado ao mesmo tempo. "Chega dessa merda!" murmurei, acendendo a luz.

Foi aí que eu vi — pegadas na lama. Frescas. Cruzando o carpete, direto até a porta do armário.

O choro tava mais alto agora, vindo de dentro. Eu fiquei lá olhando pro armário, a respiração curta, o som daquele choro horrendo ainda vazando por trás da porta. Minha mão apertou o taco enquanto eu dava passos lentos e cuidadosos pra frente, as tábuas do piso rangendo debaixo dos pés.

Quando finalmente cheguei na maçaneta, hesitei — só o suficiente pra me odiar por isso — e puxei a porta.

O choro parou.

Lá dentro, no chão do armário, tava uma coisa pequena e molhada. Eu estreitei os olhos, me inclinando mais perto. Não era um bebê. Nem humano.

Era um passarinho minúsculo, meio formado — pele rosada esticada fina, asas mal desenvolvidas, tremendo um pouco como se ainda estivesse vivo. Um feto de passarinho bebê.

Eu recuei tropeçando, enojado e confuso. "Que porra é essa..." sussurrei, a voz falhando. O cheiro me acertou em seguida — algo azedo e metálico — e eu tapei a boca, tentando não vomitar.

Aí um som atrás de mim fez meu sangue gelar.

Thud.

Eu virei a cabeça na hora. Minha cama tinha se mexido — quicou uma vez, forte o suficiente pra fazer o estrado tremer.

Outro thud.

Aí o cobertor começou a se mexer, como se algo embaixo estivesse rastejando, se empurrando pra cima. O tecido esticou e levantou, devagar se espalhando sobre um volume do tamanho de um humano bem no centro.

Um choro de bebê de repente explodiu no meu ouvido, tão agudo e perto que pareceu vir de dentro da minha cabeça — colado no meu tímpano. O som me rasgou por dentro, estourando algo lá no fundo. Eu gritei e agarrei a orelha enquanto sangue quente começou a escorrer pelo meu pescoço, grosso e quente na pele.

Ainda meio curvado, eu olhei pra cama. O volume embaixo do cobertor tava se mexendo de novo, subindo e descendo devagar como se respirasse. Eu não tinha o taco — tinha largado perto do armário — e o celular era minha única arma sobrando.

Eu peguei ele, mas a tela tava morta, preta, refletindo só minha cara tremendo. O pânico tomou conta. Sem pensar, eu joguei ele na cama.

No segundo que acertou, uma mão pálida e ossuda saiu voando debaixo do cobertor, impossível de tão rápida. Ela pegou o celular no ar e bateu ele no chão, o estalo do vidro quebrando ecoando pelo quarto.

Aí vieram os sons de novo — chorinhos agudos e gorgolejantes de bebê — sobrepostos e distorcidos, como se dezenas de gorrinhos minúsculos estivessem chorando de uma vez de dentro do colchão. De repente, o cobertor começou a inchar e se contorcer. Um por um, formatos minúsculos se empurraram pra fora debaixo — e rolaram pro chão com thuds molhados e pesados.

Dezenas deles.

Bebês brancos como cinza, a pele quase transparente na luz, olhos grudados mas ainda chorando — cada som perfurante e anormal. Eles começaram a rastejar pra mim, as perninhas se debatendo num ritmo estranho, os choros se misturando num coro ensurdecedor.

Eu recuei tropeçando, chutando o chão, mas eram muitos demais. Mãos frias e escorregadias grudaram nas minhas pernas, nos braços, na roupa. Eu tentei gritar enquanto eles subiam mais, as bocas se abrindo largas — largas demais — e aí começou a mordida.

Dentinhos minúsculos afundando na minha pele. Nos braços. No pescoço. Na cara.

Eu me debati e girei, mas eles só vinham mais, o quarto ecoando com o som agudo e sem fim dos choros.

E aí — tudo parou.

O som. O movimento. A dor.

O quarto tava imóvel. As mordidas, os gritos, tudo — sumido. Eu pisquei através das lágrimas e do sangue, o peito arfando, e percebi que a luz do sol tava escorrendo pelas persianas. Manhã.

O chão tava vazio. Sem bebês. Sem mão. Só a bagunça do meu quarto — sangue no carpete, meu celular estourado do lado da cama, e pegadas na lama sumindo no nada.

Eu não lembro de muita coisa depois disso. Consegui me arrastar pro hospital, onde eles trataram os ferimentos e fizeram exames. As cortes não faziam sentido, eles disseram, mas costuraram tudo e me mandaram descansar.

Agora tô em casa de novo. A casa parece quieta demais. Minha orelha ainda lateja onde o tímpano estourou, e juro que às vezes ouço chorinhos fracos quando fecho os olhos.

O sol tá se pondo logo.

E eu tô apavorado com o que essa noite vai trazer.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Limiar

Eu não durmo bem mais. Não é o trampo – embora ser investigador criminal por quase uma década quebre qualquer um. Você vê coisas, arquiva elas, constrói uma casca grossa na alma. Ou tenta, pelo menos. Mas tem umas coisas... umas coisas que não vão pro arquivo. Elas cavam por baixo da casca e infeccionam tudo.

Isso começou há quatro anos. Me botaram numa investigação num condomínio chique, daqueles fechados nas colinas de uma cidadezinha rica e quieta. O tipo de lugar com gramados impecáveis e garagens pra três carros, onde o único barulho à noite é o zumbido do ar-condicionado central. Um vizinho finalmente ligou reclamando – um cheiro, uma podridão doce e doente que tava piorando há dias, saindo de uma casa enorme e moderna no final de uma rua sem saída.

A polícia local fez o de sempre: bater na porta, tentar falar com o dono, checar com corretores. Nada. No final, não tiveram escolha a não ser arrombar a porta. O que acharam lá dentro fez policiais veteranos vomitar no piso de azulejo importado, branquinho. O chamado veio pra mim na hora.

Meu nome é Mark. Sou analista de investigações criminais. Meu serviço não é só juntar provas; é entrar na cabeça do monstro que deixou aquilo pra trás. Eu achava que tinha visto o pior que a humanidade podia oferecer. Estava enganado pra caralho.

O cheiro me acertou primeiro, um soco no estômago mesmo com o Vicks esfregado embaixo do nariz. Era cheiro de morte, sim, mas por baixo tinha outra coisa... metálico, como cobre, e um aroma enjoado de ervas, tipo sálvia queimada misturada com leite azedo. O ar tava gelado, de um jeito anormal, como se o ar-condicionado da casa tivesse sido ligado no mínimo por semanas.

Aí eu vi a cena na sala de estar.

Meu cérebro, treinado pra reconhecer padrões, travou. Por uns dez segundos inteiros, se recusou a montar as peças num quadro que fizesse sentido.

Nove mulheres. Todas grávidas.

Elas tavam arrumadas num círculo perfeito no piso de madeira escura, os corpos virados pra dentro. Cada uma tinha sido... aberta. Os fetos, pequenos e terríveis, tavam colocados do lado delas. Cada corpinho minúsculo tinha sido decapitado, o coração arrancado. As cabeças e os corações sumiram. O horror era metódico, uma progressão. A primeira mulher, pelo relatório de forense depois, tava de um mês. A próxima, dois meses. Depois três. E assim foi, um calendário grotesco, até oito meses.

No centro desse círculo infernal tinha uma nona mulher. Ela tava crucificada num X grande de madeira bruta, os braços abertos, a cabeça tombada no peito. Ela não fazia parte da sequência. O legista depois determinou que o bebê dela, quase no fim da gestação e viável, tinha sido removido post mortem. Sumiu. Não tava com os outros. Só... sumiu.

Todas as mulheres tinham a garganta cortada, um corte fundo e final. E na testa de cada uma, um símbolo tinha sido entalhado. Não cortado a esmo, mas entalhado com uma precisão doida.

Meus olhos, ardendo com o fedor e a visão, foram atraídos pro chão em volta do círculo. Desenhados no que eu primeiro pensei ser sangue, tavam cinco sigilos grandes e intricados. Eles formavam um pentagrama, com cada símbolo marcando um ponto. Meus estudos em criminologia, minhas mergulhadas no esotérico e no oculto pra casos passados, entraram em ação. Eu reconheci eles. Mammon. Belial. Moloch. Lilith. Paimon. Demônios. Entidades que representam ganância, rebelião, sacrifício de crianças, sexualidade torcida e conhecimento proibido. O sangue usado pra desenhar eles já tava descascando, virando um marrom opaco e enferrujado.

Senti um frio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado se infiltrar nos meus ossos. Isso não era só um assassinato. Era uma invocação.

A investigação foi uma parede de tijolos. Identificamos as mulheres. Todas de famílias antigas e podres de ricas, de estados diferentes, três no total. Quando avisamos as famílias, a reação foi... arrepiadora. Não era luto. Nem raiva. Uma aceitação quieta e resignada. Um pai, um cara com voz de cascalho e bolsos cheios de grana, me disse ao telefone: “A gente sabia que isso era uma possibilidade. Meu conselho, rapaz? Deixa pra lá. Foca em outra coisa. Você vai dormir melhor. Viver mais.”

A linha caiu. Eu fiquei ali, o fone zumbindo na mão, sentindo um tipo novo de pavor. Não era medo de um assassino, mas medo de um sistema, de um mundo tão podre que uma atrocidade dessas podia ser recebida com um dar de ombros.

Minha vida começou a desmoronar. Eu sempre fui firme, minha mente era minha ferramenta mais afiada. Mas agora, as bordas tavam borrando. Eu tava escrevendo um relatório e ouvia um som fraco, úmido, de rasgar vindo do corredor. Virava, e nada. Meus reflexos tavam mais lentos. Minha atenção se desfazia. Me botaram em outros casos, rotina pura, mas meu desempenho tava uma merda. As imagens daquela casa tavam queimadas na parte de trás das minhas pálpebras.

O ponto de ruptura veio numa parada de trânsito. Uma besteira simples. Eu tava de folga, preso no engarrafamento. Um carro deu um tiro – daqueles de escapamento. Na fração de segundo, meu treinamento devia ter identificado o som. Em vez disso, minha mente ferrada gritou TIRO. Eu saquei minha arma. Foi um milagre que eu não atirei. A investigação interna me limpou – o outro motorista tava apavorado, mas ileso. Mas o estrago tava feito. Minha instabilidade agora era oficial. Me botaram na geladeira.

A pressão tava crescendo, um grito preso no crânio. Pra limpar a cabeça, resolvi correr até a casa de um amigo a uns quilômetros dali. Era um caminho por um bairro suburbano quieto, ladeado de carvalhos velhos e casas de dois andares. Coloquei os fones, liguei o som no talo e tentei correr mais rápido que o ruído na minha cabeça.

Mas os sons furaram. Um soluço de mulher, gutural e sofrido, entrelaçado nas notas de uma música de rock. O corte úmido, cirúrgico, de uma lâmina por baixo do baixo. Eu arrancava os fones, o coração martelando no peito, e só achava o canto dos pássaros e o zumbido distante de um cortador de grama.

Foi aí que eu o vi.

Ele tava encostado numa parede de tijolos no meio do quarteirão, uma figura alta e magra num casaco longo e escuro. Era uma noite quente, o casaco tava fora de lugar. Mas era a postura dele – uma imobilidade absoluta, sobrenatural. A maioria das pessoas se mexe, muda o peso, checa o celular. Ele era como uma estátua. Quando passei correndo, senti um ponto frio no ar em volta dele, e uma onda de medo puro, animal, me invadiu. Não era medo de um cara perigoso. Era medo de algo que nem era gente.

Acelerei, a respiração saindo em golfadas irregulares. A sensação de ser observado era um peso físico entre as omoplatas. Olhei por cima do ombro.

Ele tava lá. Atrás de mim. Encostado em outra parede, uns cinquenta metros pra trás. Imóvel. Silencioso. De um jeito impossível, ele tinha se movido sem fazer barulho.

Comecei a correr de verdade, minha corrida virando uma disparada em pânico. Toda vez que eu ousava olhar pra trás, ou pegava um vulto no canto do olho, ele tava lá. Encostado numa árvore. Desabado numa balanço de varanda escura. Sempre na mesma distância, sempre com aquela imobilidade perturbadora.

Aí eu olhei pra frente.

Ele tava no meio da calçada, a vinte pés na minha frente.

Eu parei derrapando. Minha música cortou de repente, os fones emitindo um chiado vazio e morto. O rosto dele tava na sombra, mas eu vi a boca. Ela se esticava num sorriso. Mas tava errado. Tava largo demais, rasgando as bochechas, distorcendo até os ossos da cara. Era um riso de caveira, daqueles que não deviam existir.

O medo virou uma raiva cega, primal. Não sei de onde tirei a coragem – ou a burrice. Não pensei. Só rugi e parti pra cima dele, querendo derrubá-lo no chão.

Meus braços não fecharam em volta de um corpo. Fecharam em volta de uma nuvem densa, vibrante. Teve um zumbido ensurdecedor, e o que eu achava ser um casaco escuro se dissolveu numa massa rodopiante de moscas pretas. Elas explodiram pra fora, o zumbido enchendo a rua silenciosa, rastejando no meu rosto e braços antes de se espalhar no ar crepuscular.

Eu fiquei ali, sozinho, ofegante, os braços abraçando o nada.

Finalmente cheguei na casa do meu amigo. Tropecei pela porta dele, encharcado de suor e fedendo a pânico. Ele perguntou se eu tava bem. Forcei um sorriso, os músculos da cara doendo com o esforço. “Tô ótimo”, eu grasnei. “Só forcei demais na corrida.” Sentei no sofá dele, trocando conversa fiada, fingindo sanidade enquanto minha realidade toda rachava. Não contei pra ele. Como eu poderia?

Pouco depois, uma agência federal com jurisdição sobre meu departamento caiu matando. Declararam eu e minha equipe “incompetentes” e tomaram o caso. Uns meses depois, ouvi pelos corredores que tinha levado um encobrimento total. Fechado. Enterrado.

Mas a coisa que me seguiu pra casa não recebeu o memorando.

A descida final foi quieta, insidiosa. No meio da noite, eu deitava na cama e ouvia o concreto da fundação da casa rangendo, como se algo enorme estivesse mudando de posição do lado de fora da janela. As tábuas do piso vibravam com um zumbido baixo e ressonante. Bem na beira do sono, um grito rasgava o silêncio – um som de agonia pura, sem filtro – e eu acordava sobressaltado, encharcado de suor, o eco morrendo nos meus ouvidos.

Aí vieram as luzes. Não faróis. Eram círculos doentios de verde fosforescente, que flutuavam pelas minhas persianas fechadas e deslizavam pelas paredes. Elas se moviam em padrões lentos e deliberados, traçando os sigilos que eu tinha visto entalhados naquelas testas.

Minha mente quebrou. Caí numa depressão tão funda e escura que não via saída. Terapia, remédios... nada funcionava. O mundo tinha virado uma casca fina, e a verdade horrenda do que espreitava por baixo sangrava pra dentro.

A única coisa que me jogou uma corda, a única coisa que as moscas zumbindo e as luzes rastejantes pareciam evitar, foi Deus. Não sou pregador. Não tô aqui pra converter ninguém. Mas tô te dizendo que, quando comecei a rezar, quando eu realmente, desesperadamente, estiquei a mão pra uma luz maior que aqueles círculos verdes na parede, a pressão na casa diminuiu. Os sons sumiram. Os pesadelos ficaram menos frequentes.

Demorou dois anos. Dois anos de oração, de me forçar a fazer o bem, a ajudar os outros, a encher o buraco que o horror tinha cavado em mim. Agora eu funciono. Voltei pro batente. Sou tão feliz e tranquilo quanto um cara no meu ramo pode ser.

Mas ainda não durmo bem. Porque eu sei o que tá lá fora. Eu sei o que pode ser convidado pro nosso mundo com sangue e crença. E sei que, seja lá o que eles tavam tentando invocar naquela casa, uma parte escapou. E ainda tá procurando um lar.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon