quarta-feira, 5 de novembro de 2025

O Pior Controle de Pragas de Todos os Tempos

Sinto que estou enlouquecendo depois do que aconteceu nos últimos dias. Todo mundo a quem contei essa história ou caiu na risada ou simplesmente deu de ombros, achando que eu estava inventando. Estou postando isso aqui porque, considerando as toneladas de fantasias sexuais bizarras e teorias conspiratórias sobre lagartos no governo que circulam na internet, talvez alguém tenha ao menos o bom senso de me ouvir.

Moro em uma cidade quente e úmida o ano inteiro. É ótimo não precisar de casaco de inverno, mas o preço disso é que qualquer casa vira o paraíso de todo tipo de inseto nojento.

O problema no meu apartamento começou há uns dois meses.

Comecei a ver uns pontinhos pretos no canto da visão, mas eles sumiam sempre que eu tentava olhar direto. Pesquisei no Google, e só encontrei aquelas respostas de sempre: podia ser glaucoma, moscas volantes, ou — claro — o clássico diagnóstico da internet: “você vai morrer em poucas horas”.

Decidi ignorar. Achei que podia lidar com isso. Não pareciam muitos e apareciam de vez em quando.
Mas tudo mudou quando eles começaram a mover as coisas.

Lembro perfeitamente de um dia em que minhas chaves do carro — que eu sempre deixo numa tigela na cozinha — apareceram no canto da sala, no chão.
Antes que algum engraçadinho diga que eu só estava distraído, me responde: por que diabos eu pegaria as chaves da tigela e colocaria do outro lado do cômodo, no chão?

Naquele ponto, eu ainda não suspeitava dos pontinhos — era cedo demais, e eu mal os via.
No dia seguinte, uma das cadeiras da sala apareceu na cozinha.

Uma semana depois, comecei a ver sombras correndo por baixo da porta à noite. Eu estava vendo TV e via uma mancha escura passar rápido sob as cadeiras. Também comecei a ouvir barulhos — arranhões nas paredes, passos na cozinha — sempre à noite, quando eu prendia a respiração pra prestar atenção.

O condomínio tinha parceria com uma empresa de dedetização chamada NoMoBugs (sim, nome horrível). Tirando uns panfletos no quadro da portaria, nunca ouvi falar dela — nem na internet.

Liguei pro número que estava no panfleto. O primeiro toque mal terminou e uma voz já atendeu:

— “Você ligou pra NoMoBugs! Onde qualquer praga será eliminada!”

A voz soava ensaiada, tentando fazer parecer um slogan, mas as palavras “praga” e “eliminada” não rimavam nem um pouco.

— “Ah... então... eu tô com um problema de insetos no meu apartamento.”

Comecei a dar meu endereço, mas a voz me interrompeu:

— “Quem— digo, que tipo de insetos estão te incomodando?”

— “Na real, eu não sei direito. São uns pontinhos pretos que vejo no canto do olho. Dá pra ver as sombras deles por baixo da porta, e eu ouço barulhos nas paredes. Talvez ratos? Não sei.”

A voz ficou de repente muito grave:

— “Enviaremos alguém ainda hoje. Esteja pronto.”
E desligou.

Eles chegaram por volta das sete e meia da noite — e, se eu não estivesse tão irritado com os bichos, teria achado bem rude aparecerem tão tarde.
Abri a porta pra dois caras em trajes de proteção completos: um verde, outro amarelo. As máscaras cobriam a cabeça inteira, com uma viseira espelhada que impedia de ver o rosto. Fiquei preocupado.

Será que eu devia estar usando um desses também? Será que eu tinha pegado algum tipo de câncer de superinseto?

— “Ah... entrem.”

Assim que falei, eles entraram e foram direto pra sala.

— “Ooh, sim.” — disse o do traje verde, com a voz abafada pela máscara. — “Você tem praga, sim senhor.”

— “Beleza. Vocês conseguem resolver? Vai demorar quanto tempo?”

— “Vinte.”

— “Vinte? Tipo vinte minutos? Vinte horas?”

O cara de verde olhou pro outro e riu:

— “Esse cara é engraçado.”

— “Você vai agora. Nós trabalhar.” — ordenou o do traje amarelo.

Outra coisa que teria me irritado, se eu não estivesse tão desesperado. Mas, já que pareciam levar a sério, resolvi deixar que fizessem o trabalho.

Erro fatal.

Quando voltei, já dava pra ouvir barulhos de arrasto e marteladas, como se tivessem transformado meu apartamento num canteiro de obras.

O lugar estava um desastre.

Mesas viradas, buracos nas paredes, poças de uma gosma gordurosa e iridescente no chão.

E então vi — e meu sangue gelou.

Um dos homens estava de quatro, de cabeça pra baixo, preso no teto, com a máscara removida.
No lugar da cabeça humana, havia uma de barata — enorme, grotesca, viva.

As antenas se mexiam, o som das mandíbulas estalando ecoava pelo cômodo, e uma trilha de saliva oleosa escorria da boca até o chão.
No canto, havia uma estrutura gigante, como um ninho de vespa monstruoso.

Antes que eu pudesse reagir, o homem-barata caiu do teto e ficou de pé na minha frente.

— “Você volta cedo demais.” — disse ele, limpando a boca com a mão e espalhando a baba no traje.

— “Que porra tá acontecendo aqui?”

— “Muitos insetos. Muito bom.”
Antes que eu entendesse, ele bateu a mão na parede.
Quando levantou, um resquício amarelado, viscoso, grudava na luva — parecia gema de ovo podre.
Ele levou a mão à boca e, com as mandíbulas, devorou aquilo, lambendo os restos com cuidado.

Então, ouvi a descarga do banheiro, e o outro — o do traje verde — saiu.

— “Ah, merda, ele voltou. Matamos ele agora, sim?”

Fui agarrado antes mesmo de pensar. A porta bateu atrás de mim com força.

Senti minhas costas contra a parede e as mãos escorregadias e gordurosas apertando meus ombros.

O bafo quente do bicho me envolveu.

Cheirava a banheiro público misturado com leite azedo.

As mandíbulas estalaram mais uma vez enquanto ele se inclinava sobre minha cabeça.

— “ESPERA! EU PRECISO TE DIZER UMA COISA SOBRE OS INSETOS QUE VOCÊS ESTÃO COMENDO!” 

— Gritei no desespero.

Não fazia ideia do que eu poderia dizer pra impedir que esmagassem minha cabeça, mas isso o fez recuar.

— “Fala logo. O que é?”

No canto do olho, vi o cara do traje verde abrir minha geladeira, pegar umas fatias de presunto, montar um sanduíche de insetos e se jogar no sofá pra assistir Wheel of Fortune.

— “Vocês... querem o meu apartamento?”

— “Sim. Por isso matar você.”

Olhei por cima do ombro dele e vi o estado do lugar:
Um homem-barata comendo um sanduíche asqueroso no meu sofá, vendo TV, com um ninho enorme construído em volta da tela.

Meu quarto coberto de gosma e tripas de insetos esmagados, os lençóis empapados daquela baba oleosa.

Nem quis imaginar o estado do banheiro — o cheiro devia ser infernal.

— “Cara... podem ficar. Eu pego minhas coisas e vou embora.”

— “Sério? Você sério?” — perguntou ele, tirando as mãos dos meus ombros.

— “Tô. Tudo seu, parceiro.”

Demorei um pouco pra achar roupas que não estivessem cobertas de baba. Peguei só o essencial e fui até a porta.

Antes de sair, me virei.

— “Uma última pergunta... por que o meu senhorio fez parceria com vocês?”

— “Senhor... o quê?”

Os dois estavam sentados no sofá, se encarando com o que parecia ser uma expressão confusa — de barata.

— “Deixa pra lá. Aproveitem o que sobrou do apartamento.”

No caminho, resolvi parar no apartamento do senhorio pra avisar que eu estava indo embora — e apresentar os novos inquilinos invertebrados.

Bati na porta.

Ela se abriu, e do outro lado estava uma barata do tamanho de um homem, vestindo bermuda jeans e regata, tomando uma cerveja que eu nunca tinha ouvido falar: Pest Pilsner Ever.

Desde então, estou dormindo em sofás de amigos. Tentando me reerguer depois de perder praticamente tudo.

Desculpa

Um dos meus hobbies é garimpar antiguidades, e eu adoro bater perna em brechós esquecidos no fim do mundo ou em vendas de garagem pra encontrar aquelas peças que todo mundo ignorou. Tá ficando cada vez mais difícil achar algo interessante na era da internet, mas de vez em quando a gente ainda dá sorte.

Numa cidadezinha rural, vi uma placa de venda de espólio, então segui o caminho e parei o carro. A maior parte do treco era o de sempre: tranqueira pura. Mas um item me chamou a atenção. Era uma placa de chumbo, mais ou menos 30 cm de lado por 2,5 cm de espessura, e tavam vendendo por um tiquinho acima do valor do metal fundido. Gravado nela, embora bem desgastado pelo tempo, tinha letras numa escrita que eu definitivamente não conseguia ler, e em estilos diferentes.

Não fazia a menor ideia do que era, mas fiquei curioso, então comprei.

Aí a coisa óbvia era tentar traduzir, e isso se provou um baita desafio. Tradutores de IA ajudaram pouco, mas descobri que o texto tava em várias línguas antigas, mortas.

A primeira parte era em cuneiforme elamita, só que entalhado em chumbo em vez de argila. Decifrar não foi moleza, exigiu aquele tipo de estudo que só um hobista meio obcecado consegue fazer. Ajudou quando percebi que era pra rimar.

A parte seguinte foi mais fácil: grego antigo. Explicava que o texto de cima era uma invocação ritual pra proteger de… não traduz bem, mas “o Devorador Interior” é o mais próximo.

Também dava instruções pros outros requisitos. Não vou entrar em detalhes aqui, mas não era difícil conseguir, embora meio nojento. Levei uns olhares estranhos no açougue, mas não foi lá um sacrifício preparar.

Minha curiosidade não me deixava deixar pedra sobre pedra, então testei. Era simples, e, francamente, meio chato e constrangedor de um jeito que me deixava envergonhado. Fiquei feliz de estar sozinho; seria humilhante alguém me ver fazendo uma palhaçada daquelas.

Nada óbvio aconteceu. Mesmo sendo o que eu esperava, ainda foi um pouco decepcionante.

Uma semana depois, no trabalho, vi pela primeira vez. Meu chefe veio falar comigo e eu vi a forma nadando atrás dos olhos dele, e parecia que tava me encarando de volta. Ele não via. Nenhum dos meus colegas via. A coisa conseguia se esconder de todo mundo, menos de mim.

Três semanas depois, ele tava morto. Os primeiros sinais são fáceis de ignorar: dor de cabeça, talvez dor nas juntas, ou só cansaço. Mas rapidinho o corpo é consumido por tumores que ninguém segura. Nem quimio, nem radioterapia param. É assim que a coisa rasga um corpo sem derramar uma gota de sangue. Também não é um jeito fácil de ir, e morfina parece não fazer efeito nos coitados. Talvez a dor seja importante pro bicho de algum jeito.

A próxima foi a moça da lojinha de conveniência da rua. Um dia entrei pra comprar leite e vi de novo, nadando atrás dos olhos dela, me olhando com uma mistura de curiosidade e ódio.

O ritual de proteção me mantém longe dele, mas também atrai a atenção. Não pode me machucar, mas me persegue e vai atrás de quem tá perto de mim.

Minha irmã foi a seguinte. Sempre fomos bem próximos, e eu não podia estar mais horrorizado ao ver a forma nos olhos dela.

Tentei explicar o que tava rolando. Supliquei pra ela tentar o ritual. Não dá pra culpar ela por recusar, eu sei como parece loucura. Mas foi de partir o coração ver ela morrer no hospital, com os médicos de mãos atadas, sem conseguir ver a coisa atrás dos olhos dela.

Foi assim que ele matou meu pai também. Com a minha irmã eu era próximo, mas com o pai não falava fazia uns dez anos. Quando ela morreu, ele ligou. Pediu desculpas por umas coisas do passado. Eu também. Marcamos de nos ver de novo, no Natal.

Os planos nunca rolaram, porque um mês depois ele tava morto, o corpo cheio de tumores. O Devorador Interior tá me caçando, até quem eu falo, mesmo estando longe.

Trabalhei pra traduzir mais da placa, tentando achar uma solução. Não tem. Tudo que descobri é que o ritual protege só uma pessoa por vez. Se outra usar, a proteção passa pra ela.

E é por isso que eu peço desculpas. Não aguento mais ver gente ao meu redor morrer daquele jeito. Tô jogando essa mensagem pro mundo, sabendo que pode levar o Devorador até alguns de vocês, quem sabe pra poupar quem tá perto de mim. Já tão fazendo perguntas demais.

Se ele for atrás de você, talvez exista outra cópia do ritual por aí. Talvez salve você. Mas pensa bem antes. O Devorador com certeza viria atrás de mim, mas nesse ponto eu mereço. Não é fácil viver com ele te perseguindo, devorando quem tá ao seu redor.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Os dias que virão

Meu avô sempre foi louco por bibelôs e bugigangas ultrapassadas – pelo menos era o que pareciam pra mim. Pra ele, eram pequenas janelas pra um passado que a maioria da minha geração já esqueceu de vez.

Nos fins de semana esporádicos em que meus pais me largavam na casa dele, ele me arrastava pra todo tipo de feiras de porta-malas, lojas de antiguidade e brechós.

Na minha infância eu detestava aquilo, mas com o tempo, quando as lembranças dessas saídas foram se apagando, virou o único jeito de me reconectar com a memória dele.

Embora eu tenha carinho pelos objetos que chamariam a atenção dele – brinquedos antigos e tal –, minha busca sempre foi por livros.

No começo usava eles só pra passar o tempo; logo viraram o alvo da minha vasculhada obsessiva, despertando aquela vontade louca de escrever os meus próprios.

Ele sempre dizia que aquelas peças quebradas, gastas e completamente desamadas tinham, sem dúvida, testemunhado décadas da vida dos donos. Com um pouco de graxa de cotovelo, como ele falava, podiam ser revitalizadas e voltar a ser úteis.

Eu curtia pra caralho essa ideia, embora os romances falassem comigo num nível diferente. Janelas pra mente de autores lembrados só pelo nome.

Me dava uma satisfação do caralho poder ser transportado pro mundo que eles rabiscavam, vendo tudo pelos olhos deles.

Naquela manhã de domingo cedinho, eu já tinha fisgado dois romances, louco pra voltar pra casa e me afogar no brilho do verão enquanto devorava aquelas páginas empoeiradas. Mas algo lá dentro – talvez as palavras do vovô – me empurrou a pelo menos dar a volta completa, vai que.

Chegando no fim da fileira, meus olhos bateram num carrinho de metal de corda, pequeno e surrado. Parecia bem com aqueles que tenho no escritório, porque nunca tive coragem de jogar fora nada do que ele me deixou.

Peguei na mão, aliviado por acalmar aquela sensação, quando outro item praticamente pulou na minha cara.

Deitado ao lado do balde vermelho desbotado pelo sol, que continha uma mistureba de carrinhos de brinquedo, tinha um livro encadernado em couro marrom-escuro.

Hipnotizado pelo tomo bem envelhecido, virei ele e li o título gravado, meticulosamente talhado na capa levemente úmida.

“Uma história de vida”.

Não reconheci o título nem o nome do autor rabiscado, pequeno demais até pras minhas lentes aumentarem. Tentei chamar a atenção da vendedora. A mulher corpulenta, vidrada no celular, acenou com a mão e repetiu uma frase cansada, apontando pro adesivo de preço no balde.

Joguei as moedas, voltei pra casa com bem mais escolha que o normal. Pensando qual dos novos achados atacar primeiro, meu olhar sempre caía naquele livro.

Não sei o que eu esperava de um título desses – talvez uma autobiografia reflexiva ou um guia completo pra viver a vida intensamente. Não foi o que rolou.

Nem terminei a primeira página e o estilo do autor já me travou. Cada frase era uma descrição metódica, até relatando os sentidos que o personagem principal estaria sentindo.

As descrições eram precisas, ainda mais do ponto de vista de alguém afastado da situação, mas presente o suficiente pra sentir tudo junto.

O problema mais foda, porém, era que cada detalhe batia quase perfeitamente com a minha infância.

Meu local de nascimento, o hospital, o horário exato, até a primeira casa e o nome completo dos meus pais.

Admito, não tenho memórias sólidas daqueles anos por motivos óbvios, mas as descrições do meu quarto e da família eram precisas demais.

Não consegui ler mais. Quem quer que tivesse bolado essa piada doente devia estar me seguindo há um tempão – ou pegou minhas informações na internet.

Nos dias seguintes, virei paranoico pra caralho, olhando por cima do ombro a cada segundo, pronto pra encarar algum perseguidor sombrio.

Nunca aconteceu, mas mostrei o livro pra uma amiga, em parte pra justificar minha loucura atual e em parte pra saciar uma curiosidade.

Libby surtou direitinho quando leu a primeira página, os olhos arregalados e a testa franzida enquanto eu via o olhar dela percorrer cada linha.

Já comecei meu discurso no segundo em que ela ergueu os olhos pros meus, mas a primeira pergunta dela calou minhas preocupações – por um momento. A frase seguinte que saiu da boca dela me deixou pasmo, igualzinho a ela.

“Como diabos alguém sabe tanto sobre mim?”

Desabei no salto que eu já tinha dado, chegando numa conclusão completamente alienígena. Virei o livro e reli as primeiras linhas; ainda detalhavam minha infância, mas segundo Libby, as palavras daquela página eram sobre ela.

Em pânico, cortei a conversa e precisei pesquisar mais. Usei o intervalo do trabalho pra vasculhar a internet atrás de qualquer informação. Nada.

Nenhum conto sobre o objeto, nenhum caso paranormal, nada. Nem a identidade daquela mulher era conhecida, embora eu tenha perguntado pra todos os vendedores habituais que estavam lá naquele dia.

Resignado com meu destino, afundei na poltrona naquela noite quando uma ideia idiota e irresponsável brotou na minha cabeça.

Se o autor daquele livro sabia tanto sobre mim – a ponto de eu nem lembrar direito de alguns detalhes –, então eu queria botar à prova. Loucura, eu sei, mas o quanto eu podia tirar de um livro sobre a minha própria vida?

Sem a ajuda dos meus pais, teria que cavar fundo e tentar casar cada batida dessa história com os dias que vivi, todos aqueles ontens.

Começou tranquilo, usando álbuns de fotos antigos e histórias que me contaram quando eu era criança. A maioria daqueles eventos iniciais batia. Não tinha memórias marcantes, então as descrições não mexiam muito.

Aquele escorregão na cantina trouxe de volta uma onda de vergonha que na época me matou por dentro, mas agora só arrancou um risinho baixo.

Meu primeiro gol pelo time juvenil e a pizza depois definitivamente acertaram aquela coceira nostálgica. Naqueles anos iniciais, quando eu não estava atolado em responsabilidades de adulto, tudo parecia bem mais leve.

Quanto mais detalhadas as contas ficavam, mais memórias vívidas eu conseguia arrancar do esquecimento.

Às vezes eu revivia dias inteiros do passado – sons, cheiros e imagens perfeitamente articulados em cada página, alguns até mais palpáveis que a minha própria lembrança.

Dias frescos de verão no quintal dos avós, colhendo amoras pra famosa torta de amora e maçã da vovó, voltavam correndo. Uma época mais quieta, sem estresse.

Sem viver na pele, aquelas sensações eram viciantes o suficiente pra grudar qualquer um na página, capaz de reviver aqueles momentos altos como se estivesse lá.

Infelizmente, outras visões eram uma bagunça de emoções que eu era jovem demais pra processar, só espelhando a miséria da minha família de luto.

Aqueles falecimentos batiam com força tectônica. Nas páginas, eram tão reais e físicas quanto o livro de onde vazavam. Arrancados com violência, deixando tanta devastação quanto no dia em que os perdi.

Logo, o encanto tentador de alcançar o passado calou todo o resto.

Lutar contra a vontade de faltar no trabalho era como segurar uma pedra gigantesca, mas bastou ceder à virada viciante de mais uma página e meu emprego dos sonhos perdeu qualquer peso.

Oito anos ralando pra chegar ali não valiam nada. Nem quando cheguei no topo, finalmente publicando minha própria obra, me tirou um centímetro da poltrona onde me colei.

Mensagens, ligações e até batidas ocasionais na porta não quebravam meu foco laser na narrativa que eu mesmo tinha vivido.

O mínimo do mínimo era o que eu fazia. Comer uma vez por dia parecia tortura, olhando de volta pras páginas impecavelmente lisas a cada microsegundo possível.

Minha insônia levantou a cabeça feia, trabalhando dobrado pra me tirar dos cochilos involuntários no chão da sala. No meu auge, a maior parte do meu melhor trabalho fluía nas horas crepusculares, encontrando inspiração nova enquanto meus pensamentos ficavam soltos.

Numa fachada distorcida dos meus próprios pensamentos, tudo o que importava era a próxima linha, a próxima recriação perfeita de um dia há muito descartado. Na época considerado só enchimento pro próximo grande evento da vida, agora ruminado como texto sagrado de um padre no altar.

Logo meu celular morreu, comi tudo o que consegui engolir com o mínimo de preparo possível e as batidas na porta ficaram mais frequentes.

Uma voz ecoou da porta de carvalho podre, misturando-se à brisa fria, nada além de um sussurro ambiente enquanto eu avançava pelos meus próprios recuerdos.

Pronto pra virar a página, meus olhos devoravam cada palavra famintos, parando pela primeira vez por vontade própria. Como uma experiência fora do corpo, a frase final descrevia cada detalhe minúsculo do quarto esquecido onde eu estava deitado, centrando no meu corpo exausto, virando pra mesma página.

Antes que eu pudesse processar o limiar em que eu estava, vozes explodiram e madeira estilhaçou enquanto aquele tomo bíblico era arrancado da minha mão encharcada.

No meio do caos e da confusão, aquela janela pra cada momento concebível sumiu, nada além de bafo num espelho.

Eu gostaria de dizer que estava estável o suficiente pra viver sem aquilo, não tão preso, mas meu rosto emaciado bastou pros dois policiais entenderem. Por sabe-se lá quanto tempo, eu tinha overdosed na minha droga de escolha: nostalgia.

Contido no meu estado selvagem – mais pelo meu próprio bem –, fui levado pro hospital. Aquelas memórias estão nebulosas, mas o nojo pela minha própria deterioração mental deixou um gosto amargo na boca.

Tive visitas, gente preocupada comigo, aflita com minha falta de interação, mas por mais triste que seja dizer, eu sentia falta das pessoas pra quem podia voltar pra mais. Aquelas páginas sem fim, ainda capazes de me transportar pros dias quietos de verão, onde ainda chamavam meu nome.

Com tempo pra me recuperar, não voltei ao meu melhor, mas cheguei o mais perto possível. Porém, rolando o celular depois da alta, ficou claro que Libby não tinha.

Nos meses em que eu fiquei grudado nas páginas, ela pirou.

A caixa de Pandora que abri pra ela causou uma ruptura braba na psique. Só com as primeiras páginas, uma pergunta brotou e praticamente a engoliu inteira.

Estava espalhado pelo quarto dela, em toda superfície disponível.

Eu teria aceitado o abuso por aquela ação idiota, mas nunca veio. Ver ela encolhida em silêncio naquela poltrona de canto – como eu via pela janela – finalmente colocou em perspectiva o quanto eu tinha sido sugado pela oferta.

Sei que foi burro, irresponsável, tudo isso, mas cheguei no topo daquela curva.

No tempo afastado, deixei a mente vagar, embora acho que a conclusão sempre esteve ali, cutucando no fundo da cabeça. O que aconteceria se eu lesse adiante?

Eu gravaria ativamente meu futuro na pedra, ou ele, como aquelas descrições do passado, já estaria escrito?

Talvez essa informação me mande pra outra espiral, pensando no meu destino e no meu livre-arbítrio.

Aqueles relatos, tão perfeitos que parecia que o autor viu cada evento pelos meus olhos.

A menos que eu vire aquela página e grave aquelas palavras na existência, nunca vou saber.

Mas é exatamente isso: estou pronto pra virar o autor da minha própria história?

Fui caçar dentro de uma zona de testes de radiação. Agora, algo está me caçando...

Lá estava eu, mirando a espingarda na beira da mata, quando sai um cervo de três olhos.

Ele abaixava a cabeça, roçando o focinho na grama. Eu espiava de trás de um carvalho, uns cento e cinquenta metros pra trás, numa leve encosta. Fiquei pasmo. Só conseguia olhar.

O cervo achou o lugar dele e começou a mordiscar a grama. Enquanto os olhos normais ficavam fixos no que comia, o terceiro olho rolava dentro da órbita, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, vasculhando tudo ao redor. Até piscava no próprio ritmo.

Era uma mutação genética foda. Exatamente o tipo de coisa que eu procurava.

Eu tava deitado no chão, atrás da espingarda. Deslizei a mira do olho dele, subindo pelo pescoço, e parei logo acima do ombro direito. Bem em cima do coração. Não consegui segurar o sorriso. Porque hoje era meu dia de sorte. Essa cabeça ia virar um troféu do caralho.

Passei o indicador no gatilho. Respirei fundo. Lá no alto das árvores, o sol se punha. Tudo banhado num brilho dourado. O ar tava gelado e o calor da minha respiração embaçava o vidro da luneta. Segurei o ar. Estabilizei a mira. Reflexos loiros riscavam o pelo marrom-chocolate do cervo. Era lindo pra porra. E a vida dele tava na ponta do meu dedo.

O cervo deu uns passos pra frente, virando de lado pro esquerdo, bagunçando minha mira. Quando ele se inclinou, vi uma quinta perna saindo da bunda dele. Empurrei isso pra longe da cabeça. Foquei. Voltei a mira pro coração. Conte uns batimentos e me ajeitei no chão pra ficar confortável. Umas folhas estalaram debaixo de mim.

O olho se ergueu. E depois se estreitou.

Apertei o gatilho.

No meio segundo que a bala levou pra acertar, o cervo deu um pinote pro lado. Tropeçou, girou e disparou de volta pra mata, roçando num cartaz desbotado que dizia “Zona de Radiação. Proibida a Entrada”.

Meus olhos grudaram no cartaz e no buraco vazio entre as árvores. Uma sensação de fracasso afundou no meu estômago como âncora na água. Depois, uma queimação explodiu no peito. Soltei o ar com força pelos dentes.

Seu filho da puta inútil... Eu tinha acertado. Tinha. Tinha. Tinha. Por que caralhos eu me mexi?

Levantei, encarando o carvalho com ódio, e recolhi a espingarda. Tava pronto pra quebrar ela no meio e rachar lenha de quebra. Eu odiava errar. Odiava pra caralho. Um segundo antes de balançar, uma luz se acendeu na minha cabeça.

Parei. Deixei a espingarda cair pro lado. Aquilo tinha sido um tiro bom. Eu tinha acertado em cheio. Olhei pela luneta. Contra a luz que sumia, um ponto de sangue brilhava.

Afunde no tronco da árvore e cruzei a espingarda no colo. Do lado, minha mochila também encostava na árvore. Enfiei a mão dentro e tirei o cantil. Bebi um gole. E comecei a pensar.

O cervo tava correndo, mas aposto que não foi longe. Aposto que nem um pouco. Mas, se eu for atrás agora, posso assustar ele. Fazer correr mais fundo na mata. Seria burrice. Quando isso acontece numa caçada, o tempo padrão de espera é trinta minutos. No mínimo.

Olhei pra um fio de sol sumindo atrás das árvores.

Em trinta minutos, não ia ter mais luz. Eu ia rastrear dentro de uma floresta desconhecida no escuro total.

Bebi mais um gole, depois pensei no meu pai. Ele ia odiar isso. Pra ele, caçar era só pra comida. Atire só no que você vai comer, e nada mais. Eu sempre discordei.

Quando você sente a adrenalina, a empolgação, o tesão de caçar um bicho e conquistar a vida dele, é inesquecível. É como um barato. É íntimo. É a troca mais delicada que você pode ter com outro ser vivo. Mais que sexo. Tô falando sério. Nada se compara.

Mas, como tudo, o novo enjoa.

Aos vinte e poucos, depois que o pai morreu, o tesão sumiu. O que era minha maior alegria virou rotina. É como quando você começa a dirigir. Na primeira vez que vira o volante, parece que descobriu o fogo. É mágica. Mas deixa um ano passar... bom, como eu disse. É igual qualquer coisa. E você só recupera a mágica encontrando um jeito novo de fazer.

Foi aí que descobri esse lugar. Floresta de Radiação Enterprise.

Durante a Primeira Guerra, o governo dos EUA usou uma área pequena dessa floresta em Wisconsin pra testar os efeitos da radiação na vida selvagem. Queriam ver as formas horríveis que ia alterar as árvores, insetos e animais, pra se os EUA fossem atingidos, a gente soubesse o que esperar.

Os locais odiavam. Políticos brigavam a cada passo pra fechar. Então, mesmo que o projeto tivesse verba pra vinte anos, cortaram depois de um.

O lugar não é mais radioativo. Mas quando li que a vida selvagem foi alterada pra sempre, tive que ver com meus próprios olhos. Claro, caçar aqui era altamente ilegal. Mas isso era parte da graça.

Isso decidiu pra mim. Não fiquei puto porque o cervo correu. Fiquei feliz. Era só o aquecimento pro evento principal. Agora era caçada de verdade. Com sol ou sem sol, eu ia levar meu troféu pra casa.

Coloquei um timer de trinta minutos no relógio.

Depois, encaixei outra bala na câmara, troquei a bateria da luneta infravermelha e, por via das dúvidas, botei uma bateria nova na lanterna de luz vermelha. Quando caça à noite, tem que usar luz vermelha porque os bichos são menos sensíveis a essa cor.

Trinta minutos passaram, e o relógio apitou. Eu tava bem alto já. Joguei a espingarda no ombro e desci a encosta em direção ao sangue. Agora tava escuro.

Uma rajada gelada cortou e atravessou meu casaco. Esfreguei as mãos, soprando pra recuperar o tato, quando cheguei no fundo da encosta. Olhei pro sangue.

Era marrom-escuro e já tinha coagulado por causa do frio. Um cheiro podre subia, e vários tufos de pelo marrom tavam enrolados dentro. Sinais bons.

Sangue marrom-escuro com cheiro horrível significa tiro na barriga. Tiro na barriga significa morte rápida. Sinceramente, fiquei chocado que ele tenha conseguido entrar na mata. Achei que tava perto.

Várias gotas de sangue seguiam pra dentro da floresta. Segui, passando pelo cartaz de aviso, e entrei na mata.

Andei ao lado de mais umas gotas, depois o rastro cortou. Vasculhei ao redor, procurando continuação. O feixe vermelho da lanterna varria árvores que cresciam uma na outra, troncos torcidos em formas horrendas. Na minha frente, um bordo explodia com centenas de cogumelos vermelhos que brotavam na casca como uma erupção.

Do lado direito, vi uma folha com várias gotas de sangue. Estalei naquela direção por uns metros e dei num segundo poço grande de sangue.

Pelo jeito que tava acumulado, o cervo provavelmente parou ali pra descansar. Isso me derrubou. O fato de ele parar, descansar e continuar com um tiro na barriga era uma maravilha absoluta. Esse bicho era foda. Aí notei algo no sangue.

Mais tufos de pelo enrolados, mas de cor diferente da anterior. Esse pelo era vermelho. Pelo de um bicho completamente diferente. Como assim? As chances de outro bicho ferido cruzar exatamente esse caminho eram astronômicas.

Minha melhor aposta era pelo de raposa, mas eu sabia que era forçado. A textura tava errada. Fui mais fundo na floresta. Tinha que tá perto. Tinha que.

Claro, peguei mais rastro e segui uns metros. Parei quando algo brilhou na minha cara.

Esticada entre duas árvores a uns três metros de distância, uma teia de aranha tão grande que devia ter levado um exército pra fazer. Uma rede de padrões assimétricos espiralava pro centro. No meio, uma aranha gorda pendia, tremendo. A centímetros da minha cara.

Parecia que tava tendo um ataque. As pernas eram longas como dedos. A pele era translúcida, e dentro do corpo eu via veias azuis pulsando. Expandindo e contraindo.

Recuei devagar. E enquanto eu recuava, o corpo da aranha parou de tremer. Ficou só pendurada, imóvel, balançando leve no vento.

Aí algo explodiu debaixo dela e centenas, talvez milhares de aranhas bebês saíram correndo. Rastejavam umas por cima das outras pra sair debaixo da mãe. Depois se espalhavam, explorando a teia.

Sou mateiro há muito tempo. Vi muita coisa louca na natureza. Mas nada como aquilo. Aquilo me fodeu. Dei uma volta larga daquelas árvores e tentei esquecer o que tinha visto. Queria que o cervo aparecesse logo. Quanto mais floresta eu via, menos queria tá ali.

Continuei no rastro, pegando uma gota aqui, outra ali. E pra minha surpresa, tive que andar mais duzentos metros até uma clareira nas árvores. Aí achei.

O corpo do cervo tava deitado de lado, amontoado. Estudei a barriga, procurando subir e descer. Mas tava parado. Finalmente, caiu morto. “Aí tá você”, sussurrei.

Um galho estalou atrás de mim.

Virei, varrendo a luz pelas árvores. Não tinha nada. Virei de volta.

Pelo lugar que acertei, qualquer outro cervo teria dobrado na hora, se não uns metros depois. Mas esse. Esse cervo viajou o equivalente a três campos de futebol com um buraco explodido no intestino. Era loucura absoluta.

Só podia assumir que os bichos dessa mata eram duros pra caralho porque as pessoas os fizeram assim. Pessoas impuseram forças que deviam ter tornado a vida aqui impossível. Eles deviam ter sido apagados. Mas em vez disso, se adaptaram. É o que a vida faz. Acima de tudo, quer existir.

De repente, senti um respeito imenso por aquele cervo. Depois senti culpa. Nunca devia ter vindo aqui. A vida desses bichos já era dura o suficiente sem eu meter o dedo. Lição aprendida. De novo, o pai tava certo. Quanto mais velho eu ficava, mais percebia isso.

Porém—

Já que eu tava aqui, e já que o cervo tava morto, não devia eu fazer o melhor pra honrar ele? Comemorar a perseverança contra todas as probabilidades? A resposta natural parecia sim. Ia levar a cabeça pra casa e pendurar na parede pra todo mundo ver.

Entrei na clareira e, enquanto me aproximava, revirei a mochila atrás da serra de osso. Como não ia esviscerar o cervo inteiro, não ia demorar. Só precisava da cabeça.

Antes de achar a serra, a lanterna piscou um pouco, o que me surpreendeu. Tava com bateria nova. Por sorte, tinha reservas se precisasse.

Parei em cima do cervo e senti algo estranho no jeito que tava deitado de lado. Algo não natural. Aí percebi que não tava deitado de lado. Nem tava lá. Só a pele.

A pele do cervo tava jogada em cima de uma pedra, criando ilusão de volume, mas o corpo tinha sumido. Sumido. Dava pra ver que as bochechas tavam ocas, a barriga esticada na pedra como cobertor numa cadeira, e as pernas enroladas embaixo como cordas. Meu coração pulou. O cervo tinha largado a pele.

Aí a luz piscou, apagou e morreu. Tudo escureceu. Tirei a lanterna da cabeça, cliquei o botão umas vezes, depois bati nela. Nada.

Precisava daquelas baterias.

Ajoelhei, arranquei a mochila do ombro e tateei o zíper. Depois de umas passadas, os dedos roçaram metal. Abri e enfiei a mão, procurando o plástico das baterias.

Os dentes da serra de osso arranharam meu braço, mandando uma dor foda. Minha pele agora tava escorregadia de sangue. Forcei uma risada pra me acalmar. Tá tudo bem. Tudo certo. Só achar as baterias, colocar e vazar. Simples.

Algo se mexeu atrás de mim.

Levantei, arrancando a espingarda do ombro. Usei a luneta térmica pra varrer a área onde ouvi o barulho. Se tivesse algo, o calor do corpo ia aparecer em branco. Mas só via uma paisagem de árvores deformadas e um tapete de folhas mortas embaixo. Algo definitivamente tava lá. Só não queria ser visto.

Todos os meus sentidos entraram em overdrive. Meu cérebro tava louco, tentando absorver tudo de uma vez, tentando localizar a ameaça. Eu tava perdendo a cabeça.

Saí correndo na direção que achava que tinha vindo, usando a luneta da espingarda pra ver, o que tornava correr rápido impossível. Tropecei em raízes, galhos mortos, saliências no chão escondidas na minha visão. Aí meu pé bateu em algo sólido. Tropecei pra frente, largando a espingarda mas me segurando numa árvore. Minhas mãos esmagaram algo. Aí começou a se mexer.

Empurrei a árvore e me joguei no chão, depois comecei a tatear no escuro. Tinha que pegar a espingarda. Varri na frente, virei esquerda, varri mais, virei de novo e bati na coronha. Agarrei e levantei correndo.

Atrás de mim, algo também começou a correr. Quatro pernas batendo no chão com velocidade do caralho. Quando ouvi, girei e disparei um tiro de aviso pra mostrar que eu ainda era ameaça. Que ainda tinha poder.

Quando virei de volta, bati em algo pegajoso. Senti cócegas no rosto e no couro cabeludo. Olhei pra baixo. Dezenas de pontinhos brilhantes rastejavam na minha jaqueta. Tinha corrido direto na teia.

Bati no corpo e puxei o cabelo, lutando pra tirar. Mas os corpinhos grudavam como cola. Rasguei a mochila e tirei o cantil, depois joguei uísque na cabeça e espalhei. Quando o álcool entrou, a cócega parou.

Eu tinha perdido total controle da situação. Se continuasse correndo assim, ia morrer. Não conhecia essa mata. O que me caçava conhecia. Precisava de um lugar pra acampar. Precisava que viesse até mim.

Vasculhei. A uns metros, uma parede de pedra. Se encostasse as costas ali, cortava pelo menos um ângulo de ataque. Não era muito, mas era algo.

Corri pra lá. A posição era melhor do que imaginei. Porque tinha um buraco cavado na base. Um buraco que eu podia enfiar o corpo. E esperar.

Ajoelhei e entrei de costas, agarrado na espingarda. O espaço era apertado. Mas cabia. Me ajeitei. Depois varri fora do buraco, testando a mira.

Tava deitado do lado esquerdo, num ângulo foda. Mas tinha certeza que dava pra fazer algo. Assim que visse, mirava na cabeça e atirava. Já tinha gastado uma bala, então sobravam quatro. Quatro chances.

Tinha que ficar quieto agora. Sabia que a audição dele era afiada. Ouviu eu estalar uma folha a cento e cinquenta metros. Pra pegar de surpresa, precisava ficar parado como estátua.

Fiquei imóvel, olhando pela espingarda, ouvindo o tum-tum rápido do meu coração. Mal respirava.

De algum lugar à direita, ouvi folhas estalando. Vindo bem de fora do buraco. Queria mirar pra lá. Mas tinha medo que o movimento fizesse barulho demais. Em vez disso, esperei ele entrar na mira.

Os passos ficavam mais perto. Pra checar onde tava em relação a mim, avancei o olho devagar da luneta. Uma forma escura entrou no campo. Só que não era forma de bicho. Era forma de gente. Rastejando de quatro. A cabeça abaixada no chão, olhando algo além do buraco, mas rastejando bem na minha frente.

Mesmo a menos de sessenta centímetros, não percebeu minha presença. Fiquei imóvel. Tava quase direto na minha linha de tiro. Passei o dedo no gatilho.

Aí algo fez cócegas na linha do cabelo, e perninhas minúsculas desceram no meio da minha testa. Quando a aranha chegou entre meus olhos, parou. O corpo brilhava no canto da visão. Meu reflexo gritava pra mão bater, esmagar. Mas isso significaria morte quase certa pra mim. Tinha que ficar perfeitamente parado.

Enquanto a criatura humanoide rastejava direto na frente do cano, a aranha subiu na ponta do meu nariz, depois desceu por um fio. Pernas como agulhas roçaram meus lábios e andaram, explorando a carne mole ao redor da boca. Não mexi um músculo. Desceu pelo queixo, pelo pescoço e entrou na frente da camisa.

Fora do buraco, a criatura olhava pro lado esquerdo. Depois parou, como se tivesse captado algo. As orelhas tremiam. Minha arma agora mirava longe demais pro direito. Tava tão congelado de medo, tão paralisado, que não ousava me mexer. Tava perto demais. A cabeça virou pro buraco, só uns centímetros. Segurei o ar nos pulmões com força. Aí virou mais um centímetro, e mais um, e olhou direto pra mim. Bem dentro do buraco.

Aí virou pro outro lado e rastejou pra longe, me mostrando as costas. Devia tá me caçando pelo som.

Deixei ele se afastar. Aí voltei o olho pra luneta. Lá tava. Bem na mira. Deslizei a retícula na nuca. O pescoço rolou pro esquerdo. Segui. Esperei. Depois de uns segundos parado, o dedo tocou o gatilho e começou a apertar. Algo afiado picou meu peito.

A retícula desviou e disparei fora do alvo. A cabeça girou pra trás, direto pra mim. Foi a primeira vez que vi direito.

Tava usando a minha cara.

Minhas mãos tremiam enquanto alinhava a retícula de novo, bem entre os olhos, e disparei a segunda bala. Ele desviou pro direito, pulou de volta e avançou.

Disparei a terceira.

Cortei pro esquerdo, como se soubesse exatamente quando eu ia atirar antes de eu puxar o gatilho.

Chegou a um metro e meio de mim.

Mirei direto na cabeça e apertei a última bala enquanto ele pulava do chão. Caiu de cabeça dentro do buraco, tremendo em cima de mim. Aí parou de tremer, e o corpo ficou muito parado. Um calor começou a vazar na minha camisa. Tava sangrando.

Lutei contra o peso morto e finalmente empurrei o suficiente da abertura pra me espremer pra fora.

Fiquei de pé, depois dobrei e vomitei. Aí as pernas cederam nos joelhos e desabei no chão. Tive que me esforçar pra levantar de novo. Uma pressão crescia na cabeça. Parecia que meus olhos iam explodir.

Quando me estabilizei, levantei a espingarda pra ver o que tinha atirado. Tava de costas, e via que tinha acertado direto no coração, totalmente por acidente. Tiro de sorte. Milagre.

***

Agora tô sentado na cadeira de rodas perto da lareira. Na minha sala de caça. Exceto pela luz tremendo da fogueira, o quarto tá escuro. Por causa das enxaquecas, é tudo que meus olhos aguentam.

Fogo tem um jeito engraçado de pintar um quarto. Tô notando coisas nas paredes que não via há anos.

O fogo brilha nos olhos escuros dos meus troféus empalhados. Reluz no metal brilhante da minha primeira espingarda. Reflete nas molduras das fotos de caçadas antigas. Tudo isso representa os bons tempos. Esse quarto é uma extensão de mim. Essas relíquias são pedaços de mim. Enquanto olho ao redor, me pergunto se vou conseguir adicionar mais alguma coisa, ou se minha última adição já foi feita.

Minha saúde não tá boa nessas últimas semanas. Quando fui picado, injetaram um veneno que meu corpo não consegue combater.

Primeiro, perdi os movimentos finos das mãos, então não consigo mais mirar uma espingarda. Depois perdi o uso das pernas. Não consigo ir trabalhar nem sair de casa sem ajuda. E agora a visão tá indo embora. As enxaquecas são tão ruins que vejo em dobro. Quando atacam, parece duas picaretas batendo nas têmporas, sem parar.

Minha namorada parou de vir. Nem atende minhas ligações. Acho que acha tudo isso depressivo demais. Não dá pra culpar ela.

Talvez eu tenha trazido isso pra mim mesmo. Talvez seja castigo por tratar caça como jogo. Se for, aceito. Mas queria que meu arrependimento aliviasse a dor, nem que fosse um pouco. Tô doendo o tempo todo agora. É só no que penso.

Só fico feliz que o pai não tá aqui pra ver isso. Me dá vontade de chorar, pensando nele e nos dias que caçamos juntos. Quando fecho os olhos, ainda ouço a voz dele me levando pra caçar pela primeira vez. Ele era tão jovem. Nós dois éramos. Lá estávamos, de bruços, espiando por cima de uma árvore morta e estudando um cervo. Era uma beleza.

Eu tinha a espingarda nele, e sentia ele sussurrando no meu ombro, dizendo exatamente onde mirar, exatamente como respirar. Pra ficar calmo. Meus dedos tremiam tanto que mal segurava a espingarda. Mas ele disse que tava tudo bem. Disse pra não ter medo, porque o que a gente fazia era parte de um ciclo. Era um ato de violência, mas seria seguido por um ato de amor. Quando eu tomasse a vida do cervo, ele disse, nossa família ia ter comida por seis meses.

O pai se foi há alguns anos, mas ainda fala comigo. O som da voz dele tá tão claro na minha cabeça agora. Me conforta. É como ouvir as palavras de um anjo.

Mas o que ele pensaria de mim agora? Todos esses erros que cometi? Essas cabeças de troféu na parede? Me perdoaria?

Bem na minha frente tá pendurada a minha própria cabeça. Meus três olhos mortos e frios me encaram de volta. Zombam de mim e de como vivi a vida. Um paradoxo doentio. Parece que a natureza tá dando a última risada. O que o pai acharia disso?

Às vezes, nem consigo explicar pra mim mesmo por que faço algumas das coisas que faço. Olho pra dentro, mas as respostas ficam num lugar fundo e escuro demais pra eu alcançar. Ou talvez eu só não queira olhar.

De algum jeito, acho que as coisas vão se ajeitar do jeito que devem. Talvez minha dor suma logo. Talvez eu veja o pai de novo. E até lá, talvez eu tenha encontrado algumas respostas pra ele.

Aí talvez ele consiga me perdoar no coração. Vou dar um abraço nele, e dizer o quanto sinto. Que ele tava certo sobre tudo. Aí, finalmente, a gente pega as espingardas e vai caçar juntos de novo.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon