Numa cidadezinha rural, vi uma placa de venda de espólio, então segui o caminho e parei o carro. A maior parte do treco era o de sempre: tranqueira pura. Mas um item me chamou a atenção. Era uma placa de chumbo, mais ou menos 30 cm de lado por 2,5 cm de espessura, e tavam vendendo por um tiquinho acima do valor do metal fundido. Gravado nela, embora bem desgastado pelo tempo, tinha letras numa escrita que eu definitivamente não conseguia ler, e em estilos diferentes.
Não fazia a menor ideia do que era, mas fiquei curioso, então comprei.
Aí a coisa óbvia era tentar traduzir, e isso se provou um baita desafio. Tradutores de IA ajudaram pouco, mas descobri que o texto tava em várias línguas antigas, mortas.
A primeira parte era em cuneiforme elamita, só que entalhado em chumbo em vez de argila. Decifrar não foi moleza, exigiu aquele tipo de estudo que só um hobista meio obcecado consegue fazer. Ajudou quando percebi que era pra rimar.
A parte seguinte foi mais fácil: grego antigo. Explicava que o texto de cima era uma invocação ritual pra proteger de… não traduz bem, mas “o Devorador Interior” é o mais próximo.
Também dava instruções pros outros requisitos. Não vou entrar em detalhes aqui, mas não era difícil conseguir, embora meio nojento. Levei uns olhares estranhos no açougue, mas não foi lá um sacrifício preparar.
Minha curiosidade não me deixava deixar pedra sobre pedra, então testei. Era simples, e, francamente, meio chato e constrangedor de um jeito que me deixava envergonhado. Fiquei feliz de estar sozinho; seria humilhante alguém me ver fazendo uma palhaçada daquelas.
Nada óbvio aconteceu. Mesmo sendo o que eu esperava, ainda foi um pouco decepcionante.
Uma semana depois, no trabalho, vi pela primeira vez. Meu chefe veio falar comigo e eu vi a forma nadando atrás dos olhos dele, e parecia que tava me encarando de volta. Ele não via. Nenhum dos meus colegas via. A coisa conseguia se esconder de todo mundo, menos de mim.
Três semanas depois, ele tava morto. Os primeiros sinais são fáceis de ignorar: dor de cabeça, talvez dor nas juntas, ou só cansaço. Mas rapidinho o corpo é consumido por tumores que ninguém segura. Nem quimio, nem radioterapia param. É assim que a coisa rasga um corpo sem derramar uma gota de sangue. Também não é um jeito fácil de ir, e morfina parece não fazer efeito nos coitados. Talvez a dor seja importante pro bicho de algum jeito.
A próxima foi a moça da lojinha de conveniência da rua. Um dia entrei pra comprar leite e vi de novo, nadando atrás dos olhos dela, me olhando com uma mistura de curiosidade e ódio.
O ritual de proteção me mantém longe dele, mas também atrai a atenção. Não pode me machucar, mas me persegue e vai atrás de quem tá perto de mim.
Minha irmã foi a seguinte. Sempre fomos bem próximos, e eu não podia estar mais horrorizado ao ver a forma nos olhos dela.
Tentei explicar o que tava rolando. Supliquei pra ela tentar o ritual. Não dá pra culpar ela por recusar, eu sei como parece loucura. Mas foi de partir o coração ver ela morrer no hospital, com os médicos de mãos atadas, sem conseguir ver a coisa atrás dos olhos dela.
Foi assim que ele matou meu pai também. Com a minha irmã eu era próximo, mas com o pai não falava fazia uns dez anos. Quando ela morreu, ele ligou. Pediu desculpas por umas coisas do passado. Eu também. Marcamos de nos ver de novo, no Natal.
Os planos nunca rolaram, porque um mês depois ele tava morto, o corpo cheio de tumores. O Devorador Interior tá me caçando, até quem eu falo, mesmo estando longe.
Trabalhei pra traduzir mais da placa, tentando achar uma solução. Não tem. Tudo que descobri é que o ritual protege só uma pessoa por vez. Se outra usar, a proteção passa pra ela.
E é por isso que eu peço desculpas. Não aguento mais ver gente ao meu redor morrer daquele jeito. Tô jogando essa mensagem pro mundo, sabendo que pode levar o Devorador até alguns de vocês, quem sabe pra poupar quem tá perto de mim. Já tão fazendo perguntas demais.
Se ele for atrás de você, talvez exista outra cópia do ritual por aí. Talvez salve você. Mas pensa bem antes. O Devorador com certeza viria atrás de mim, mas nesse ponto eu mereço. Não é fácil viver com ele te perseguindo, devorando quem tá ao seu redor.


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