Não me lembro quando comecei a gostar de ficar na beira.
Talvez tenha sido da primeira vez que mergulhei os pés numa água quente demais e senti o calor latejando subindo pelos tornozelos. Ou quando deixei a mão parada no ferro, recém-desligado, só o tempo suficiente pra ouvir aquele chiado silencioso que a pele faz antes da dor. Não era masoquismo, acho. Era outra coisa. Uma espécie de tremor que me deixava suspensa, como se o corpo respirasse sozinho sem precisar de mim.
Às vezes eu entrelaço as pernas até elas deixarem de existir. Espero o tempo que for preciso pra parar de sentir temperatura ou textura. Quando chega esse momento, mexo de novo. Aí a corrente começa a fluir, o formigamento corre pelo corpo inteiro, como um eco acordando debaixo da pele. As vias das pernas doem, queimam, me fazem franzir a cara, os músculos se tensionam, e eu tento mexer devagar só pra maximizar a sensação.
Já tentei outras coisas. Deixar algo cair nos dedos do pé, até o impacto arrancar um gritinho interno e o corpo se contorcer por um segundo. Prender a respiração até o peito queimar, a cara esquentar, as veias das têmporas incharem, e o coração bater no lugar errado, bem entre as pernas. Mas não é sobre chegar no ponto, nem gozar, nem nada disso. Se eu cruzar a linha, se eu ceder ao impulso, tudo desliga. Então eu paro. Sempre antes. Sempre a tempo. Ali, na antessala, tudo tá vivo: o ar, a pele, a umidade, o ardor, a queimação.
Ultimamente tá mais difícil. O corpo não responde mais do mesmo jeito. As pernas demoram mais pra ficar dormentes, o queimor some rápido, como se a pele tivesse aprendido a se defender de mim. Comecei a procurar jeitos novos de voltar. Às vezes mergulho as mãos em água gelada, tão fria que parece queimar, os dedos ficando num vermelho-cereja lindo. A pele racha e as unhas escurecem, violeta pálido, quase como o sangue mais grosso que se pode imaginar.
Mas não dura muito. O corpo esquece com uma facilidade que me assusta, me desespera. Cada tentativa me deixa um pouco mais longe, um pouco mais oca. Às vezes acordo de madrugada e não sinto os lençóis na pele. Tenho que cerrar os punhos, morder o lábio inferior até sangrar, que já não tem gosto de metal enferrujado, nem calor. Tenho que arranhar o colchão e quebrar as unhas, só pra checar que ainda tô aqui.
Há semanas o corpo se comporta como algo emprestado. Ando, respiro, me mexo, mas é como se eu fizesse isso dentro de um macacão que nunca serve direito. A pele não registra mais o que toca: água, ar, tecido. Tudo tem a mesma temperatura morna de coisas que não existem de verdade.
Tento voltar pro umidade, pro pulsinho que antes me mantinha viva, mas a corrente não chega. Nem o formigamento, nem o pulso, nem a pressão que me lembrava que eu tava ali. Tentei enganar o corpo com contrastes, com mudanças bruscas, com choque térmico, com o silêncio de um quarto escuro demais. Nada.
Há uma semana, tomei meio litro de óleo de cozinha no café da manhã. A textura da água parecia incerta, fraca, sem vida. Bebi direto da garrafa. Era mais grosso e escorregadio. Era o óleo que usei no dia anterior pra fritar batata. Abri a boca e deixei pingar direto da boca pras mãos. Dava pra ver os pontinhos pretos espalhados no líquido. Era diferente. Levei o óleo de volta à boca e deixei vagar entre os dentes. Mexi a língua na substância. Parecia alguém tentando correr dentro de piscina. Engoli o óleo devagar. Só aí senti o óleo chegar entre as pernas.
Eu tava expelindo da boca entre as pernas. Limpei rápido a mão direita e levei entre as pernas. Lá tava, sorri. A umidade. Minha umidade abençoada tinha voltado. Sorri extasiada, dentes engordurados e língua dormente. Peguei a garrafa de óleo e dei mais uns goles, seguindo aquele ritualzinho que acabara de aprender. No mesmo instante, como uma dança sincronizada, um marzinho terno, claro e morno escorreu da boca entre as pernas, o suficiente pra me aquecer no caminho até os tornozelos. Era eu. Era meu cheiro de pele úmida. Era meu grito pra poder sentir. As pontas dos dedos formigavam, loucas pra me provar, pra detectar a temperatura, pra me cheirar mais de perto. Era delicioso. Quase translúcido. Porque eu não me deixava ser, porque precisava do controle que só eu posso dar pro meu corpo. Porque precisava das regras que eu mesma me obrigo a seguir. Precisava daquela umidade, daquele pulso, daquela falta de controle. Precisava arrastar ele junto, acorrentar, rir na cara dele. Precisava das pernas tremendo e dele implorando um pouquinho de mim.
Teria sido só isso.
Se tivesse funcionado pra sempre.
Repeti esse momentinho mais três ou quatro vezes naquela semana. Só que numa manhã tudo parou de novo. Já não sentia o gosto de cinza que conhecia antes. Não parecia especial, amargo, viscoso. Nada. O jeito que ficava entre os dentes não funcionava; a língua não flutuava na densidade e engolir parecia inútil.
Olhei pro fogão e depois pra geladeira. A temperatura tinha funcionado antes. Mas uma colher de óleo queimado? O que eu ia conseguir sentir com esse elemento a mais? A umidade da língua congelada na superfície e a ferida resultante dos botões gustativos sendo arrancados da carne. Eu conhecia bem aquela dor: o gosto enferrujado do sangue congelado, o latejar da língua esfolada, e a visão da minha carne grudada naquela superfície fria. Precisava de outra coisa.
Olhei de novo pro fogão. O calor podia ser regulado, e talvez… uma colher de óleo reutilizado na temperatura certa pudesse acender meu corpo de novo. Fechei os olhos e balancei a cabeça, nervosa. Mas o que eu era não era humana, mulher. Era um impulso, e eu vivia por ele. Peguei a frigideirinha, coloquei um fio de óleo e acendi o fogão. Girei o botão e deixei no mínimo. Não passaram mais que alguns segundos até eu segurar a palma da mão em cima. Sentia morno. Bom o bastante.
Despejei a colher de óleo, levei pro rosto, e o cheiro de óleo encheu minhas narinas e a cabeça. Uma nova expectativa encheu o corpo. Toquei o óleo com o lábio superior… tinha uma mudança. Coloquei a colher na boca e deixei o óleo cair na língua. Dei um gritinho por uma fração de segundo, mas a sensação de brasas sumiu tão rápido quanto veio. Minha boca tava quente demais pra temperatura que eu tinha levado o óleo. Precisava de um pouco mais.
Girei o botão e vi as chamas crescerem um tiquinho. Contei até 60 e tirei a panela do fogo antes de despejar na colher. Mergulhei o mindinho no óleo, só a pontinha e um pedacinho da unha. Senti uma fisgada que fez minhas pupilas dilatarem. Eu sabia porque o filtro nos olhos mudou. Tudo parecia mais… ocre, mais cor de canela. Tava chegando lá. Tirei a ponta e levei à boca. A substância parecia bem mais quente. Com um pouco mais de calor, eu chegaria no objetivo.
De novo, com um pouco mais de óleo, coloquei a panela no fogão. Fogo mais alto e 60 segundos. Aos 45 segundos, já dava pra ver bolhinhas minúsculas na borda da panela. Sorri com a gengiva. Despejei rápido o óleo num copo e segurei no rosto. Agora tinha um cheiro doce de petróleo, tipo rímel deixado no sol. Não conseguia tirar o sorriso da cara, e até meus dentes do siso estavam ficando dormentes. Respirei fundo e despejei o óleo na boca, bem na língua. O arrepio foi imediato. O corpo deu um tranco, e lágrimas começaram a rolar pelas bochechas. Girei o óleo entre os dentes e senti o espaço entre eles crescer. Como uma represa que não segurava a água inteira. Um vazamento.
A língua parecia pesada e flutuava no óleo quente, queimando, inchando. Aí comecei a sentir a boca enchendo, como se o óleo tivesse dobrado de tamanho. Escorria do canto dos lábios, e resolvi engolir. Com toda a calma que merecia. O líquido grosso começou a descer pela traqueia; as pernas tremiam, assim como as mãos. O peito queimava, e eu sentia como se a caixa torácica estivesse se dissolvendo.
O rosto quente, o pescoço quente, os olhos quentes. Agora eu tinha um filtro vermelho nos olhos, tipo filme colorido numa balada barata. Engoli uma boa porção e o corpo convulsionou enquanto a umidade da boca entre as pernas aparecia. Se deixou, escorreu do corpo. A boca entre as pernas não se continha e eu via o óleo quente e a saliva da boca que morava entre as pernas rolarem morro abaixo até sumirem nos chinelos.
Fiquei hipnotizada, absorta naqueles caminhos que se formavam. As pernas queimavam, cheiravam a sexo e alcatrão. A cor começou a mudar pra um vermelho vivo e depois pra um vinho. Franzi a testa e levei as mãos trêmulas à boca entre as pernas, peguei um pouco daquela mistura de substâncias e levei os dedos à outra boca. Tinha gosto de óleo velho, ovulação e sangue. O óleo tinha cavado seu caminho como uma corrente de rio na terra. Saboreei o gosto entre os dentes, e aí eu soube. O círculo tava completo; o que entrou pela boca saiu e entrou de novo.
Não consegui evitar sorrir ainda mais largo; a plenitude corria pelas veias e roía a mente.
Só que senti um leve torpor. Algo ácido, algo que queimava mais que óleo fervendo. Era náusea. Sem conseguir controlar o corpo, caí de joelhos no chão gelado. A coluna arqueou, e senti como se as vértebras fossem se deslocar. Era algo vindo das entranhas, ou do estômago, ou das veias das panturrilhas — não sei. Não queria expelir, mas não mandava no corpo, e eu odiava isso.
Ondas e ondas de vômito sanguinolento saíram da boca. Não era só líquido. Dava pra ver coágulos vermelhos, pedacinhos vermelhos de algo. As paredes da boca e o tubo longo da traqueia pareciam ferver. O vômito vermelho encheu as mãos, o queixo, a pele fina do pescoço, os seios. Era tão… inebriante. Uma queimação quase corrosiva de dentro pra fora. Estava descascando a pele dos órgãos. Mas era tão, tão quente contra a pele. Alucinógeno e prazeroso. Tanto que a boca entre as pernas se encheu de novo de sangue oleoso, ainda morno.
Me senti totalmente absurda.
E tão gratificada.
Era isso que eu tinha procurado a vida inteira.
Só que eu não sabia se ia sobrar pele suficiente nos órgãos pra próxima vez.


0 comentários:
Postar um comentário