quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Medo do Palco

Fico impressionado até hoje com o jeito que nosso cérebro funciona. Eu não consigo te contar com grandes detalhes o que aconteceu comigo ontem. Segundo minha esposa, eu não consigo contar nada com grandes detalhes a menos que tenha a ver com filmes ou música. Mas tem aquelas ocasiões em que eu lembro de cada imagem, cada palavra e cada sensação que senti num determinado momento. Uma delas foi numa noite de domingo, em novembro de 89.

Minha mãe tinha começado a fazer trabalho voluntário no teatro comunitário da nossa cidadezinha, e eu implorei pra ir junto. Não queria ficar em casa com meu pai. Ele era um fanático pelos Dallas Cowboys, e as coisas não tinham ido nada bem pro time naquela temporada toda. Aquele dia não foi exceção. Em vez de ficar vendo meu pai emburrado, preferi passar o tempo num teatro velho e empoeirado enquanto minha mãe ficava na sala da diretoria numa reunião do conselho.

O auditório era enorme pra mim na época. Tecido vermelho desbotado forrava as paredes, e arandelas de mau gosto, todas diferentes entre si, estavam espaçadas com precisão ao longo delas, tudo pintado com uma tinta dourada brilhante numa tentativa desesperada de dar uma ilusão de uniformidade. Fileiras de cadeiras antigas de madeira que rangiam estavam escalonadas, e as almofadas estavam detonadas. A maioria mostrava remendos malfeitos aqui e ali. Era um teatro voluntário, afinal, e quando uma pessoa nova entrava pela porta disposta a ajudar, era logo jogada em todo tipo de artesanato e manutenção, independente do nível de habilidade.

É isso que tem de maravilhoso num teatro comunitário: as pessoas que participam são tão exageradas, barulhentas e discrepantes quanto os móveis e acessórios garimpados que tem lá dentro. A única semelhança é a que realmente importa: essa necessidade inexplicável de montar um espetáculo, de gastar o pouco tempo livre que têm pra que o público entre pela porta e esqueça a vida por um instante.

O auditório comportava quatrocentas pessoas, e o piso de concreto descia de forma irregular até um palco velho e surrado. O proscênio era curvado e a borda ondulada que escondia as luzes de ribalta tinha sido montada à mão. Duas colunas falsas sustentavam o arco em cada extremidade, e tudo era pintado de um branco puro, com os sulcos e linhas detalhados em dourado.

Havia dois palcos laterais nas extremidades. Os três – os laterais e o principal – estavam cobertos por cortinas vermelhas gastas e puídas. Naquela noite eu levei meus brinquedos, e comecei a fazer o Batmóvel descer correndo pelo piso inclinado, fugindo de uma chuva imaginária de balas disparadas pelo Coringa e pelo capanga Bob. O único som no lugar inteiro era o dos pneus de plástico trepidando sobre a fina teia de rachaduras no concreto.

Eu achava que estava sozinho. Hoje sei que nunca se está sozinho num teatro.

Corri pelo corredor pra pegar meu brinquedo favorito quando, de repente, todas as luzes do palco acenderam. As cortinas se abriram, e o barulho dos roletes – aquele tec-tec-tec – ecoou pelo auditório. O cenário estava quase pronto: um saloon enfeitado com todos os exageros de uma visão melodramática do velho oeste. Um balcão enorme ocupava todo o lado esquerdo do palco, e a barra de latão na base brilhava nas luzes multicoloridas. Mesas e cadeiras de quebrar de propósito espalhavam-se pelo palco, e a parede do fundo era coberta por um papel de parede verde-menta estampado que descascava em vários pontos. As janelas nos painéis de fundo davam para um cenário pintado de deserto, cheio de cactos caricatos e nuvens fofinhas espalhadas num céu azul demais.

Um homem entrou no palco.

Vestia um terno preto, com polainas brancas sobre os sapatos lustrosos. Segurava uma bengala encimada por uma cobra prateada curvada, e um chapéu de feltro alto estava torto na cabeça. Um bigode oleado sombreava os lábios finos e se enrolava nas pontas. A perfeita encarnação de um canalha desprezível. Um vigarista viscoso que não pensaria duas vezes antes de amarrar uma donzela indefesa nos trilhos do trem.

Ele começou uma recitação safada, detalhando suas ações sombrias e desprezíveis. Eu fiquei ali parado, hipnotizado pela apresentação, seduzido pelo som da voz dele, pelas subidas e descidas, pelo floreio dos braços, pelo jeito que parecia flutuar de um lado pro outro do palco. Quando chegou ao fim do monólogo assassino cheio de maquinações, explodiu numa gargalhada estrondosa e maligna, e depois ficou em silêncio por um instante ao cruzar o olhar comigo.

“Ei, garoto! O que você tá fazendo aqui?” Ele falou num barítono quente de uísque e areia.

“Tô só brincando.”

“Eu também. Eu sou o Roger. Você é o filho da Nell, né?” Assenti com a cabeça. “Sei que você quer fazer filmes um dia.” Assenti de novo. “Já subiu no palco alguma vez?”

“Não, senhor.”

“Vem cá pra cima!” Ele fez sinal pras escadas na lateral do proscênio.

“Tá bom.”

Eu não devia falar com estranhos, mas era óbvio que era alguém que minha mãe conhecia. Fiz o que ele pediu. Meus olhos demoraram um pouco pra se acostumar com as luzes do palco. O auditório à minha frente sumiu, substituído por vermelhos, azuis e verdes. Roger se ajoelhou ao meu lado.

“Todo mundo quer cinema, garoto, mas é aqui que a mágica de verdade acontece. Aqui em cima você pode ser quem quiser, mas isso não é o especial. O que você vê lá fora?”

“Só consigo ver as luzes.”

“Isso. Pode ter qualquer um lá fora. Pode ter centenas, pode ter poucos. Pode ser alguém que vai te levar pra fama e fortuna ou pode ser uma família sem nada procurando uma fuga. Não importa. Todos querem a mesma coisa. Mágica.

Você sobe aqui e interpreta seu papel com tudo que tem. Dá pra ouvir as cadeiras rangendo, o farfalhar discreto dos sacos de pipoca, os suspiros, os assobios de desaprovação e os vaias, e aquele coração disparado num silêncio constrangedor quando alguém esquece a fala.

Bum

Bum

Bum

Bum

Dá pra sentir eles pendurados em cada palavra. O ar fica denso de faz de conta.

Seu nariz fica cheio do cheiro de suor e maquiagem. A sensação de figurinos mal ajustados e acessórios segurados por fita pintada. Você vê os arranhões e buracos nas tábuas, deixados pelos que vieram antes. Tem uma liberdade no palco que não existe em nenhum outro lugar. Você se perde nisso.”

Eu lembro de tudo, palavra por palavra. Quando terminou, ele se levantou.

“Quer ver uma coisa bem legal?”

Segui ele pro palco lateral. Tinha uma forca pequena montada. A corda com a forca balançava, mas não tinha vento nenhum.

“Me matam no final dessa peça.” Ele pegou minha mão e subimos os degraus até a plataforma. “Totalmente seguro. É um truque, mas a plateia não faz ideia de como funciona. Vou te mostrar.”

Ele esticou o braço, puxou a corda e colocou no meu pescoço. Eu estava num sonho, encantado pela atuação dele. Ele deu um passo atrás e me olhou.

“Perfeito. Agora quero que você faça cara de assustado. Isso… assim mesmo, mas tem que virar pro público. Tem que se abrir.”

Fiz o que ele mandou. Imaginei uma plateia lá fora, sentada na ponta das cadeiras, só esperando pra ver o que ia acontecer.

“Tudo que você precisa fazer é puxar aquela alavanca ali.” Olhei pra alavanca de madeira logo ao meu lado.

“E aí?”

“Aí a mágica acontece.” Hesitei. “Tá tudo bem, garoto. Confia em mim.”

Puxei a alavanca e a plataforma despencou debaixo de mim. Senti a corda esticar. Meus pés chutavam o ar e minhas mãos arranhavam a corda no pescoço. Tentei gritar, mas só consegui ofegar. Olhei pro Roger pedindo ajuda, mas ele não estava mais lá. Olhei de novo pro auditório, e juro que lá além das luzes eu vi as silhuetas de pelo menos uma dúzia de pessoas me vendo me enforcar devagar, e depois tudo ficou preto.

Acordei no hospital. Contei pros meus pais o que tinha acontecido, mas dava pra ver que eles não acreditaram em mim.

Pelo visto o cenógrafo ainda não tinha construído a plataforma de segurança escondida na forca. Ninguém fazia ideia de quanto tempo eu fiquei pendurado naquela corda.

Mais tarde me contaram que “Roger” era o nome de um dos fantasmas do teatro. Um ator que morreu em 1977 e sempre fazia os vilões. Ele ia pra todas as apresentações de moto, já vestido como o personagem. Na noite de estreia de A Vergonha de Tombstone, perdeu o controle da moto e foi decapitado ao deslizar debaixo de um caminhão de toras. A lenda diz que ele ronda o teatro, cheio de raiva por nunca ter conseguido fazer sua apresentação.

Minha mãe largou o voluntariado, e por um tempão eu não podia nem chegar perto daquele prédio. Não contei nada pra mais ninguém. Pra todo mundo, eu era só um moleque burro que cometeu um erro idiota.

Podem me chamar de louco, mas quando fiz dezoito anos, voltei. Fiz teste pra uma peça e peguei o papel principal. Apesar de tudo que aconteceu comigo, eu ainda sentia o chamado daquele lugar. Tinha algo dentro de mim que nunca soltou. Algo que me dizia que eu encontraria meu destino naquele palco, mesmo com o medo do que tinha acontecido.

Nunca mais vi o Roger e nunca realizei o sonho de fazer sucesso no cinema, mas conheci o amor da minha vida naquelas tábuas velhas em 96. Depois de quase trinta anos, eu não mudaria porra nenhuma. Siga aquilo que te chama, mesmo que você tenha medo disso. Provavelmente você não vai acabar com o que esperava. Pode acabar com algo ainda melhor.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Perseguidor Noturno

Eu moro numa cidadezinha rural bem pequena na Austrália, que você provavelmente nunca ouviu falar. E quando digo pequena, é pequena mesmo. População de uns 250 habitantes, no máximo. Não me entenda mal, eu gosto assim. Paz e sossego. Pelo menos foi por isso que me mudei pra cá. Agora já não tenho tanta certeza.

Desde que comprei a casa aqui, comecei a viver umas coisas estranhas pra caralho. Minha casa fica perto de um valezinho que desce até um riacho. Juro que isso é importante pro cenário. Uns sete dias depois de me mudar, olhei pela janela e vi uma trilha. Uma trilha que definitivamente não estava lá antes. Ela subia direto pelo vale, como se alguma coisa tivesse passado por ali e parado bem no topo. Bem na linha da cerca que separa a casa do precipício do vale. E as coisas não pararam por aí.

Cerca de uma semana depois, eu estava acordado até tarde, rolando na cama sem conseguir dormir. Resolvi fazer um chá e assistir uns filmes de madrugada. Em algum momento da noite, ouvi folhas farfalhando lá fora, bem na janela de onde eu tinha visto aquela trilha na semana anterior. Dei uma espiada discreta e vi alguém correndo vale abaixo. Preocupado que fossem vândalos ou ladrões de olho na minha casa, foi aí que decidi começar um diário, caso precisasse de um registro dos acontecimentos pra entregar pra polícia depois.

Vou colar o diário aqui embaixo, e você tira suas próprias conclusões…

3 de novembro: Aconteceu de novo hoje à noite. Eu estava quase pegando no sono quando ouvi aqueles passos correndo subindo o vale. Ainda não entendo por que essa porra vem sempre daquele lado. Sei que tem uns drogados locais que moram do outro lado do riacho. Será que estão vigiando minha casa?

12 de novembro: Dessa vez cortaram a cerca. Acordei por volta das 23h com um barulho do caralho. Liguei o refletor do lado de fora e vi que a cerca tinha sido cortada reto. Devem ter usado um alicate de corte. Quem quer que seja, parece organizado pra cacete. Não entendo por que cortaram a cerca e simplesmente foram embora. Talvez pra mostrar força. Coloquei um cadeado no portão. Pode ser que só quisessem provar que nenhum cadeado vai impedir eles, sabe? Começando a ficar com medo pela minha segurança.

15 de novembro: Acordei hoje de manhã e a cerca inteira do lado estava no chão. Cortada dos dois lados. Não faço ideia do motivo de alguém fazer isso. Já denunciei pra polícia local. Investigação em andamento.

18 de novembro: Os drogados lá do riacho foram presos por dano à propriedade. Tomara que isso ponha um fim nessas visitas.

23 de novembro: A janela foi quebrada ontem à noite. Como eu não acordei com o barulho, eu não sei. Janela lateral, aquela que dá pro precipício, claramente quebrada pra dentro, e com o que parecem marcas de arranhões do lado de fora. Já avisei a polícia e o controle de animais. Não sei que porra de bicho faz marcas de garra daquele jeito.

1 de dezembro: Seja lá o que estiver acontecendo, não são os drogados. Eles ainda não voltaram pra cidade. Hoje de manhã, acordei e encontrei pegadas no meu quintal. Não são normais. Grandes demais. Comprei um sistema de CFTV. Tomara que consiga respostas de verdade.

5 de dezembro: Saí da casa. Mais incidentes aconteceram, o que me fez conferir as gravações de segurança. Não denunciei mais nada pra polícia. Muito bizarro. Em duas ocasiões, dava pra ver sombras logo depois da linha das árvores. Na última noite que passei na casa, vi alguma coisa estendendo o braço de dentro das árvores. Um braço longo e magrelo, seguido de uma figura alta, se arrastando pra fora das árvores, subindo o vale e entrando no meu quintal. Das 23h até as 4h da manhã, ficou só parada ali, olhando pela minha janela de vez em quando. Andava pelo quintal, às vezes arrastava os pés até a escada da frente e espiava pelas janelas. Em certos momentos, mais criaturas daquele tipo saíam cambaleando das árvores e se juntavam a ela. Parecia que estavam esperando alguma coisa.

Esse é o fim das minhas anotações no diário. Lá pro final, ficou muito claro pra mim que eu estava lidando com algo que não é desse mundo. O diário deixou de ser uma forma de buscar alguma ação judicial e virou mais um registro dos meus últimos dias, caso algo aconteça comigo.

Não faço ideia do que exatamente vi nas gravações de segurança. Era claramente algo que nós, humanos, não deveríamos presenciar. Eu sei que aqui no interior da Austrália a gente tem uns bichos bem assustadores. Sobrenaturais ou não. E tenho certeza de que vi algo que se encaixa na primeira categoria.

A parte mais assustadora? De um jeito todo torto… parecia que aquilo estava ali pra brincar. Estava me provocando. E eu tenho a sensação de que teria feito coisa bem pior comigo se eu tivesse aparecido na janela. Se eu tivesse reconhecido que sabia que ele estava lá. Parecia que era exatamente essa a reação que ele queria. Um reconhecimento da presença dele. Saber que tinha me pegado de surpresa, me encurralado. Se deliciar vendo o medo da morte nos meus olhos.

Quanto ao motivo de nunca ter entrado na casa? Eu não sei. Talvez tenha entrado. Tinha aquelas marcas de arranhão na parede na noite em que a janela foi quebrada. Talvez tenha entrado naquela noite, e eu nem soube.

Talvez, em muitas daquelas noites, ele tenha ficado bem ali no meu quarto. Só esperando que eu abrisse os olhos…

O Skinwalker

Eu faço trilha nessas montanhas desde moleque, quase sempre sozinho, nada muito louco, só pra sumir do mundo por uns dias. Em julho passado, eu peguei uma rota circular lá nas North Cascades que praticamente ninguém faz mais. Começa numa estrada de extração de madeira antiga, depois é só mato fechado subindo a crista. Sem marcação, sem gente, só eu e os insetos.

No segundo dia eu tava me sentindo bem. Montei acampamento cedo perto de um riachinho, comi uma merda de chili desidratado e resolvi subir um pouco o morro antes de escurecer pra ver como era a vista do próximo platô. O sol tava baixando, tudo dourado e silencioso. Foi aí que eu vi o cara.

Ele tava a uns cem metros de distância, num valezinho entre as árvores. Pelado que só, alto e magrelo, pele bem branca. No começo pensei que ele tinha se separado do grupo ou perdido a roupa, hipotermia começando, sabe como a cabeça vai logo pro lado prático. Abri a boca pra gritar “Ei, tá tudo bem?”, mas as palavras morreram na garganta. O cara tava dando cambalhotas pra trás.

Não era tipo corredor fazendo acrobacia pra se exibir. Era só parado ali, se curvando pra trás bem devagar, mãos tocando o chão atrás dele, depois jogando as pernas por cima e caindo de pé de novo. Perfeito toda vez. Sem impulso, sem salto. Cambalhota. Pouso. Pausa de meio segundo. Cambalhota de novo.

Eu fiquei lá feito um idiota vendo ele repetir isso umas dez, doze vezes. Mesmo movimento exato, mesmo lugar exato. Sem barulho nenhum: nem respiração ofegante, nem folha rangendo embaixo dos pés. Nada.

Finalmente me toquei e dei uns passos pra frente, tentando ver o rosto dele. Ele nunca ergueu a cabeça. Sempre olhando reto ou pro chão, como se estivesse dando cambalhota só pra si mesmo e nem soubesse que eu existia.

Em algum momento a luz mudou, as sombras alongaram, e eu percebi que tinha ficado parado ali tempo demais. Minha pele arrepiava toda. Recuei devagar, mantendo ele na vista até as árvores bloquearem, aí virei e meti o pé de volta pro acampamento. Não corri — não queria que ele ouvisse —, mas andei rápido pra caralho. Naquela noite deixei a faca do lado de fora da barraca e mal preguei o olho. Todo estalo de galho me fazia sentar de uma vez. Nada chegou perto do acampamento, porém.

Na manhã seguinte arrumei tudo correndo e desisti da rota circular. Peguei o caminho mais longo pra sair, acrescentei um dia inteiro de caminhada só pra pegar uma trilha que eu conhecia. Cheguei no carro um dia antes, dirigi direto pra casa, tomei um banho demorado. Não contei pra ninguém durante semanas. Achei que iam pensar que eu tava louco ou que tinha visto algum nudista iogue doido, sei lá.

Aí uma noite eu tava fuçando num fórum local de trilha e um cara posta uma foto borrada — mesma drenagem, mesma época do ano. Legenda só: “Que porra é essa?”

Os comentários tavam cheios de gente que tinha visto exatamente a mesma coisa. Um sujeito disse que ficou olhando vinte minutos seguidos. Outro falou que voltou no fim de semana seguinte com uma câmera melhor e o cara ainda tava lá, ainda dando cambalhota. Chegou perto o suficiente pra gritar e o cara simplesmente… sumiu. Tipo, desapareceu no segundo em que você decidia se aproximar.

Eu nunca mais voltei praquela crista. Às vezes, quando tá bem quieto à noite, eu penso nisso — como aquelas cambalhotas eram suaves, como ele nunca cansava, nunca olhava pros lados. Só dando cambalhota.

Sem parar.

Como se fosse a única coisa que ele faz. A única coisa que ele vai fazer pra sempre.

Eu sou faxineiro do turno da madrugada numa universidade de prestígio. Tem uma porta no porão que só aparece quando o chão está molhado

Trabalho no turno da madrugada na Universidade St. Jude há seis anos. A maioria das pessoas acha que ser faxineiro é só esfregar chão e esvaziar lixo, mas num lugar tão antigo quanto esse, o negócio é mais saber quais barulhos ignorar. Os canos de vapor sibilam como se estivessem cochichando segredos, e as tábuas velhas do piso rangem sob os fantasmas de alunos que já se foram há muito tempo. Eu gostava do silêncio. Ou melhor, gostava antes.

Minha rota cobre o prédio de Ciências da Vida. É um labirinto de linóleo e luzes fluorescentes que zumbem num tom que dá dor de cabeça. O porão é a pior parte — um emaranhado de depósitos e portas pesadas revestidas de chumbo. Meu supervisor, um cara calejado chamado Artie que tá aqui desde os anos setenta, me deu uma instrução específica logo que eu comecei: “Se você estiver passando pano no Corredor Norte e vir uma porta sem número de sala, continua passando pano. Não olha pra ela, e pelo amor de Deus, não entra.”

Durante seis anos, eu obedeci essa regra. Passava pano no Corredor Norte, via o contorno fraco de uma porta pesada de carvalho aparecer no reflexo do chão molhado, e ficava olhando pras minhas botas até os azulejos secarem e a porta sumir. Mas ontem à noite, os canos do teto estouraram.

O Corredor Norte ficou inundado. Eu tava parado em uns oito centímetros de água, o reflexo tão claro que parecia um espelho. E lá estava ela. A porta. Não era mais só um contorno fraco; era sólida, madeira escura com uma maçaneta de latão que parecia uma cara gritando. O cheiro me acertou em cheio — não era cheiro de papel velho nem de produto de limpeza, mas de ozônio e terra molhada.

Eu devia ter dado meia-volta. Devia ter ligado pro Artie. Mas a porta tava entreaberta, e eu ouvia um som vindo de dentro. Era um tum-tum ritmado, tipo um coração batendo bem devagar. Contra todo instinto que eu tinha, empurrei a porta.

O cômodo lá dentro não caberia de jeito nenhum na fundação do prédio. Era uma câmara circular imensa, forrada com milhares de potes de vidro. Entrei, e a água do corredor me seguiu como se estivesse viva. Cada pote continha algo pulsando — massas cinzentas parecidas com cérebros, ligadas por fios finos de cobre. Elas não tavam só ali paradas; tavam se comunicando. Os fios zumbiam numa frequência baixa que fazia meus dentes doerem.

No centro do cômodo tinha uma mesa. Sentado ali tinha um cara vestindo um uniforme de faxineiro igualzinho ao meu. De costas pra mim.

“Artie?”, sussurrei.

A figura não virou. “O chão tem que ficar molhado”, disse a voz. Parecia a do Artie, mas oca, como se as palavras estivessem saindo de uma caixa de som velha e quebrada. “A umidade conduz a memória. Sem água, os potes secam. E quando secam, a universidade esquece.”

Me aproximei mais, o coração martelando nas costelas. “Esquece o quê?”

O cara finalmente virou. Não era o Artie. Não era ninguém. Era uma casca oca feita da mesma massa cinzenta que eu via nos potes, moldada na forma de um homem. Não tinha olhos, só cavidades fundas cheias daqueles fios de cobre pulsando.

“Esquece da gente”, disse a coisa. Esticou a mão, os dedos se alongando como cera derretendo. “Nós somos a manutenção. Somos os que impedem que a história evapore. Todo aluno que reprova, todo professor que desaparece... acaba nos potes. Os pensamentos deles mantêm as luzes acesas lá em cima.”

Recuei, tropeçando na água. A porta começou a ranger, fechando. A coisa na mesa se levantou, os movimentos bruscos e nada naturais. Não tava tentando me atacar; tava tentando me entregar um rodo.

“Seu turno não acabou”, sibilou. “O Corredor Norte tá secando. Se secar, você vai ser o próximo no pote.”

Eu saí correndo. Me joguei pela porta que tava fechando e caí com tudo no linóleo molhado do corredor. Não parei de correr até chegar no escritório da segurança. Falei que tinha inundação, invasão, qualquer coisa pra fazer eles descerem lá.

Quando voltamos, o corredor tava seco que nem osso. O cano estourado tava selado como se nunca tivesse vazado. E a porta? Sumiu. Nem uma marca na parede.

O Artie tava lá, encostado no carrinho dele, tomando café. Me olhou, os olhos frios e sabidos. Não falou nada. Só me entregou um balde e apontou pro Corredor Norte.

Tô escrevendo isso da sala de descanso. Faltam três horas pro meu turno acabar. Minhas mãos não param de tremer, e meus dentes ainda doem com aquele zumbido. Mas o pior é olhar pro meu próprio reflexo no balde de água com sabão.

Por um segundo, não vi meus olhos. Vi fios de cobre.

O chão tá começando a secar. Tenho que voltar. Tenho que manter ele molhado.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon