Tudo isso começou há cerca de 3 anos. Eu e minha então namorada, Susan, morávamos nas áreas mais movimentadas e agitadas de Nova York. Vivíamos do que conseguíamos tirar dos nossos empregos de meio período e continuávamos nossos estudos universitários juntos. Era uma vida dos sonhos – construir um futuro com alguém tão querido. Ainda não processei o fato de ela ter me deixado sozinho neste lugar. Não posso exatamente culpá-la. Ainda me lembro daquele dia, a primeira vez que O vi. Não sei como nomeá-Lo. Não consigo descrevê-Lo. Ele é como uma mancha preta – tanto na minha memória quanto na visão. Eu consigo sentir quando Ele está por perto, mas não consigo apontar exatamente onde.
Há 3 anos, eu e Susan fomos visitar uns amigos numa festa que rolava na casa de um conhecido em comum. Recebi uma ligação de um colega do estágio dizendo que a gente tinha conseguido um cliente grande. Não pude deixar de comemorar. E a Susan ficou tão feliz. Os olhos dela, feito os de uma corça, se apertaram enquanto ela me mostrava aquele sorriso lindo. Às vezes ainda sinto falta dela, mas sempre que tento encontrar fotos dela agora – sejam impressas ou online – a entidade as borra. Ou Ele as deforma com tanta violência gráfica que não consigo evitar chorar. Bom, me desculpe. Tem sido bem difícil de aguentar. Vou me manter no foco. Prometo.
Eu trabalhava numa firma de auditoria. Nada de mais, considerando que eu não era exatamente um auditor de verdade nem contador, mas um estagiário. Minha função era ajudar a equipe nas tarefas. E no dia seguinte à festa, saí de casa determinado. Dei um beijo de despedida na Susan e fui andando até o escritório – de queixo erguido e peito estufado. Já que eu ganhava praticamente nada, esse projeto poderia me levar a cargos melhores. Dane-se, eu poderia até virar um auditor efetivo lá. Meu chefe, Jeremiah, era um homem baixinho e gordo. Bom, é assim que eu me lembro dele. Já não tenho mais certeza. Ele me passou as informações sobre o cliente rapidamente. Eu estava prestando atenção, mas uma coisa ficou na minha cabeça. Ele disse que só eu e a Isabel estaríamos nesse projeto.
A Isabel estava na casa dos cinquenta. Ela é uma das nossas auditoras mais experientes, e mesmo para ela, com a minha ajuda, esse cliente era grande demais. Eles se chamavam Montfort Chemicals Inc. e tinham fábricas enormes espalhadas pelos Estados Unidos inteiros. Era estranho – era um gigante corporativo. Mas nunca fazia propaganda, nunca era listado em bolsa de valores nenhuma e, para ser sincero, a gente nunca tinha ouvido falar. Mas eu não ia dizer isso ao cliente e deixar eles irritados, então fui levando. Rapidamente nos entregaram os processos e mandaram a gente começar a trabalhar – uma das fábricas deles em Connecticut estava fechando, e a gente teria que cuidar de todo o processo.
A Isabel era ágil. E, honestamente, eu me orgulhava pra caramba de estar trabalhando com ela. Naquela época, isso era meio que um grande feito para mim. Aos poucos, fomos percebendo que a Montfort tinha alguns nomes de peso na lista de clientes. A CIA era um deles. A Isabel me disse que essas empresas químicas costumam receber subsídios secretos e concessões de terrenos para fabricar armas bioquímicas escondidas, para guerras. Tipo explosivos, gás lacrimogêneo, essas coisas. Fazia sentido. Mas ainda tinha algo errado. Mesmo assim, a gente não deu muita importância.
O procedimento é ir direto na fábrica, inspecionar todos os itens e checar se as demonstrações financeiras estão corretas. Estou tão feliz por ainda lembrar do meu trabalho, porque eu amava aquilo com todas as forças. Doeu pra caralho quando perdi. Eu podia te mostrar alguns trabalhos que fiz com empresas grandes, mas os arquivos estão na outra sala. O apodrecimento está lá, então não vou lá com frequência. Voltando: eu e a Isabel não tivemos permissão para chegar perto da fábrica de jeito nenhum. Na verdade, fomos praticamente subornados pelo gerente do galpão, o Simon, para ficarmos longe de tudo e fecharmos os livros contábeis rapidinho. Quer dizer, não é incomum ter corrupção nesse ramo, mas a gente poderia ter fechado mesmo assim depois de visitar a fábrica. Pensando bem agora, a gente devia ter ouvido. Eu devia.
Os papéis não faziam sentido. Nunca fizeram. Uma quantia desproporcional de dinheiro foi gasta em "medidas de segurança diversas", em vez de na produção química em si. Eles compraram um monte de propriedades e terrenos, a maioria nos desertos do Arizona. Conversei com a Isabel sobre isso, mas toda vez que eu mencionava a Montfort, ela dava de ombros. Ela disse que nesse ramo, a maior parte do trabalho é por baixo dos panos e é pra ficar assim. E, aos poucos, fui perdendo o respeito por ela. O projeto finalmente terminou. Fechamos as contas e assinamos os papéis. Eles receberam sinal verde para vender, para uma empresa chamada Rutherford Motors. Não fazia o menor sentido, mas naquele ponto, eu já tinha desistido.
A Susan me disse pra não me preocupar muito com isso, porque a vida tava corrida pra gente. Meu pedido para virar auditor júnior foi considerado pelo Jeremiah e, honestamente, as coisas começaram a melhorar. Um dia, eu estava folheando as páginas do nosso relatório e me deparei com o endereço da fábrica deles. Eu podia ir até Connecticut. Não consegui resistir ao pensamento – como se tivesse alguma coisa ali me esperando. Algo para ser descoberto e libertado. O pensamento me atormentou a noite inteira, e não consegui dormir. Pensando agora, deve ter sido Ele me chamando. E no instante seguinte, eu me levantei e fui embora. Deixei um bilhete para a Susan.
Cheguei na fábrica por volta das 2 da manhã. A coceira na minha cabeça não parava, e quanto mais longe eu ia, melhor eu me sentia. Era igual a um vício. Foi aí que eu vi. A fábrica ficava no meio de árvores altas, sinistra igual a um castelo... Vitamina de Vaca, me desculpa. Ele acha engraçado. Ah, sim, eu acho. Tive que pular um muro e me esgueirar por trás, devagar. Foi quando notei que a Rutherford tinha caminhões-tanque. E caiu a ficha – a Rutherford tinha investidores gigantes do Golfo do Oriente Médio. Provavelmente era uma empresa de fachada. No pior dos casos, financiada pelo governo. Empurrei devagar uma porta de alavanca e entrei na fábrica. A porta rangeu um pouco, mas consegui evitar que o eco se espalhasse. A fábrica parecia imensa, só pelo jeito que meus passos ecoavam. A lanterna do meu celular iluminava só alguns metros na minha frente, mas dava pra me virar. Vi caixas que eu tinha visto nos relatórios deles. E salas que estavam contabilizadas. Por que esconder as coisas se elas são exatamente o que parecem?
Enquanto caminhava até o fim do corredor gigante, cheio de prateleiras enormes de caixas, igual a um depósito, cheguei na outra ponta. Parecia um cofre pesado e um bunker. Não do tipo que protege algo de entrar. Do tipo que impede qualquer coisa de sair. Isso não fazia parte de nada. Nem da aprovação da planta do prédio, nem das demonstrações financeiras, nem do relatório. Eu tinha que entrar de algum jeito, e instintivamente bati um número no cadeado à esquerda. Eu nem tinha notado ele. Ainda não sei como... CHEGA NA MELHOR PARTE. Tô chegando lá. Ele às vezes toma controle dos meus polegares, e
O Humano Entra No Meu Túmulo De Dor Eterna Onde Essas Formigas Tentam Me Segurar E De Alguma Forma Me Controlar
Ele Me Liberta Do Meu Sono Eterno E...
Eu corro. Ainda não sei o que aconteceu lá dentro – tudo o que me lembro é de ter digitado o código no cadeado do cofre gigantesco, e de repente estou correndo para longe do @#*^9846 e do seu (@#*#&$!1
Corro além do carro. Não faço ideia de quão longe corri, nem por quanto tempo. Minhas pernas doíam como o inferno e meus olhos não paravam de lacrimejar. Meu corpo doía de dor. Não ferimentos. Não queimaduras. Não cansaço. Era como se eu tivesse encontrado algo que causa dor por natureza. Algo tão antinatural que propaga dor só por existir. Não conseguia controlar minhas emoções. Gritei, mas não conseguia parar de correr. Já faz dois anos, e ainda acordo suando frio quando sonho com aquele dia. Sim, Ele às vezes me deixa dormir. Já não sei mais.
Quando fui parar num hospital, tropecei e rolei nos degraus da entrada. Não conseguia mais respirar. É impossível eu ter corrido tão longe. Desmaiei. Acordei com um movimento brusco, e estava numa cama de hospital, com glicose entrando na minha veia. O médico me acalmou. E desde aquela noite, foi a primeira vez que me acalmei. Senti paz. Ele me disse que fiquei apagado por dois dias inteiros. Engoli seco enquanto começava a lembrar aos poucos o que tinha feito, e liguei para a Susan na hora. Contei tudo pra ela e ela prometeu dirigir até o hospital, que ficava na divisa com Connecticut. Como é que eu corri tanto? Quando o médico voltou, foi aí que começou. Ele parecia meio estranho. O olho direito dele estava faltando. Quer dizer, isso me abalou até o fundo, mas só piorou. Vermes escorriam da órbita vazia dele enquanto ele ria, explicando que eu estava exausto. Eu nem conseguia ouvir o que ele dizia. Fiquei segurando a respiração enquanto os vermes escorriam pelo meu peito. Sangue escorria de todos os traços do rosto dele e, logo em seguida, eu fechava os olhos e chorava em agonia.
Acordei de novo. Dessa vez, a Susan e o médico estavam conversando do lado de fora do meu quarto. O médico parecia bem perturbado e, pra ser sincero, enojado. Eu não ligava, fiquei feliz em ver a Susan. Ela entrou no quarto e sorriu pra mim. Depois apontou pra mim e riu igual a uma maníaca. Uma alegria infantil. E perguntou bem alto – Você fez xixi na calça? HAHAHAAAAAAAAAAAA Me desculpa, isso é parte das piadas doentias e tortas Dele.
Aos poucos, fui perdendo a cabeça. Ele conjurava imagens e sonhos quase reais de mim vendo a Susan me traindo. Minha comida do nada virava uma gosma, às vezes a casa começava a desmoronar. Quando estou em público, alguém faz uma coisa vulgar. Ele vai borrando a linha entre o que é real e o que não é. Perdi meu emprego depois de dar um tapa no Jeremiah. Eu o visualizei dormindo com minha própria mãe. Que piada doentia do caralho. A dor me atormentava. Era como se minha vida fosse um inferno e... Cueca Suja HAHAHAHAH
Ele, em alguns aspectos, é igual a uma criança. Travesso e curioso. Parece que Ele não teve muito contato com a cultura humana, e vai descobrindo as coisas aos poucos. Sabe como nas religiões Deus é descrito como alguém onipotente e onipresente? Alguém cujo coração está cheio de amor, paz e alegria? Bom, parece que não existe Deus. E Ele, esse ser infantil, é o que sobrou. Ele não se importa em fazer o bem nem o mal. Ele só tem seu próprio jeito divertido de distorcer a vida das pessoas de forma doentia e fazer com que elas percam tudo. Ele nunca dorme. Nunca come. Ele está sempre na minha frente. Mas não consigo segurá-Lo. Não posso tocá-Lo, nem idolatrá-Lo, nem visualizá-Lo. Não posso ouvi-Lo. Mas Eu O sinto. Sinto o som Dele. Sinto aquele sorriso torto do caralho Dele, sempre que perco uma coisa de cada vez, destruindo lentamente a vida que eu construí com tanto cuidado.
Perdi tudo. Perdi a Susan depois de espancá-la. Coitada. Ele me fez pensar que ela estava me traindo com vários caras. Quando a confrontei, ela ficou violenta. Eu a imaginei segurando uma faca, e dei um soco nela. Ela cambaleou enquanto eu batia nela. Chorei tanto. Tanto que meus olhos ficaram vermelhos. É por isso que ainda tenho medo de ir na outra sala. Não suporto o fato de que o corpo sem vida dela vai ficar me encarando. Ele vai trazer ela de volta à vida e me fazer matar ela de novo. Não aguento mais. Nos últimos dois anos, perdi tudo e me isolei de todo mundo e de tudo. Sobrevivo com o que sobrou. Com o que Ele me dá.
Ele me faz comer comida nojenta. Carne bizarra, animais, vermes, insetos, até pedras. Quando ligo a TV, Ele passa algo violento, ou tão bizarro. Ou cheio de violência gráfica ou pornografia. Acontecendo com alguém que eu conheço. Eu choro e corro pro meu quarto. Ele me dá ferimentos do nada. Pesadelos. Eu quase não durmo. Ele me colocou através de memórias dolorosas infinitas. Do nada, o quarto se enche completamente de água enquanto eu nado até o teto. Algas marinhas seguram minha perna. Ele também transforma tudo em fogo do inferno. Eu queimo em chamas eternas e lava derrete pelas paredes. Às vezes estou enterrado bem fundo na terra. Eu sufoco e luto contra a terra. Ele fede o quarto com mil cheiros – carne podre, terra e bactérias. O chão de repente vira um pântano de cabelos molhados e sujos, ou cheio de cobras rastejando. Rostos se formam nas paredes e gritam de dor.
Ele também conjura boas memórias. E as transforma em algo perturbado. Tipo eu me casando com a Susan. Mas os convidados explodiram um por um. Com a Susan terminando o pesadelo. Os órgãos e o sangue dela espalhados por todo o meu corpo. Ainda não sei por que mereço tudo isso. Eu me lembro vividamente de tudo o que Ele fez comigo, mas não quero perder tempo. Estou aqui só pra te avisar.
A única coisa que Ele parece não afetar é meu hábito de ler e escrever. E pode ser porque Ele estava preso numa época em que a leitura e a escrita se popularizaram na história humana. Preciso me expressar antes que Ele tranque isso também pra mim. Ou talvez Ele me deixe escrever e ler de propósito pra ir descobrindo as coisas junto comigo. Não me importo.
O problema, no entanto, é que você nunca sabe quando Ele está por perto e quando não está. Talvez Ele nunca vá embora. Já tentei me machucar, mas Ele gosta – gargalhadas estrondosas saem das paredes. Quando chego mais perto de acabar com minha vida, Ele de alguma forma me impede e reinicia tudo. Mas dos meus dois anos de experimentação lenta com palavras e ações, descobri uma solução temporária. Existe uma certa sequência de palavras que O mantêm afastado. Ele foge sempre que ouve, e funciona perfeitamente. No entanto, como eu disse, é uma solução temporária. É uma frase sobre uma mãe, e provavelmente assusta Ele porque Lhe lembra da mãe rigorosa Dele. Por favor, não chame Ela.
É algo como "** ******, ****** ****** *** *****." Por favor, anote isso, e essa é a única maneira de detê-Lo por enquanto. Ele está rindo de mim agora. Não sei por que Ele está, mas tudo bem. Por favor, fique seguro e, por gentileza, me avise se houver alguma solução que eu possa usar para me livrar dessa maldição. Obrigado.

