Olá… Não sei muito bem por que estou escrevendo isso agora. Talvez porque ninguém realmente nos deu ouvidos quando eu e minha amiga tentamos explicar o que aconteceu, ou talvez porque eu ainda não consigo parar de pensar naquela casa — e sinto que, se não colocar tudo no papel, vou acabar me convencendo de que não foi tão grave assim, mesmo sabendo que foi.
Este ano, minha turma fez uma viagem escolar para a Alemanha. Pela primeira vez, quase todo mundo foi, o que me deixou muito feliz, pois nos damos bem uns com os outros. Eu realmente achava que seria mais uma daquelas viagens normais: a gente ria no ônibus, dormia mal por ficar conversando até tarde com os amigos e voltava com lembranças bobas, nada de passar a noite inteira olhando fixamente para a porta de um porão, com tanto medo que mal conseguia piscar.
O plano era ficarmos hospedados em casas de famílias locais, geralmente em grupos de quatro pessoas. Mas eu e minha amiga — vou chamá-la de Ketty — não encaixamos em nenhum grupo, então acabamos ficando só nós duas em uma mesma casa. No começo, eu disse a mim mesma que não era nada demais, que talvez até ficássemos mais tranquilas. Mas hoje só consigo pensar que preferiria ter ficado com qualquer outra pessoa, mesmo alguém que eu mal conhecesse, só para não estarmos tão sozinhas.
A casa era grande, isolada e cercada por uma pequena floresta — nada de floresta imensa, mas o suficiente para fazer parecer que o lugar estava totalmente separado de tudo e de todos. Ficava claramente mais afastada do que as outras casas onde os colegas estavam hospedados. Quem abriu a porta foi uma mulher, com cerca de quarenta anos. A primeira coisa que reparei foi que ela parecia exausta — não só cansada, como qualquer pessoa no dia a dia, mas com um olhar frio e sem vida, como se não tivesse nenhuma alegria em nos receber e talvez nem quisesse que estivéssemos ali. Mal se apresentou, quase não falou nada e, logo em seguida, nos levou para o andar de baixo. Para o porão. Sim, o nosso quarto ficava no porão.
Havia duas camas pequenas, embaixo da escada. Logo de cara, já me senti desconfortável: o espaço era amplo, mas arrumado de uma forma muito estranha. Todos os móveis — guarda-roupa, cadeiras, cômodas — estavam empurrados bem contra as paredes, como se o centro do quarto tivesse que ficar vazio por algum motivo. Parece um detalhe bobo, eu sei, mas quando você está ali, com a mala na mão, no porão da casa de uma pessoa desconhecida, nada disso parece pequeno. E ainda havia as janelas: pequenas, bem próximas do teto, típicas de porão — mas em vez de cortinas ou persianas, estavam cobertas com pedaços de papelão, colados ou encaixados com firmeza, de modo que quase não entrava luz do dia. Lembrei de tentar me convencer que talvez fosse para manter o calor ou por questão de privacidade, motivos comuns, mas, com toda a sinceridade, nada ali parecia normal.
O jantar foi quase em silêncio. Estávamos só nós três ao redor de uma mesa grande, e ela mal nos perguntou coisa alguma: nada sobre a viagem, sobre a escola, de onde éramos — nada do que uma família anfitriã costuma perguntar. Eu fiquei colada em Ketty o tempo todo, pois já sentia aquele medo bobo, mas muito real, de que, se nos separássemos por um minuto sequer naquela casa, algo de ruim poderia acontecer. Quando terminamos, voltamos direto para o porão. Lembro de pensar que bastava aguentar firme e passar por aquela noite.
Mas durante a madrugada, acordei de repente: ouvi vozes lá em cima. Não eram barulhos comuns da casa, nem o vento, nem o som dos canos — coisas que a gente costuma explicar para se acalmar quando está com medo. Eram vozes mesmo, pessoas conversando claramente em algum lugar do andar superior. Não sei por que resolvi ir verificar; provavelmente foi a coisa mais imprudente que eu poderia ter feito, mas acho que ainda tentava provar a mim mesma que não era nada, que talvez ela estivesse ao telefone ou com a televisão ligada, algo assim. Então subi devagar, abri a porta com cuidado, só um pouco, e vi duas silhuetas borradas na cozinha. Não era a mulher. Tenho certeza absoluta disso.
Pareciam mais jovens, talvez menores, ou simplesmente com uma aparência totalmente diferente — não consegui ver direito, pois não fiquei ali tempo suficiente para entender o que via. Entrei em pânico, desci correndo o mais rápido que pude, me enfiei debaixo do cobertor e não consegui dormir mais nada pelo resto da noite.
Na manhã seguinte, Ketty percebeu logo que eu não estava bem. Contei o que tinha visto, talvez um pouco atropelado e sem muita clareza, mas ela entendeu o suficiente. No começo, tentou me acalmar, dizendo que talvez eu tivesse sonhado. Mas quando perguntei se ela também tinha ouvido vozes, ela ficou parada, imóvel — e isso me assustou quase tanto quanto ter visto aquelas silhuetas, pois significava que ela também tinha ouvido algo. Não com clareza suficiente para entender o que diziam, mas o bastante para saber que havia vozes ali, e não apenas a voz da mulher.
No café da manhã, o clima ficou ainda pior. Ela colocou apenas duas tigelas na mesa para nós e continuou quase sem falar nada. Parecia ainda mais cansada do que no dia anterior, com os olhos avermelhados, como se também não tivesse dormido. Ketty tentou puxar conversa normalmente e perguntou se ela morava sozinha. Ela respondeu que sim, mas a resposta soou estranha — falsa. Não sei explicar direito, mas não parecia algo dito com sinceridade. E quando saímos, vimos vários pares de sapatos perto da entrada, incluindo dois pares que claramente pertenciam a pessoas mais jovens, limpos e arrumados, como se fossem usados diariamente.
Durante o dia, com a turma, achamos que iríamos nos sentir melhor — e, de certa forma, conseguimos por algumas horas, pois estávamos novamente entre outras pessoas. Mas isso também tornou tudo mais frustrante: quando tentamos contar o que estava acontecendo, ninguém nos levou a sério. Diziam que famílias estranhas existiam, que talvez o porão fosse só o quarto de hóspedes, que o papelão servia mesmo para privacidade, que tudo já tinha sido verificado. Até quando tentamos falar com uma professora, ela estava ocupada e resumiu dizendo que as famílias haviam sido aprovadas e que já iríamos embora em breve. Lembro de ter me sentido muito sozinha naquele momento: estávamos cercadas por colegas, mas parecia que ninguém realmente ouvia o que dizíamos.
Quando a noite chegou, a mulher veio nos buscar e não se falou nada durante o trajeto. Nada de rádio, nada de perguntas, nada. Eu ficava olhando pela janela, evitando cruzar o olhar com ela pelo retrovisor, mas mesmo assim tinha a sensação de que ela estava nos observando. Ao chegarmos, ela trouxe dois pratos numa bandeja e mandou que comêssemos no porão, dizendo que era melhor assim, sem dar qualquer explicação. Foi aí que percebi, de fato, que não éramos bem-vindas naquela casa — estávamos sendo escondidas ali dentro.
Enquanto comíamos, ouvimos passos lá em cima e, logo em seguida, duas vozes jovens. Dessa vez, Ketty também ouviu claramente. Falavam em alemão, então não entendemos tudo, mas havia uma palavra que se repetia várias vezes: meninas. Nós. Depois, alguém se aproximou da porta do porão e bateu três vezes, sem força, sem agressividade — apenas pancadinhas calmas, o que, de alguma forma, deixou tudo ainda mais assustador. Uma voz falou do outro lado da porta, e só entendi uma palavra: janela.
Virei-me para as janelas pequenas cobertas de papelão e vi que o pedaço da esquerda tinha se movido um pouco. Pouca coisa, mas o suficiente para percebermos.
Não sabemos se se mexeu de fora para dentro ou de dentro para fora — e, até hoje, não sei qual das duas possibilidades me assusta mais.
Naquela noite também não dormimos. Empurramos uma cômoda para encostar na porta, mesmo sendo pesada e provavelmente fazendo barulho, e depois ficamos acordadas, de olho fixo na porta e nas janelas, parando totalmente de se mexer cada vez que ouvíamos um rangido vindo de cima. Eu segurava o celular na mão, mas não sabia para quem mandar mensagem nem o que escrever: como explicar que suspeitava que havia crianças escondidas na casa da família anfitriã e que algo tinha tocado o papelão da janela do porão sem parecer uma louca?
Na manhã seguinte, a mulher percebeu que tínhamos mudado a posição dos móveis. Seus olhos continuavam avermelhados, e ela nos olhou como se tivéssemos feito algo errado, como se tivéssemos quebrado uma regra que devíamos conhecer. Disse que tinha um motivo para nos colocar lá embaixo, mas, quando Ketty perguntou qual era esse motivo, ela não respondeu. Ficou apenas nos olhando — e, juro, aquele silêncio foi pior do que qualquer explicação.
Na última noite, só queríamos que chegasse a hora de ir embora. Deixamos as malas abertas para poder fechá-las rapidamente ao amanhecer. Ketty quis tirar o papelão das janelas, e eu implorei para que não fizesse isso: depois de ter ouvido a voz dizer “janela”, parecia ser a pior coisa do mundo a se fazer. Mas ela foi em frente mesmo assim. Quando puxou o papelão, entrou um pouco de luz no quarto e vimos marcas de dedos no vidro. Marcas de dedos pequenos. E na borda da janela, gravadas na madeira, havia dois nomes em alemão.
Ketty tentou tirar uma foto, mas a mulher desceu quase no mesmo instante. Não gritou, nem pareceu surpresa. Tinha apenas uma expressão vazia no rosto, como se soubesse exatamente o que tínhamos encontrado e já esperasse por aquilo. Quando Ketty perguntou a quem pertenciam aqueles nomes, ela ficou muito pálida, quase branca, e então disse apenas uma coisa: que não deveríamos ter visto aquilo.
Não disse que não era nada.
Não deu nenhuma explicação.
Apenas que não deveríamos ter visto.
Na manhã seguinte, ela nos levou até o ponto de encontro sem dizer uma palavra sequer. Antes de eu sair do carro, segurou meu pulso — não com força suficiente para machucar, mas firme o bastante para me deixar completamente paralisada — e deixou muito claro que não deveríamos contar nada a ninguém, que não tínhamos visto nada dentro daquela casa. Não respondi nada, apenas peguei minha mala e desci com Ketty.
Quando o ônibus começou a andar, olhei pela janela traseira. A mulher continuava parada ao lado do carro e, atrás dela, perto das árvores, havia duas silhuetas. Duas crianças, ou talvez adolescentes — não tenho certeza. Ficaram apenas ali, paradas, nos observando partir. Cutuquei Ketty para que olhasse também, mas quando ela virou o rosto, o ônibus já tinha feito a curva.
Alguns dias depois de voltarmos para casa, Ketty pesquisou o nome da mulher na internet e encontrou uma notícia local em alemão. A tradução estava confusa, mas entendemos o essencial: ela realmente tinha dois filhos, um menino e uma menina. Não estavam mortos. Também não constavam oficialmente como desaparecidos.
Mas, ao que tudo indicava, ninguém mais os via em lugar nenhum: não na escola, não na cidade, não apareciam em fotos de família recentes. Nada. Era como se só existissem dentro daquela casa.
Ainda não sei por que ela nos colocou naquele porão, por que as janelas estavam cobertas com papelão, por que todos os móveis ficavam empurrados contra as paredes, por que mentiu ao dizer que morava sozinha, por que as vozes falavam de nós, por que uma delas mencionou a janela, nem por que ela parecia tão assustada quando vimos os nomes.
Mas tenho certeza de uma coisa: aquelas duas silhuetas que vi na cozinha na primeira noite não eram pessoas estranhas. Eram os filhos dela. E, por um motivo que ainda não consigo entender, ela fazia de tudo para garantir que ninguém soubesse que eles existiam.


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