Moro numa pequena cabana enfiada no meio da mata, a mais ou menos uma hora do posto de gasolina mais próximo. Eu precisava do silêncio depois do meu colapso nervoso no trabalho, que me forçou a tomar antipsicóticos. Achei que o ar puro das árvores gigantes ajudaria a clarear minha mente perturbada.
Fiquei lá por quase um ano, vivendo de programação. O isolamento foi uma mudança bem-vinda depois da poluição e dos arranha-céus — aqueles monumentos da ganância. A cidade me sufocava, e eu precisava me sentir livre. Essa casa era praticamente minha única saída, já que meus pais tinham cortado minha mesada. Encontrei o lugar por um preço baixo e precisava de um teto.
Na maior parte do tempo, depois que comprei a casa, eu ficava em casa, limpava, lia e programava. De vez em quando ia ao posto abastecer e comprar comida. Toda a minha interação humana se resumia a dizer "obrigado" e "sim, por favor" para o adolescente de 17 anos, cheio de espinhas, que atendia atrás do balcão.
O isolamento me corroía como uma matilha de lobos famintos, desesperados pela próxima refeição. As mandíbulas da solidão dilaceravam minha saúde mental.
A infestação começou devagar, tão devagar que é difícil precisar o dia em que eles começaram a se aninhar debaixo de mim. As coisas começaram a sumir. Colheres, meias, qualquer coisa pequena e fácil de perder. Eu achava que estava só extraviando as coisas e deixava pra lá.
Um dia, eu estava sentado no sofá, a tela brilhante do computador iluminando o quarto escuro, com as cortinas fechadas como véus escondendo o mundo lá fora. Então, no meio da escuridão, com a mente focada no código e nos valores, eu ouvi.
O tamborilar de patinhas pequenas batendo no assoalho de madeira substituiu o clique das teclas do teclado. Meu coração afundou. Fiquei imóvel, como se Medusa tivesse me transformado em pedra. Minha mente disparou, cavalgando entre mil possibilidades sobre o que poderia estar fazendo aquele barulho.
O som rodeava o sofá, depois ia pra cozinha, e então o tilintar de talheres se misturava à correria das patinhas.
Reuni o pouco de coragem que me restava e corri até o interruptor. O barulho das patinhas aumentava a cada passo que eu dava em direção à luz. Parecia que centenas de patinhas fugiam correndo enquanto eu me aproximava. Quando a luz inundou a sala como uma onda, o barulho parou.
O tamborilar das patinhas cessou assim que acionei o interruptor, como se eu tivesse desligado a capacidade de movimento do que quer que estivesse ali no momento em que baní a escuridão com um simples clique. A gaveta dos talheres estava aberta. Facas, garfos e colheres tinham sumido dos seus lugares.
Me segurei no balcão da cozinha como se ele fosse a única coisa me mantendo no chão. Meu coração começou a bater como tambores de guerra, minha mente disparava, minhas mãos tremiam com a fúria de uma casa desabando.
Já tive todo tipo de praga e bicho tentando fazer da minha casa o lar deles, mas nunca tinha ouvido um som igual. E que tipo de praga rouba colheres? Minha respiração ficou curta e acelerada. Abri todas as cortinas, e a luz da tarde invadiu a sala. Me sentei no sofá de novo.
Eu não entendia o que estava acontecendo; minha mente estava sobrecarregada, em estado de choque. Nunca soube lidar com pressão, e aquilo era demais. Cambaleei pelo corredor, as pernas bambas, o andar estranho e duro. Os únicos sons que eu ouvia eram minha respiração ofegante e as batidas brutais do meu coração.
Agarrei a maçaneta do meu quarto com tanta força que parecia que ia cair se soltasse. Empurrei a porta e caí de cara na cama. Rios de lágrimas escorriam dos meus olhos pelas bochechas. Eu não aguentava mais.
Enrolei o cobertor em volta do corpo trêmulo, como se aquele pedaço acolchoado de lã e tecido fosse meu escudo de aço, capaz de me proteger dos dragões do mundo. Fiquei nesse estado de medo e pânico por horas, até os raios de sol se desvanecerem no horizonte e a escuridão começar a se espalhar como um nevoeiro.
Não sei que horas eram, mas me levantei da minha fortaleza de cobertores e travesseiros. Estava cansado e precisava tomar meu remédio. Atravessei a porta que tinha esquecido fechada e entrei no corredor. Minha mente estava vazia, anestesiada. Era meu jeito de lidar com o estresse.
Entrei na cozinha e peguei o frasco de comprimidos. Aquelas pequenas pedras da medicina moderna eram para manter minha mente calma e sã. Abri o frasco, e a única coisa que saiu foi ar. Es.Tava.Vazio.
Comecei a surtar. Eu tinha pegado um frasco novo só três dias antes. Gritei, berrei, pisei no chão como um bebê enfurecido. Eu sabia que tinha pegado no dia 23 de março, e olhei no celular para confirmar.
"24 de abril."
Fazia um mês que eu não tomava meus remédios. Um mês inteiro de ansiedade e depressão. Caí no chão, minhas pernas não obedeciam mais. Comecei a chorar como uma viúva que acabou de saber que o marido morreu na guerra. Chorei pra caralho, as lágrimas escorriam como água de torneira. Eu não entendia o que estava acontecendo. O tempo parecia distorcido: dias pareciam horas e horas pareciam dias.
Meu colapso foi interrompido de repente pelo som de patinhas. Vinha do corredor. Congelei. E num instante — fosse coragem ou curiosidade — apontei a lanterna do celular para o escuro do corredor.
A luz atravessou a escuridão como uma lança rasgando carne. Uma criaturinha humanóide estava parada, imóvel. O topete branco e sujo no alto da cabeça estava eriçado. Seus dedos pequenos, com três garras, seguravam uma das minhas colheres. Duas fendas marrons na vertical ocupavam o lugar onde deveriam estar os olhos. A cabeça redonda parecia grande demais para o pescoço magrelo e comprido. Um corpo em formato de pera dava lugar a braços e pernas finos, que terminavam em dois longos dedos nos pés. A pele pálida e esbranquiçada era coberta por pelos finos e brancos. Ela tinha uns trinta centímetros de altura.
As fendas marrons se abriram, revelando olhos azuis saltados, com pupilas de sapo. Eu e a coisa ficamos paralisados, os olhos dela fixos nos meus. Então, ela saiu correndo pelo corredor com uma velocidade impressionante, e eu fui atrás. Gritei, chorei, minha mente deixou o corpo assumir o controle. A colher de prata que ela segurava brilhava sob a lanterna do celular, e eu a usei como rastro para seguir a pequena ladra.
Ela entrou correndo no banheiro. Quando entrei atrás, vi a pequena ladra branca se enfiando num buraco atrás do vaso sanitário. Me joguei no chão; os azulejos frios aliviaram meu corpo suado, e minha mão disparou para dentro do buraco por onde a coisa tinha sumido. Enfiei a mão, tateei o túnel estreito e só senti terra e lama, com uma raiva imensa.
Meus dedos rasgaram a terra do túnel. Pedras afiadas e raízes fizeram cortes superficiais nas minhas mãos, mas eu não ligava. Aquela casa era minha, e aquelas coisas estavam ali dentro. Usei cada grama de força de vontade e uma loucura bruta que me movia como uma máquina, cavando igual um animal enjaulado. Suor e lágrimas se misturavam enquanto eu continuava aquele ataque.
Foi tudo um borrão, como um sonho que você só lembra pela metade. A última coisa de que me lembro é meu corpo exausto desabando no chão do banheiro; os azulejos frios foram a última sensação antes de meus olhos se fecharem e eu apagar.
Os raios de sol bateram no meu corpo pela janela do banheiro. Os raios quentes e acolhedores contrastavam com o piso gelado e implacável. Me levantei, trêmulo, ainda juntando os pedaços da memória da noite anterior. Olhei para minhas mãos sujas de terra e sangue, e as lembranças de dor e sofrimento inundaram minha mente despedaçada.
O buraco tinha sumido. Os azulejos estavam todos no lugar, sem sinal de que tivessem sido mexidos. Mas eu sabia que eles estavam lá. Aquelas coisas, eu sei que estão debaixo da minha casa. Eu precisava provar isso para mim mesmo. Entrei no pequeno galpão e peguei um machado. Sabia o que tinha que fazer. Comecei a arrancar o assoalho de madeira.
Minha estrutura magra normalmente não aguentaria balançar o machado por mais de alguns golpes, mas a adrenalina corria nas minhas veias. A madeira rachou e lascou quando a cabeça pesada de metal se chocou contra aquelas fibras que chamamos de madeira, partindo as tábuas. O estalo e o triturar da madeira, junto com minha respiração pesada, formavam uma sinfonia de sofrimento e destruição.
Túneis. Havia túneis embaixo do assoalho. Dava para ver pequenas câmaras onde colheres, meias e joias estavam amontoadas. Então, pequenos olhos azuis com pupilas de sapo se abriram. Doze pares. Todos me encarando.
A próxima coisa que senti foi o vento no rosto enquanto corria pela estrada. Sinceramente, não sei dizer por quanto tempo corri antes de alguém me notar e vir me socorrer. O homem me levou até a caminhonete dele e me trouxe de volta à cidade. Quando chegamos na casa dele, contei tudo o que tinha acontecido. Agora estou escrevendo isso para organizar meus pensamentos. Eu não sou louco. Eu não sou louco. Eu sei o que estou dizendo.


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