sábado, 4 de julho de 2026

Amor, por que você está dançando?

Fico repetindo o momento em que acordei, tentando fazer aquilo fazer sentido, e ainda assim não faz. Minha cabeça estava latejando, aquela dor surda que fica atrás dos olhos e faz o mundo inteiro parecer submerso. Eu estava no chão da nossa sala de estar, e meu corpo parecia pesado de um jeito que eu não reconhecia, como se pertencesse a outra pessoa. Apenas um dos meus olhos conseguia abrir. O outro tinha algo escorrendo por ele, quente no começo, mas depois nem um pouco quente.

Quando minha cabeça finalmente virou para o lado, as coisas começaram a entrar em foco, devagar, em pedaços. A luz era baixa e amarelada, do tipo que a gente costumava deixar acesa quando não queria acordar a casa completamente. E havia música. Demorei mais do que deveria para identificá-la, o que me assusta mais agora do que na época, porque era a nossa música. A do casamento. Eu não conseguia entender por que ela estava tocando, ou quem a tinha ligado, ou há quanto tempo ela estava tocando enquanto eu ficava ali deitado sem ouvi-la.

Foi quando eu a vi no canto da sala. Ela estava dançando. Não sei descrever o jeito que ela se movia de outra forma a não ser dizer que era errado, daquele jeito que uma criança se mexe quando acabou de começar as aulas de balé e acha que já sabe mais do que realmente sabe, esticando os braços como se tivesse visto alguém fazer e estivesse tentando provar alguma coisa. Só que aquilo não era uma criança, e o que quer que estivesse por baixo daquele movimento não se encaixava na forma que estava fazendo. Reparei no vestido antes de me permitir pensar no que aquilo significava. Era o seu vestido de noiva. Por um segundo, meu corpo realmente tentou reagir àquilo, minha perna se contraiu como se quisesse se levantar, embora ainda não tenha certeza se isso realmente aconteceu ou se eu só desejei que tivesse acontecido. Lembro de ter esperado, naquele exato momento, que você fosse, de alguma forma, a razão de tudo aquilo estar acontecendo, mesmo que eu não tivesse a menor ideia do que "aquilo" era.

Ela continuou dançando por um tempo, até que se moveu para a prateleira onde a gente guardava a foto. A do casamento, nós dois logo depois de comer o bolo, ainda incrédulos de que aquilo era real. No segundo em que ela pegou aquela foto, alguma coisa mudou. Seja lá o que tivesse preenchido o quarto enquanto ela dançava, simplesmente sumiu, como se tivesse saído de si mesma completamente para ficar a sós com aquela imagem. Tentei me agarrar à consciência, mas a dor continuava me puxando para baixo, e eu conseguia sentir meu corpo ficando mais frio, não apenas dormente, mas realmente frio, como se alguma coisa estivesse saindo dele.

Então ela se virou para olhar para mim. Depois de tudo, acho que essa foi a parte mais estranha, o quão compreensivos eram os olhos dela. Como se ela soubesse exatamente o que eu tinha perdido e também tivesse perdido.

"Eu sinto falta dela e da sua dança boba, da época em que ela queria dar uma pausa na vida dela… do seu casamento. Como é possível sentir falta de algo que a gente sempre viu como tão distante?", ela disse.

Ela veio em minha direção depois disso, sem pressa, como se não houvesse mais motivo para apressar nada. Colocou a foto sobre o meu peito. Então colocou alguma coisa na minha outra mão, e eu não precisei olhar para saber o que era. Eu entendi tudo no momento em que nossos olhos se encontraram. Depois disso, tudo escureceu de novo.

Acordei hoje no mesmo lugar. O sol já entrava pela janela, mas eu ainda tinha a nossa foto pressionada contra o peito, e a faca na minha outra mão. Eu entendi agora, meu amor. Acho que nós dois finalmente vamos te encontrar em breve.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon