Tive que me mudar para a Costa Oeste há mais ou menos um ano, por causa do trabalho. Eu já tinha ouvido falar sobre como a situação era horrível com o aluguel e tudo mais, mas não tinha dado muita importância até que realmente precisei começar a procurar apartamentos. Desculpem a linguagem, mas é ridículo pra caralho. Meu trabalho exige um diploma de pós-graduação e só o aluguel em alguns desses lugares é mais do que eu ganho em um mês inteiro, aí você ainda coloca na conta a comida e o resto, que também é caro pra um cacete, e a coisa toda é uma merda. Eu basicamente já tinha me resignado a uma dieta de arroz e feijão, talvez uma barra de chocolate por mês se estivesse me sentindo especialmente extravagante. Sou daqueles caras que conseguem dormir em aviões, então se o lugar que eu encontrasse não tivesse espaço suficiente para uma cama, eu ficava totalmente de boa só dormindo dentro de um armário ou algo assim. Enfim, a questão é que eu estava pronto para sofrer. E ainda assim, no meu momento de desespero, uma luz apareceu na escuridão. Uma luz na forma de um anúncio no Craigslist.
Eu não acreditei quando vi – um anúncio com um aluguel de apenas 200 dólares por mês. Pelas fotos, era claro que o lugar era muito mais luxuoso do que qualquer outra coisa no meu orçamento. Tinha banheiro, tinha cozinha, porra, tinha até uma sacada. Você vê uma coisa dessas, sua primeira suposição é que é golpe, mas quando você está numa situação como a minha, tem que aproveitar qualquer chance que puder. Eu contatei a pessoa que tinha postado o anúncio e disse que estava interessado em ver o lugar. Também joguei um pouco do meu histórico, expliquei que morava do outro lado do país mas estava na região procurando um apartamento por causa do trabalho, basicamente tentei passar uma imagem de levemente desesperado e também um pouco patético. Recebi uma resposta menos de um minuto depois perguntando se eu podia ir ao apartamento para uma visita. Naturalmente, eu disse "sim".
Tinha muita gente no prédio do apartamento pelo mesmo motivo que eu, então eles tinham todo um sistema montado com senhas numeradas, igual à porra do Detran. Tive que esperar cerca de uma hora, mas quando chegou minha vez, fui direcionado para dentro do apartamento, onde fui recebido por um homem grande que se apresentou como o proprietário. O lugar era exatamente igual às fotos e eu tive que confirmar algumas vezes se o preço do aluguel que tinha visto online era o aluguel real e verdadeiro que eu iria pagar. O proprietário parecia quase divertido com minha incredulidade. Havia, no entanto, uma única ressalva, explicou ele, uma razão pela qual era possível oferecer um apartamento tão bom por um preço tão absurdamente baixo. "Microlocação" foi o que ele chamou, um novo sistema que eles estavam testando. Basicamente, embora eu fosse o ocupante principal do apartamento, seria possível que outras pessoas pagassem para alugar partes menores do lugar por um curto período de tempo. Se alguém realmente precisasse tomar um banho, por exemplo, poderia pagar para usar o meu por 30 minutos. Com microinquilinos suficientes, o apartamento geraria dinheiro mais que suficiente para compensar o aluguel ridiculamente baixo. Basicamente, o negócio inteiro era mutuamente benéfico – o proprietário ganha uma porrada de dinheiro, e eu ganho um apartamento barato, desde que eu aguente algumas perturbações de vez em quando. O conceito todo parecia absurdo, mas eu não ia reclamar. Se o proprietário achava que um arranjo desses daria mais dinheiro a ele do que simplesmente alugar o lugar normalmente, bem, isso não era problema meu. Eu disse ao proprietário que a ideia dele era brilhante e que eu ficava mais do que feliz em compartilhar o apartamento com outras pessoas. Depois de registrar algumas das minhas informações pessoais e fazer algumas perguntas, o proprietário me disse que entraria em contato se eu fosse selecionado como inquilino principal.
Bem, passei o resto do dia vagando por aí, visitando outros apartamentos, todos eles exigindo pelo menos vinte vezes o dinheiro por um quarto do espaço que eu teria no lugar com o esquema de microlocação. Eu disse a mim mesmo que, considerando o grande número de candidatos, precisava encarar a realidade e aceitar que provavelmente ia ter que me contentar com um daqueles apartamentos de merda na Chinatown onde o chuveiro fica diretamente em cima do vaso sanitário. E ainda assim, na manhã seguinte, recebi a ligação que eu estava esperando. O proprietário, ao que parecia, tinha ficado particularmente impressionado quando me conheceu. No momento em que apertou minha mão, ele soube que eu seria o encaixe perfeito para o lugar, foi basicamente o que ele disse. E assim, eu tinha meu apartamento e um mês depois me mudei sem nenhum problema.
Os visitantes começaram a chegar por volta de uma semana depois que assinei o contrato. Eles apareciam para usar meu banheiro, tirar um cochilo na minha cama, malhar no aparelho elíptico que eu tinha trazido. No começo era estranho, mas os visitantes pareciam estar tirando alguma vantagem de estar no meu apartamento, então não foi tão difícil se acostumar. Mesmo assim, sempre me surpreendia voltar do trabalho e ser recebido por um estranho sentado no meu sofá. Às vezes eu tentava puxar conversa, mas tudo o que eu conseguia era um olhar estranho, como se talvez eles percebessem o quão constrangedor era todo o negócio tanto quanto eu.
Esses eram os normais. Conforme os meses passavam, o número de visitantes crescia, e para alguns deles era difícil descobrir o que, exatamente, eles estavam fazendo no meu apartamento. Pessoas apareciam enquanto eu estava malhando e ficavam ali paradas, me observando. Outros traziam cadernos de desenho e faziam retratos de mim enquanto eu jantava. Peguei um tentando roubar minhas meias. Outro entrou no banheiro e começou a bater no vidro enquanto eu tomava banho. Vocês entendem a ideia. Às vezes eu considerava levar essas coisas ao proprietário, mas ficava com medo de que isso me fizesse ser jogado na rua, então não levei. No fundo, raciocinei, nenhum desses visitantes estava fazendo nada diretamente prejudicial. Irritante, com certeza, estranho, sim, mas era só isso.
Certa noite, eu estava dormindo, como costumo fazer, quando acordei com uma sensação estranha nas minhas bochechas. Quando meus olhos se ajustaram à escuridão, percebi que alguém estava em pé sobre mim e esfregando meu rosto com as mãos. Sentei-me de repente e o visitante deu um gritinho, depois começou a recuar em direção à porta. Eu ainda estava grogue por ter acordado há menos de um minuto, além de estar completamente nu, então, quando consegui sair da cama para correr atrás dele, ele já tinha ido embora fazia tempo. Trancar ou não a porta não importava, já que os visitantes sempre tinham uma chave, então fiquei sentado na frente da porta até o nascer do sol, completamente incapaz de dormir.
Assim que saí do trabalho naquele dia, fui direto ao escritório do proprietário e expliquei o que tinha acontecido na noite anterior. O proprietário, para ser justo, ficou vermelho como um pimentão e começou a se desculpar profusamente comigo, dizendo que o que tinha acontecido foi totalmente fora dos limites e que nunca mais se repetiria. Ele até se ofereceu para me dar 50% de desconto no aluguel daquele mês, o que não era tão significativo considerando o pouco que eu já pagava, mas suponho que cem dólares são cem dólares.
Embora o proprietário tivesse parecido sincero, algo sobre todo o incidente tinha plantado uma espécie de semente na minha mente, um pensamento que eu não conseguia sacudir. Comprei uma daquelas câmeras de visão noturna na Amazon, instalei no canto do meu quarto e deixei ligada por alguns dias. Quando verifiquei as imagens, minhas suspeitas foram confirmadas – os visitantes também estavam lá à noite. Enquanto eu dormia, eles entravam no meu quarto e assistiam, nada mais, só ficavam ali parados, observando, às vezes por horas a fio.
Tentei ignorar, tentei dizer a mim mesmo que o que quer que essas pessoas estivessem fazendo era totalmente inofensivo, me lembrei de que eu só pagava duzentos dólares por mês de aluguel. Naquela noite, eu só fiquei deitado na cama, fingindo que dormia, mas na verdade estava ouvindo com muita atenção. Por volta das 2 da manhã eu ouvi, a porta destrancando enquanto o primeiro visitante da noite chegava. Ouvi-os se arrastando em minha direção e depois parar. Ouvi a porta de novo, mais arrastar de pés, cada vez mais deles se amontoando no meu quarto.
Em algum momento eu finalmente surtei, que se dane o aluguel. Pulei da cama e me abri caminho até a porta, bloqueando a saída. Quando acendi as luzes, fui recebido pelos olhares de uns dez estranhos. Nenhum deles se moveu ou fez qualquer som. Eu me dirigi à multidão com um sonoro "Mas que porra vocês estão fazendo aqui?", esperando parecer intimidador apesar de ter apenas 1,75 metro. Nenhum deles sequer hesitou.
Foi então que notei algo peculiar. O rosto de uma das visitantes, que parecia ser uma mulher no final dos 30 anos, estava caído nos olhos, muito mais do que o rosto de uma mulher daquela idade deveria estar. Era como se parte da pele dela simplesmente tivesse se soltado do crânio. Varri rapidamente os rostos dos outros, mas não consegui ver nada de errado neles. Era só aquela mulher em particular.
Sem pensar muito nas implicações legais, lancei-me em direção à mulher e agarrei-a pelas bochechas. Aproveitando a oportunidade, o resto dos visitantes passou por mim e correu para fora da porta, enquanto a que eu tinha agarrado começou a lutar e a gritar comigo numa língua que parecia italiano mas provavelmente não era. Embora eu não tenha tocado em muitas mulheres, imediatamente percebi que algo estava errado com aquela. A pele dela estava tão... solta, e enquanto ela tentava escapar do meu aperto masculino, eu conseguia sentir algo debaixo da pele dela, algo se contorcendo, algo desumano.
Eu puxei, então, e o rosto da mulher – não, a cabeça inteira dela – saiu, e percebi que o que eu estava segurando era uma daquelas máscaras de borracha como as usadas no filme Caçadores de Emoção, só que muito mais realista. Fiquei atordoado, chocado, como um cachorro que tentou sair da cama. E enquanto eu estava naquele estado, a mulher aproveitou a brecha para dar a volta em mim e escapar pela porta que o resto dos seus comparsas tinha usado. Ao fazer isso, consegui vislumbrar o que estava por baixo da máscara – uma grande massa de vermes onde a cabeça dela deveria estar, todos molhados, se contorcendo e vivos. Sem saber como proceder a partir dali, peguei uma faca na cozinha e passei o resto da noite sentado na frente da porta, mas ninguém mais apareceu depois disso.
Na manhã seguinte, bateram na porta e eu teria cagado nas calças na mesma hora se aquela batida não tivesse sido imediatamente seguida pela voz do proprietário anunciando sua presença. Vesti-me rapidamente e o deixei entrar, esperançoso de que ele me explicasse o que tinha acontecido algumas horas antes. Em vez disso, ele me entregou uma notificação de despejo. Fingi de bobo, perguntando qual era o problema e o que eu poderia fazer para resolvê-lo.
"Você... atacou um dos microinquilinos", foi a resposta dele.
Agora que meu rabo estava na guilhotina, me vi arrependido de tudo o que tinha feito na noite anterior. Eu disse ao proprietário que as pessoas que visitavam meu apartamento não eram realmente pessoas e que algo muito errado estava acontecendo. Achei que talvez isso virasse um pouco o jogo a meu favor, mas o proprietário apenas acenou com a cabeça e sorriu para mim. Percebendo que as coisas não estavam boas, caí de joelhos e disse ao proprietário que tudo bem, talvez elas não fossem humanas, mas tudo bem, agora eu sabia que não havia nada a temer, então por favor, só me deixe ficar neste apartamento.
O proprietário olhou para baixo, para mim, com um brilho estranho nos olhos, possivelmente cataratas. "Esse é o problema", disse ele, mais ou menos com essas palavras, "Você sabe demais. E agora que você sabe, você vai se comportar... diferente. De forma não natural. Não podemos ter isso."
Com isso, ele se virou e saiu gingando do meu apartamento. Enquanto a porta se fechava, ele gritou para mim: "É uma pena, você era muito popular."
Isso foi alguns dias atrás. Mais três e tenho que estar fora daqui. Não houve mais visitantes desde aquela noite. E ainda assim, quando olho pelas janelas, às vezes posso ver pessoas lá fora, encarando. Jurei que um deles estava usando uma camisa com o meu rosto estampado. Talvez eu esteja só imaginando coisas. De qualquer forma, ainda estou procurando um lugar novo para morar. Tive que vender o aparelho elíptico, já que posso acabar morando numa caixa embaixo de uma ponte em algum lugar por um tempo. Depois que eu for embora, acho que aquele anúncio vai ao ar de novo. Se você tiver sorte, talvez o encontre. Talvez você até se torne o próximo inquilino. E se for, finja de bobo, e lembre-se de que eles só estão lá por sua causa.


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