domingo, 5 de julho de 2026

O Fantasma na Montanha

Sempre achei os topos das montanhas intrigantes. Eram tão altos que nada, exceto os microrganismos mais resistentes, teria a menor chance de sobreviver ali — onde era só você e a montanha. Eu sabia que era perigoso, mas o perigo me atraía.

Treinei por um tempo em montanhas menores, aprendendo a lidar com o frio extremo e com os baixos níveis de oxigênio, tudo em preparação para a trilha definitiva, aos meus olhos.

O K2.

Ele, embora ligeiramente mais baixo que o mais famoso Everest, é muito mais perigoso. Suas paredões de rocha íngremes, avalanches e pedras tão afiadas quanto as melhores facas faziam dele uma das escaladas mais perigosas do mundo. Mas eu achei que estava pronto para isso. Escolhi o momento perfeito, quando ninguém mais estava programado para escalar a montanha — apenas pessoas descendo dela.

Então voei para lá, preparei meu equipamento, prestei homenagem aos muitos que tinham morrido na montanha e, depois de consultar rapidamente os moradores sobre a rota, comecei a subida. Minha segunda escalada sem a ajuda de um guia. Peguei a rota padrão do Esporão Abruzzi, que é o caminho "mais seguro" até o cume. Foi brutalmente difícil, como esperado, e quase tive um quadro grave de queimadura pelo frio, mas encontrei algumas pessoas muito legais que estavam descendo. Ouvi elas mencionarem que se sentiam como se estivessem sendo vigiadas, mesmo sem ninguém por perto.

Surpreendentemente, a montanha não aprontou nenhuma tempestade de neve nem avalanche durante toda a minha subida. Eu já estava começando a ficar um pouco tonto por causa do congelamento, mas isso não era importante, pois eu tinha que chegar ao topo.

Enquanto subia os metros finais até o pico, fiquei no segundo lugar mais próximo das estrelas em que eu podia estar. Pensei no quão longe tinha chegado e comecei a descida até o nível do chão. Foi quando os problemas começaram.

Uma tempestade de neve gigantesca começou de repente, e num lugar péssimo também. Eu estava no meio do caminho entre dois acampamentos, e fui forçado a ficar ao relento numa barraca pequena que deixava entrar um pouco de neve.

Estava ficando muito, muito frio ali. Eu não tinha como acender fogo, e senti o aperto da hipotermia se aproximando de mim. Foi então que vi algo que não esperava. Uma luz estava vindo na minha direção, subindo em minha direção. Era difícil de enxergar na nevasca, mas estava lá. Brilhava com uma luz dourada intensa, e só de vê-la eu já me sentia mais aquecido.

Conforme o portador da lamparina se aproximava da minha barraca, eu não conseguia ouvir seus passos na neve, principalmente por causa do rugido da nevasca. Vi a lamparina balançar para dentro da minha barraca, antes de ser deixada ali. Só consegui ver uma silhueta vaga do portador da lamparina, mas uma coisa que não pude deixar de notar foi a falta de roupas adequadas para o frio.

Com o tempo, ouvi uma voz. Era leve e feminina, mas atravessava a nevasca sem nenhuma dificuldade. "Ei, você talvez queira arrepiar caminho daqui, a neve lá em cima parece prestes a desabar. Eu vou te guiar, só preciso da minha lamparina de volta."

Devolvi a lamparina a ela rapidamente, e tanto eu quanto ela guardamos o abrigo com agilidade. Estranhamente, apesar de ela segurar a lamparina perto do corpo, eu não conseguia distinguir nada concreto sobre ela, além do cabelo comprido e do corpo um tanto magro. Ela enrolou a barraca e a entregou para eu carregar. Curiosamente, não senti nenhum calor onde ela tocou. Eu não ia questionar isso, porém, porque mesmo através da nevasca eu conseguia ver a neve prestes a desabar.

Segui a lamparina montanha abaixo, passando por vários acampamentos, até que a noite finalmente chegou. Exausto, pedi à minha salvadora que me ajudasse a montar o acampamento. Ela aceitou, e eu dormi a noite toda. Antes de dormir, ela deixou a lamparina ao meu lado, para me aquecer.

Quando acordei, ela havia sumido. Não havia nenhum sinal da existência dela — nem na neve, nem na barraca, em lugar nenhum. A única coisa que havia e que sugeria, ainda que minimamente, que ela era real era o lampião, que não tinha mais chama e, curiosamente, nem fuligem. Apenas um único osso pequeno, em perfeito estado, estava dentro dele.

Levei o lampião comigo para terminar a descida e perguntei ao pessoal lá embaixo se tinham visto uma mulher segurando uma lamparina subir a montanha. Como eu esperava, eles disseram que não. Decidi ficar com o lampião e o enviei para um amigo que era especialista em identificação de DNA e ossos.

Não havia nenhum vestígio de DNA além do meu, apesar de a garota ter carregado o objeto por um longo período. E o osso?

Bem, ele pertencia a uma das pessoas que tinham morrido na montanha. Ele não disse um nome, porém. Só me disse que o osso estava extraordinariamente frio, apesar de ter ficado num ambiente relativamente quente por um longo período. Ficou claro que o osso havia sido usado como combustível, de alguma forma. Ele me perguntou como diabos eu tinha conseguido aquele lampião, e eu contei sobre a garota estranha que tinha encontrado no topo da montanha. Ele disse que, com base no que eu tinha visto nela, ela já deveria estar morta antes mesmo de chegar ao primeiro acampamento.

Decidi continuar escalando montanhas depois disso, na esperança de reencontrar a garota e obter algumas respostas dela. Mesmo que fossem vagas, isso me satisfaria.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon