segunda-feira, 6 de julho de 2026

O Pesadelo que Virou Realidade

Isso aconteceu comigo anteontem à noite. Me deu um puta susto do caralho. Primeiro veio atrás de mim no sonho, depois agarrou minha garganta na vida real. Foi há só umas duas noites e eu ainda tô todo arrepiado.

A noite começou normal pra cacete. Escovei os dentes, fui pegar meu gato laranja gordo pra caralho, joguei ele na cama e liguei aquele barulhinho de trovão que eu uso pra dormir. Não demorou muito pra eu apagar, com o Kream ronronando entre meus pés.

(Só pra deixar claro: eu sou cego. Mas nos meus sonhos eu enxergo. Sonho colorido pra porra, às vezes até consigo ler.)

Eu tava sentado na casa dos meus sonhos quando me toquei que tava consciente. Olhei tudo em volta com os olhos arregalados, tentando sugar cada detalhe que eu podia ver. Sonho lúcido é raro pra mim, mas quando rola é minha chance de enxergar o mundo.

Antes que eu decidisse o que fazer com aquele sonho, alguém bateu na porta da frente. A casa inteira ficou em silêncio absoluto. Meu estômago deu um nó do caralho, como se eu fosse vomitar.

Quando tô lúcido no sonho, normalmente não tenho medo do desconhecido. Afinal, é meu sonho, eu mando nessa porra, né?

Então não demorei pra ir até a porta ver qual era a do barulho. Girei a maçaneta com um sorriso de “oi, tudo bem?” no rosto… até o sorriso ser arrancado na marra.

O que empurrou a porta e entrou foi uma coisa horrível pra cacete, que me deu vontade de me esconder embaixo da cama. Senti minhas entranhas murcharem enquanto o corredor de madeira de carvalho foi engolido por uma escuridão que ia além do escuro. Era uma escuridão cheia de ódio puro.

O olhar daquela coisa me fez tremer dos pés à cabeça. Meus olhos foram puxados pro centro daquela falta de luz, onde mal dava pra distinguir a silhueta de algo. Foram os olhos pretos que me prenderam.

Aí eu senti: uma pressão de maldade pura invadindo minha cabeça, enchendo minha mente de pensamentos de derrota, de desistir, de me foder sozinho. Aquela coisa queria que eu me matasse com as próprias mãos.

Mas eu tava lúcido, então tentei mandar ela embora na força do pensamento. Não funcionou porra nenhuma. E aí eu vi o brilho branco de um sorriso cheio de dentes pontiagudos bem no meio daquela escuridão.

Eu sou uma pessoa que tem várias ferramentas na caixa. Se a chave de fenda não resolve, é hora do martelo. Sou espiritual pra caralho – muita gente me chama de farol. Já levei ataque antes na vida. No meu dedo tem um anel de prata com geometria sagrada.

Primeiro precisava tirar aqueles pensamentos de derrota da cabeça, então enchí a mente de lembranças de vitória, de amor, de tudo que é bom. Custou pra caralho, mas consegui limpar a cachola. A coisa já tinha quase entrado toda. O objetivo agora era barrar e expulsar aquela desgraça.

Levantei o punho contra o monstro sentindo como se estivesse empurrando uma cachoeira inteira. Lembrei de um padre num livro de vampiro que ergueu um crucifixo pro morto-vivo e o crucifixo quebrou. O vampiro falou: “O símbolo não vale porra nenhuma sem fé.” Não ia ser eu aquele otário. Joguei toda a minha fé no meu Deus dentro daquele anel. Aí senti uma vontade louca de falar o Nome.

Tentei falar e nada saía. Minha boca abria, mas a garganta tava travada. A pressão aumentava e a luz azul-branca que tinha se formado no meu punho começou a piscar. O Nome não aceitava ser calado. Quando eu pensei nele, ele quis sair sozinho. A primeira sílaba gaguejou duas vezes, mas finalmente saiu – e foi uma delícia.

O sorriso da coisa virou uma cara de ódio puro. O monstro gritou. Aí alguma coisa foi sugada de dentro de mim pro anel e saiu disparada como um raio. Pegou o invasor em cheio e jogou ele pra fora de casa. A porta bateu com força e eu acordei suado pra caralho, morrendo de vontade de mijar.

Primeira coisa que notei: o Kream tinha sumido da cama. Levantei bufando – a pior parte de sonho lúcido pra mim é acordar e voltar pro mundo onde sou cego de novo. Já decorei o caminho pro banheiro há anos. Lavei as mãos e voltei pro quarto.

Na porta do quarto eu travei, o coração na boca. A presença do sonho tava ali na minha frente, na vida real. Mano, se eu não tivesse acabado de mijar, tinha mijado nas calças ali mesmo. Já enfrentei espírito, já enfrentei pesadelo, mas os dois juntos nunca. Nada nunca tinha saído de um pesadelo pra me abordar acordado.

A única coisa que minha mente cansada conseguiu pensar foi repetir o que tinha feito no sonho. Fechei o punho e tentei levantar o braço. A força que me empurrou de volta foi muito maior que no sonho. Mas aí a coisa conseguiu me deixar puto da vida – eu não sou pessoa de manhã mesmo. Com um “vai tomar no cu, seu filho da puta” na cabeça, forcei o braço pra cima. A fé cresceu de novo, mas dessa vez senti uma mão apertando minha garganta.

Aperto do caralho. A primeira sílaba do Nome nem saiu. Joguei tudo que eu tinha pra falar aquele Nome que claramente incomodava pra cacete aquela coisa. Forcei ele pra fora dos lábios – primeiro baixinho, depois, quando a pressão afrouxou, gritei com força. E fui além.

Ordenei, em Nome dele, que aquela merda sumir dali, e botei toda minha intenção de ver aquela coisa morta ou banida na voz. Com a fé e o Nome do meu lado, eu virei o predador. A coisa fugiu correndo e eu senti ela saindo da minha casa de uma vez.

Voltei pra cama arrastrando os pés, morto de cansado, e apaguei de novo torcendo pra dormir em paz. E dormi.

No dia seguinte eu já tinha quase esquecido quando meu colega de casa perguntou sobre as marcas roxas no meu pescoço. Achou que eu tinha batido em alguma coisa. Como ele não é de acreditar nessas coisas, não quis contar.

Tô postando aqui porque fiquei curioso pra caralho. O que vocês acham que era aquela porra? Meu palpite é demônio, mas pode ter sido outra coisa. Nunca na vida um sonho meu foi invadido daquele jeito. Me dá um nojo do caralho saber que aquela coisa tava tentando entrar há não sei quanto tempo. Quanto tempo ela ficou ali só espiando antes de se mostrar? Não sei e nem quero saber.

Me contem o que vocês acham, rapaziada. E sério: nunca vão dormir sem proteção.

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