quarta-feira, 1 de julho de 2026

Eu fui cruel com uma raposa e me arrependo

Eu tinha quinze anos quando isso aconteceu comigo, e dez anos depois ainda penso nisso todos os dias.

Moro numa cidade de porte médio no Reino Unido. Não temos nada como guaxinins selvagens ou gambás por aqui, mas temos raposas. Você não as vê muito, só de vez em quando se estiver na rua tarde da noite, e elas passam sorrateiras, em silêncio. Eu gosto de animais, mas nunca pensei muito sobre eles, sendo um adolescente homem comum.

Uma noite, acho que era uma sexta-feira e lá para o outono, eu tinha brigado feio com a minha mãe, provavelmente por alguma besteira (eu tinha 15), e saí de casa batendo a porta. Peguei uma Coca-Cola na banca de jornais no fim da rua, e sentei num banco bebendo e xingando meus pais na minha cabeça. Com o tempo, estava ficando tarde e pensei que devia ir para casa, mesmo ainda estando pilhado por causa da briga e esperando que ela continuasse assim que eu entrasse.

A estrada que ia para a minha casa passava por um bosque pequeno, e eu sabia que tinha uma lixeira não muito longe da entrada, então entrei rapidinho para jogar a lata de Coca-Cola fora. Estava bem escuro lá dentro, mas dava para distinguir a silhueta de uma raposa, farejando o chão perto da lixeira.

Não sei o que deu em mim naquele momento, porque eu gosto de animais, mas acho que a raiva da minha mãe e a angústia adolescente transbordaram, e em vez de jogar a lata no lixo, eu a atirei na raposa. Estava escuro, então não dava para ver direito se acertou a raposa ou se caiu perto, mas o som do impacto pareceu indicar que tinha acertado.

Agora, raposas geralmente são muito ariscas e fogem ao menor sinal de perturbação, que era o que eu esperava naquele momento. Acho que eu só queria assustá-la, sentir um pouco de poder. Mas a forma da raposa não se mexeu. Fiquei parado olhando, tentando ajustar a visão à escuridão, e vi a cabeça da raposa lentamente se virar na minha direção, e a luz bateu nos olhos dela, refletindo discos brancos e brilhantes na minha direção. Ela me encarou, imóvel, e eu me senti congelado no lugar, o terror subindo pela minha espinha.

Não sei quanto tempo isso durou, aquele olhar preso nos olhos dela, mas pareceu pelo menos uns 30 segundos, um minuto, mais? Nenhum de nós se mexia, eu quase sem respirar. Então a raposa simplesmente virou e sumiu, de volta para a escuridão. Eu continuei olhando mesmo depois daquilo, com medo de me mexer, até que aos poucos voltei a mim e me arrastei para casa, profundamente abalado, e a briga com a minha mãe agora parecia insignificante.

Deixei qualquer estranheza de lado quando cheguei em casa, fiz as pazes com a minha mãe, e provavelmente joguei videogame ou algo assim. Mas naquela noite, na cama, enquanto tentava dormir, a imagem daquela cara escura de raposa com olhos brancos brilhantes ficava flutuando na minha mente — eu sentia como se aqueles olhos estivessem penetrando qualquer pensamento normal que eu tentasse ter. Acabei dormindo sentado, assistindo ao que estivesse passando na televisão, tentando me distrair.

No dia seguinte foi relativamente normal, acordei tarde e fiz o que todo garoto de quinze anos faz num sábado qualquer, fiquei à toa ou saí com meus amigos, não me lembro. Pela noite já tinha esquecido todo o incidente da raposa, e fui dormir tarde, lá pelas uma da manhã. Não pensei muito quando fui acordado por uns barulhinhos lá fora — vizinhos sempre chegavam tarde no fim de semana — e me virei para voltar a dormir. Mas os sons continuavam, uns estalos e rangidos, ruídos que eu não reconhecia. Por fim desisti de tentar ignorar, levantei e fui olhar pela janela.

Meu quarto ficava no primeiro andar, de frente para o nosso pequeno jardim da frente. Estava escuro, mas não vi nada de errado, só a nossa cerca-viva, a grama, e um poste de luz meio fraco do outro lado da rua. Voltei para a cama e apaguei rápido.

Não sei quanto tempo se passou, mas fui acordado de novo. Daquelas vezes em que você desperta de repente, em choque, sem saber se ouviu um barulho alto ou se ele veio só da sua cabeça. Levantei para olhar pela janela mais uma vez, e lá estava, só o nosso jardim na escuridão, o poste agora apagado. Mas aí, quando me movi para fechar a cortina, vi um movimento na parte de baixo do peitoril da janela. Algo escuro subia lentamente, flutuando no meu campo de visão, bem na frente do vidro. Orelhas pontudas — presas a alguma coisa — minha mente não conseguia entender o que eu estava vendo, o que diabos poderia estar ali, numa janela do primeiro andar. E então os olhos apareceram — aqueles discos brancos brilhantes — a centímetros do meu rosto, encarando bem dentro da minha alma, ameaçando minha segurança e minha própria sanidade. A última coisa que vi foi uma boca aberta, com dentes brancos e afiados, e eu caí para trás da janela, batendo no chão com um baque, soltando um grito involuntário de terror e dor.

Quando caí, olhei para baixo por um segundo, e quando levantei o olhar, tudo estava preto de novo. Me levantei rápido, fiquei na ponta dos pés para olhar lá embaixo — para onde tinha ido? E como diabos tinha chegado ali, um andar acima? Só grama, cerca-viva, silêncio. Fechei as cortinas rapidamente, tremendo, e corri para acender a luz.

Não dormi quase nada no resto daquela noite (mesmo com a luz acesa), mas pensei muito, com aquela cara gravada na tela da minha mente. Questionei se tinha sonhado. Me perguntei por que tinha sido cruel com uma criatura inocente. E principalmente, fiquei pensando no futuro — eu ia ser assombrado agora? Eu ia ver aquela cara toda noite? Ela ia ficar sempre lá fora, ou eu ia acordar e vê-la dentro do meu quarto?

Lá pelas cinco da manhã, exausto mas nunca me sentindo tão lúcido, tomei uma decisão, e no dia seguinte comecei a agir. Minha família ficou confusa, mas adolescentes fazem coisas estranhas, né?

Café da manhã, almoço, jantar... cada resto não comido era salvo do prato de todo mundo, e eu colocava tudo numa tigela, e deixava no jardim antes de dormir. Uma oferenda. Uma oferenda de paz. E funcionou.

Agora tem muito mais barulhos à noite, gritos e guinchos horríveis enquanto as raposas conversam entre si e brigam pela comida que eu deixei para elas. Seriam assustadores se você não soubesse o que são. Já me mudei de casa duas vezes desde então, mas toda noite ainda alimento as raposas da vizinhança. Fico observando elas pela janela, se movendo no escuro, agindo como animais normais, e me sinto calmo. Acho que fui perdoado — seja pela criatura que tentei machucar, seja pela minha própria mente, não tenho certeza — mas nada estranho aconteceu desde então, e graças a Deus nunca mais vi aquela cara.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon