terça-feira, 21 de julho de 2026

Eu Coleto Dentes

Eu sei que este pode ser um título estranho – e eu fiquei muito tempo pensando se falava sobre isso nos últimos anos – mas, honestamente, não consigo mais guardar isso só para mim. Não posso contar aos meus pais. Não posso contar à minha terapeuta. Não posso contar à minha esposa. Não posso contar ao meu filho.

Então, vamos deixar claro: eu não machuco ninguém. Essas pessoas, elas não precisam mais dos dentes delas. Elas não sentem o mesmo prazer com eles que eu sinto. Do jeito que eu os rodo na palma da mão, sentindo eles tinindo uns contra os outros enquanto as raízes tocam suavemente a minha pele preciosa. Só de pensar nisso agora, eu fico animado.

Isso começou nos anos 1990, sabe? Na época em que a gente ouvia falar da fada do dente quando era criança. Eu e minha irmãzinha estávamos sentados no chão juntos, enrolados debaixo de um cobertor em cima de um carpete de pêlo baixo. Nossos pais estavam sentados no sofá atrás da gente. Aquele filme da Disney – A Fada do Dente – sabe, aquele de 1997 em que um dentista vira a fada do dente? Estava passando na televisão. E eu estava assistindo, e simplesmente não conseguia desviar o olhar quando mostravam dentes, ou qualquer cena de consultório odontológico. Todas aquelas coroas peroladas na boca dos pacientes, ali, implorando para serem arrancadas, seguradas e amadas.

Naquela noite, ela tinha um dente mole, e acho que o filme a inspirou a arrancá-lo. Meus pais ficaram tão animados, porque ela sempre foi meio medrosa. E então eles se reuniram na cozinha, fizeram um grande evento com aquilo, e eu fiquei ao lado deles, só observando. Ele brilhava, todo ensanguentado na palma da mão dela sob as luzes âmbar. A leve curvatura da coroa. O formato do colo do dente. Nem preciso dizer que fiquei obcecado.

Ela colocou o dente debaixo do travesseiro naquela noite. "P'wa 'a fada 'os dente", ela disse, sorrindo. Mas quem veio fui eu. A porta do quarto dela estava entreaberta, e eu usei a escuridão fornecida por tudo, exceto por um abajur noturno em formato de borboleta. E eu tentei andar na ponta dos pés, juro que tentei. Eu só queria pegar o dente debaixo do travesseiro dela. Queria que ele fosse meu.

Mas, conforme eu me aproximava, o carpete rangeu sob meus pés. E eu vi um olho se abrir, depois os dois, e eles ficaram tão grandes e assustados. Até eu pude ver isso. Eu silenciei os gritos dela com a minha mão na boca dela, e empurrei o rosto dela para longe. Ela me bateu por um tempo, e eu fiquei pedindo silêncio. Ela era minha irmã, então eu não entendia por que ela simplesmente não ficava quieta. Não vou mentir, eu considerei dar socos nela repetidamente até ela parar. Talvez alguns dentes dela até caíssem. Mas eu não queria arrumar confusão.

Eventualmente, eu sussurrei algo no ouvido dela – meu hálito quente e fedido contra a orelha dela, já que eu quase nunca escovava os dentes. Eu nunca quis estragar a beleza do meu esmalte natural.

Depois disso, ela ficou imóvel, e lágrimas escorriam pelas bochechas dela. Minha mão deslizou para debaixo daquele travesseiro, e peguei o que era meu de direito.

Muitas vezes, eu só ficava olhando para ele, ou então eu o lambia. Ou fazia outras coisas. Mas eu não tive outro incidente por um bom tempo. Na verdade, nunca fui punido pelo incidente original. Acho que é porque o que fiz foi bom e certo, e ninguém se machucou. Vocês precisam entender que eu não machuco ninguém. Essas pessoas, elas não precisam mais dos dentes delas. Elas não os valorizam do jeito que eu valorizo.

Arranjei minha primeira namorada aos dezenove anos, e a gente só se beijava. Ela queria fazer sexo, mas eu não. De que adiantava isso? E quando a gente se beijava, era sempre no estilo francês. Eu passava a língua nas pérolas dela, e aquela saliva viscosa que as cobria escorria pela minha língua como o melhor dos vinhos. Eu ficava bêbado com aquilo. E quando ela tentava me despir, eu só dizia não. E quando ela fazia comentários sarcásticos sobre a gente nunca fazer nada, eu só ficava com raiva. Mas eu não grito. Quando fico com raiva, eu só encaro. Eu franzo a testa. E quando elas se levantam para sair – para fugir – eu sussurro no ouvido delas o que sempre sussurro. Meu hálito está quente. Tudo o que digo é verdade. E elas nunca vão embora, nunca mesmo – mesmo quando as lágrimas escorrem pelas bochechas delas. Ela pode ter terminado comigo, mas ela não me deixou.

Depois de um tempo, fiquei entediado de beijar. Eu odiava toda aquela espera, e sentia inveja das pessoas que conseguiam se masturbar. Eu queria meus dentes quando eu quisesse, e os queria a cada segundo de todos os dias. Então, planejei um esquema – porque eu não podia simplesmente pegá-los. Eu não machuco ninguém.

Passei cerca de uma semana na biblioteca pesquisando sobre carros. Os mecanismos internos, a fiação – todo esse negócio. No final, eu não sabia muita coisa, mas sabia o suficiente para o que precisava fazer.

Quando minha namorada estava dirigindo para a faculdade no dia seguinte, os freios dela falharam na rodovia interestadual. Ela sofreu um acidente bem grave e teve que ser resgatada de helicóptero para o hospital para uma cirurgia de emergência. Fico tão grato que os pais dela me ligaram para que eu pudesse chegar lá a tempo. Fico tão grato que ela nunca contou aos pais que a gente tinha terminado. Fiquei sentado no saguão por horas, tão ansioso sobre o que tinha acontecido com ela.

Quando os médicos a mostraram para mim – enfaixada da cabeça aos pés em bandagens brancas sob o véu de luzes fluorescentes embutidas e clínicas – bem, eu simplesmente não conseguia parar de sorrir. Minha linda garota. Igualzinha a uma noiva. E ela dormia como a Bela Adormecida.
Quando os médicos saíram do quarto, me deixando para lamentar a dor dela, eu tirei o meu alicate. Dopada com fentanil e outros analgésicos, ela não sentia nada. Como eu disse: eu não machuco ninguém. E com aqueles tubos de alimentação passando por ela, ela também não precisava mais deles.

Arranquei os dentes dela um por um, e quando as gengivas ensanguentadas jorravam – tentando afogá-la – eu os suguei. Ela estava tão chapada que nem sabia que eu estava lá. Eu nunca tinha visto tantos dentes na minha vida. Rolar cada um deles na palma da minha mão foi incrível. Mas eu não sou ganancioso. Só peguei dez.

Nos dias seguintes, houve um rebuliço sobre onde os dentes dela tinham ido parar. Não havia registro de dentes perdidos, mas o hospital insistia que era verdade, apesar das alegações dos pais dela. Eles queriam evitar um processo, e as coisas se acalmaram depois.

Após o incidente, voltei com a minha namorada. Agora ela estava permanentemente em uma cadeira de rodas, e o rosto dela estava desfigurado além do reconhecimento. Grande parte da pele dela tinha sido queimada no acidente, e a mão esquerda dela tinha sido reduzida a um toco. Ela teve que desistir do sonho de fazer enfermagem, e eu me tornei o cuidador dela.

Ela era muito menos atraente para mim agora, mas não por causa das lesões – não. Era porque ela tinha tão poucos dentes. Mas fiquei com ela porque sabia o que ela poderia produzir para mim.

Desde então, tivemos um filho. E vocês sabem o que a nossa pediatra acha incrível? Os dentinhos de leite dele – assim que nascem, eles simplesmente somem. Mas eu sei onde eles estão. E também sei quando a próxima leva vai chegar.

Em setembro, a nossa linda filha vai nascer.

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon