domingo, 19 de julho de 2026

Estou tão cansado de ver bichos mortos na beira da estrada

Desde que saí do ensino médio, há mais ou menos dez anos agora, tenho trabalhado com empregos que envolvem dirigir. Não pense em caminhoneiro de longa distância, pense em motoboy ou entregador. Meus trabalhos mais comuns envolvem pegar encomendas relacionadas à área médica (amostras veterinárias, medicamentos, receitas) e entregá-las em clínicas veterinárias, casas de repouso e hospícios. O serviço é até que constante, mas desgastante. Pense em tudo que você odeia no trânsito e transforme isso no seu expediente das nove às cinco. É por isso que pego rotas noturnas: menos trânsito e, muitas vezes, pagam melhor.

Eu não aceitaria esses empregos se não fosse pelo salário, que é bom. O problema é que é o seu carro, você paga a gasolina e arca com toda a manutenção. Tenho que trocar o óleo todo santo mês, e cada carro que tive carregou as cicatrizes da profissão. As cicatrizes que geralmente não se ouvem falar são as mentais. Imagine dirigir dez horas por dia, toda noite, por cinco dias seguidos. Toda noite você acaba no meio do breu total, no cu do mundo, à mercê da natureza e da infraestrutura rural em ruínas. O que realmente me corrói é o lado da natureza.

Se você já dirigiu pelo interior de Michigan, já teve encontros com a vida selvagem. Gambás, guaxinins, sariguês, o gato ocasional e, o mais importante, veados. Todo michiganense sabe procurar olhos nos valetões quando dirige à noite. Um veado adulto pode ser feito de carne, mas pode muito bem ser feito de tijolos quando você bate num. Há mais de um motivo para essas estradas estarem cheias de babacas em caminhonetes enormes com luzes aftermarket [depois de fábrica / paralelas] suficientes para cegar Deus.

No entanto, quanto mais encontros você tem com a vida selvagem, mais chances você tem de acertar alguma coisa. Eu odeio isso toda vez, mas às vezes os bichos se movem mais rápido do que você consegue reagir. Eu luto cada gambá que atropelei. A pior parte dessa realidade é o que fica para trás. Já vi cadáveres que parecem coisa de filme de terror. A maioria dos bichos fica achatada e deixa um cadáver que parece mais lixo do que uma vida encerrada. Mas alguns, eles se estouram. Acho que não passei um único dia no último ano sem ver um monte de carne despedaçada na estrada. Parece quase carne moída, um lembrete de que alguma coisa morreu ali mesmo, num impacto terminal e cruel.

Os piores, no entanto, são os veados.

Os veados têm a maior variedade que já vi em corpos deixados para trás depois de um acidente. Eles muitas vezes aguentam uma batida. A maioria leva o impacto e é jogada para o lado da estrada, intacta por fora até que a decomposição os faça estourar. Uma massa retorcida de membros ao redor de um núcleo enegrecido. Uma vez vi um veado morto numa calçada se decompondo lentamente e se transformando em pó ao longo de uns dois meses. A segunda semana foi a pior.

Alguns deles viram carne moída, mas o tamanho da criatura resulta numa grande pilha de carne na estrada com um membro sobrando. Às vezes, porém, os veados são arrastados. Você está dirigindo por uma rodovia deserta à noite e vê uma mancha enorme de sangue se estendendo pela pista. Você as vê com tanta frequência que pode tentar ignorá-las, mas algumas se destacam. Uma vez vi uma mancha de sangue enorme que se arrastava por uns doze metros antes de fazer uma curva brusca para a direita. Estou falando de um ângulo de 90 graus perfeito, indo direto para a floresta. Nenhuma força neste mundo me convenceria a seguir aquela trilha.

Tem algumas que eu nunca vou esquecer.

Uma vez — há um mês — vi um veado morto na estrada, fresco. Estava deitado de lado, com o dorso virado na minha direção. A cabeça... O pescoço tinha sido torcido para trás de modo que o queixo estava encostado nas costas e os olhos estavam olhando fixamente nos meus. Me cagou de medo. O pior que já vi foi há quase dez anos e me deixou tão perplexo quanto assustado.

Eu estava no meio do nada, no verdadeiro fim de mundo; sem postes de luz, só a rodovia. Era por volta das duas da manhã, escuro como breu. O que vi depois aconteceu numa fração de segundo, mas me lembro claramente. Vi algo parecido com uma lona marrom amassada na beira da estrada. O que vi depois, só pude explicar de um jeito. O que eu acredito que aconteceu foi que um veado tinha sido atropelado por um caminhão e, em vez de se estourar, ele rolou pela rodovia em alta velocidade. Aquilo não era uma lona. Estendido pela estrada como uma lesma horrenda estava o corpo sem pele de um veado. Nunca vou esquecer aquelas órbitas vazias me encarando.

Felizmente, já faz tempo o bastante para que os detalhes mais finos tenham se embaçado na minha memória. Aqueles olhos não me assombram mais como antigamente. Agradeço a Deus por ter me dado uma memória ruim, mas acho que nunca vou perdoá-los por terem me dado essas memórias em primeiro lugar.

Estou tão cansado de ver bichos mortos na beira da estrada.

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