O dia de hoje começou como qualquer outro, e posso te garantir que vai terminar como qualquer outro também. Isso pode soar inofensivo à primeira vista, mas posso assegurar que é a coisa mais aterrorizante que alguém pode vivenciar.
Antes de chegar aos acontecimentos de hoje, vou te contar sobre ontem.
Acordei em estado de pânico, as lembranças do pesadelo que acabara de ter desaparecendo rapidamente. Ao perceber que tinha sido apenas um pesadelo e que eu estava seguro, fui tomado por uma euforia absoluta.
Pulei da cama, pronto para encarar um novo dia. Quase parecia que eu tinha ganhado uma segunda chance. Não havia a menor possibilidade de eu desperdiçá-la. Enquanto tomava banho, fiquei pensando em todas as maneiras de fazer daquele dia o primeiro dia do resto da minha vida. Primeiro de tudo, vou tomar um café da manhã saudável. Não posso me dar ao luxo de jogar fora essa única chance na vida destruindo meu corpo com comida não saudável. Segundo de tudo, vou entrar na sala do meu chefe e exigir uma promoção.
Enfrentei meu primeiro obstáculo quando percebi que não tinha a comida certa na cozinha para fazer um café da manhã saudável, e eu precisava estar no trabalho em menos de uma hora. Tudo bem, vou comer fast food só desta última vez, e faço compras no supermercado depois do expediente. Vou ajustar meu despertador para acordar cedo o suficiente para fazer o café da manhã e chegar ao trabalho na hora.
O segundo obstáculo veio quando fui dar a partida no carro — ele não pegava. Não sou mecânico, então não fazia ideia se era um problema fácil de resolver ou se ia ser caro e demorado. Ok, isso tem solução, vou só pegar um carro por aplicativo hoje e resolvo isso depois. Além do mais, vou pedir uma promoção, provavelmente vou ganhar dinheiro suficiente para comprar um carro novo, quanto mais para consertar esse.
Fiquei surpreso ao ver que eu era o primeiro no escritório, além do meu chefe. Sentei na minha mesa e fiz login no computador. Meu estômago roncou, e percebi que, na confusão do carro não pegar e ter que vir de aplicativo, esqueci de tomar café da manhã. Que seja, vou almoçar um pouco mais cedo.
Foi então que ouvi uma batida na parede do meu cubículo. Virei a cadeira e vi meu chefe parado ali. Juro, é impressionante o quanto ele se parece comigo. Ele quase poderia ser meu sósia, ou eu o dele. Ele não disse nada, apenas fez sinal com o dedo indicador para eu segui-lo. E eu fui, até a sala dele. Ele se sentou atrás da mesa e mandou eu me sentar.
— O que está passando pela sua cabeça? — perguntou curioso.
— É o seguinte, estou aqui há bastante tempo, e acho que já está na hora de assumir mais responsabilidades.
Ele me encarou por um instante antes de cair na gargalhada. Foi como se eu tivesse contado a piada mais engraçada que ele já ouvira. O rosto dele ficou vermelho, ele estava lutando para respirar e começou a tossir.
Ainda dava para ouvi-lo rindo enquanto eu me afastava da sala dele com uma caixa para colocar todos os meus pertences. Quer saber? Ainda bem que fiz isso. A vida é sobre correr riscos, e você nunca vai chegar a lugar nenhum se nunca trabalhar para mudar as circunstâncias da sua vida. Na verdade, eu estava pensando que esse poderia ser o melhor desfecho possível. Agora que estou recebendo uma rescisão e posso pedir seguro-desemprego, tenho tempo para procurar algo melhor.
Quando cheguei à vaga onde costumava estacionar, vi que meu carro não estava lá. — Ah, é. — Olhei para baixo, para a caixa que carregava cheia das minhas coisas. — Merda. — Bem, pelo menos posso comer alguma coisa. Então fui andando até a lanchonete mais próxima, coloquei a caixa numa mesa e fui até o balcão.
Uma sensação de déjà vu me atingiu quando o atendente se aproximou para me cumprimentar. Juro que ele parecia familiar. Muito familiar, na verdade, ele parecia exatamente com meu chefe, que estranho.
— Desculpe — ele diz —, nosso caminhão de suprimentos não chegou, e estamos sem quase tudo.
— Ah, então o que posso pedir?
Ele respirou fundo, como se estivesse se esforçando muito para pensar em algo. Expirou fazendo um barulho com os lábios.
— Posso espremer um pouco de ketchup num pão de hambúrguer? — sugeriu, dando de ombros.
Por que eles estavam abertos, então? Mais valia colocar placas de "fechado" até receberem a entrega. Droga, não conheço nenhum outro fast food a uma distância que dê para ir andando. Então saí do prédio e fui andando para casa. Tenho certeza de que tenho alguma coisa na geladeira e/ou na despensa para improvisar.
Assim que entrei pela porta, percebi que tinha esquecido alguma coisa. Juro que estava carregando algo mais cedo. Eu realmente preciso falar com um médico sobre esses meus problemas de memória. Fui até a cozinha e vi que minha despensa e geladeira não tinham nada de substancial, nem sequer biscoitos para beliscar.
Acho que poderia pedir comida, mas de onde? Espera, como é que eu faço isso? Não tenho nenhum número de telefone decorado. Será que tenho anotado em algum lugar? Sinto que estou esquecendo de algo importante. Droga da minha memória.
Quer saber, estou desempregado e tenho todo o tempo do mundo, vou só andar até o restaurante mais próximo. Saí pela porta da frente e vi o escritório onde trabalho do outro lado da rua, e o fast food onde acabei de ir bem ao lado. Agora, para qual direção eu vou? Estava tendo dificuldade em lembrar do layout da cidade onde moro.
Foi então que meu vizinho saiu de casa. Ele era a cara do atendente do fast food, devem ser irmãos ou algo assim. Acertei um aceno para ele, e ele acenou de volta. Depois disso, escolhi uma direção e comecei a andar. Devo ter escolhido a direção errada, porque agora eu só estava atravessando o deserto. Nenhum prédio à vista. Vou continuar, uma hora chego em algum lugar.
Depois de um tempo, percebi que tinha viajado na maionese por um bom tempo, não faço ideia de quanto. Olhei pela janela do ônibus e vi que ainda estávamos só atravessando o deserto, no meio do nada. Suspirei. Foi então que vi um posto de gasolina se aproximando. Puxei a cordinha para descer. Ou compro alguns lanches ali, ou pego o próximo ônibus na direção oposta.
O ônibus parou e as portas se abriram. Desci e olhei para a lojinha antes de entrar. Mais uma vez fui tomado pela sensação fortíssima de déjà vu. Fiquei tão aliviado ao ver as opções que tinha diante de mim. Peguei um saco de batatinhas pendurado num pé de Joshua, um pacote duplo de rosquinhas dentro de um arbusto, e uma garrafa de refrigerante dentro da cabine telefônica. Quando cheguei ao balcão, meus braços estavam cheios. Estava tão animado com isso. Despejei a pilha de roupas em cima do balcão. Algo parecia errado, mas tentei afastar a sensação de desconforto. Levantei os olhos para o atendente do outro lado do balcão da minha cozinha e notei que ele parecia familiar.
— Sabe, você é igualzinho ao meu vizinho.
A expressão no rosto dele se transformou em nojo. Parecia que eu tinha acabado de dizer algo profundamente ofensivo. Fui tomado por um sentimento de vergonha.
— Des- desculpa — disse, tentando acalmar a situação.
— O que exatamente você está tentando fazer? — perguntou, cheio de rancor.
— Eu só... bem, não me lembro. Nem lembro de ter te convidado para entrar.
— Entrar onde?
Olho ao redor da casa da minha infância. Será que meus pais deixaram ele entrar? Olhei para o quadro na parede, aquele com nós três. É tão estranho como não só eu pareço exatamente com eles, mas eles parecem exatamente um com o outro. Volto a olhar para a pessoa à minha frente.
— E agora? — pergunto.
— O mesmo de sempre — ela responde.
Ah, é verdade, é hora de eu...
— É hora de você morrer. É hora de eu morrer. Quer dizer, estávamos mortos o tempo todo, tecnicamente. Você está morto se nunca existiu em primeiro lugar? Eu achava que existia, achava que outras pessoas também existiam, mas sempre fui só eu. Na verdade, hoje de manhã, quando acordei, foi o começo, e agora é hora do fim. Mas tudo bem, vai ficar tudo bem. Como posso dizer isso, porém, estou deixando de existir, na verdade nunca existi em primeiro lugar.
Meus lábios não se mexiam, não havia sequer voz alguma. Tudo isso eram apenas pensamentos. Enquanto flutuava num vazio negro. Soube naquele exato momento que era hora.
Como uma explosão, meu campo de visão se encheu com a luz mais brilhante e fiquei cego. Foi quando acordei. Desta vez, o pesadelo não desapareceu imediatamente. Lembrei de tudo. Lembrei que tenho revivido este dia repetidamente, ad infinitum. Posso sentir o medo se dissipando. Não consigo nem lembrar como comecei a escrever isso. A memória dos acontecimentos de ontem está escapando rapidamente. Não lembro por que comecei a escrever isso. Vocês são todos eu, então qual é o sentido? Por que estou fazendo isso? O que é que eu estou fazendo, afinal? Sinto tudo se esvaindo. Aperte "enviar", não se dê ao trabalho de ler tudo, só aperte "enviar".


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