Os médicos ficam me dizendo que é câncer. Não é câncer. É o Diabo. O pequeno nódulo no meu corpo é ele crescendo dentro de mim. Toda semana que eu verifico, o senhor das trevas está maior. Mais forte. A voz dele, mais alta.
Quando eu durmo, consigo ouvi-lo. O diabo fala comigo. Contando-me os horrores que ele vai fazer ao mundo assim que nascer. Ele vai me fazer assistir. Assistir ao que ele vai fazer com o mundo. O mundo vai queimar. Mas não pelas mãos dele. Pelas mãos de nós, humanos; tudo o que ele precisa fazer é sussurrar mais alto em nossos ouvidos, e nós vamos realizar nossos desejos mais sombrios.
Fico dizendo aos médicos que eles precisam fazer alguma coisa. Eles precisam me matar. Mas eles não fazem. Ele me impede de tirar minha própria vida. Toda vez que eu tento, ele puxa minha mão para longe no último segundo.
Os médicos tentaram me operar, mas não conseguem se livrar disso.
Claro que não conseguem se livrar disso. Desde quando o homem teve o poder de destruir um deus? Mesmo com o poder do sol, nós somos apenas formigas para ele.
Eu disse a eles para me deixarem morrer na mesa de operação, mas eles me mantiveram vivo. Algumas manhãs eu me pergunto: será que eles estão trabalhando para me manter vivo para que ele possa nascer? Os comprimidos que eu tomo — sem eles, o diabo não existiria mais?
Por que eles simplesmente não me deixam morrer? Se eu fosse um cachorro, já teriam me sacrificado há meses.
Estou passando mais do meu tempo dormindo, tentando conversar com ele. Tentando convencê-lo a deixar nós, humanos, em paz. Mas ele não ouve. Fica me dizendo que nós somos uma doença para este mundo e uns para os outros. Eu digo, repetidas vezes, que trazemos beleza ao mundo. Arte, flores, campos — tudo isso é cultivado por nossas mãos.
Mas a resposta dele?
"E a que custo? Pragas, artistas que não conseguem pagar o aluguel e tiram as próprias vidas. Quanto mais bem tentamos fazer, mais mal fazemos em vez disso. Nós somos o câncer deste mundo."
A cada conta médica que recebo, fica mais difícil discutir com ele. Mesmo que eu encontre um jeito de pará-lo, vou acabar morando na rua depois de tudo isso. Quarenta anos de trabalho destruídos em nove meses.
O médico me diz que eu só tenho seis meses de vida. Fico repetindo que esse não é o dia da minha morte. É quando ele vai nascer. Marque no seu calendário. Ele está vindo. A cada dia eu fico mais fraco — parem ele.
Em breve ele vai sair do meu corpo e vir para o resto da humanidade.
Enquanto digito isso, posso sentir ele crescendo dentro de mim, se movendo, planejando, esperando.
Já que os médicos não me ouvem, esta é a minha mensagem para o mundo. Ele está vindo. O senhor das trevas está em gestação dentro de mim. Façam as pazes com o seu Deus e se preparem para ele. Só consigo lutar contra ele por mais algum tempo.


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