sexta-feira, 10 de julho de 2026

Aquela Noite

Aconteceu pouco depois da minha mãe morrer. Se eu fosse chutar, cerca de um mês. Meu pai sempre foi um homem estoico, mal conseguindo demonstrar muita emoção. Quieto, contemplativo, severo, mas não insensível ou incapaz de amar. Durante minha infância, ele sempre esteve lá por nós, do seu próprio jeito. Ele nunca foi exatamente como os outros pais, aqueles que davam um jeito de pregar peças nos filhos ou só ficar zoando com eles. Ele lia histórias para nós na hora de dormir, resolvia os deveres de casa conosco, planejava aniversários surpresa e trabalhava longas horas para que tivéssemos um teto sobre nossas cabeças. Mesmo assim, ele sempre foi muito quieto, sempre um homem que se mantinha na dele. Embora pudéssemos compartilhar nossos problemas com ele, suas respostas sempre tendiam a ser curtas e simples.

Minha mãe era a única que conseguia tirá-lo da casca. Só de estar perto dela já causava uma mudança sutil, porém perceptível. A tensão no rosto dele se relaxava, seus ombros caíam, e ele realmente sorria. Dá para ver nas fotos de família, o braço dele envolto nos ombros da minha mãe, a cabeça encostada na dela, as alianças de casamento deles bem visíveis, com gemas vermelhas combinando, brilhando contra o ouro.

Ele não sorriu mais desde o funeral dela, ou, se sorriu, eu não vi. Foi assim que eu soube que ele estava destruído. Ele não estava mais na casca dele. Nada estava. Ele ainda tentava cuidar de nós, mas o coração dele não estava mais naquilo. Mas eu não posso realmente culpá-lo por isso, posso? A morte da mamãe pegou todos nós com força. Ela era uma presença constante, sempre ali por nós, sempre pronta para nos dizer com delicadeza como deveríamos lidar com um problema — não nos dando a resposta, mas nos ouvindo. Ela sempre estaria lá, segurando nossas cabeças enquanto chorávamos, sussurrando que tudo ficaria bem, que não precisávamos ter medo do escuro, nem dos trovões, nem dos relâmpagos.

É difícil colocar em palavras o período depois do funeral. É tudo tão vago, como sonhos mal desenhados numa neblina, se é que isso faz algum sentido. Eu sei que eles estão lá, mas é quase impossível recordá-los com clareza. Eu era só uma criança, processando aquela tragédia, e eu nunca mais poderia vê-la pelo resto da minha vida. E depois que eu morrer...

Aquela noite, no entanto, sempre estará fresca na memória.

Desculpe pela divagação; é difícil para mim não me perder falando sobre isso. A noite em questão foi numa cabana em algum lugar nos arredores de Saginaw, cercada por árvores e plantações de milho. O papai alugou para nós, um lugar onde pudéssemos fugir e simplesmente viver nosso luto. Não sei como meu pai a encontrou.

Entrando na garagem, eu não fiquei impressionado com ela. Era uma construção marrom simples de um andar, um bangalô, eu acho que se poderia dizer. Tinha uma televisão, uma cozinha com uma geladeira vazia, dois quartos, um banheiro, alguns livros espalhados e uma rede wi-fi instável. Papai nos instalou bem rápido. Não havia muito o que meu irmão e eu pudéssemos fazer além de assistir à televisão, mas aquilo era bom. Ficamos zapeando os canais até encontrarmos um programa de que gostássemos, e simplesmente sentamos lado a lado.

No dia seguinte, brincamos lá fora. Pega-pega deveria ser jogado com mais gente, mas só nós dois já estava bom. Ele me perseguiu pela grama, depois eu o persegui, e então ambos desabamos de exaustão, sentindo como se tivéssemos acabado de tirar um peso dos ombros. Quando entramos de volta, papai estava sentado à mesa da cozinha, dois pratos de papel na frente dele, com pasta de amendoim com geleia escorrendo dos sanduíches.

— Ei, crianças — ele disse, com a voz pesada. — Se divertiram lá fora?

Obviamente, nos divertimos, mas eu não sabia como respondê-lo. Ele mal se parecia com meu pai, o homem que eu conhecia tão bem ao longo dos anos, um homem que eu amava. Seus olhos estavam vermelho-escarlate, seus ombros estavam caídos, e ele parecia ter encolhido, mal conseguindo se impor acima de nós.

Meu irmão assentiu, e ocupamos nossos lugares à mesa, comendo nossos sanduíches.

— Sabem de uma coisa? — meu pai disse. — Sua mãe sempre amou pasta de amendoim com geleia. Ela foi quem me convenceu a provar quando éramos crianças. — Os lábios dele tremeram. — É... eu não gostava de pasta de amendoim com geleia. Vejam, eu estava... tentando ser diferente. — A risadinha que rastejou para fora dos lábios dele ecoou pela cozinha. — Achei que se eu fosse diferente, seria especial. — Ele balançou a cabeça lentamente. — Sua mãe não aceitava isso. Ela foi uma das minhas únicas amigas na infância, e quando ela começou a insistir para eu experimentar pasta de amendoim com geleia, eu resisti um pouco. Só um pouco. No fim, ela me desgastou, e, bem... — Ele gesticulou em direção aos nossos sanduíches. — Agora eu sei fazer pasta de amendoim com geleia.

Ele se levantou e foi embora, quase arrastando os pés. Quando a porta dele se fechou com um clique atrás dele, eu lancei um olhar para meu irmão.

— Talvez ele já tenha comido — ele murmurou, e deu outra mordida.

No dia seguinte foi quando ele mudou. Consigo apontar o momento exato em que aconteceu. Estávamos relaxando no sofá, lendo enquanto a televisão falava com a voz de um desenho animado. Nenhum de nós estava prestando atenção nela. Bem, quando meu pai terminou um livro, ele o colocou de lado, olhou pelos armários e começou a folhear um. Foi quando ele pegou um diário de couro preto. Ele o abriu na primeira página e congelou. Foi bizarro. Ele ficou ali parado, encarando a página aberta, e eu vi a cor voltando ao rosto dele. Fechando o livro com um estalo, ele voltou para o quarto. Só saiu para fazer nosso almoço e jantar.

O quarto dia foi estranho. Meu pai foi à cidade comprar alguns suprimentos, deixando meu irmão e eu nos cuidando. Ele se certificou de que as portas estavam trancadas e que não podíamos sair. Disse que seria rápido, mal dez minutos. A cidade mais próxima ficava a pelo menos trinta minutos de distância, provavelmente mais. Ele demorou muito mais do que trinta. Quando finalmente voltou para casa, estava carregando duas sacolas de supermercado. Eu presumi, obviamente, que ele tinha comprado comida, mesmo que nossa geladeira não estivesse em risco de esvaziar.

Ele não parou na cozinha. Ele passou direto por meu irmão e por mim, reto para o quarto dele, sem nem nos olhar. Pouco antes de a porta se fechar, eu vislumbrei o que estava nas sacolas. Roupas. Roupas femininas. Todas elas de um branco estreme. Quando a porta se fechou com um clique, me virei para meu irmão. Ele não pareceu ter notado nada. Então apenas assistimos à televisão e fomos nos deitar sozinhos.

O quinto dia foi quando as coisas ficaram um pouco estranhas. Não; isso é subestimar a situação.

Eu me lembro de acordar com a voz do meu pai. Um friozinho no coração passou por mim, pensando que, talvez, ele finalmente tivesse saído daquela fossa. Aí eu ouvi as palavras que ele dizia.

“...rompa o véu, despedace-o em pedaços…”

Eu me sentei, franzindo a testa, com a cabeça inclinada para o lado, tentando ouvir através da parede.

“...que nenhum feitiço o prenda, que nenhuma maldição recaia sobre você, seja ela de homem, Deus ou demônio. Que todos que te vejam te amem…”

A voz dele falhou, e então eu o ouvi soluçar pela primeira vez. Foi um único estalo gutural e baixo, mas ouvi-lo fez meu coração se contrair. Doeu. Ouvir um homem tão grande e forte chorar daquele jeito muda você, especialmente quando é seu próprio pai.

“Que você retorne para mim.”

Um longo silêncio veio depois. Eu escutei, mas meu pai não falou mais. Quando olhei para a outra cama, meu irmão também estava sentado, encarando a parede. A expressão no rosto dele devia ser a mesma que a minha.

— O que foi aquilo? — Ele disse baixinho, e embora parecesse uma pergunta, uma única nota de certeza o traiu. Eu tive a mesma intuição.

O resto do dia foi quase normal, não fosse pela atitude do meu pai. Os ombros dele não estavam tão caídos como costumavam; ele andava um pouco mais rápido, e sua disposição havia melhorado. Ainda não havia sorriso em seu rosto, mas quando eu olhava para ele, quase conseguia captar a promessa de um. No entanto, eu não me senti aliviado. Meu irmão também não. Ver a felicidade voltar ao nosso pai deveria ser motivo de comemoração, mas o olhar nos olhos dele era desconcertante, intenso, desesperado. O que quer que tivesse entrado nele não era o que tinha saído.

O sexto dia foi quando aconteceu, ou melhor, a sexta noite. Aquele dia deveria ter sido normal, mas enquanto meu irmão e eu o atravessávamos, não sorrimos. Não rimos. Nem mesmo olhávamos para nosso pai. Ele ficava murmurando coisas em voz baixa, e embora eu não conseguisse distinguir tudo, o que eu entendia me era muito, muito familiar. Eu já tinha ouvido ontem.

Depois do pôr do sol, papai nos colocou na cama. Meu irmão pediu uma história para ele antes de sair. Quando meu pai se virou, havia um olhar vago e confuso em seu rosto.

— Agora não — ele disse. — Amanhã, nós vamos ler uma história para vocês.

Então ele fechou a porta.

— Quem é "nós"? — perguntei na escuridão.

— Quem você acha que é? — meu irmão disse.

Não sei quanto tempo se passou até a porta ser escancarada com um estrondo. Sentando-me na cama, olhei para fora. Uma figura alta e larga avançava pelas sombras e pelo luar. Debaixo de um braço estava um rolo de tecido. Cobertores. Cobertores enrolados em volta de... o quê?

Eu observei a figura avançar em direção às árvores, e então continuar, diminuindo de tamanho.

— Aonde ele está indo? — meu irmão perguntou hesitante. Eu me virei e me joguei de volta debaixo das cobertas, puxando-as até o queixo.

No instante seguinte, houve uma batida na janela, e então a voz do meu pai gritando. — Levantem! Levantem agora mesmo, crianças, LEVANTEM!

Meus olhos se arregalaram, a respiração travando na minha garganta, ouvindo o punho dele bater contra o vidro. Eu não conseguia me mexer; meu corpo não me permitia.

— Vocês dois, levantem agora, abram essa janela! AGORA, AGORA!

— Pai?! — Meu irmão obedeceu, com a cabeça para fora no ar fresco da noite. — Pai, o que é isso? O que há de errado?

Eu estava olhando para meu irmão quando as mãos enormes do meu pai alcançaram debaixo das axilas dele e o arrancaram para fora. Meu irmão ofegou, os membros se debatendo, batendo na moldura. Então ele sumiu num piscar de olhos.

A cabeça do meu pai apareceu em seguida. — Levanta — ele disse, ofegando pesadamente. — e vem aqui agora! Estamos perdendo tempo!

Eu fiz o que ele mandou. Eu estava tentando sair quando ele me agarrou, me puxando para fora, murmurando algo em voz baixa. Ele me plantou de pé na grama fria e coberta de orvalho, ofegante, com a voz rouca e áspera. Eu olhei para cima, tremendo também, uma criancinha de pijama.

— Entrem no carro — meu pai disse com firmeza. — vocês dois. Vou pegar as chaves, mas vão!

Meu irmão já estava correndo, mas eu não conseguia tirar os olhos do rosto pálido dele, branco como o luar, sem um pingo de cor. Ele tinha olhado por cima do ombro, encarando a floresta. Eu olhei, mas vi apenas uma escuridão profunda agarrando os troncos das árvores.

— Que porra você ainda está fazendo aqui? — meu pai sibilou, o rosto dele subitamente a centímetros do meu. — Eu mandei você ir para o carro!

Eu tropecei para trás, me afastando dele, então me virei e saí correndo. O carro já tinha um ocupante, sentado no banco de trás, com a cabeça baixa. Eu tropecei para dentro ao lado dele, e os braços dele se enrolaram em mim, firmes e quentes.

— O que há de errado com o papai? — perguntei a ele.

Ele balançou a cabeça, assustado. — Acho... que talvez ele tenha enlouquecido.

Eu tentei pensar em algo para dizer quando a vi. Por apenas um instante, deslizando entre as árvores. Uma forma branca, alta, fina, mal distinguível, porém inconfundível. Eu me inclinei para a frente, tentando vê-la de novo, mas havia apenas as sombras da noite.

A porta foi arrancada quando meu pai se jogou no banco do motorista. Ele enfiou a chave na ignição, girou, e o motor engasgou igual a um sapo moribundo. — Vamos, caralho, vamos! — Ele bateu a mão no painel, alto como um tiro.

— Pai, o que está acontecendo? — meu irmão disse, tremendo.

Se meu pai o ouviu, não demonstrou. Ele girou a chave de novo, e o motor engrenou com um suspiro, os faróis derramando luz sobre o chão.

Algo passou por eles. Pálido, alto, corpo tão seco que a pele se colava aos ossos, um vestido branco pendurado nele. Tênues tentáculos negros de cabelo se enrolavam em volta do rosto, sua boca escancarada, alcatrão úmido escorrendo sobre os lábios, e os olhos... tinham sumido.

Ergueu os braços para os dois lados do corpo, e um longo e faminto lamento irrompeu de sua garganta. Então voou em direção ao carro.

Meu irmão começou a gritar. Eu comecei a chorar, meu peito arfando a cada soluço. O rosto do meu pai empalideceu. Por uma fração de segundo, eu soube que ia morrer. Quando se é criança, a morte sempre soa tão distante e longínqua, mas não é. Ela está sempre ali na esquina, com a foice erguida, esperando por um momento como aquele.

Meu pai engatou a marcha, praticamente esmagou o acelerador, e puxou o volante para o lado, escapando por pouco das mãos estendidas daquela coisa. A cabeça dela se virou para nos seguir, a pele se rompendo ao redor do pescoço enquanto ossos se arrancavam violentamente. As lanternas traseiras a tingiram de um vermelho turvo — e então a escuridão a engoliu.

Só voltamos para pegar nossas coisas pelo menos um dia depois, e quando o fizemos, encontramos a cabana em um estado lastimável. As paredes estavam rasgadas em pedaços, a televisão estava destruída, as janelas estilhaçadas, os móveis despedaçados, e todos os pertences que deixamos para trás estavam cobertos de alcatrão preto, desde nossas camisas até nossos sapatos. Papai conseguiu convencer os donos de que alguns moleques delinquentes tinham arrombado o lugar, mas ainda assim foi uma dor de cabeça discutir sobre os danos.

A polícia entrevistaria meu pai mais tarde naquela semana, a respeito de um incidente no cemitério. Ainda não tenho acesso a todos os detalhes, mas tivemos que comprar uma lápide nova para a mamãe. Algum tempo depois disso, eu vi meu pai parado do lado de fora, uma noite, antes de uma fogueira. Algo voou da mão dele para dentro dela, fazendo um retângulo preto. No dia seguinte, recuperei aquele livro de couro preto das cinzas frias, intacto, e o entreguei ao papai. Não sei o que ele fez com ele.

Nunca falamos sobre aquela noite. Com ninguém. Nem mesmo entre nós. Não podemos. Ninguém acreditaria em nós. Ninguém acreditaria por que a taxa de pessoas desaparecidas nos arredores de Saginaw aumentou desde então. E se acreditassem, o que diriam? Como poderiam nos dizer que está tudo bem se eu estive tão perto que vi as linhas de tensão nas palmas daquela coisa? E, pior de tudo, a aliança de ouro em seu dedo, aquela gema vermelha capturando a luz?

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