E aí, sou só mais um que acompanha as coisas por aqui sem aparecer muito. Estou tentando pedir conselhos pela internet sobre uma situação muito esquisita que estou vivendo. As coisas já saíram completamente do controle. Ontem foi mais uma noite longa, com meus pais discutindo sem parar. Não sou mais criança, mas ainda moro com eles.
Sei que muita gente aqui provavelmente também tem que lidar com problemas assim. É uma merda, eu sei. Mas… no meu caso é diferente. Tem algo de errado com a minha mãe. Toda noite, ela briga com o meu pai, mas o assunto… sou eu.
Ela tem plena convicção de que eu estou morto.
Não é “morto por dentro”, não é aquela história de “você fez algo de errado, então para mim está morto”. É morto de verdade, fisicamente. Ela… não está bem. Meu pai já começou a marcar consultas com profissionais de saúde mental. Ou pelo menos tentou.
Vou explicar melhor depois. Talvez alguém consiga me ajudar. Estou desesperado. Meu Deus… acho melhor começar do início.
Bom, sou um cara comum. Não tenho nada de especial. Como eu disse, não fiz nada de errado. Foi só mais um dia normal. Eu estava conversando com a minha mãe durante o café da manhã. De repente, ela virou para mim e falou:
— É uma pena o que aconteceu com você. Era tão jovem. Que pena que aquele carro te atropelou e você perdeu a vida.
Como é que é?
Acho que até escorreu um pouco de leite e cereal da minha boca. Fiquei completamente chocado.
Veja bem, a minha mãe é… uma mulher de respeito, de antigamente. Sempre foi educada, carinhosa, quase nunca gritava e nunca falava palavrão. Mas também não tinha senso de humor, muito menos piadas pesadas ou macabras como aquela.
Então, quando ela disse aquilo, fiquei sem reação. Foi uma das coisas mais estranhas que já ouvi ela falar, totalmente fora do seu jeito de ser. No começo, achei que era só uma piada sem graça e segui com o meu dia. Quando cheguei em casa, ela já estava discutindo com o meu pai. E o assunto… vocês já sabem qual era.
Nos primeiros dias foi muito esquisito. Não dava para ter certeza se ela estava falando sério ou não. Ela dizia que eu estava morto, e o meu pai apontava para mim e respondia algo como “Isso não tem graça”. Depois de um tempo, ela parava, mas no dia seguinte voltava com a mesma conversa.
Só que as coisas… foram piorando.
Ela passou a discutir cada vez mais, e a falar coisas que não fazem o menor sentido. Já ouvi histórias de como eu teria morrido queimado, afogado, eletrocutado, atropelado, baleado e até jogado dentro de um tanque de ácido. Já cansei de tentar convencê-la… eu andar pela casa, falar com ela, nada disso parece abalar a sua convicção. Ela continua insistindo.
O meu dia a dia já é completamente bizarro. Ela vive me perguntando como é a vida depois da morte. E eu respondo que não mudou nada.
Que porra de outra resposta eu poderia dar?! Não estou morto, estou bem na frente dela, fazendo exatamente o que sempre fiz. Hoje em dia, o jeito é fingir que não ouço.
Sei o que vocês devem estar pensando: “Sua mãe enlouqueceu”. Pois é, eu também pensei isso. Mas então aconteceu uma coisa que mudou tudo.
Um dia, a minha avó veio nos visitar. Adoro a minha avó. Ela estava sentada na sala, quieta, de olhos fechados e as mãos juntas.
Passei por ela e não sabia se estava dormindo. Quando abriu os olhos, eu a cumprimentei. Ela apenas sorriu e disse que estava orando — ela é muito religiosa.
Disse que estava orando por mim. Até aí, tudo bem. Mas então virou para mim e explicou o porquê:
— Estou orando para que a sua alma possa descansar em paz.
Como é que é?
Fiquei parado no mesmo lugar por um minuto, sem reação. Não entendo como isso aconteceu. Mas a minha mãe conseguiu convencer a minha avó de que eu estou morto. Eu… não conseguia acreditar. Ainda restava uma mínima chance de que a minha mãe estivesse apenas brincando, mas a minha avó? Não tinha jeito, era coisa séria.
Deixa eu explicar uma coisa: a minha mãe é quem comanda a família, de certa forma. Ela é gentil, doce e tem uma capacidade enorme de convencer as pessoas. Não tem sempre a última palavra, mas quando quer algo, todo mundo acaba concordando.
Não faço a menor ideia de como ela conseguiu convencer a minha avó. Mas é óbvio que tem algo acontecendo, só não consigo entender o quê.
E a situação, como eu já disse, foi ficando cada vez mais grave.
Outro dia, eu estava cochilando na minha cama. De repente, senti um cheiro de fumaça. Fiquei tão assustado que pulei da cama. O cheiro de queimado vinha de mim mesmo. A minha mãe tinha pegado um isqueiro e tentou colocar fogo nas minhas roupas.
— Talvez você consiga seguir em frente se for cremado — disse ela.
Que porra é essa? E ainda falou isso sorrindo.
Foi a primeira vez que ela tentou me machucar de verdade. Desde então, fico sempre bem longe dela.
Depois disso, fui procurar o meu pai. Aquilo já tinha passado de todos os limites; ela precisava de ajuda. Talvez a minha avó estivesse começando a ficar confusa com a idade, mas a minha mãe, sim, precisava de tratamento urgente.
Conversei com ele, e ele ficou olhando para os lados, sem jeito. Não conseguia acreditar…
Ela tinha conseguido convencer também o meu pai.
Ele já está começando a aceitar a ideia de que eu realmente estou morto. Não tenho mais a menor ideia do que diabos está acontecendo.
A família está se desfazendo — ou talvez se unindo, só que em torno da ideia mais esquisita e doentia que já ouvi falar. A minha vida não tem mais nada de normal.
Semana passada fomos à praia. Foi a última vez que tentei fazer algo comum com a minha família. Acabei dormindo deitado sobre a minha toalha. Quando acordei, vi a minha mãe parada sobre mim, sorrindo.
Ela tinha enterrado metade do meu corpo na areia. Eu mal conseguia me mexer.
Gritei e me mexi com toda a força. A areia era áspera contra a pele e muito pesada para sair. Mas antes que ficasse tão dura quanto pedra, consegui me soltar e me afastar o máximo possível dela.
Tenho certeza absoluta de que ela estava tentando me enterrar vivo.
Gritei com ela como nunca. Toda a praia ficou olhando para nós. Gritei que aquilo era uma brincadeira doentia, que essa história de que eu estou morto era uma loucura da cabeça dela. Já tinha chegado ao meu limite. Acho que nunca fiquei com tanta raiva na minha vida. Ela apenas me olhou em silêncio, com um sorriso fraco no rosto.
— Os mortos não devem gritar.
Que inferno. Em que confusão eu fui me meter?
E a coisa não para por aí. Só piora.
Ela conseguiu convencer também as pessoas da minha escola: meus amigos, os professores. Ninguém mais me dá atenção. Quando levanto a mão para fazer uma pergunta, o professor finge que não me vê. Uma vez, ele disse claramente:
— Os mortos não podem fazer perguntas.
É surreal. Meus amigos fingem que não estou lá. Em casa, já não preparam mais comida para mim. Me sinto um estranho no meu próprio lar, como um fantasma que fica vagando de um lado para o outro.
Outro dia, vi ela olhando para o celular. Chamou por mim:
— Vem ver isso, Chris.
Fui até lá, mas já com muito receio. Hoje em dia, a nossa relação praticamente não existe, e vai continuar assim até que ela receba ajuda médica.
Na tela, havia caixões. Ela estava olhando porra de caixões.
— Esse vai ficar muito bom em você.
Não tenho palavras para descrever o que senti. Ver uma pessoa que você ama falar com tanta naturalidade sobre a sua morte, como se fosse algo comum, como se estivesse planejando isso… Não é certo, não é nada normal. E todo mundo já está começando a ficar do lado dela.
Essa situação está me consumindo psicologicamente. Já estou arrumando as minhas coisas para sair da cidade e ir para qualquer lugar. Preciso fugir daqui.
Estou escrevendo isso para perguntar se alguém já passou por algo parecido. Sei que existem pessoas com transtornos mentais, mas conseguir convencer praticamente toda a minha família e todos ao meu redor dessa mentira toda?!
Será que é algum tipo de surto coletivo? Se alguém já passou por isso, por favor me diga. Já estou arrumando as malas para ir embora. Preciso de um tempo, preciso sair daqui primeiro; depois eu resolvo toda essa confusão.
Não aguento mais ver a minha mãe pesquisando qual líquido usar para embalsamar o meu corpo. Tenho que sair antes que eu faça alguma besteira, algo que depois vou me arrepender para sempre.
Não estou…
— Espera, uma atualização rápida: eu estava sozinho em casa, mas os meus pais acabaram de chegar. Vieram com uma… van? Não entendo nada, a gente não tem van nenhuma.
Que porra é essa, o que está acontecendo? Tem umas dez pessoas junto com eles. Eu… não sei… Que diabos está acontecendo? Que merda é essa?!
Todos eles estão carregando pás nas mãos!


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