quarta-feira, 1 de julho de 2026

Mas, era apenas uma cabra?

Acordei tarde naquela manhã com uma batida forte na porta do meu sótão. O som ecoou pela estrutura de madeira, me arrancando de um sonho que não conseguia lembrar. A voz da minha mãe veio em seguida, tensa com aquela mistura de irritação e urgência que ela fica quando as cabras escapam. De novo. Gemi, meu corpo pesado de sono, e tateei procurando minha jaqueta. Era uma daquelas manhãs em que o frio atravessava suas roupas, e o céu estava baixo e cinzento, como se não conseguisse decidir se chovia ou apenas ficava mal-humorado.

Saí, a grama úmida fazendo barulho sob minhas botas. As cabras estavam espalhadas pelo quintal, sua confusão habitual. A maioria delas foi fácil de conduzir de volta ao celeiro—elas conheciam a rotina. Mas a marrom, aquela com a orelha torta e a cara estupidamente feliz, não estava colaborando. Ela estava pulando por aí como uma criança que comeu açúcar demais, perseguindo um pássaro que tinha voado para dentro do bosque. Lembro de pensar, Por que hoje? Mas segui ela mesmo assim, porque é isso que você faz quando mora numa fazenda. Você persegue as malditas cabras.

O bosque estava diferente naquela manhã. Não sei explicar, mas parecia... mais denso. As árvores pareciam mais próximas umas das outras, seus galhos se contorcendo como se tentassem bloquear a luz. O ar cheirava a mofo, como folhas apodrecendo e terra molhada, e o único som era o barulho das minhas botas e o ocasional balido distante da cabra. Continuei dizendo a mim mesmo que estava tudo bem, era apenas mais uma tarefa, mas quanto mais fundo eu ia, mais minha pele se arrepiava. Estava silencioso demais. Até os pássaros tinham parado de cantar.

Finalmente a avistei—a cabra marrom—parada perfeitamente imóvel num feixe de luz do sol. Ela estava olhando para um galho, com a cabeça inclinada como se estivesse ouvindo algo. Por um segundo, apenas a observei, confuso. Ela parecia tão... tranquila. Mas então me aproximei, e foi quando ouvi a voz do meu irmão, nítida e clara vindo de algum lugar atrás de mim.

"Peguei ela! Pode voltar!"

Me virei em direção à voz dele, o alívio me inundando por apenas um segundo. Mas então percebi—se meu irmão estava com a cabra, então que diabos eu estava olhando?

Meu estômago afundou. Não me virei de volta. Não ousei. Algo primitivo dentro de mim gritou não, e eu escutei. Recuei, passo a passo, meus olhos fixos no meu irmão à distância. Podia sentir aquilo atrás de mim—a coisa que parecia a cabra mas não era. Sua presença era pesada, errada, como se o próprio ar estivesse me pressionando. E então, bem quando me virei para correr, juro que ouvi—um som que não era um balido, não era uma voz, mas algo entre os dois. Algo errado.

Corri. Não parei até chegar ao celeiro, meu peito arfando, minhas mãos tremendo. Meu irmão estava lá, segurando a cabra verdadeira, me olhando como se eu tivesse perdido a cabeça. Talvez eu tivesse. Mas eu sabia o que tinha visto. Ou pelo menos, sabia que tinha visto alguma coisa.

Nas semanas seguintes, continuei ouvindo—os chamados. Suaves, distantes e inconfundivelmente parecidos com os de uma cabra. Eu corria para o celeiro toda vez, apenas para encontrar todas as cabras dormindo, seus corpos subindo e descendo ao luar. Os chamados não vinham delas. Vinham do bosque. Do que quer que eu tivesse visto naquele dia. E seja lá o que fosse, ainda estava lá fora, esperando, chamando.

Não chego mais perto daquele bosque. Mas às vezes, tarde da noite, quando o vento está na direção certa, ouço os chamados novamente. E não posso deixar de me perguntar... se eu tivesse olhado para trás, o que teria visto?

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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon