terça-feira, 21 de julho de 2026

A Porta na Floresta

Encontrei uma porta no meio do mato que vai para qualquer lugar, e não consigo parar de usá-la para ficar te observando.

Não você especificamente, quer dizer, embora você possa ser uma das duzentas pessoas mais ou menos que eu tenho espreitado nos últimos sete meses. Mas não é isso que me deixou assombrado.

Acho que outra pessoa está usando ela para me observar mim.

Eu morei no Meio-Oeste a minha vida inteira. Um completo fim de mundo. O lugar que estou alugando faz fundo com a mata que margeia o lado leste da cidade, e como eu cresci não muito longe daqui, conheço bem a região. Costumava caminhar por todo lado quando era criança, andei pelas trilhas com meu cachorro quando adolescente, e ainda vou pra lá com frequência como adulto. Facilmente umas duas vezes por semana. Talvez conhecer como a palma da mão seja exagero, mas com certeza consigo ir do ponto A ao B sem mapa, é o que estou dizendo. Então imagine minha surpresa quando encontrei um abrigo de concreto mais ou menos quadrado, encravado na encosta de uma colina, lá em dezembro.

Foi pouco antes do Natal, neve no chão de uma nevasca rápida da noite anterior, e eu já estava andando há um tempo. Talvez uma hora desde que saí do meu quintal. Conheço bem a área, é tudo floresta pública não urbanizada, e quase não tem construções nela que eu saiba. Talvez um posto de observação de incêndio. Isso aqui, porém, era estranho. Concreto maciço, com uma daquelas portas de metal cinza-esverdeado, tipo entrada de subestação de energia ou algo assim. Uma placa grande com "Perigo. Proibido Entrar". Tinha pichação também, só assinaturas e tal, e estava quase engolida pela neve, ervas daninhas e vegetação rala. Acho que por isso nunca vi antes; na primavera deve ficar quase toda coberta por arbustos e o concreto meio que se camufla na folhagem.

Então é claro que meu cérebro grita "Bunker da Segunda Guerra Mundial" e eu estou subindo a ladeira correndo em direção a um tesouro semi-enterrado.

Mas acabou que não era um bunker, de jeito nenhum. Consegui abrir a porta com um pouco de esforço e muito rangido de metal, e atrás dela só havia um corredor. Uns três metros de comprimento, e só alguns centímetros mais largo que a porta. As paredes são de concreto, igual o lado de fora. Na verdade, parece um bloco maciço de cimento onde alguém cavou um corredor. Arranhões por toda parte também, no chão, nas paredes e no teto. E, no fundo, outra porta.

Na primeira vez que entrei, fiquei impressionado com o silêncio. Já me acostumei com isso agora. Tenho quase certeza de que é só o formato da colina em volta da construção que bloqueia o vento. A única luz é a que entra pela porta aberta atrás de você, que sendo inverno, era aquele branco azulado brilhante da neve refletindo o céu. Passei meus dedos enluvados pelos arranhões. Eles são bem fundos. Feitos de propósito, parecia. Mais tarde descobri que eram símbolos, mas não vou me adiantar. Nesse ponto, eu ainda achava que era só o vestíbulo de algum complexo de bunkers maior sob a floresta. Esperava uma escada descendo quando abrisse a porta do fundo. Então segurei a maçaneta e girei.

Imediatamente: luz atrás de mim.

Foi quando percebi que os arranhões nas paredes e no teto eram símbolos, porque quando olhei para trás para encontrar a fonte de luz, vi que ela vinha das paredes, e do teto, e do chão. Um símbolo em cada um estava brilhando como se houvesse um LED atrás e eu tivesse acabado de fechar o circuito. Verde. A cor do céu antes de um tornado.

Então abri a porta.

Como eu disse antes, esperava que isso levasse a algum tipo de bunker. Escadas. Corredores. Salas cheias de beliches enferrujados. Símbolos de chuva radioativa nas paredes. O que eu encontrei foi muito, mas muito mais bizarro. Você tem que entender, quando conto essa história, que eu nunca tive a intenção de que isso fosse dar tão terrivelmente errado. Eu nunca quis me tornar um esquisitão perseguindo estranhos por diversão. Sou um cara normal. Tenho um emprego normal. Tenho amigos. Sou solteiro, admito, mas não no estilo incel. Mas quando atravessei aquela porta, na mata, atrás da minha casa, e saí do armário do quarto de alguém do outro lado do país, quase me caguei nas calças.

Foi daí que começou. Saí correndo daquele quarto quando ouvi alguém na escada, fechei a porta atrás de mim, passei alguns minutos recuperando o fôlego. Me convenci de que não podia ser real. Eu abriria a porta de novo e prestaria mais atenção ao quarto e perceberia que era falso. Eu não podia ter estado no segundo andar de uma casa. Eu não podia estar olhando pela porra da janela aberta, cortinas balançando numa brisa leve, com a Ponte Golden Gate ao fundo. Então respirei fundo algumas vezes e tentei a porta de novo.

Mesmo brilho. Símbolos diferentes. Na época eu não percebi que eram símbolos diferentes, mas com o benefício da retrospectiva, estou inclinado a acreditar que eram diferentes porque eu não voltei para o quarto.

Não.

Uma cozinha de restaurante italiano. Sem brincadeira. Luzes fluorescentes. Piso de azulejo. Todo o resto em aço inoxidável. Um monte de cozinheiros de linha gritando uns com os outros com fortes sotaques de Nova Iorque. Entrei pela porta de serviço dos fundos e o cheiro de molho marinara e frutos do mar frescos me atingiu como uma parede. Então eu estou enlouquecendo, certo? De volta ao corredor. Fecho a porta.

Confuso, e precisando de ar, verifiquei o lado de fora e não há nada notável na construção. É concreto em todos os lados, pelo que posso ver, com a extremidade da (e eu realmente odeio usar essa palavra, mas), "Porta Mágica" meio enterrada sob a encosta. Pode estar aqui há décadas, a julgar pelo quão corroído, marcado e abandonado tudo parece. A placa é relativamente recente; está toda riscada e suja como se estivesse lá há anos, mas é uma placa moderna. Vinte anos, no máximo.

Sem respostas lá fora, então: de volta para dentro. Abro a porta. Entro numa sala.

É assim que tem sido por meses. Naquele dia tentei mais cinco ou seis vezes, e desde então tenho ido lá todos os dias. Antes do trabalho, depois do trabalho, dias de folga, fins de semana, e toda santa vez aquela porta me levava a um novo lugar completamente aleatório. Parece que só se abre em portas mais ou menos do mesmo tamanho e dimensões daquela pela qual eu entro. Não posso entrar nela e sair por um portão de celeiro ou porta de avião, embora já tenha atravessado a porta e saído num navio de cruzeiro uma vez. Parece que, contanto que abra em dobradiças e tenha as dimensões de uma porta comum de casa, vale tudo. Então, essa é a primeira ressalva sobre o "todo lugar".

Mas você deve estar se perguntando como tudo isso me levou a me tornar o maior perseguidor de 2026? Bem, essa é a segunda ressalva.

Quando estou do outro lado daquela porta, ninguém consegue me ver.

Não sou, tipo, invisível (eu acho) porque posso ver meu reflexo nas coisas, e não sou um fantasma porque não posso atravessar paredes e posso interagir com as coisas normalmente. É só que ninguém me nota. Como se eu não devesse estar ali, então não estou. Mas estou. Honestamente, eu poderia ficar a meio metro de você e você não veria nada. Já falei com as pessoas, até movi coisas bem na frente delas, e elas simplesmente seguem o dia como se nada tivesse acontecido. No máximo, parecem um pouco confusas. Como se tivessem certeza de que ouviram... algo... mas isso passa antes que registrem, ou têm certeza de que colocaram a caneca no criado-mudo, não na mesa de centro, mas ignoram como falha de memória.

Exceto que elas colocaram no criado-mudo, porque fui eu que a movi para a mesa de centro. Eu fiz isso bem na frente delas. Elas deveriam ter me visto.

Mas não viram.

Elas nunca veem.

E isso me deixa observá-las o quanto eu quiser.

Observar você o quanto eu quiser.

Já vi pessoas jantando, sentado na mesa de jantar bem ao lado delas. Já estive em reuniões de diretoria e ouvi colegas fofocando perto das fotocopiadoras. Já vi gente tomando banho, transando, e se masturbando na sala. Vi pessoas roubando do caixa da empresa, ou da carteira dos pais, ou da bolsa da esposa. Fiquei no canto de quartos e vi pessoas dormindo. Sentei atrás de casais vendo TV no sofá. Subi no palco num show do Bring Me The Horizon. Já estive em mais de alguns laboratórios de drogas e facilmente uma dúzia de bordéis.

Tenho quase certeza que topei com um assassino em série uma vez.

Então, você vê por que é intoxicante, certo? Toda essa coisa de ser um observador invisível na vida das pessoas? Claro, nem sempre entendo tudo. Já acabei em países onde não falava o idioma, e isso meio que me limita a depender de pistas de contexto. Acho que os símbolos são como um código que corresponde a pontos no espaço. Tipo um número de telefone.

Quando esquentou o suficiente para tirar as luvas, descobri que posso tocar os símbolos com antecedência. Girar a maçaneta sozinha só escolhe um conjunto aleatório. Tentei encontrar um sistema, mas não consegui entender patavina de qual rabisco específico corresponde a qual parte de um endereço. A mesma combinação sempre leva ao mesmo lugar, então posso fazer visitas repetidas. Há um lugar que eu volto com certa frequência. Um galpão de ferramentas nas montanhas em algum lugar. Europa, acho. É um dos poucos lugares onde nunca vi outras pessoas, e fico sentado na grama observando as cabras subirem nas rochas. Às vezes só fico olhando as nuvens.

Mas, na maior parte, observo pessoas. Pessoas comendo, pessoas dormindo, pessoas trabalhando. Pessoas em momentos privados e públicos. Homens, mulheres, jovens e velhos.

Mas ultimamente, acho que eu sou o que está sendo observado.

No começo era só paranoia, acho. Eu tinha ficado tantas vezes no canto de tantos quartos escuros que comecei a ficar com calafrios sempre que ficava sozinho por cinco minutos. Olhava para o canto de uma sala no trabalho e ficava convencido de que tinha alguém parado ali, mesmo sem conseguir ver. Vendo TV sozinho em casa, me vinha a ideia de que havia alguém na outra ponta do sofá e eu tinha que esticar a perna para ter certeza. Uma das cadeiras vazias na mesa de jantar dos meus pais ficava um pouco mais puxada do que o necessário, e eu ficava convencido de que alguém estava sentado nela. Me observando. Invisível.

Então as coisas começaram a sumir do lugar. A caneca que está um pouco mais para a esquerda do que eu lembrava. Leite no balcão em vez de na geladeira. Minhas chaves sumindo do gancho em que eu sei que as pendurei. Igual faço todo dia. Uma porta aberta que eu lembro distintamente de ter fechado. Talvez eu só tenha me confundido? Eu não estava dormindo muito bem. Toda vez que fechava os olhos, ouvia uma respiração. O que não faz sentido, porque sei que as pessoas não podem ver ou ouvir você quando você atravessa aquela porta, mas talvez elas... sintam...? Já vi mais de algumas pessoas olharem para mim, bem para mim, confusas, sabendo que algo estava errado, mas atribuindo à imaginação. Aquela sensação que você tem quando acha que está sendo observado. Todos já tivemos isso antes. Acho que, talvez, nesses momentos, haja alguém te observando.

Agora estão me observando.

O que me convenceu de vez foi a porta do bunker. Veja bem, eu sempre a fecho. Toda vez. Está bem escondida agora que os arbustos cresceram de novo, e com a porta fechada, você mal saberia que há algo ali. Definitivamente não dá para ver da trilha. Mesmo assim, eu a fecho, toda vez, para manter tudo só para mim, mas um dia fiz minha caminhada até a colina e a encontrei aberta. Só um pouco. Uma fresta.

Então, para garantir, comprei um cadeado bem pesado e fechei a porta bem firme. Garanti que nenhum animal pudesse entrar. Que o vento não fosse abrir a porta. Deveria ter segurado. Teria segurado. Aí voltei e o cadeado estava cortado limpo, largado no chão. E ao lado, a porta estava aberta. Dessa vez não era pouco. Aberta. Totalmente. Uma mensagem.

Como se você quisesse que eu soubesse. Porque sei que você está lendo isso, e tudo bem, entendi. Aprendi minha lição. A porta não me pertence. Entendi e não aguento mais. Preciso que você pare! Por favor! Me desculpe. Sinto muito. Quem quer que você seja. Chega de puxar meus lençóis à noite. Chega de deixar a porta da frente aberta para eu encontrar de manhã. Chega de carinhas felizes desenhadas no vidro enquanto estou no chuveiro. Mensagem recebida. Tão clara quanto alta.

Prometo que não vou voltar.

Só por favor.

Estou implorando.

Me deixe em paz.

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