As cores ao meu redor são diferentes, elas se transformaram em tons que eu nunca vi antes. Não sei há quanto tempo isso dura, não me lembro do dia em que aconteceu. Escrever isto é a primeira coisa que fiz depois que acordei, está desaparecendo. Está desaparecendo rápido.
Eu estava solitário. Fui a uma acompanhante, uma que encontrei na internet. Eu estava solitário. Fui até a casa dela. Conversamos um pouco. Foi estranho. Ela era bonita. Ela era aterrorizante. Senti que tinha cometido um erro. Ela se despiu. Senti vontade de chorar. Ela montou em cima de mim. Eu estava com medo. Ela me viu. Minha vergonha foi arrancada do seu esconderijo. Eu estava com medo. Nós transamos. Eu não estava gostando nem um pouco. O que eu achei que isso iria ajudar? É só isso que eu valho? Por que não consigo me ajudar? Eu odiava olhar para os peitos dela. Eram dois olhos perfurantes me encarando diretamente, sempre centralizando o olhar na minha alma. Eles me faziam sentir pior. Estou doente. Será que eu sequer estava ali? Olhei para o rosto dela. O rosto horrível dela estava me encarando. Os olhos dela violavam meu corpo. Ela conseguia ver minha solidão. Os olhos dela estavam mortos. Como os meus. Por que estou fazendo isso? Ela é uma pessoa. Mais pessoa do que eu. Quero pedir ajuda a ela. Os olhos dela cresceram. O rosto dela se distorceu, os traços dela flutuaram pelo corpo. Voltavam ao lugar quando eu movia os olhos, sempre se desviando, mas nunca indo a lugar nenhum. Eu não conseguia olhar.
Um choque elétrico estala no meu estômago. Há um buraco no meu tronco. Sinto a profundidade dele no meu núcleo. Faz cócegas como se fossem borboletas. Uma casca de ferida esfrega meu interior. Está queimando. Olho para ela. Ela está me esfaqueando. Olho para a faca. Ela tem eu nela. Por que ela está me esfaqueando? Os relâmpagos dela atingem meu peito. A eletricidade dela viaja do meu coração para o meu cérebro. Ela grita comigo. Olho para ela. Choques elétricos faíscam pelo meu corpo. O cheiro do meu sangue enche o quarto. Por que eu quero isso? Ela joga a faca fora, sinto a caverna dentro de mim. Ela é humana?
Ela enfia a mão dentro do meu corpo. Sinto a mão dela deslizar por baixo do meu estômago. As mãos dela sobem rastejando. As unhas dela arranham meus músculos. As fibras debaixo da minha pele esticam e depois arrebentam. Ela aperta e puxa meu estômago. Ela apalpa por baixo das minhas costelas. A mão dela empurra meus pulmões. O punho dela bate no meu coração. A mão dela sobe apalpando. A palma da mão dela bloqueia minha via aérea. Eu engasgo. A mão dela passa pela minha boca. Ela agarra minha língua. Os dedos dela descem pela minha garganta. As juntas dela espremem meus olhos. Ela segue em direção ao meu cérebro. Ela agarra meu cérebro na mão dela, os dedos dela se enrolam dentro da minha cabeça, eletricidade flui para todas as extremidades do meu corpo, líquido escorre das minhas orelhas, tudo o que consigo ouvir é a mão dela dentro da minha cabeça, o pulso dela abaulando minha testa, minha coluna se enverga, meu rosto, meu rosto se contorce, faço uma careta, a careta mais forte que já fiz, meus membros se retraem, meu corpo inteiro encolhe, a eletricidade não dói, os choques não doem, eu queria isso, eu queria isso, eu quero, dói, dói tanto, Deus, faz parar, por favor, faz essa merda parar, tudo dói, tudo.
Ela fecha o punho.
Estou escorrendo para fora de mim mesmo. Os dias ociosos estão encharcados no meu colchão. Os anos fluem através de mim. As memórias que eu prezava. A vida que perdi. Tudo encharcado em lençóis sujos. As pessoas que vão me encontrar. Será que vão saber o quanto eu sinto muito? Ela está me olhando do outro lado do quarto. Eu queria isso. Por que eu queria isso? O que poderia ter me levado a pensar que isso seria aceitável? Ela é aterrorizantemente bonita. Ela está me olhando.
Estou escorrendo para fora de mim mesmo. Meu sangue satura a cama. Ele se acumula no chão. Pedaços dispersos do meu cérebro estão grudados na mão dela. Eu fiz isso. Matei a nós. Matei a mim? Ainda estou aqui. Matei a mim e ainda estou aqui. Estou com medo de olhar para ela. Estou com medo de saber que ela está me encarando de volta. Sei que ela me odeia. Sei o que preciso que ela faça comigo. Ela não pode ser real. Ela não pode fazer o que eu preciso fazer. Eu não posso fazer isso com outra pessoa. Ela não merece a minha morte. Eu não consigo fazer isso. Preciso que ela faça isso. Preciso que alguém faça isso. Ela é uma fuga de mim mesmo. Eu preciso dela. Preciso dela, preciso dela; preciso dela? Eu preciso dela! Preciso dela, porque, preciso dela. Preciso dela. Eu. Preciso. Dela.
Ela é uma fuga. Ela é a morte. Ela é a decomposição. Ela é o apodrecimento. Ela é a putrefação. Ela é o renascimento. Ela é o crescimento. Ela é a vida.
Olho para ela. Estou aterrorizado. Ela é tudo o que quero ser. Recuo encolhido. Preciso ir até ela. Preciso me salvar. Ela olha para mim. Eu vejo a mim mesmo. Estou crescendo. Estou bonito. Olho para ela. Bactérias comem meu cérebro. Eu seria mais feliz se fosse até ela. Mofo cresce no meu coração. Preciso dar um passo à frente. Minha pele desaba dos meus músculos. Eu me sentiria melhor se levantasse. As paredes do meu estômago se rompem, o ácido delas enche meu corpo. Eu me orgulharia se dissesse alguma coisa. Larvas comem meus testículos. Preciso andar até ela. Meus músculos ficam marrons e se rompem. Preciso falar com ela. Meu cérebro escorre pelas minhas orelhas. Preciso me levantar. Meu cérebro seca no chão. Não posso fazer nada sobre isso.
Acordei em um quarto que acho que é meu. Não sei. Tudo está dolorido. Ainda consigo ouvir as fibras do meu corpo arrebentando. É o silêncio mais alto que já experimentei. Minha pele está roxa de hematomas, vejo o rastro que a mão dela deixou pelo meu corpo. As paredes estão derretendo, a tinta delas escorre por elas. Minha mesa está fugindo de mim. Minhas mãos não são minhas. Minha mente não é minha. Sempre deveria terminar assim? Eu sempre quis que terminasse assim? Agora é tarde demais. O que está feito está feito. Sei o que quero fazer.
Quero voltar para ela.


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