Até hoje eu ainda não sei se o que aconteceu naquele dia foi apenas uma coincidência, ou algo que jamais conseguirei explicar.
Há alguns anos, eu estive envolvido num caso de homicídio durante invasão domiciliar com vários dos meus colegas. A vítima era uma mulher que morava sozinha num conjunto de apartamentos. O suspeito, aparentemente, tinha planejado arrombar a porta e roubar alguma coisa. Ele a enganou para que ela abrisse a porta, mas, quando ela percebeu o que estava acontecendo e começou a gritar, ele entrou em pânico e a estrangulou. O apartamento ficou uma bagunça. As gavetas tinham sido abertas, mas o suspeito parecia estar com tanta pressa que mal levou alguma coisa antes de sair.
Meu colega Lao Xu era o responsável por fotografar a cena do crime. A vítima tinha hematomas em volta do pescoço e sinais de que havia revidado. Os olhos dela ainda estavam abertos, e a expressão no rosto dela é algo de que ainda me lembro. Mais tarde, os investigadores encontraram vestígios sob as unhas dela que sugeriam que ela havia arranhado o agressor durante a luta. Quando voltamos para a delegacia, o caso se tornou uma prioridade máxima. O chefe de polícia organizou pessoalmente reuniões para discutir possíveis pistas.
Mas a investigação rapidamente chegou a um beco sem saída. Passou-se uma semana, e ainda não tínhamos um suspeito claro. Então, certa tarde, Lao Xu me puxou de lado. "Dá uma olhada nesta foto", ele sussurrou. "Você não acha que tem algo estranho?" Naquela época, a gente usava câmeras Nikon para fotografar a cena do crime. O Lao Xu estava revisando as imagens num projetor quando notou algo incomum. Ele tinha ampliado a pupila da vítima. Havia uma forma borrada refletida dentro dela. Fiquei encarando a imagem por um longo tempo. Meu primeiro pensamento foi que aquilo parecia uma pessoa usando um boné de beisebol. Perguntei a ele: "Isso te parece um boné?" Ele olhou com cuidado. "Também acho que sim", ele disse. "Tem algo estranho nesse reflexo."
Nenhum de nós contou a mais ninguém. Talvez porque soubéssemos o quão ridículo aquilo soava. Um reflexo no olho de uma pessoa morta? Poderia ser qualquer coisa. Mas quanto mais olhávamos, mais aquilo parecia um boné de beisebol.
Mais tarde, quando voltei ao bairro para fazer entrevistas de acompanhamento, perguntei casualmente ao segurança: "Você notou alguém estranho por aqui ultimamente? Alguém usando um boné de beisebol?" O segurança pensou por um momento. Então ele disse: "Na verdade, sim. Uns dias atrás, um funcionário da manutenção veio aqui para verificar o sistema de aquecimento. O pessoal daqui raramente usa boné de beisebol, então eu me lembro dele." Senti um peso cair no meu estômago.
Na mesma hora, voltei e pedi para meus colegas investigarem o homem. Após uma investigação mais aprofundada, acabamos focando nele. No fim, ele confessou. Ele era a pessoa que tinha cometido o assassinato.
Até hoje, ainda não sei o que aconteceu com aquela fotografia. Foi apenas coincidência?
Foi simplesmente o nosso cérebro tentando encontrar um padrão num reflexo aleatório? Ou havia alguma coisa naquele momento que nos ajudou a notar uma pista que, de outra forma, teríamos perdido?
Anos depois, meus colegas e eu olhamos para aquela fotografia novamente. Algumas pessoas viram um boné de beisebol. Outras viram algo completamente diferente.
Talvez não tenha passado de uma coincidência de sorte. Ou talvez tenha sido um daqueles raros momentos em que a intuição encontra algo antes que a lógica consiga explicar.
Eu ainda não sei.


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