quinta-feira, 2 de abril de 2026

Uma Família que Escondia um Segredo Sombrio

Eu costumava viver em uma pequena cidade rural do Canadá, situada entre as florestas de Ontário. Uma das coisas que você percebe na nossa cidadezinha é que praticamente todo mundo se conhece. Do vizinho da casa ao lado até o cara que faz os melhores cookies do outro lado da rua. Isso também significa que tudo o que é digno de nota, ou até mesmo completamente insano, acaba sendo conhecido por todos — do fofoqueiro até o filho de alguém, que provavelmente ouviu a história dos próprios pais. Na maior parte do tempo, era a fofoca de sempre que as pessoas me contavam, aquelas que ou me faziam ficar na ponta da cadeira, ou me faziam revirar os olhos com o absurdo da história.

Mas então havia essa história da qual eu ainda me lembro, e que toda vez que ouço falar dela me arrepia a espinha. Para dar um pouco de contexto, ao norte da cidade há um corpo raso de água conhecido por todos como a “Ridgerock Lagoon”. É uma extensão de água bem grande, tanto que contorná-la leva quase uma hora até conseguirmos chegar ao outro lado. Do outro lado da lagoa há um punhado de casas de fazenda, também conhecidas pelos moradores, já que o pessoal vai até lá para comprar mercadorias ou vender seu estoque antes de irem para a feira dos produtores.

A própria Ridgerock Lagoon não tem nada realmente interessante além de ser o lugar onde as pessoas pescam ou talvez nadem. Muitos dos mais velhos da nossa cidade nos contavam histórias sobre o que costumava acontecer naquele lugar. Meu avô me contava histórias quando eu era criança sobre essa lagoa. Ele dizia que aquele era o lugar onde muitas das pessoas antigas da cidade simplesmente pereciam voluntariamente, ou até desapareciam completamente da face da Terra por razões inexplicáveis. Ele também me disse que havia uma criatura rondando aquelas áreas durante a noite. Chegou até a me dizer que existia uma casa de fazenda naquela região em que toda a família simplesmente sumiu da face da Terra, nunca mais sendo vista.

Agora, as histórias que meu avô me contava eram ou apenas fofocas que viraram folclore e lenda local, ou puro absurdo. Mas a história daquela casa, no entanto, me intrigava. Eu sempre quis saber o que realmente aconteceu, embora nunca tenha recebido resposta, porque meu avô insistia que eu não deveria descobrir exatamente o que aconteceu naquele lugar. A única coisa que ele me contou foi que a família morou lá há muito tempo, depois fez alguma coisa, e isso levou ao desaparecimento deles. Isso, porém, mudou quando meu amigo Josh me contou a história completa durante nosso encontro de fim de semana nas margens da lagoa.

A história basicamente é mais ou menos assim. Havia uma casa de fazenda ao norte da lagoa chamada “Labileau Estate”. Era a casa da família Labileau, uma família de soldados confederados ferrenhos na Virgínia, que acabou se exilando perto do fim da Guerra Civil Americana, depois que a União ordenou que os confederados se rendessem. A família saiu correndo para o norte, até chegar aqui na nossa pequena cidade em Ontário, onde decidiu se tornar uma família de fazendeiros que servia à comunidade por volta de 1865. Na época, as pessoas não sabiam dessa história da família até começarem a perguntar sobre sua origem, o que revelou seu passado.

Na época em que viveram ali, o povo meio que recebeu os confederados com desconfiança, porque achavam que eles estavam trazendo para o Canadá os ideais do sul dos Estados Unidos, ou pensavam que eles iam arrumar confusão por estarem do lado dos belicistas, como se dizia. Mas, com o tempo, começaram a simpatizar mais com eles, já que muita gente os via mais como um povo deslocado de casa por causa da guerra do que como um bando de escravistas — embora, claro, existam também verdadeiros apoiadores confederados que se exilaram no Canadá, mas isso é outra história completamente diferente.

Certa noite, porém, em 1872, os moradores da minha cidade viram a família sair da casa por algum motivo desconhecido e nunca mais voltar. No começo, parecia algo bem simples; talvez estivessem se mudando da casa e deixando a cidade para sempre. Mas, dias depois do desaparecimento repentino deles, a casa foi queimada até virar cinzas, deixando não só a própria construção em carvão queimado, mas até o ambiente ao redor também carbonizado. Basicamente, essa é a história da família Labileau, embora as circunstâncias antes da destruição da casa tenham sido, para dizer o mínimo, bem estranhas.

Josh então me contou outra parte da história envolvendo isso. Durante a noite de agosto, os moradores da cidade ouviram do chefe da vila que a família estava realizando algum tipo de atividade que muitos não conseguiram ver direito. O chefe, claro, encarregou os vigias de visitar a família, checar como estavam e ver o que estavam fazendo. Aqueles caras, de fato, não voltaram para dar notícia. O chefe ficou imediatamente preocupado de que os vigias que enviou até lá estivessem em sérios apuros e logo começou a chamar alguns homens e partiu em direção à casa.

Só que a jornada dele foi abruptamente interrompida, porque, antes de o chefe sair da cidade, ele viu um dos seus vigias, que estava desaparecido, finalmente retornar, embora sua condição física não estivesse exatamente nada boa. Havia ferimentos por todo o rosto, pelos braços e até pelo corpo. O vigia implorou ao chefe que eles não fossem até a casa. Ele afirmou que a casa estava “amaldiçoada” e que o resto dos colegas havia sido morto durante a entrada inicial. Ele também disse que a família não era o que parecia ser e que jamais deveriam se aproximar da casa.

O chefe ouviu o vigia e cancelou a visita, mas não antes de contratar um investigador privado para ver se ele conseguiria entrar em contato com a família. Ele atravessou a lagoa e acabou encontrando o caminho até a casa da família. No fim, porém, o investigador nem sequer teve chance de conversar com os moradores da casa, pois ficou chocado quando chegou lá e tudo o que encontrou foi a casa queimada até virar cinzas — mas como?

Quando o investigador contou ao chefe que a casa não passava de carvão de madeira queimado, com a única característica reconhecível sendo a estrutura e a fundação, ele ficou completamente perplexo. Os moradores da cidade nunca viram fogo algum; se é que viram alguma coisa, viram aquela casa perfeitamente em pé dias antes, quando os vigias a visitaram pela primeira vez e também quando ela foi observada de um ponto de vigia em uma colina, um pouco fora da cidade. As árvores próximas também nunca pegaram fogo, porque isso teria se espalhado e os moradores acabariam sabendo que um incêndio florestal estava prestes a acontecer. A ideia de uma casa ter sido incendiada sem sequer causar danos extensos era estranha, para dizer o mínimo, quase beirando o sobrenatural. No fim, o chefe ficou apenas sem entender nada e, a essa altura, decidiu que o que quer que estivesse acontecendo no casarão estava definitivamente longe do normal, e disse aos moradores que jamais colocassem os pés naquele lugar de novo.

Claro, quando eu era criança e ouvi essa história do meu avô e depois do Josh, achei que era a história mais assombrosa que eu já tinha ouvido na vida, talvez a coisa mais insana que eu tivesse escutado em muito tempo. A ideia de que uma família inteira desapareceu e a casa deles foi incendiada sem que ninguém soubesse, e sem danificar a área ao redor, era algo que me fascinava desde então. Eu sempre quis ver aquele lugar e descobrir se a casa ainda estava de pé. Meu avô se opunha à ideia, porque a área ao redor daquele lugar hoje em dia é tomada por vegetação densa e, durante o inverno, fica praticamente enterrada na neve. Ele também me disse que o lugar é amaldiçoado. Ou seja, em essência, eu jamais iria até lá sozinho — mas eu fui.

Um dia, durante o verão, eu perguntei ao Josh se a gente não deveria fazer uma visita a esse suposto local assombrado do outro lado da lagoa. Josh, claro, descartou a ideia de imediato. Ele me disse que visitar aquela casa seria uma perda de tempo, já que ela foi queimada, então não haveria nada realmente para explorarmos ali além de carvão queimado cobrindo o lugar, ou talvez apenas um grande terreno aberto, cheio de vegetação no lugar do casarão. Insisti que deveríamos ir verificar mesmo assim, porque argumentei que talvez pudéssemos ver fantasmas ou algo do tipo naquela casa. Josh concordou relutantemente depois que mencionei a possibilidade de vermos fantasmas, já que ele estava mais interessado nisso.

Durante uma tarde nublada, começamos nossa jornada até aquela casa. A estrada que leva até lá ainda é uma estrada de terra que atravessa a área de mata fechada onde moramos. Ela também contorna a Ridgerock Lagoon, acompanhando o grande corpo d’água como ponto de interesse para moradores e trilheiros que seguem pela floresta, mais ao norte da cidade. A estrada continuou até que nos vimos em uma parte da mata que era completamente desconhecida para nós.

A estrada começou a ficar cada vez mais fechada pela vegetação. O caminho por onde andávamos estava se transformando cada vez mais em uma passagem estreita, com tantos sulcos e buracos que mal conseguíamos andar em linha reta. A vida selvagem, como cervos, pequenos animais e pássaros, eram as únicas coisas que ouvíamos durante a nossa jornada, lá no fundo da mata. Dito isso, esse é o tipo de lugar onde você pode se perder rapidamente no instante em que sai da trilha.

Continuamos a jornada até finalmente vermos cercas baixas de madeira, sinalizando que estávamos perto da propriedade da casa que eu queria visitar. Pulamos a cerca e começamos a seguir em direção ao coração da propriedade, o que fizemos… E a casa está aqui?

No momento em que vimos a casa pessoalmente, ela estava completamente intacta. A casa que as pessoas diziam ter sido queimada até o chão ainda estava ali, erguida no meio da floresta, com a lagoa aparecendo entre as árvores ao fundo. Era como se nada tivesse acontecido durante todo o tempo em que estivemos ali.

A casa em questão é uma construção de dois andares, com a fachada frontal branca. Tem uma varanda bastante modesta, com apenas uma cadeira e uma mesa ao lado da porta. As janelas da frente pareciam completamente intactas, sem vidro quebrado ou mesmo um buraco aberto. A própria porta da frente parecia estar em estado impecável, quase como se alguém tivesse morado ali o tempo todo.

O fato de essa casa ainda estar ali, completamente intacta, não fazia sentido algum. Como podiam dizer naquela época que a casa tinha sido queimada até o chão, e no entanto ela está aqui, ainda de pé, como se nada tivesse acontecido? Como podiam me dizer que a casa estava completamente abandonada, mas ela ainda está ali em condições impecáveis?

Naquele ponto, Josh, com a mão no meu braço, me disse que devíamos ir embora, ou então acabaríamos irritando as pessoas que estavam ali dentro. Argumentei que não podia haver ninguém naquela casa, já que o lugar parecia silencioso, e disse a ele que deveria haver pessoas do lado de fora. Josh insistiu que devíamos ir embora e ainda me avisou que me deixaria ali na floresta. Claro, achei bem idiota ele dizer que voltaria sozinho para a cidade, e ainda por cima pela mata, e mandei ele ficar por perto. Josh acabou concordando e decidiu ficar relutantemente.

Resolvemos nos aproximar devagar da porta e verificar se havia alguém na casa. Começamos batendo na porta da frente; com certeza havia alguém ali dentro que poderia responder a uma simples batida… Nenhuma resposta. Bati mais uma vez e, de novo, ninguém respondeu às minhas batidas. Então decidimos espiar pela janela e ver se havia alguém dentro da casa — não vimos ninguém lá dentro, além de luz entrando por outra janela, visível do outro lado da casa. Voltei até a porta da frente e, dessa vez, girei a maçaneta para ver se estava trancada. Para nossa surpresa, estava destrancada, porque a maçaneta girou por completo e a porta começou a se abrir lentamente, como se houvesse algo nos esperando lá dentro.

À medida que a porta se abria devagar, começamos a espiar do lado de fora e, por fim, entramos na casa. Vimos um corredor bem iluminado e uma escada de frente para a porta de entrada da casa. Logo à frente havia uma janela aberta com luz do sol atravessando, iluminando o corredor escuro da casa. Na área imediata da casa havia 2 cômodos: uma sala de estar e uma cozinha com mesa de jantar.

Começamos a andar pela sala de estar. Nesse espaço grande havia um sofá e uma mesa. Do outro lado havia uma lareira completamente apagada. Na extremidade mais distante da sala havia um armário, e em cima dele estava algum tipo de banner. O banner era roxo, pendurado acima da lareira. Dentro dele havia um círculo preto cercado por um anel dourado. Eu nunca tinha visto esse símbolo antes; na verdade, nunca tinha ouvido falar de nada que se parecesse com aquele banner também. Josh supôs que fosse algum tipo de logotipo que só americanos conheciam ou algo assim, mas quem sabe.

Josh começou a vasculhar os armários e verificar o que havia lá dentro. A maior parte do que estava ali era lixo, nada que servisse para qualquer coisa. Mas então encontramos um tipo de diário; o livro, porém, já estava coberto de poeira e as páginas começavam a mostrar a idade que tinham. Josh abriu o diário e começou a ler as páginas uma por uma.

“Quem é Mãe?”, Josh se perguntou.

“Não sei, cara. Talvez seja a avó de alguém, ou a mãe de alguém, ou algo assim”, eu disse ao Josh.

Josh virou as páginas do diário e continuou lendo.

“Essa pessoa com certeza fala muito dela, eu diria”, brincou Josh.

Olhei de relance para o diário desse cara e ele estava certo. Nas primeiras 20 páginas do diário, esse homem mencionava essa “Mãe” pelo menos 2 ou 3 vezes em uma única página. Nós realmente lemos o que estava escrito e me lembro de como ele falava sobre adorar essa Mãe e de como, no mês de agosto, começaria algo chamado ritual da “Nightfall”.

“Esse cara é maluco”, disparou Josh.

“Eu sei, o que diabos esse sujeito está falando?”, brinquei.

No fim, ler aquilo naquele momento não seria suficiente para absorver tudo naquele diário. Decidimos ficar com o diário porque achamos que ninguém ia tocar naquela coisa de qualquer jeito e, se o dono voltasse, bem, azar o dele por deixar a porta destrancada quando saiu.

Seguimos então para a cozinha. Não havia nada de notável naquele lugar, além de a cozinha estar tão impecável quanto o resto da casa. A bancada estava praticamente intocada desde a partida dos donos, pelo visto. A mesa de jantar também estava vazia, exceto por um único vaso de rosas colocado no centro da mesa, e elas pareciam não estar ali havia muito tempo. Era uma cozinha comum, dessas que você veria em qualquer casa.

Voltamos para o corredor e seguimos em direção à porta dos fundos da casa. Atrás do vidro que levava diretamente a uma varanda havia o quintal da casa. Esse certamente estava intocado há sabe-se lá quanto tempo, porque a grama no quintal estava quase na altura dos joelhos e completamente sem aparar há sabe Deus quanto tempo. Considerando o inverno aqui no Canadá, presumimos que isso significava que a neve ali estava completamente acumulada e que, quando o verão chegasse, a grama ficaria tão alta quanto nossos joelhos.

Então voltamos nossa atenção para a escada que levava aos andares superiores da casa. Josh, mais uma vez, insistiu que devíamos ir embora porque disse que a casa estava lhe dando arrepio. No entanto, minha curiosidade estava no auge, e minha ignorância estava falando mais alto. Insisti que deveríamos continuar explorando a casa, mas prometi que iríamos embora assim que víssemos tudo o que aquele lugar tinha a oferecer. Josh só soltou um resmungo irritado, e continuamos.

Por fim, começamos a subir e alcançamos o segundo andar do lugar. A partir do topo da escada, encontramos 4 cômodos, todos com as portas escancaradas para podermos ver do corredor. O cômodo mais próximo de nós, à direita, levava ao pequeno banheiro, que continha o banheiro comum, a pia e uma combinação de chuveiro e banheira. As cortinas que cobriam o chuveiro, no entanto, estavam caídas no chão, revelando marcas estranhas e pretas correndo diretamente pela parede azulejada do cômodo.

À nossa frente havia um pequeno quarto, contendo apenas 2 colchões pequenos deitados no chão. Ao lado deles havia uma pequena cômoda e, por fim, um pequeno armário ficava do outro lado do cômodo. Os outros 2 quartos eram basicamente a mesma coisa, embora a diferença estivesse no tamanho dos cômodos e no que havia dentro deles. A maioria dos quartos menores não tinha nada de interessante.

O que talvez seja o cômodo mais notável dessa casa é o terceiro quarto, o quarto principal. Embora o cômodo estivesse cheio das comodidades habituais, algo chamou nossa atenção durante a exploração. Do outro lado do quarto havia o que parecia ser um grande banner pendurado acima da cama e, no chão logo abaixo dele, havia um símbolo que lembrava um pequeno T estilizado, e ao lado dele havia textos escritos em uma língua desconhecida. Ao lado disso havia uma pequena sacola cheia de uma substância desconhecida que eu jamais tocaria, e um crânio — sim, um crânio de verdade — embora esse estivesse bem impecável, quase como se tivesse sido lavado recentemente. A maior parte dos móveis estava afastada para que houvesse espaço para qualquer coisa que fosse aquilo.

Ficamos os dois confusos ao ver tudo aquilo no chão. Os dois perguntamos qual exatamente era o propósito daquele sigilo no chão. Josh, a princípio, pensou que fosse algum tipo de ritual demoníaco acontecendo ali, julgando pela parafernália espalhada. Eu descartei a ideia porque nunca tinha visto um símbolo demoníaco que se parecesse com aquilo, e eles certamente usavam pentagramas muito mais do que sigilos. Então ele supôs que aquilo fosse algum tipo de ritual que fazia parte de um ritual maior. Eu também levantei essa possibilidade. Talvez fosse um ritual que provavelmente estivesse conectado a um maior, embora a aparente incompletude e o quarto impecável me dissessem que eles nunca chegaram a fazer nada, ou talvez aquilo tivesse sido interrompido, assim como as portas deixadas escancaradas.

“O que você acha que é isso?”, perguntou Josh.

“Não faço ideia. Talvez fosse algum tipo de etapa, ou algo assim?”, sugeri.

Continuamos andando por esse quarto principal. Percebemos que o armário à esquerda da cama estava vazio, exceto por uma peça de roupa — um robe de casa. Decidi investigar um pouco mais aquele armário e verificar cada canto e fresta da coisa — nada. Josh, por sua vez, resolveu vasculhar os armários. Ele encontrou algumas fotos, mostrando principalmente a imagem da família. Uma das fotos parecia trazer uma caligrafia, indicando a data da imagem: 1832.

“Com que idade você acha que esses caras estavam quando chegaram aqui?”, perguntou Josh.

“Talvez na idade dos nossos pais, ou algo assim”, respondi.

“Isso quer dizer que eles deveriam estar, tipo, na idade de avô naquela época quando chegaram aqui”, afirmou Josh.

Olhei de novo para a imagem e imediatamente percebi algo em que nunca tinha pensado antes — eu não fazia ideia de quantos anos esses caras tinham. A imagem tinha aquelas datas escritas, e a família se mudou exatos 30 anos depois. A menos que a família que vimos fosse os filhos dessas pessoas, então talvez fossem eles, mas a maioria das fotos que vimos até agora retratava esse homem e essa mulher como as pessoas daquele lugar. A essa altura, minha cabeça doía só de pensar nas implicações disso.

Decidimos seguir em frente a partir desse quarto e, finalmente, começamos a ir até a porta final que levava ao sótão da casa. O cômodo dá para uma escada íngreme que começou lentamente a ser coberta pela escuridão à medida que subia. Caminhamos em direção à escada e vimos que ela levava a uma porta fechada, sem nenhuma luz passando por trás dela. Josh, pela terceira vez, insistiu que devíamos sair da casa de uma vez por todas. Mais uma vez, eu disse que deveríamos verificar esse último cômodo antes de irmos embora — mas então ouvimos um barulho.

Um baque fraco veio de trás da porta do sótão. Ficamos em silêncio enquanto ouvíamos o que estava fazendo aquele som. O ruído começou a se afastar da porta e agora estava parado em cima de nós. Isso aconteceu por um breve momento antes de o barulho seguir para o outro lado do cômodo, terminando acima do quarto principal.

“Temos que ir”, insistiu Josh.

Parece que a voz de Josh fez quem quer que estivesse lá em cima voltar correndo para a porta fechada do sótão, produzindo passos rápidos no caminho. A porta então começou a girar lentamente. Aí foi a hora em que deveríamos sair da casa.

Começamos a correr de volta para o térreo e seguimos direto para a porta. Pulamos para fora da casa e começamos a fugir de volta por onde viemos. O que antes era uma floresta silenciosa agora estava ainda mais silenciosa, a ponto de podermos ouvir nossa própria respiração com muito mais clareza do que esperávamos. O som de passos agora estava diretamente atrás de nós. Conseguíamos ouvir aquilo aparentemente se aproximando cada vez mais à medida que continuávamos a correr.

Eu não queria olhar para trás, não queria saber quem ou o que estava nos perseguindo pela mata. Josh, porém, olhou para trás e seus olhos se arregalaram ainda mais ao ver o que vinha atrás de nós.

“NÃO PARA DE CORRER!”, gritou Josh para mim, em tom desesperado.

A adrenalina no nosso corpo nos manteve correndo, contornando a lagoa em tempo recorde até finalmente alcançarmos a vila. Antes que percebêssemos, os passos atrás de nós finalmente cessaram pouco antes de chegarmos à primeira casa que vimos na vila. Foi naquele momento que finalmente paramos de correr. Josh literalmente desabou no chão de terra, ofegando o máximo que podia.

“O que diabos foi aquilo?”, perguntou Josh, me olhando com o medo estampado nos olhos.

“Não sei. Eu não vi”, respondi.

“Era como uma mancha se movendo na nossa direção. Eu nem sei no que estou olhando”, ele disse.

Antes mesmo que eu pudesse fazer outra pergunta, um dos moradores — um cara chamado Ritchie, dono de uma pequena padaria na cidade — nos viu e começou a correr em nossa direção.

“O que aconteceu com vocês?”, perguntou Ritchie para mim.

Dissemos a Ritchie, de início, que estávamos fazendo uma caminhada na mata com Josh. No entanto, Ritchie percebeu que estávamos com medo de alguma coisa, como se tivéssemos visto um fantasma no meio da floresta.

“Vocês foram até aquele lugar?”, ele perguntou de forma conspiratória.

“Que lugar?”, Josh gaguejou, fingindo inocência.

“Você sabe do que eu estou falando”, retrucou Ritchie.

Ficamos em silêncio. Deveríamos admitir que visitamos a casa sozinhos? Deveríamos contar o que vimos lá? Ou deveríamos continuar fingindo que não existe absolutamente nada naquela mata? De qualquer forma, encontramos algo que não deveríamos jamais ter perturbado lá, e eu e Josh decidimos que aquela era a melhor decisão… ficar em silêncio.

Ritchie já sabia a resposta pelo nosso silêncio. Como muitos moradores da cidade, ele sabia que havia algo errado com aquele lugar. Talvez algumas das pessoas daqui até tenham ido lá uma vez para verificar se aquilo realmente tinha acontecido. Imagino que algumas tenham ido e decidido guardar isso para si, ficando em silêncio sobre toda a história.

Mas nós decidimos que queríamos saber o que estava acontecendo naquela casa e também responder às perguntas que vinham atormentando nossas mentes desde que chegamos lá. O que quer que estivesse naquele lugar tinha algum tipo de explicação que poderia, de fato, ser respondida objetivamente. Josh conseguiu ficar com o diário que encontramos na casa. Durante nosso tempo livre, começamos a ler o que havia no diário, e o que encontramos foi bem perturbador.

Josh conseguiu chegar às primeiras páginas do diário. As primeiras páginas são bem mundanas, nada que gritasse que eles estavam fazendo algo errado. Só nas páginas seguintes é que conseguimos ver o que estava se desenrolando diante dos nossos olhos.

Na 20ª página do diário é onde tudo começa a ficar mais esotérico ou, como Josh disse: “Parece que esses caras estão virando lunáticos ainda piores”. Nessas páginas havia uma combinação de símbolos que vimos pela casa, os mesmos textos estranhos que não conseguíamos ler de jeito nenhum, mas também vimos símbolos que eu desconhecia completamente. O motivo do círculo preto com anel dourado ainda estava ali, mas, ao mesmo tempo, havia esse símbolo de algum tipo de tridente, só que os pontos eram incrivelmente elaborados; na verdade, elaborados demais para alguém simplesmente desenhar aquilo numa folha de papel, a menos que fosse algum tipo de carimbo. Depois, o texto estava em uma língua que eu mal conseguia ler.

As páginas seguintes estavam cheias de registros, embora esses registros fossem principalmente formados por palavras-código como “Wood”, “Chosen”, “Winter”. Sinceramente, não faço ideia de como isso se conecta a qualquer coisa, além de talvez serem os nomes pelos quais esses caras chamam alguém ou alguma coisa.

Continuamos vasculhando o diário. Encontramos fotos presas ao papel fino dele. As imagens retratavam principalmente uma família e pessoas ocasionais sem nome espalhadas pela primeira página. Uma em particular era única, pois mostrava a imagem de uma família vestindo o que, para mim, pareciam robes. Esses robes, em especial, não se pareciam em nada com os robes que já vi antes. Eles tinham costuras, tramas e detalhes realmente elaborados, e até pareciam ter partes recortadas para revelar pequenos pedaços de pele.

“Essa deve ser a roupa que eles usam”, disse Josh.

Continuamos avançando por todas as páginas do diário e vimos mais umas 20 páginas ou algo assim praticamente só de texto, texto que eu nem finjo entender. O texto vinha novamente acompanhado por um monte de símbolos que eram praticamente consistentes com o que vi naquele lugar. Então a página em que vi esse marcador preto na lateral foi interessante, e essa é melhor descrita pelo Josh.

“Uau, olha essa aqui. Isso parece um grupo ou alguma coisa. É quase como se os Labileau tivessem algo com eles ou sei lá”, disse ele.

Ele estava certo. A imagem naquela página marcada é uma grande fotografia que ocupa a página inteira, e mostra um grupo de pessoas posando para uma espécie de comemoração. Da esquerda para a direita, todos usam os mesmos robes dos Labileau; aqueles caras que vimos estavam parados no centro da frente da imagem, então não há como confundir a presença dos Labileau.

O restante das páginas está vazio, o que nos diz que eles de fato não catalogaram nada depois disso, embora, na última página, houvesse um bloco inteiro de texto ocupando a página inteira. Desta vez, porém, escreveram tudo em inglês… e parecia ter sido escrito com caneta, e não com tinta e pena, como os antigos usavam, já que era tinta azul.

“Está feito, minha senhora. Sua vontade agora faz parte da mensagem dos recém-chegados. O mundo logo tremerá com a força combinada dos seus filhos. Eu gerei 5 filhos para então serem levados a diferentes locais dos quais temos conhecimento. Lá, nossos filhos estarão para construir para você um templo muito maior, e muito mais grandioso, do que aquele que construímos em New England. Obrigado por me escolher.”

Abaixo disso havia outro logotipo do culto que eles adoravam e, por fim, um título: “Igreja de Avon”.

O que quer que eu tenha acabado de ler ali, isso era apenas o começo do que os Labileau estavam construindo naquele lugar.

Meu trabalho me deu uma lista de regras para seguir

O trabalho é em um prédio imenso em um canto esquecido do mundo. Ao longo do último século, o prédio foi usado como fábrica, orfanato, ala psiquiátrica e até prisão. Toda vez, coisas cada vez mais horríveis aconteciam às pessoas dentro do prédio, e o dono da terra desistiu de tentar reaproveitá-lo.

No entanto, a área ao redor do terreno se desenvolveu rapidamente, e o custo de oportunidade de deixar o terreno como estava se tornou alto demais. Assim, fui contratado para avaliar e reformar o prédio. Na primeira noite, depois que aceitei a proposta de trabalho e assinei a renúncia, entrei e peguei a prancheta com uma lista de regras que eu deveria seguir se quisesse continuar vivo.

Você sabe como isso funciona:

Regra Um: Ninguém com quem você estiver interagindo é um ser vivo.

Regra Dois: Quando alguém ligar e pedir por “Fred”, você deve convencê-lo de que Fred não está aqui. Você pode dizer qualquer coisa, mas nunca deve desligar. Você estará seguro quando o chamador desligar.

Regra Três: Lembre ao homem do incenso que o necrotério fica no porão, mas não o mostre o caminho, por mais que ele insista.

Regra Quatro: Se você ouvir uma caixinha de música começar a tocar, você deve localizar e fechar a caixa antes que a música termine.

Regra Cinco: Se uma janela se abrir sozinha, jogue sal pela janela e espere até que as mãos soltem antes de fechá-la. Depois, devolva a cadeira de rodas ao lugar original.

Regra Seis: Quando você os vir, conduza os gêmeos até a sala de experimentação e diga a eles que o doutor sabe o que faz. Sorria de volta. Coloque os protetores de ouvido antes que os gritos comecem.

Regra Oito: Nunca, jamais fale ou escreva o número da regra que está faltando.

Regra Nove: Todas as noites, às 21:00, misture veneno de rato com uma tigela de ração para cachorro e deixe para Fluffy. Se Fluffy terminar a tigela inteira até meia-noite, abandone o local imediatamente.

Regra Dez: Se sentir cheiro de fumaça, corra até o telhado e se esconda atrás do reservatório de água até começar a chover. Não há outro lugar seguro, e não fale com Martin.

Regra Onze: Não olhe nos olhos dela.

Embora meu trabalho fosse diferente, já tinham havido empreiteiros que trabalharam nesse prédio porque havia geradores no porão que precisavam ser monitorados e mantidos. As regras tinham sido passadas de um empreiteiro para o seguinte, mas eu provavelmente era a única pessoa que riu depois de lê-las.

Sim, eu ri.

Regras, afinal, são feitas por pessoas que sabem quase nada, para pessoas que sabem ainda menos.

Digamos que você conseguisse esse trabalho em vez de mim. Você enfia no bolso o adiantamento generoso e lê as regras. Toda vez que o telefone toca, você quebra a cabeça pensando nas mentiras mais convincentes sobre onde Fred poderia estar — ele está de licença, está com um cliente, está em Timbuktu com a amante — e às vezes você até grita até o chamador desligar.

Mas você vai perguntar por que isso supostamente deveria protegê-lo?

Eu posso te dizer.

No início dos anos 1930, Fred era uma sensação. Ele tinha liderado uma inovação que fez a fábrica situada bem aqui gerar quantias imensas de dinheiro e deu trabalho a centenas de mulheres. Seus produtos eram simplesmente divinos, como se viessem da próxima era. Todo mundo queria pelo menos um dos seus relógios elegantes com tinta fotoluminescente.

Quando as mulheres começaram a cair mortas por envenenamento por radiação, todo mundo também quis respostas.

Preciso lembrar que Fred não está mais vivo, que seus chamadores não estão entre os vivos e que agora você é quem está atrás da mesa dele? Quanto ao motivo de ligarem, é porque os tipos mais fracos de fantasmas precisam de orientação e de um convite.

Deixe-me me apresentar. Do jeito certo, desta vez. Estou aqui para um trabalho, mas meu trabalho não é seguir regras idiotas feitas por humanos ignorantes tentando tratar os sintomas de uma infestação sobrenatural enquanto sobrevivem para pagar as contas. Meu trabalho é limpar a fábrica e exorcizar todos os fantasmas para que meu chefe possa usar este terreno outra vez.

Avaliar e reformar, como eu disse.

Comecei pela tarefa mais fácil, montando uma armadilha para quaisquer fantasmas que vagassem por ali procurando Fred. Levei quase meia hora para preparar tudo, mas eu sabia que qualquer fantasma que precisasse de um convite seria fraco e fácil de capturar. Depois que terminei minha preparação, criei uma nova caixa postal de voz: “Sim, Fred está aqui. Terceira sala no segundo andar. Por favor, venha assim que puder.”

Então peguei uma mala, desci até uma sala de aula abandonada e falei a palavra proibida. “Sete.”

Ela emergiu de trás de algumas caixas, arrastando-se pelo chão. As pernas estavam esticadas para trás em um ângulo anormal, como as de um anfíbio morto. Os olhos eram dois pequenos buracos negros, e ela estava sem alguns dedos.

“Você quer brincar comigo?” A voz dela era suave, mal audível por causa da lã preta puxada por dentro da boca. A cabeça, coroada por uma bagunça de cabelos ruivos embaraçados, tombava de um lado para o outro, e ela se arrastava lentamente na minha direção.

Abri a mala.

“Você quer brincar comigo?” Ela gritou para mim, com uma raiva que só uma criança poderia ter. De repente, estava bem ao meu lado. Com um súbito surto de força, ela estendeu a mão para mim. “Você quer brincar comigo?”

Deixei que ela sentisse minha mão. Sua presença era úmida e fria, como se ela tivesse dado o último suspiro numa poça d’água. “Eu adoraria, mas não posso brincar com você, Sete. Me desculpe.”

A lã preta que puxava os lábios dela juntos começou a se desfazer enquanto seu cenho fechado se abria em um sorriso. Antes que a boca dela se deformasse em algo terrível, acrescentei: “Ele pode, porém.”

Sete recuou a mão. Crianças, mesmo mortas, são criaturas curiosas. São fáceis de distrair e confiantes a ponto de parecerem ingênuas. Ela pegou meu presente e arfou.

O corpinho dela irradiou alegria enquanto ela passava as mãos sobre o presente que eu tinha trazido. A luz voltou aos pequenos buracos negros que formavam seus olhos, e ela riu baixinho, feliz. Sorri enquanto ela lia o nome na coleira. Ela abraçou o presente.

Inclinei-me e sussurrei: “Você gostaria de ir embora com Biscuit para que ele possa brincar com você para sempre?”

Biscuit era um animal de estimação muito amado, cujo corpo morto ainda irradiava calor espiritual. A dona dele o levou para cremar, mas não conseguiu resistir a entregá-lo quando eu ofereci transmitir palavras da avó morta dela em troca.

Sete assentiu, os olhos cheios de lágrimas, e sua presença começou a se dissipar. “Você é tão legal. Ninguém… ninguém nunca brincou comigo… Ninguém nunca foi legal comigo antes…”

Mas esta não é uma história sobre como eu quebrei facilmente todas as regras do prédio e saí ileso.

Eu sabia, quando desci o mesmo lance de escadas vinte vezes, que o último espírito no prédio era poderoso. Poderoso o suficiente para manipular o mundo dos vivos sem precisar de convite. Poderoso o bastante para permanecer e assombrar este lugar por séculos. Poderoso o suficiente para matar e prender as centenas de pessoas que vieram parar aqui.

Pela primeira vez na vida, senti-me compelido a seguir uma regra. Regra Onze: Não olhe nos olhos dela.

Mas eu não posso. Não posso não olhar nos olhos dela porque minha visão para coisas mortas não funciona da mesma forma que a sua visão. Mesmo com as pálpebras firmemente fechadas sobre os olhos, eu estava olhando diretamente nos olhos dela.

Um frio me invadiu, e eu soube que ela estava me testando. Com que facilidade ela conseguiria fazer meu corpo tremer?

Ela não conseguiu.

Um espírito não pode tirar nada de um humano que não consente, porque as regras da vida são mais fortes que as regras da morte, mas um espírito pode manipular você até que você abra mão dessa vantagem. Os espíritos mais fortes muitas vezes sabiam manipular você até fazer você pensar que morrer era a melhor escolha que já poderia fazer na vida.

Ela murmurou: “Sua vida.”

“—não pertence a você para tomar”, declarei.

“Você está vivendo de tempo emprestado”, ela sussurrou. “Eu sei o que você fez naquele verão…”

Ela sussurrou ameaças, uma invasão auditiva de gritos e uivos. Unhas cravaram-se na lateral do meu rosto enquanto ela despejava meus segredos mais obscuros e ria de todas as minhas inseguranças. Ela estava ali muito antes de eu sequer nascer. Ela tinha levado muitos homens e mulheres muito mais fortes do que eu.

Ela me lembrou que eu havia causado a morte de todos que eu amava.

Ela me lembrou que eu estava destinado a sofrer sozinho até passar minha maldição para um protegido disposto.

Com calma, eu disse: “Sabemos onde está seu corpo.”

Os espíritos mais poderosos geralmente derivavam seu poder de onde seu corpo havia sido enterrado. Não posso explicar as regras, mas, se eu movesse o corpo dela ou manipulasse o ambiente do corpo dela, ela poderia se ver presa em tormento para sempre.

Ela não podia tirar nada de mim a menos que eu desse permissão, mas eu podia sentir o desejo dela. A existência dela, mesmo agora, a torturava. Ela queria ser libertada, mas não queria desistir. O que quer que tivesse acontecido em vida, ela morreu com tanta raiva, tristeza e arrependimento que foi capaz de sustentar sua existência por séculos.

Ela era a verdadeira fonte de todas as coisas horríveis que aconteciam no prédio, desde quando o terreno era apenas um cemitério.

“Eu tenho uma eternidade”, ela disse. Como eu já havia entrado na armadilha dela, ela podia me manter preso na escadaria sem fim enquanto me impedia de manipular o corpo dela. Meu corpo mortal vai perecer. “E você?”

Sorri. “Tem certeza disso?”

Veja bem, eu não entro simplesmente em prédios assombrados porque posso. Eu conhecia dezenas de maneiras de repelir fantasmas, de alcançar o mundo espiritual e despedaçá-los. Entoei um dos feitiços mais poderosos que conheço. O frio recuou. A presença dela se tornou menos opressiva.

Então, um por um, minhas unhas começaram a cair.

Eu me calei. A presença dela se aguçou outra vez. Um espírito normalmente não pode tirar nada nem ferir um médium que não consente, mas, quando comecei meu cântico, eu havia estabelecido voluntariamente uma conexão com ela.

Em minhas décadas dançando com o sobrenatural, eu nunca tinha encontrado um espírito forte o bastante para resistir a um exorcismo e me atacar ao mesmo tempo. Eu já tinha visto muitos ataques contra humanos que davam permissão sem perceber — havia infinitas maneiras de convidar a energia amaldiçoada para dentro —, mas eu fui treinado para resistir.

Olhei para meus dedos ensanguentados, endireitei os ombros, sentei no chão e disse: “Uma eternidade, você diz. Então, como foi o seu dia?”

Minha atitude a pegou de surpresa. Ela tinha uma eternidade, sim, mas nós dois sabíamos que o tempo não tinha valor para ela. Eu era a última esperança do dono da terra. Se eu não conseguisse exorcizar o terreno dele, o lugar simplesmente seria selado. Eu já tinha mandado embora as centenas de almas que ela acumulou ao longo dos séculos.

A eternidade dela se tornaria ainda mais condenada.

A presença dela se agitou, como se estivesse se acomodando. Nós simplesmente existíamos no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Minha alma já estava amaldiçoada — ela não poderia me prender aqui nem se me matasse aqui. Ela simplesmente ficaria sozinha e, considerando quantas vítimas reuniu nos últimos séculos, ela tinha pavor de ficar sozinha.

Ela respondeu: “Quero que você ouça a minha história.”

Então ela queria validação e uma testemunha que acreditasse nela enquanto ela contava as formas horríveis como a vida dela se desenrolou antes de chegar ao fim. Uma pessoa morre pela segunda vez quando alguém pronuncia seu nome pela última vez. Seja lá quem ela fosse, tinha morrido havia tanto tempo que até minha extensa pesquisa não conseguiu descobrir seu nome.

Apesar de quão calmo eu estava, eu não tinha escolha. “Eu posso fazer isso.”

Então ela sibilou: “E, depois, eu quero arrancar sua língua.”

Que vadia mesquinha. “Não permitirei mais nada, mas permitirei minha língua a você. Você deve prometer deixar este mundo.”

Ela começou. O nome dela era Kanawha…

Horas depois, exatamente quando o relógio marcava meio-dia do dia seguinte, saí do grande prédio com sangue por toda a minha camisa. Fiéis às palavras dela (já que estava vinculada a isso), ela partiu depois de terminar sua história de vida e arrancar minha língua.

Ao contrário do que você poderia pensar, ser a única pessoa neste mundo que sabia o nome dela, suas dores, seus segredos mais profundos e o quão injusta sua vida tinha sido não a tornou mais simpática comigo. Não sei se eu teria conseguido negociar e sair dali com um ferimento menos condenável, mas ela certamente era poderosa demais para eu removê-la à força.

Mandei mensagem ao dono da terra para dizer que o prédio agora estava livre de fantasmas e joguei a lista de regras no lixo. Eu estava começando a me sentir fraco pela perda de sangue, mas tomei o medicamento de emergência para estancar o sangramento e a ambulância já estava a caminho.

Minha Casa de Infância Não Era Normal...

Eu cresci em uma casa escondida no meio da floresta, não muito longe de Seattle — perto o suficiente de uma estrada principal para ainda conseguir ouvir o mundo, se você prestasse atenção, mas longe o bastante para que as árvores parecessem vivas… como se estivessem observando.

Era um silêncio estranho. Não parecia vazio, só… atento.

Nossa casa ficava ali, cercada pela floresta, como se tivesse sido colocada no meio de algo mais antigo.

Eu morava lá com meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho. Tínhamos três cachorros — Blue, Daisy e Pete —, então a casa nunca ficava realmente parada. Sempre havia movimento, sempre algum barulho, algo que lembrava que você não estava sozinho.

Pelo menos, era assim no começo.

Eu era muito novo, tinha por volta de cinco anos quando tudo começou. Nessa idade, eu não sabia nada sobre fantasmas, nem sobre o paranormal, nem nada do tipo. Não havia nenhuma ideia plantada na minha cabeça que me fizesse esperar que algo acontecesse.

O que eu vivenciei, eu vivenciei sem contexto… apenas como algo real.

E, por um tempo, eram coisas pequenas.

Momentos rápidos que não faziam sentido, mas eram fáceis de ignorar: um puxão leve na parte de trás da minha camiseta, quando não tinha ninguém ali; movimentos no canto do olho que desapareciam no segundo em que eu tentava focar.

Coisas que você percebe por um instante… e esquece.

Até começarem a acontecer de novo.

E de novo.

Na época, nada disso tinha um nome. Era só… alguma coisa.

Então minha mãe faleceu.

Depois disso, a casa não parecia mais a mesma. Não de um jeito que eu conseguia explicar naquela época, mas algo mudou. O silêncio ficou mais pesado. As noites ficaram mais longas.

E as coisas pequenas deixaram de ser pequenas.

Parecia pior à noite.

Não aconteceu tudo de uma vez, não foi algo dramático, mas o suficiente para eu começar a perceber um padrão. A casa mergulhava em silêncio — aquele tipo que preenche seus ouvidos quando todo o resto desaparece.

Meu quarto era sempre o centro disso.

Era onde tudo parecia mais forte.

Uma noite, eu acordei com o som de passos.

Eram lentos, deliberados, vindo do lado esquerdo da minha cama. Não no corredor, não em algum lugar distante… mas dentro do quarto, comigo.

Eu não me movi.

Mal respirei.

Só puxei o cobertor por cima da cabeça e fiquei ali, tentando desaparecer debaixo dele, como se aquilo pudesse me proteger.

Então aconteceu.

Um rugido — alto, repentino — bem no meu ouvido.

Perto o suficiente para parecer que aquilo estava ao lado do meu rosto.

Eu não pensei.

Só corri.

Saí disparado do quarto, pelo corredor, direto para o quarto do meu irmão. Nem bati na porta — só entrei e subi na cama dele. Lembro de sentir medo de olhar para trás, para o corredor… principalmente para a porta aberta do quarto dele, quando as luzes estavam apagadas.

Sempre parecia que, se eu olhasse por tempo demais, alguma coisa estaria ali.

Depois disso, não parou.

Algumas noites, quando eu estava debaixo das cobertas, sentia o final da minha cama se mover. Não de leve, não como algo acomodando… mas como se houvesse peso ali. Como se algo estivesse sentando.

Ou quicando, devagar.

Eu nunca olhava.

Nunca conferia.

Só ficava imóvel, esperando parar.

Durante o dia, as coisas eram mais silenciosas… mas não tinham desaparecido.

Às vezes, eu ouvia vozes vindo de trás de portas fechadas, mesmo quando não havia ninguém em casa. Não eram altas, nem claras o suficiente para entender… mas eram o bastante para saber que estavam lá.

Outras vezes, eu via movimentos onde não deveria haver nenhum. Algo se mexendo logo fora do meu campo de visão.

E então vinham os sonhos.

Eles não pareciam sonhos normais.

Pareciam próximos… como se estivessem acontecendo do outro lado de estar acordado.

Às vezes, eu via olhos vermelhos brilhando no fim do corredor, me encarando… antes de eu acordar.

Outras vezes, tudo parecia normal no começo.

Até algo ficar errado.

Uma vez, eu acordei e fui até a sala. De lá, dava para ver direto a cozinha.

Minha mãe estava lá.

De pé, no fogão, cozinhando como se nada tivesse acontecido… como se ela nunca tivesse morrido.

Lembro de me aproximar.

Sem questionar.

Só aceitando.

Então eu olhei para fora.

Pete estava no quintal… mas havia algo errado com ele.

O corpo dele parecia distorcido — esticado, desigual — como se algo tivesse tentado moldá-lo… e falhado.

Ele virou e olhou para mim.

E foi aí que eu acordei.

Mesmo do lado de fora, não desaparecia completamente.

Houve vezes em que eu olhava para a beira da floresta e via figuras paradas ali. Longe o suficiente para não conseguir ver detalhes.

Às vezes, pareciam pessoas.

Às vezes, acenavam.

Eu nunca acenei de volta.

E então houve uma vez em que quase foi mais longe.

Havia gente em casa naquele dia — amigos do meu irmão. Todo mundo estava do lado de fora, conversando, distraído.

E eu me afastei.

Sem ninguém perceber.

Caminhando em direção à floresta, como já tinha feito antes.

Foi quando eu ouvi.

Uma voz chamando meu nome.

Soava exatamente como a voz da namorada do meu pai. Familiar. Clara. Vinda de dentro da floresta, logo além das árvores.

Chamando de novo.

E de novo.

Calma. Paciente.

E eu comecei a andar em direção a ela.

Mais perto das árvores.

Mais perto da voz.

E provavelmente teria continuado…

Se algo não tivesse interrompido.

Ouvi uma moto vindo rápido, ficando cada vez mais alta, cortando todo o resto. Um dos amigos do meu irmão chegou, parou e me puxou para subir na garupa antes que eu fosse mais longe.

Ele me levou de volta para a casa.

Quando cheguei, perguntei onde estava a namorada do meu pai.

Eles me disseram que ela não estava lá.

Ela nunca esteve lá.

Simulador de Assassino Psicopata

Hoje em dia, pesquisas mostram que há pouca relação entre videogames e comportamento violento. No passado, porém, a ideia de que “videogames causam violência” era bastante comum entre os pais. A principal razão para esse mito era a falta de controle na época, que permitia que jogos com conteúdo extremamente perturbador e narrativas homicidas, como a série Manhunt e os jogos Lucius, circulassem livremente.

Atualmente, por conta de mudanças culturais e de uma censura mais rígida sobre conteúdos de entretenimento, esse gênero de jogos extremamente violentos praticamente desapareceu. A maioria das pessoas não sente falta disso, mas alguns fãs mais dedicados — eu incluso — ainda sentem saudade de experimentar aquela brutalidade crua e sem filtros mais uma vez. Os poucos lançamentos recentes não atenderam às minhas expectativas e, claro, eu poderia simplesmente rejogar Manhunt 2, mas sejamos sinceros: até a execução mais criativa perde a graça depois de ver a mesma coisa pela milionésima vez.

Por esses motivos, fiquei empolgado demais quando descobri um jogo de PlayStation 2 totalmente desconhecido chamado “Simulador de Assassino Psicopata”. Encontrei o jogo em uma venda de garagem, a apenas duas quadras do meu apartamento. O antigo dono era um homem asiático-americano na casa dos quarenta anos, que estava se mudando para outra cidade. Ele me disse que o jogo era exclusivo do Japão e havia sido banido internacionalmente por ser violento demais, então ninguém nos Estados Unidos sequer tinha ouvido falar dele.

Eu fiquei com o pé atrás, claro. O nome parecia aquelas tentativas modernas de chamar atenção que infestam a Steam hoje em dia, e eu não conseguia ler nada da capa. Ainda assim, o cara insistia que era “a experiência definitiva de terror gore” e, como o jogo estava extremamente barato, acabei comprando.

Naquela mesma noite, corri de volta para casa, abri um emulador no meu computador e comecei a jogar imediatamente. O jogo inteiro estava em japonês, mas o vendedor já tinha me explicado os comandos básicos, então não tive muita dificuldade. O jogo era curto, com apenas cinco fases, e a jogabilidade era relativamente simples. Em cada fase, eu controlava um maníaco que precisava descobrir como matar seus alvos em um ambiente aberto. Para ser justo, parecia mais um jogo de quebra-cabeça do que de ação, mas a criatividade e a brutalidade de cada execução eram impressionantes para alguém fã de filmes de assassino em série, como eu.

Na primeira fase, o maníaco perseguia uma funcionária de escritório solitária. Ele descobria seu perfume favorito, sua comida preferida e sua flor favorita; depois, passava-se por um pretendente apaixonado, convidando-a para jantar e drogando sua comida. Após o encontro, o assassino levava a mulher desacordada para casa, fazia coisas indescritíveis com ela, depois cortava seu corpo em pedaços e os enterrava no quintal.

Na segunda fase, meu personagem precisava invadir o necrotério de um hospital local, arrancar a cabeça de um cadáver e deixar algum tipo de marca registrada. O único familiar vivo desse morto, seu irmão, ficava, compreensivelmente, furioso. No entanto, o hospital o impedia de chamar a polícia, pois estava envolvido em atividades ilegais com os corpos dos pacientes. Ao provocar o homem com outra marca, o assassino o atraía até sua casa, o emboscava e o decapitava. Em seguida, dissolvia o corpo da vítima, deixando apenas a cabeça guardada no armário como troféu, ao lado da do irmão.

Nesse ponto, comecei a perceber algo estranho. A casa do assassino era praticamente idêntica à casa do antigo dono do jogo, o que deveria ser impossível para um jogo de 25 anos. Concluí que aquele “jogo desconhecido de PlayStation 2” era, na verdade, um produto totalmente novo se passando por antigo. O cara que me vendeu provavelmente era o desenvolvedor. Talvez estivesse tentando divulgar o jogo, criando uma falsa sensação de nostalgia. Talvez fosse parte de algum tipo de jogo de realidade alternativa de terror que eu desconhecia. De qualquer forma, o jogo ainda era interessante o suficiente para eu continuar.

O jogo começou a mostrar sua verdadeira natureza na terceira fase. Dessa vez, os alvos eram um casal viajante. Meu personagem preparava a casa como se fosse uma hospedagem, os drogava às escondidas e fazia coisas indescritíveis com eles antes de matá-los. Nesse ponto, a violência gráfica e a perversidade da história já tinham ultrapassado meu limite. Eu só queria uma violência mais cartunesca, não algo tão perturbador assim. O desenvolvedor era um completo doente por ter criado cenas tão distorcidas. Pensei em apagar o jogo e até destruir o disco. Ainda assim, como diz o ditado, a curiosidade matou o gato — e eu estava morrendo de curiosidade para saber como aquilo terminava.

Eu não esperava que a próxima fase fosse me assustar ainda mais.

O assassino escolhia como alvo um fã de filmes de assassino em série e vendia a ele um cartucho de videogame. Depois de terminar o jogo, a vítima era tomada pela curiosidade e ia voluntariamente até o matadouro do assassino. Diferente das fases anteriores, essa terminava no momento em que o alvo entrava na casa. Tentei iniciar a quinta fase, mas nada carregava — apenas uma caixa de texto em inglês dizendo: “Venha ver por si mesmo!”

Aquilo era algum tipo de piada de mau gosto? Será que aquele cara esperava que eu fosse até a casa dele depois de jogar esse jogo maldito? Talvez fosse tudo apenas um jogo de realidade alternativa, e eu estivesse exagerando. Mas, apesar de gostar de filmes gore, no fundo eu sempre fui um covarde. Recusei-me a correr o risco e fui direto à polícia na manhã seguinte.

O policial riu de mim no começo, mas seu rosto ficou sério quando ouviu minha descrição das vítimas. Elas batiam exatamente com quatro pessoas desaparecidas nos últimos dois anos. Senti como se minha alma tivesse saído do corpo quando soube que a polícia havia investigado a casa e encontrado quatro corpos — exatamente como eu descrevi.

Acontece que o homem que conheci tinha se mudado para lá dois anos antes, usando um nome falso — e era, de fato, o responsável pelos assassinatos.

A polícia confiscou o jogo como prova e, desde então, nunca mais toquei em jogos violentos. Até hoje fico arrepiado só de pensar no que poderia ter acontecido se eu tivesse ido até a casa dele naquela noite.

Pior ainda… na semana passada encontrei um bilhete na minha caixa de correio:

“Eu achei que você fosse um gato, mas não é. Bom jogo!”

Até hoje, aquele desgraçado ainda está solto — e eu não sei se a polícia algum dia vai capturá-lo.

A única coisa que eu sei com certeza…

é que você nunca deve jogar algo chamado “Simulador de Assassino Psicopata”.

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