quinta-feira, 2 de julho de 2026

Minha viagem escolar

Olá… Não sei muito bem por que estou escrevendo isso agora. Talvez porque ninguém realmente nos deu ouvidos quando eu e minha amiga tentamos explicar o que aconteceu, ou talvez porque eu ainda não consigo parar de pensar naquela casa — e sinto que, se não colocar tudo no papel, vou acabar me convencendo de que não foi tão grave assim, mesmo sabendo que foi.
 
Este ano, minha turma fez uma viagem escolar para a Alemanha. Pela primeira vez, quase todo mundo foi, o que me deixou muito feliz, pois nos damos bem uns com os outros. Eu realmente achava que seria mais uma daquelas viagens normais: a gente ria no ônibus, dormia mal por ficar conversando até tarde com os amigos e voltava com lembranças bobas, nada de passar a noite inteira olhando fixamente para a porta de um porão, com tanto medo que mal conseguia piscar.
 
O plano era ficarmos hospedados em casas de famílias locais, geralmente em grupos de quatro pessoas. Mas eu e minha amiga — vou chamá-la de Ketty — não encaixamos em nenhum grupo, então acabamos ficando só nós duas em uma mesma casa. No começo, eu disse a mim mesma que não era nada demais, que talvez até ficássemos mais tranquilas. Mas hoje só consigo pensar que preferiria ter ficado com qualquer outra pessoa, mesmo alguém que eu mal conhecesse, só para não estarmos tão sozinhas.
 
A casa era grande, isolada e cercada por uma pequena floresta — nada de floresta imensa, mas o suficiente para fazer parecer que o lugar estava totalmente separado de tudo e de todos. Ficava claramente mais afastada do que as outras casas onde os colegas estavam hospedados. Quem abriu a porta foi uma mulher, com cerca de quarenta anos. A primeira coisa que reparei foi que ela parecia exausta — não só cansada, como qualquer pessoa no dia a dia, mas com um olhar frio e sem vida, como se não tivesse nenhuma alegria em nos receber e talvez nem quisesse que estivéssemos ali. Mal se apresentou, quase não falou nada e, logo em seguida, nos levou para o andar de baixo. Para o porão. Sim, o nosso quarto ficava no porão.
 
Havia duas camas pequenas, embaixo da escada. Logo de cara, já me senti desconfortável: o espaço era amplo, mas arrumado de uma forma muito estranha. Todos os móveis — guarda-roupa, cadeiras, cômodas — estavam empurrados bem contra as paredes, como se o centro do quarto tivesse que ficar vazio por algum motivo. Parece um detalhe bobo, eu sei, mas quando você está ali, com a mala na mão, no porão da casa de uma pessoa desconhecida, nada disso parece pequeno. E ainda havia as janelas: pequenas, bem próximas do teto, típicas de porão — mas em vez de cortinas ou persianas, estavam cobertas com pedaços de papelão, colados ou encaixados com firmeza, de modo que quase não entrava luz do dia. Lembrei de tentar me convencer que talvez fosse para manter o calor ou por questão de privacidade, motivos comuns, mas, com toda a sinceridade, nada ali parecia normal.
 
O jantar foi quase em silêncio. Estávamos só nós três ao redor de uma mesa grande, e ela mal nos perguntou coisa alguma: nada sobre a viagem, sobre a escola, de onde éramos — nada do que uma família anfitriã costuma perguntar. Eu fiquei colada em Ketty o tempo todo, pois já sentia aquele medo bobo, mas muito real, de que, se nos separássemos por um minuto sequer naquela casa, algo de ruim poderia acontecer. Quando terminamos, voltamos direto para o porão. Lembro de pensar que bastava aguentar firme e passar por aquela noite.
 
Mas durante a madrugada, acordei de repente: ouvi vozes lá em cima. Não eram barulhos comuns da casa, nem o vento, nem o som dos canos — coisas que a gente costuma explicar para se acalmar quando está com medo. Eram vozes mesmo, pessoas conversando claramente em algum lugar do andar superior. Não sei por que resolvi ir verificar; provavelmente foi a coisa mais imprudente que eu poderia ter feito, mas acho que ainda tentava provar a mim mesma que não era nada, que talvez ela estivesse ao telefone ou com a televisão ligada, algo assim. Então subi devagar, abri a porta com cuidado, só um pouco, e vi duas silhuetas borradas na cozinha. Não era a mulher. Tenho certeza absoluta disso.
 
Pareciam mais jovens, talvez menores, ou simplesmente com uma aparência totalmente diferente — não consegui ver direito, pois não fiquei ali tempo suficiente para entender o que via. Entrei em pânico, desci correndo o mais rápido que pude, me enfiei debaixo do cobertor e não consegui dormir mais nada pelo resto da noite.
 
Na manhã seguinte, Ketty percebeu logo que eu não estava bem. Contei o que tinha visto, talvez um pouco atropelado e sem muita clareza, mas ela entendeu o suficiente. No começo, tentou me acalmar, dizendo que talvez eu tivesse sonhado. Mas quando perguntei se ela também tinha ouvido vozes, ela ficou parada, imóvel — e isso me assustou quase tanto quanto ter visto aquelas silhuetas, pois significava que ela também tinha ouvido algo. Não com clareza suficiente para entender o que diziam, mas o bastante para saber que havia vozes ali, e não apenas a voz da mulher.
 
No café da manhã, o clima ficou ainda pior. Ela colocou apenas duas tigelas na mesa para nós e continuou quase sem falar nada. Parecia ainda mais cansada do que no dia anterior, com os olhos avermelhados, como se também não tivesse dormido. Ketty tentou puxar conversa normalmente e perguntou se ela morava sozinha. Ela respondeu que sim, mas a resposta soou estranha — falsa. Não sei explicar direito, mas não parecia algo dito com sinceridade. E quando saímos, vimos vários pares de sapatos perto da entrada, incluindo dois pares que claramente pertenciam a pessoas mais jovens, limpos e arrumados, como se fossem usados diariamente.
 
Durante o dia, com a turma, achamos que iríamos nos sentir melhor — e, de certa forma, conseguimos por algumas horas, pois estávamos novamente entre outras pessoas. Mas isso também tornou tudo mais frustrante: quando tentamos contar o que estava acontecendo, ninguém nos levou a sério. Diziam que famílias estranhas existiam, que talvez o porão fosse só o quarto de hóspedes, que o papelão servia mesmo para privacidade, que tudo já tinha sido verificado. Até quando tentamos falar com uma professora, ela estava ocupada e resumiu dizendo que as famílias haviam sido aprovadas e que já iríamos embora em breve. Lembro de ter me sentido muito sozinha naquele momento: estávamos cercadas por colegas, mas parecia que ninguém realmente ouvia o que dizíamos.
 
Quando a noite chegou, a mulher veio nos buscar e não se falou nada durante o trajeto. Nada de rádio, nada de perguntas, nada. Eu ficava olhando pela janela, evitando cruzar o olhar com ela pelo retrovisor, mas mesmo assim tinha a sensação de que ela estava nos observando. Ao chegarmos, ela trouxe dois pratos numa bandeja e mandou que comêssemos no porão, dizendo que era melhor assim, sem dar qualquer explicação. Foi aí que percebi, de fato, que não éramos bem-vindas naquela casa — estávamos sendo escondidas ali dentro.
 
Enquanto comíamos, ouvimos passos lá em cima e, logo em seguida, duas vozes jovens. Dessa vez, Ketty também ouviu claramente. Falavam em alemão, então não entendemos tudo, mas havia uma palavra que se repetia várias vezes: meninas. Nós. Depois, alguém se aproximou da porta do porão e bateu três vezes, sem força, sem agressividade — apenas pancadinhas calmas, o que, de alguma forma, deixou tudo ainda mais assustador. Uma voz falou do outro lado da porta, e só entendi uma palavra: janela.
 
Virei-me para as janelas pequenas cobertas de papelão e vi que o pedaço da esquerda tinha se movido um pouco. Pouca coisa, mas o suficiente para percebermos.
 
Não sabemos se se mexeu de fora para dentro ou de dentro para fora — e, até hoje, não sei qual das duas possibilidades me assusta mais.
 
Naquela noite também não dormimos. Empurramos uma cômoda para encostar na porta, mesmo sendo pesada e provavelmente fazendo barulho, e depois ficamos acordadas, de olho fixo na porta e nas janelas, parando totalmente de se mexer cada vez que ouvíamos um rangido vindo de cima. Eu segurava o celular na mão, mas não sabia para quem mandar mensagem nem o que escrever: como explicar que suspeitava que havia crianças escondidas na casa da família anfitriã e que algo tinha tocado o papelão da janela do porão sem parecer uma louca?
 
Na manhã seguinte, a mulher percebeu que tínhamos mudado a posição dos móveis. Seus olhos continuavam avermelhados, e ela nos olhou como se tivéssemos feito algo errado, como se tivéssemos quebrado uma regra que devíamos conhecer. Disse que tinha um motivo para nos colocar lá embaixo, mas, quando Ketty perguntou qual era esse motivo, ela não respondeu. Ficou apenas nos olhando — e, juro, aquele silêncio foi pior do que qualquer explicação.
 
Na última noite, só queríamos que chegasse a hora de ir embora. Deixamos as malas abertas para poder fechá-las rapidamente ao amanhecer. Ketty quis tirar o papelão das janelas, e eu implorei para que não fizesse isso: depois de ter ouvido a voz dizer “janela”, parecia ser a pior coisa do mundo a se fazer. Mas ela foi em frente mesmo assim. Quando puxou o papelão, entrou um pouco de luz no quarto e vimos marcas de dedos no vidro. Marcas de dedos pequenos. E na borda da janela, gravadas na madeira, havia dois nomes em alemão.
 
Ketty tentou tirar uma foto, mas a mulher desceu quase no mesmo instante. Não gritou, nem pareceu surpresa. Tinha apenas uma expressão vazia no rosto, como se soubesse exatamente o que tínhamos encontrado e já esperasse por aquilo. Quando Ketty perguntou a quem pertenciam aqueles nomes, ela ficou muito pálida, quase branca, e então disse apenas uma coisa: que não deveríamos ter visto aquilo.
 
Não disse que não era nada.
 
Não deu nenhuma explicação.
 
Apenas que não deveríamos ter visto.
 
Na manhã seguinte, ela nos levou até o ponto de encontro sem dizer uma palavra sequer. Antes de eu sair do carro, segurou meu pulso — não com força suficiente para machucar, mas firme o bastante para me deixar completamente paralisada — e deixou muito claro que não deveríamos contar nada a ninguém, que não tínhamos visto nada dentro daquela casa. Não respondi nada, apenas peguei minha mala e desci com Ketty.
 
Quando o ônibus começou a andar, olhei pela janela traseira. A mulher continuava parada ao lado do carro e, atrás dela, perto das árvores, havia duas silhuetas. Duas crianças, ou talvez adolescentes — não tenho certeza. Ficaram apenas ali, paradas, nos observando partir. Cutuquei Ketty para que olhasse também, mas quando ela virou o rosto, o ônibus já tinha feito a curva.
 
Alguns dias depois de voltarmos para casa, Ketty pesquisou o nome da mulher na internet e encontrou uma notícia local em alemão. A tradução estava confusa, mas entendemos o essencial: ela realmente tinha dois filhos, um menino e uma menina. Não estavam mortos. Também não constavam oficialmente como desaparecidos.
 
Mas, ao que tudo indicava, ninguém mais os via em lugar nenhum: não na escola, não na cidade, não apareciam em fotos de família recentes. Nada. Era como se só existissem dentro daquela casa.
 
Ainda não sei por que ela nos colocou naquele porão, por que as janelas estavam cobertas com papelão, por que todos os móveis ficavam empurrados contra as paredes, por que mentiu ao dizer que morava sozinha, por que as vozes falavam de nós, por que uma delas mencionou a janela, nem por que ela parecia tão assustada quando vimos os nomes.
 
Mas tenho certeza de uma coisa: aquelas duas silhuetas que vi na cozinha na primeira noite não eram pessoas estranhas. Eram os filhos dela. E, por um motivo que ainda não consigo entender, ela fazia de tudo para garantir que ninguém soubesse que eles existiam.

Meus Pais Sempre Têm A Mesma Discussão Toda Noite. Meu Pai Diz Que Estou Bem, Mas Minha Mãe Insiste Que Estou Morto

E aí, sou só mais um que acompanha as coisas por aqui sem aparecer muito. Estou tentando pedir conselhos pela internet sobre uma situação muito esquisita que estou vivendo. As coisas já saíram completamente do controle. Ontem foi mais uma noite longa, com meus pais discutindo sem parar. Não sou mais criança, mas ainda moro com eles.
 
Sei que muita gente aqui provavelmente também tem que lidar com problemas assim. É uma merda, eu sei. Mas… no meu caso é diferente. Tem algo de errado com a minha mãe. Toda noite, ela briga com o meu pai, mas o assunto… sou eu.
 
Ela tem plena convicção de que eu estou morto.
 
Não é “morto por dentro”, não é aquela história de “você fez algo de errado, então para mim está morto”. É morto de verdade, fisicamente. Ela… não está bem. Meu pai já começou a marcar consultas com profissionais de saúde mental. Ou pelo menos tentou.
 
Vou explicar melhor depois. Talvez alguém consiga me ajudar. Estou desesperado. Meu Deus… acho melhor começar do início.
 
Bom, sou um cara comum. Não tenho nada de especial. Como eu disse, não fiz nada de errado. Foi só mais um dia normal. Eu estava conversando com a minha mãe durante o café da manhã. De repente, ela virou para mim e falou:
 
— É uma pena o que aconteceu com você. Era tão jovem. Que pena que aquele carro te atropelou e você perdeu a vida.
 
Como é que é?
 
Acho que até escorreu um pouco de leite e cereal da minha boca. Fiquei completamente chocado.
 
Veja bem, a minha mãe é… uma mulher de respeito, de antigamente. Sempre foi educada, carinhosa, quase nunca gritava e nunca falava palavrão. Mas também não tinha senso de humor, muito menos piadas pesadas ou macabras como aquela.
 
Então, quando ela disse aquilo, fiquei sem reação. Foi uma das coisas mais estranhas que já ouvi ela falar, totalmente fora do seu jeito de ser. No começo, achei que era só uma piada sem graça e segui com o meu dia. Quando cheguei em casa, ela já estava discutindo com o meu pai. E o assunto… vocês já sabem qual era.
 
Nos primeiros dias foi muito esquisito. Não dava para ter certeza se ela estava falando sério ou não. Ela dizia que eu estava morto, e o meu pai apontava para mim e respondia algo como “Isso não tem graça”. Depois de um tempo, ela parava, mas no dia seguinte voltava com a mesma conversa.
 
Só que as coisas… foram piorando.
 
Ela passou a discutir cada vez mais, e a falar coisas que não fazem o menor sentido. Já ouvi histórias de como eu teria morrido queimado, afogado, eletrocutado, atropelado, baleado e até jogado dentro de um tanque de ácido. Já cansei de tentar convencê-la… eu andar pela casa, falar com ela, nada disso parece abalar a sua convicção. Ela continua insistindo.
 
O meu dia a dia já é completamente bizarro. Ela vive me perguntando como é a vida depois da morte. E eu respondo que não mudou nada.
 
Que porra de outra resposta eu poderia dar?! Não estou morto, estou bem na frente dela, fazendo exatamente o que sempre fiz. Hoje em dia, o jeito é fingir que não ouço.
 
Sei o que vocês devem estar pensando: “Sua mãe enlouqueceu”. Pois é, eu também pensei isso. Mas então aconteceu uma coisa que mudou tudo.
 
Um dia, a minha avó veio nos visitar. Adoro a minha avó. Ela estava sentada na sala, quieta, de olhos fechados e as mãos juntas.
 
Passei por ela e não sabia se estava dormindo. Quando abriu os olhos, eu a cumprimentei. Ela apenas sorriu e disse que estava orando — ela é muito religiosa.
 
Disse que estava orando por mim. Até aí, tudo bem. Mas então virou para mim e explicou o porquê:
 
— Estou orando para que a sua alma possa descansar em paz.
 
Como é que é?
 
Fiquei parado no mesmo lugar por um minuto, sem reação. Não entendo como isso aconteceu. Mas a minha mãe conseguiu convencer a minha avó de que eu estou morto. Eu… não conseguia acreditar. Ainda restava uma mínima chance de que a minha mãe estivesse apenas brincando, mas a minha avó? Não tinha jeito, era coisa séria.
 
Deixa eu explicar uma coisa: a minha mãe é quem comanda a família, de certa forma. Ela é gentil, doce e tem uma capacidade enorme de convencer as pessoas. Não tem sempre a última palavra, mas quando quer algo, todo mundo acaba concordando.
 
Não faço a menor ideia de como ela conseguiu convencer a minha avó. Mas é óbvio que tem algo acontecendo, só não consigo entender o quê.
 
E a situação, como eu já disse, foi ficando cada vez mais grave.
 
Outro dia, eu estava cochilando na minha cama. De repente, senti um cheiro de fumaça. Fiquei tão assustado que pulei da cama. O cheiro de queimado vinha de mim mesmo. A minha mãe tinha pegado um isqueiro e tentou colocar fogo nas minhas roupas.
 
— Talvez você consiga seguir em frente se for cremado — disse ela.
 
Que porra é essa? E ainda falou isso sorrindo.
 
Foi a primeira vez que ela tentou me machucar de verdade. Desde então, fico sempre bem longe dela.
 
Depois disso, fui procurar o meu pai. Aquilo já tinha passado de todos os limites; ela precisava de ajuda. Talvez a minha avó estivesse começando a ficar confusa com a idade, mas a minha mãe, sim, precisava de tratamento urgente.
 
Conversei com ele, e ele ficou olhando para os lados, sem jeito. Não conseguia acreditar…
 
Ela tinha conseguido convencer também o meu pai.
 
Ele já está começando a aceitar a ideia de que eu realmente estou morto. Não tenho mais a menor ideia do que diabos está acontecendo.
 
A família está se desfazendo — ou talvez se unindo, só que em torno da ideia mais esquisita e doentia que já ouvi falar. A minha vida não tem mais nada de normal.
 
Semana passada fomos à praia. Foi a última vez que tentei fazer algo comum com a minha família. Acabei dormindo deitado sobre a minha toalha. Quando acordei, vi a minha mãe parada sobre mim, sorrindo.
 
Ela tinha enterrado metade do meu corpo na areia. Eu mal conseguia me mexer.
 
Gritei e me mexi com toda a força. A areia era áspera contra a pele e muito pesada para sair. Mas antes que ficasse tão dura quanto pedra, consegui me soltar e me afastar o máximo possível dela.
 
Tenho certeza absoluta de que ela estava tentando me enterrar vivo.
 
Gritei com ela como nunca. Toda a praia ficou olhando para nós. Gritei que aquilo era uma brincadeira doentia, que essa história de que eu estou morto era uma loucura da cabeça dela. Já tinha chegado ao meu limite. Acho que nunca fiquei com tanta raiva na minha vida. Ela apenas me olhou em silêncio, com um sorriso fraco no rosto.
 
— Os mortos não devem gritar.
 
Que inferno. Em que confusão eu fui me meter?
 
E a coisa não para por aí. Só piora.
 
Ela conseguiu convencer também as pessoas da minha escola: meus amigos, os professores. Ninguém mais me dá atenção. Quando levanto a mão para fazer uma pergunta, o professor finge que não me vê. Uma vez, ele disse claramente:
 
— Os mortos não podem fazer perguntas.
 
É surreal. Meus amigos fingem que não estou lá. Em casa, já não preparam mais comida para mim. Me sinto um estranho no meu próprio lar, como um fantasma que fica vagando de um lado para o outro.
 
Outro dia, vi ela olhando para o celular. Chamou por mim:
 
— Vem ver isso, Chris.
 
Fui até lá, mas já com muito receio. Hoje em dia, a nossa relação praticamente não existe, e vai continuar assim até que ela receba ajuda médica.
 
Na tela, havia caixões. Ela estava olhando porra de caixões.
 
— Esse vai ficar muito bom em você.
 
Não tenho palavras para descrever o que senti. Ver uma pessoa que você ama falar com tanta naturalidade sobre a sua morte, como se fosse algo comum, como se estivesse planejando isso… Não é certo, não é nada normal. E todo mundo já está começando a ficar do lado dela.
 
Essa situação está me consumindo psicologicamente. Já estou arrumando as minhas coisas para sair da cidade e ir para qualquer lugar. Preciso fugir daqui.
 
Estou escrevendo isso para perguntar se alguém já passou por algo parecido. Sei que existem pessoas com transtornos mentais, mas conseguir convencer praticamente toda a minha família e todos ao meu redor dessa mentira toda?!
 
Será que é algum tipo de surto coletivo? Se alguém já passou por isso, por favor me diga. Já estou arrumando as malas para ir embora. Preciso de um tempo, preciso sair daqui primeiro; depois eu resolvo toda essa confusão.
 
Não aguento mais ver a minha mãe pesquisando qual líquido usar para embalsamar o meu corpo. Tenho que sair antes que eu faça alguma besteira, algo que depois vou me arrepender para sempre.
 
Não estou…
 
— Espera, uma atualização rápida: eu estava sozinho em casa, mas os meus pais acabaram de chegar. Vieram com uma… van? Não entendo nada, a gente não tem van nenhuma.
 
Que porra é essa, o que está acontecendo? Tem umas dez pessoas junto com eles. Eu… não sei… Que diabos está acontecendo? Que merda é essa?!
 
Todos eles estão carregando pás nas mãos!

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Eu fui cruel com uma raposa e me arrependo

Eu tinha quinze anos quando isso aconteceu comigo, e dez anos depois ainda penso nisso todos os dias.

Moro numa cidade de porte médio no Reino Unido. Não temos nada como guaxinins selvagens ou gambás por aqui, mas temos raposas. Você não as vê muito, só de vez em quando se estiver na rua tarde da noite, e elas passam sorrateiras, em silêncio. Eu gosto de animais, mas nunca pensei muito sobre eles, sendo um adolescente homem comum.

Uma noite, acho que era uma sexta-feira e lá para o outono, eu tinha brigado feio com a minha mãe, provavelmente por alguma besteira (eu tinha 15), e saí de casa batendo a porta. Peguei uma Coca-Cola na banca de jornais no fim da rua, e sentei num banco bebendo e xingando meus pais na minha cabeça. Com o tempo, estava ficando tarde e pensei que devia ir para casa, mesmo ainda estando pilhado por causa da briga e esperando que ela continuasse assim que eu entrasse.

A estrada que ia para a minha casa passava por um bosque pequeno, e eu sabia que tinha uma lixeira não muito longe da entrada, então entrei rapidinho para jogar a lata de Coca-Cola fora. Estava bem escuro lá dentro, mas dava para distinguir a silhueta de uma raposa, farejando o chão perto da lixeira.

Não sei o que deu em mim naquele momento, porque eu gosto de animais, mas acho que a raiva da minha mãe e a angústia adolescente transbordaram, e em vez de jogar a lata no lixo, eu a atirei na raposa. Estava escuro, então não dava para ver direito se acertou a raposa ou se caiu perto, mas o som do impacto pareceu indicar que tinha acertado.

Agora, raposas geralmente são muito ariscas e fogem ao menor sinal de perturbação, que era o que eu esperava naquele momento. Acho que eu só queria assustá-la, sentir um pouco de poder. Mas a forma da raposa não se mexeu. Fiquei parado olhando, tentando ajustar a visão à escuridão, e vi a cabeça da raposa lentamente se virar na minha direção, e a luz bateu nos olhos dela, refletindo discos brancos e brilhantes na minha direção. Ela me encarou, imóvel, e eu me senti congelado no lugar, o terror subindo pela minha espinha.

Não sei quanto tempo isso durou, aquele olhar preso nos olhos dela, mas pareceu pelo menos uns 30 segundos, um minuto, mais? Nenhum de nós se mexia, eu quase sem respirar. Então a raposa simplesmente virou e sumiu, de volta para a escuridão. Eu continuei olhando mesmo depois daquilo, com medo de me mexer, até que aos poucos voltei a mim e me arrastei para casa, profundamente abalado, e a briga com a minha mãe agora parecia insignificante.

Deixei qualquer estranheza de lado quando cheguei em casa, fiz as pazes com a minha mãe, e provavelmente joguei videogame ou algo assim. Mas naquela noite, na cama, enquanto tentava dormir, a imagem daquela cara escura de raposa com olhos brancos brilhantes ficava flutuando na minha mente — eu sentia como se aqueles olhos estivessem penetrando qualquer pensamento normal que eu tentasse ter. Acabei dormindo sentado, assistindo ao que estivesse passando na televisão, tentando me distrair.

No dia seguinte foi relativamente normal, acordei tarde e fiz o que todo garoto de quinze anos faz num sábado qualquer, fiquei à toa ou saí com meus amigos, não me lembro. Pela noite já tinha esquecido todo o incidente da raposa, e fui dormir tarde, lá pelas uma da manhã. Não pensei muito quando fui acordado por uns barulhinhos lá fora — vizinhos sempre chegavam tarde no fim de semana — e me virei para voltar a dormir. Mas os sons continuavam, uns estalos e rangidos, ruídos que eu não reconhecia. Por fim desisti de tentar ignorar, levantei e fui olhar pela janela.

Meu quarto ficava no primeiro andar, de frente para o nosso pequeno jardim da frente. Estava escuro, mas não vi nada de errado, só a nossa cerca-viva, a grama, e um poste de luz meio fraco do outro lado da rua. Voltei para a cama e apaguei rápido.

Não sei quanto tempo se passou, mas fui acordado de novo. Daquelas vezes em que você desperta de repente, em choque, sem saber se ouviu um barulho alto ou se ele veio só da sua cabeça. Levantei para olhar pela janela mais uma vez, e lá estava, só o nosso jardim na escuridão, o poste agora apagado. Mas aí, quando me movi para fechar a cortina, vi um movimento na parte de baixo do peitoril da janela. Algo escuro subia lentamente, flutuando no meu campo de visão, bem na frente do vidro. Orelhas pontudas — presas a alguma coisa — minha mente não conseguia entender o que eu estava vendo, o que diabos poderia estar ali, numa janela do primeiro andar. E então os olhos apareceram — aqueles discos brancos brilhantes — a centímetros do meu rosto, encarando bem dentro da minha alma, ameaçando minha segurança e minha própria sanidade. A última coisa que vi foi uma boca aberta, com dentes brancos e afiados, e eu caí para trás da janela, batendo no chão com um baque, soltando um grito involuntário de terror e dor.

Quando caí, olhei para baixo por um segundo, e quando levantei o olhar, tudo estava preto de novo. Me levantei rápido, fiquei na ponta dos pés para olhar lá embaixo — para onde tinha ido? E como diabos tinha chegado ali, um andar acima? Só grama, cerca-viva, silêncio. Fechei as cortinas rapidamente, tremendo, e corri para acender a luz.

Não dormi quase nada no resto daquela noite (mesmo com a luz acesa), mas pensei muito, com aquela cara gravada na tela da minha mente. Questionei se tinha sonhado. Me perguntei por que tinha sido cruel com uma criatura inocente. E principalmente, fiquei pensando no futuro — eu ia ser assombrado agora? Eu ia ver aquela cara toda noite? Ela ia ficar sempre lá fora, ou eu ia acordar e vê-la dentro do meu quarto?

Lá pelas cinco da manhã, exausto mas nunca me sentindo tão lúcido, tomei uma decisão, e no dia seguinte comecei a agir. Minha família ficou confusa, mas adolescentes fazem coisas estranhas, né?

Café da manhã, almoço, jantar... cada resto não comido era salvo do prato de todo mundo, e eu colocava tudo numa tigela, e deixava no jardim antes de dormir. Uma oferenda. Uma oferenda de paz. E funcionou.

Agora tem muito mais barulhos à noite, gritos e guinchos horríveis enquanto as raposas conversam entre si e brigam pela comida que eu deixei para elas. Seriam assustadores se você não soubesse o que são. Já me mudei de casa duas vezes desde então, mas toda noite ainda alimento as raposas da vizinhança. Fico observando elas pela janela, se movendo no escuro, agindo como animais normais, e me sinto calmo. Acho que fui perdoado — seja pela criatura que tentei machucar, seja pela minha própria mente, não tenho certeza — mas nada estranho aconteceu desde então, e graças a Deus nunca mais vi aquela cara.

Mas, era apenas uma cabra?

Acordei tarde naquela manhã com uma batida forte na porta do meu sótão. O som ecoou pela estrutura de madeira, me arrancando de um sonho que não conseguia lembrar. A voz da minha mãe veio em seguida, tensa com aquela mistura de irritação e urgência que ela fica quando as cabras escapam. De novo. Gemi, meu corpo pesado de sono, e tateei procurando minha jaqueta. Era uma daquelas manhãs em que o frio atravessava suas roupas, e o céu estava baixo e cinzento, como se não conseguisse decidir se chovia ou apenas ficava mal-humorado.

Saí, a grama úmida fazendo barulho sob minhas botas. As cabras estavam espalhadas pelo quintal, sua confusão habitual. A maioria delas foi fácil de conduzir de volta ao celeiro—elas conheciam a rotina. Mas a marrom, aquela com a orelha torta e a cara estupidamente feliz, não estava colaborando. Ela estava pulando por aí como uma criança que comeu açúcar demais, perseguindo um pássaro que tinha voado para dentro do bosque. Lembro de pensar, Por que hoje? Mas segui ela mesmo assim, porque é isso que você faz quando mora numa fazenda. Você persegue as malditas cabras.

O bosque estava diferente naquela manhã. Não sei explicar, mas parecia... mais denso. As árvores pareciam mais próximas umas das outras, seus galhos se contorcendo como se tentassem bloquear a luz. O ar cheirava a mofo, como folhas apodrecendo e terra molhada, e o único som era o barulho das minhas botas e o ocasional balido distante da cabra. Continuei dizendo a mim mesmo que estava tudo bem, era apenas mais uma tarefa, mas quanto mais fundo eu ia, mais minha pele se arrepiava. Estava silencioso demais. Até os pássaros tinham parado de cantar.

Finalmente a avistei—a cabra marrom—parada perfeitamente imóvel num feixe de luz do sol. Ela estava olhando para um galho, com a cabeça inclinada como se estivesse ouvindo algo. Por um segundo, apenas a observei, confuso. Ela parecia tão... tranquila. Mas então me aproximei, e foi quando ouvi a voz do meu irmão, nítida e clara vindo de algum lugar atrás de mim.

"Peguei ela! Pode voltar!"

Me virei em direção à voz dele, o alívio me inundando por apenas um segundo. Mas então percebi—se meu irmão estava com a cabra, então que diabos eu estava olhando?

Meu estômago afundou. Não me virei de volta. Não ousei. Algo primitivo dentro de mim gritou não, e eu escutei. Recuei, passo a passo, meus olhos fixos no meu irmão à distância. Podia sentir aquilo atrás de mim—a coisa que parecia a cabra mas não era. Sua presença era pesada, errada, como se o próprio ar estivesse me pressionando. E então, bem quando me virei para correr, juro que ouvi—um som que não era um balido, não era uma voz, mas algo entre os dois. Algo errado.

Corri. Não parei até chegar ao celeiro, meu peito arfando, minhas mãos tremendo. Meu irmão estava lá, segurando a cabra verdadeira, me olhando como se eu tivesse perdido a cabeça. Talvez eu tivesse. Mas eu sabia o que tinha visto. Ou pelo menos, sabia que tinha visto alguma coisa.

Nas semanas seguintes, continuei ouvindo—os chamados. Suaves, distantes e inconfundivelmente parecidos com os de uma cabra. Eu corria para o celeiro toda vez, apenas para encontrar todas as cabras dormindo, seus corpos subindo e descendo ao luar. Os chamados não vinham delas. Vinham do bosque. Do que quer que eu tivesse visto naquele dia. E seja lá o que fosse, ainda estava lá fora, esperando, chamando.

Não chego mais perto daquele bosque. Mas às vezes, tarde da noite, quando o vento está na direção certa, ouço os chamados novamente. E não posso deixar de me perguntar... se eu tivesse olhado para trás, o que teria visto?
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon