quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Sangue não é mais grosso que água. Pelo menos, não pra mim

Estou escrevendo esse texto no meu notebook, em um motel sujo e brejeiro em Cody, Wyoming. Minha parceira, Maria, está dormindo profundamente, sua pele oliva bonita marcada por cortes horríveis, sangue arterial carmesim todo seco e feio. Nenhum hospital pra ela, nem pra mim. Seria contra a política da empresa.

Vou esclarecer alguns detalhes sobre mim. Fico puto quando as pessoas não são claras como cristal comigo, então achei que deveria fazer o mesmo. Sou Clarke — um detetive que trabalha para uma agência de consultoria privada. Trabalho nessa agência, que eu mesmo me aconselho a não nomear, há uns vinte anos. Vou fazer trinta e quatro esse ano, então eles definitivamente me arrancaram da adolescência. Minha maldita inteligência. A filial de Denver é onde eu trabalho, embora prefira muito mais meu estado natal, Maine. Não tem "campi" por lá, mas enfim. Maria é minha estagiária mais nova, mas suas habilidades forenses são de outro nível, então ela foi promovida a minha parceira. Uma gata suíça, linda, com pele bronzeada e cabelo preto perfeito, penteado igual ao da Elizabeth Taylor. Olhos azuis gelados, embora você nunca adivinharia sua personalidade. Continua doce, mesmo depois que eu gritei com ela por causa do sistema de organização de arquivos dela, que é uma merda. Garota esquisita, por sinal. Não ligo se você se formou em uma universidade suíça de ponta aos dezesseis, ou se era biofísica e cientista forense antes dos vinte e quatro, mas lamber provas não é algo que me agrada. Mas ela nunca fica doente, então quem sou eu pra me importar? Nossa agência não está nas boas com o governo, e eu não sou responsável por ela. Desde que eu me certifique de que ninguém está olhando, ela fica tranquila.

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Nós tínhamos sido designados para um caso — ou melhor, eu. Maria não é importante o suficiente pra tocar casos sozinha. Um cara brutalmente assassinado em Paradise... Paradise Valley, Montana. Normalmente, esses casos são tão mundanos que costumam ser passados pra investigadores de nível mais baixo. Esse era diferente... Nosso cliente, que nos contratou pra resolver o problema, queria desesperadamente um fechamento. Ser absurdamente rico ajudou ele a conseguir nossos serviços. Ele parecia mais preocupado com o desaparecimento da vida selvagem de suas infinitas propriedades em Montana. Como se isso importasse, malditos fazendeiros ricos do governo.

Chegar até Livingston, a cidade grande mais próxima desse vale, foi fácil. Peguei a I-25, entrei na I-90 e segui pra oeste dali. Eu e Maria tivemos um encontrozinho divertido em Billings antes de irmos pra Livingston. Fazer o check-in no motel pra noite — ou noites — foi tranquilo. Maria aceitou calmamente o motel de quinta categoria que eu escolhi. Já estava acostumado a dormir em lugares nojentos, com nojo cravado nas paredes, nos lençóis, nos quartos, e não planejava parar agora.

A viagem até Paradise Valley foi fascinante. Morava em Denver, então subir até Estes Park pra ver os alces era algo que eu curtia quase toda semana. Deveria ter mais animais nessa estrada, no sudoeste montanhoso de Montana, é tudo o que tenho a dizer.

— É tão bonito — Maria murmurou baixinho, olhando pela janela, seus olhos azuis sonolentos apreciando a paisagem.

— É, isso é sua montanhesa nativa falando, senhorita "trabalhei em Billings pra uma corporação que ainda não te contei". Colorado é muito melhor. Ou melhor, Maine. Os Apalaches são tão bonitos quanto, e as árvores não estão tão mortas — falei.

Ela me ignorou, o que era diferente da habitual submissão dela em me ouvir.
— Clarke, não vi nenhum animal. Será que eles estão se escondendo? — acrescentou, pensativa.

— Procura melhor — retruquei. Toda criança acha um animal quando menos espera em viagens de carro. Com certeza ela deveria saber que é melhor calar a boca e continuar procurando.

Foi o fim da conversa. Maria poderia argumentar sem parar — e muitas vezes venceria —, mas dessa vez me poupou de outra explosão de raiva. E de um console quebrado.

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Chegamos à casa do nosso cliente. Uma família rica de fazendeiros, claramente. Vários prédios pra sei lá o que fazendeiros precisam fazer. Colheitadeiras novas e reboques de cavalos. Assobiei. A casa da fazenda em si era enorme, toda de tijolos e estilo colonial. Estranho, pra todos os móveis modernos que tinha. Um homem estava na varanda. Depois que tranquei o carro, Maria pulou pra fora e foi até ele, mostrando suas credenciais da agência e aquele sorriso desarmante e coquete dela, embora ela fosse o oposto de tímida.

— Olá! Eu sou Maria Engel, e este é meu supervisor, Clarke Edwards. Fomos designados pela {Redigido} pra ajudar vocês com um incidente na propriedade de vocês — deixei que ela se apresentasse primeiro, e isso me deu tempo pra avaliar os arredores. E os homens sempre queriam falar com ela, de qualquer jeito.

— Prazer em conhecer você, Maria. Eu sou Joel Whitfield. Meus pais estão dentro de casa, e meus... parentes estão por aí. Tenho certeza de que vocês os viram enquanto dirigiam até aqui. Querem entrar? — Apreciei o microfone escondido que Maria sempre usava. Ele articulava cada palavra claramente. Joel era um cara alto e sorridente. Eu odiava caras sorridentes. Um pouco velho, com uma juba ruiva cobrindo o queixo. Cinquenta e sete anos, se eu tivesse que chutar. Não parecia malvado ou suspeito, mas, por outro lado, minha ex-mulher era uma boneca e me traiu com meu irmão.

— Está um dia maravilhoso, seria uma pena desperdiçá-lo — interrompi. — E os briefings geralmente demoram tanto, senhor... Embora eu tenha quase certeza de que você é do tipo que supera as coisas rápido? — Ele parecia bem calmo depois de ver um corpo brutalizado.

— Ah, de jeito nenhum. Eu arrasto as coisas, pergunte a qualquer um da minha família — Joel sorriu, me levando pro quintal lateral, de onde se avistava o vale. Maria olhou novamente pra mata antes de se juntar a nós no pátio.

— Rapidinho, Joel, só precisamos anotar todos os detalhes básicos. Você encontrou um corpo, certo? — Não estava aqui pra ter uma conversa piegas sobre a vida selvagem e as montanhas de Montana.

— Sim, eu estava com meu pai. Estávamos andando a alguns quilômetros ao sul da nossa fazenda, checando nossas vacas, quando sentimos um cheiro nojento. O vento estava trazendo o cheiro até nós, sabe aquele cheiro de morte, não tem como confundir. E lá estava um cara. Coitado. Não o reconheci de jeito nenhum. O rosto dele estava esmagado, como se uma pedra tivesse caído em cima dele. E ele foi arrastado por facas. O rosto dele estava meticulosamente cortado, assim como o peito. A barriga dele também estava toda esventrada, não sobrou nenhum órgão interno... bom, tenho certeza de que não sobrou nenhum órgão. Até liguei pro meu cunhado, que é médico. Enviei fotos...

— Espera aí, Joel. Quando você encontrou o corpo?

— 7h45 dessa manhã...

— O corpo ainda está lá? Nesse lugar?

— Sim...

— Por que você não chamou a polícia primeiro?

O sorriso de Joel se alargou.

— Tem mais coisa nisso, mas meu primeiro pensamento foi meu sobrinho. Meu sobrinho trabalha pra agência de vocês, não trabalha? Pensei em dar uma alegria pra ele. Parece que ele não está aqui, porém.

— Seu sobrinho? — Não era uma revelação totalmente chocante. Precisava saber o nome do sobrinho antes de continuar. Maria estava ao meu lado, anotando as informações e mais um pouco.

— Philip Bliss. Na verdade, o pai dele, John, foi quem eu mandei mensagem.

— Ah, é? Então a gente trabalha junto. O Phil é paramédico, mas, pelo que parece no seu relato, esse cara está bem morto, senão ele teria vindo junto — não estava tão desconfiado de Joel. Mas ainda assim não era motivo pra não chamar a polícia. Também precisava ver o corpo. Droga, faz tanto tempo que não faço casos assim que estou perdendo a cabeça.

— Ei, onde está o falecido...?

— Espera, posso te contar uma coisa...

— Desculpe, Sr. Whitfield — Maria interrompeu suavemente. — Se a polícia não foi notificada sobre esse incidente, é melhor que o Sr. Edwards e eu vejamos primeiro.

Joel parecia constrangido.

— Só dá pra chegar lá a cavalo ou de quadriciclo — ele fez uma careta. — E eu prometo, tenho uma explicação melhor pra não ter chamado a polícia — ele foi até um quadriciclo perto de um galpão de equipamentos, mas eu o chamei.

— Ei, sei dirigir uma dessas. Tudo bem se eu dirigir, desde que você me dê as direções? — Não ia arriscar deixar alguém, nem parente do Phil, dirigir por mim. — Além disso, você pode nos contar sua explicação enquanto isso.

Joel concordou rápido, parecendo aliviado. Talvez ele fosse só um tio maluco que realmente queria ver o sobrinho.

Droga, eu odeio quadriciclos! Coisas irritantes. Tudo esburacado e barulhento. O microfone da Maria tornava tudo melhor, porém.

— É só passar por essas colinas, até chegarmos a uma cerca de gado... — O vento uivava e matava qualquer chance de Joel ter uma conversa coerente, já que ele não sabia que podíamos entendê-lo apesar dos solavancos. Maria fez sinal pra ele esperar até chegarmos ao destino do falecido.

Bom, pensei. Com certeza tem um corpo morto. Pelo menos ele não está mentindo. Com um grunhido interno de insatisfação, esqueci que o pai dele também tinha visto o corpo. Faz tanto tempo que não resolvo um assassinato simples que estou ficando fraco.

Não tinha muito o que fazer pelo coitado. O rosto dele estava irreconhecível, e ele certamente tinha sido esventrado. Mas tinha algo estranho. As marcas de faca pareciam garras que dilaceraram o corpo. Tinha o equilíbrio perfeito entre controle motor humano e fúria animalística.

— Não foi um humano — Maria sussurrou pra si mesma, mas eu ouvi claramente. Impedi que ela lambesse qualquer coisa. Não sei se ela curte isso ou o quê, mas Joel não precisava ver.

Joel parecia mais chateado do que estressado com o corpo dilacerado de um homem morto.

— Sr. Edwards, quer saber por que não chamei a polícia? — ele disse, ficando mais irritado. Não estava irritado comigo, isso eu sabia. Levantei as sobrancelhas, esperando pela próxima frase. Era uma pergunta.

— Você sabe sobre a reintrodução de lobos em Yellowstone?

Assenti. Fui lá há anos. Vi aquelas bestas peludas. Achei interessante. Com certeza ele não estava insinuando...

— Bom, os policiais daqui são uns frescos, idolatram os lobos como se fossem deuses. Não podem atirar, não podem matar. Mesmo quando você está fornecendo carne e trigo pra América. Mesmo quando está protegendo sua família. Além disso, alces, alces-americanos, veados, não os vemos há meses. Não podemos deixar as crianças saírem depois que escurece, porque EU SEI que temos malditos lobos soltos por aí.

Joel continuou desabafando.

— Eu sei que o que matou essa pobre alma foi um lobo. Você acha que aqueles bastardos em Livingston vão acreditar em mim? Ou o guarda-florestal? Nem fodendo. Já aconteceu antes. Com nossas vacas. Nossos cavalos. Nossos animais. Meus irmãos agora vigiam das janelas com uma espingarda. E não é nenhum lobo manguejão. É um lobo esperto, astuto. É... senciente. Tem mais de um. E ninguém vai acreditar em mim, porque lobos são maravilhosos, incríveis e ótimos. O governo não está mantendo esses lobos em Yellowstone, Sr. Edwards. Eles estão deixando eles vagarem, e agora eles têm gosto por sangue.

Assenti. Fazia sentido. Lobos. Mas o corpo... o assassinato... será que era um assassinato, afinal? Os sinais mostravam uma natureza metodológica. Lobos são espertos, mas não tão espertos quanto um humano. Me perdi em pensamentos.

— Sr. Whitfield, o senhor não quer nenhuma... hum, autoridade pública envolvida de jeito nenhum? — A voz monótona de Maria me acordou.

— Absolutamente não... quero dizer, não realmente, senhorita. Provavelmente seria processado na hora — Maria olhou pra mim.

Deixa eu lamber o sangue. Por favor. Ela suplicou com seus olhos azuis brilhantes. Quis vomitar. É por isso que a gente nunca... deixa pra lá. Limpei a garganta.

— Vamos ter que contatar a BRT da nossa agência, Sr. Whitfield. O senhor poderia preencher este formulário? Vou ter que contatar nosso legista — ou um dos nossos muitos legistas.

— Não temos sinal de celular aqui...

Acuenei com a mão, andando pra que ele me encarasse e não a Maria, que estava fazendo seu ritualzinho.
— Operamos em uma rede privada, Sr. Whitfield.

Vou ter que parar de escrever, estou caindo de sono. Maria ainda está dormindo profundamente. O que quer que tenha entrado no sangue dela agora está no meu também. Não quero dormir, mas a dor das garras cravadas na minha pele é insuportável. Dormir seria a melhor opção. Depois de ver Maria machucada, e depois de levar uma surra, decidi que vou continuar escrevendo sobre esse caso nojento. Sobre meu irmão. Não ligo pra quanto ele é rico, ou se os lobos das redes sociais dele vão apagar meu post imediatamente. As ações dele precisam ser expostas. Eu realmente odeio meu irmão.

Eu Sei Por Que as Sereias Pararam de Vir à Praia

Comecei a investigar as sereias de Coney Island por causa do desfile. Todo mês de junho, milhares de pessoas se vestem com sutiãs de conchas e caudas de peixe e marcham pela Surf Avenue, celebrando a fantasia de sereias encalhadas na praia mais famosa do Brooklyn. Eu cresci indo nisso. Todo mundo conhece a piada: nenhuma sereia real jamais ficou em Coney Island. Elas “foram embora”, as pessoas dizem.

Ou então, nunca existiram de verdade.

Mas há uma velha lenda urbana que os moradores da orla sussurram se você ficar tempo suficiente depois que os brinquedos fecham.

Que as sereias estiveram aqui. E que elas não foram embora.

Foram usadas até a exaustão.

Sou pesquisadora freelancer, focada em estranhezas históricas, escândalos esquecidos. Isso significa que enfiu o nariz onde não deveria e não sou paga por isso.

Foi logo após o desfile, em junho, que comecei a fazer perguntas sobre suas origens. Naquela noite, depois de várias conversas com foliões, participantes do desfile e moradores locais, meu e-mail piscou, me avisando de uma possível pista.

Era um ex-artista de circo de atrações dizendo que o Desfile do Dia da Sereia era “um memorial, quer as pessoas saibam ou não”.

Pensei que era um e-mail furado. Mesmo assim, segui a pista — era a única coisa que tinha chegado na minha caixa de entrada além de promoções de atrações locais e spam.

A primeira coisa que você aprende sobre o Coney Island antigo é que ele nunca foi sutil.

No início do século XX, era o lugar mais elétrico, caótico do leste americano. O Luna Park brilhava com um milhão de luzes. Shows de freaks alinhavam a orla — “exposições educativas”, como chamavam, onde seres humanos eram expostos como curiosidades: mulheres barbadas, anões, “raças primitivas”. Coisas que o público moderno consideraria (e com razão) desumanas, mas que na época eram vistas como entretenimento e educação.

Respeitáveis, desde que você pagasse o ingresso.

O que me surpreendeu foi com que frequência os arquivos mencionavam exposições aquáticas.

Cartazes antigos anunciavam:

“Sereias Vivas do Atlântico!”

ao lado de atos com focas e cavalos mergulhadores. Eu presumi que eram farsas — mulheres costuradas em caudas de peixe, truques à la Barnum.

Mas as descrições não batiam. Mencionavam tanques de água salgada, equipe médica disponível, horários de alimentação.

E ferimentos. Muitos ferimentos.

Encontrei um livro de registros de 1907 na Sociedade Histórica do Brooklyn que listava “perdas de manutenção” para um aquário de circo. Um item simplesmente dizia: “podridão da cauda. irreversível.”

Foi aí que parei de pensar que era só kitsch — e comecei a acreditar.

O verdadeiro avanço veio do incêndio do Dreamland. Em 1911, o Dreamland queimou até o chão em uma única noite. Milhares de animais morreram. Artistas fugiram para a escuridão, meio vestidos. É um dos desastres mais fotografados da época. Revirei todas as imagens que consegui encontrar.

No fundo de uma fotografia, quase imperceptível, há um tanque sendo empurrado para a praia por quatro homens. Algo longo e pálido escorre pela borda.

Muito longo e pesado demais para ser tecido. A legenda diz apenas: “resgate.”

Depois de enviar um e-mail de volta ao ex-artista pedindo mais informações, ele me mandou uma lista de nomes de ex-funcionários do Coney Island, carnavalescos e artistas daquela época. Foi o máximo que puderam fazer, disseram.

Contaram que era algo sobre o que o avô deles falava muito, e que nunca deram muita atenção até trabalharem na orla.

Não quiseram se encontrar pessoalmente e me pediram para manter o nome deles fora de qualquer relato — gostavam da vida tranquila à beira-mar e não queriam problemas.

Rastreei um descendente de um homem que trabalhava em barracas de lanches na orla antes da Primeira Guerra Mundial. Ele tinha caixas de cartas no porão. Uma delas mencionava “as garotas-peixe” sendo removidas após o incêndio, “antes que os inspetores cheguem”.

“Elas não são garotas,” dizia a carta. “Garotas não gritam quando você as tira da água.”

Foi a primeira vez que fiquei enjoada.

Aqui vai a parte que ninguém gosta de ouvir sobre Coney Island:

As “garotas-peixe” dos shows de freaks não eram só entretenimento.

Eram cadeias de suprimento.

As sereias — híbridos, criaturas marinhas, seja lá o que fossem — nunca foram feitas para serem vistas por muito tempo. Eram anunciadas como criaturas raras, frágeis, e o público era avisado de que poderiam desaparecer a qualquer momento. Isso era verdade.

Só que não por motivos de conto de fadas. Revistas médicas dos anos 1910 falam de um influxo inexplicável de “proteína marinha” sendo estudada por médicos ligados ao Luna Park. Restaurantes na orla serviam orgulhosamente ensopado de sereia e filés de Netuno. Era piada, novidade. Todo mundo sabia que não era sereia de verdade.

Exceto que era.

Um livro de registros de um antigo açougueiro lista entregas do “S.S. Siren”, ancorado na baía de Gravesend, marcadas simplesmente como “carne longa: salgada.”

Outro eufemismo.

Outra mentira que todos concordaram em não examinar de perto.

Eles estavam comendo as caudas.

Não podiam, certo?

As caudas eram muito fibrosas, muito densas, cheias de cartilagem e ossos, certo?

Errado.

As sereias eram desossadas e cortadas em pedaços pequenos o suficiente para que ninguém precisasse pensar muito no que estava comendo.

Finalmente encontrei a prova em um lugar que não esperava: os próprios arquivos do Desfile do Dia da Sereia. O desfile começou nos anos 1980, com a intenção de reivindicar a magia estranha e perdida de Coney Island.

Os organizadores iniciais falavam em homenagear “aqueles que pertenciam ao mar, mas foram levados pela costa.” Eu achei que fosse metáfora. Até encontrar uma caixa de desenhos de fantasias rejeitadas.

Um esboço mostrava uma sereia com cicatrizes na cintura. Outro tinha uma etiqueta escrita em letra trêmula: “Nada de correntes. Sejam respeitosos.”

A nota anexa me gelou mais do que qualquer outra coisa que eu tinha lido.

“Nos vestimos para que elas não precisem mais fazer isso.”

A peça final veio de um restaurante fechado no extremo da orla, abandonado desde os anos 1970.

Eu me esgueirei para dentro — não foi difícil. Ninguém se importava com os prédios esquecidos da orla.

Vaguei pelo prédio sem direção. Estava procurando o que era a cozinha. Todas as salas estavam cinzas, vazias. Mas foi aí que eu encontrei.

Uma escada levando ao subsolo do prédio.

Eu nem sabia que tinha subsolo.

Encontrei algumas geladeiras industriais grandes. Algumas estavam abertas, vazias.

Mas algumas estavam trancadas com correntes.

Depois de arrebentar o cadeado enferrujado, vi ossos.

Não eram de peixe.

Também não eram humanos.

A pelve estava errada. A coluna se estendia demais, muito flexível. E as costelas. Meu Deus… as costelas curvavam-se para dentro, como se fossem feitas para se comprimir sob pressão d’água.

Na parede acima das geladeiras, riscadas em azulejos amarelados, estavam as palavras:

NÓS GRITAMOS. ELES CHAMARAM ISSO DE MÚSICA.

É por isso que você não encontra sereias em Coney Island hoje.

Elas não desapareceram.

Foram expostas, estudadas, esquartejadas e servidas com fatias de limão enquanto as pessoas riam da piada.

Quando alguém finalmente pensou em protegê-las, já restavam poucas, e o oceano aprendeu a não nos dar nada que pudesse gritar.

O Desfile da Sereia não é uma celebração. É um pedido de desculpas.

E se você for este ano, preste atenção quando os tambores pararem e a multidão se calar perto da água.

Às vezes, logo abaixo da superfície, algo canta de volta.

Não para te entreter — mas para te lembrar.

Se algo emergir só o suficiente para você confundir com madeira flutuante ou sombra, não se aproxime para ver melhor.

Coney Island já levou tudo o que lhe foi oferecido.

Da próxima vez, o oceano não estará oferecendo nada.

Estará coletando.

Porque agora, eles estão com fome.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Toda noite, alguém morre no meu sonho

Foi o grito mais doloroso que eu já ouvi na vida.

Aí acordei.

Faltavam só alguns minutos pro meu turno começar. Me recompus rápido, saí de casa e fui andando.

Mas as coisas que eu tinha visto ficaram na minha cabeça o caminho todo. No sonho, eu tava numa beco escuro. Correndo atrás de alguém. Tudo tava embaçado, como se eu tivesse vendo através de uma camada de neblina. Aí a mulher caiu. Uma mão subiu pro ar e um grito ecoou.

Nem lembro como cheguei no trabalho. O Fred acenou pra mim. Meu amigo mais próximo lá. A gente conversou um pouco. Fiz as tarefas de contabilidade de sempre.

Era só um pesadelo. Só um pesadelo.

Na noite seguinte, eu devia ter trabalhado até umas duas da manhã. Quando abri os olhos de repente, tava num lugar isolado, tipo entre dois prédios.

— Por favor, não… Por favor… Fica longe.

Virei a cabeça pra direita. Uma silhueta masculina tava no chão. Uma mão levantada, implorando.

— Por favor…

O som de um corpo sendo rasgado cortou as palavras dele. Nem um grito saiu. Só o último suspiro do cara. Eu não só ouvi.

Eu senti.

Quando acordei, tava na minha mesa. A luminária tava acesa. O despertador tava tocando do lado. Com dificuldade, estiquei a mão e desliguei. Devia tá com muita pressão no trabalho. Tantos relatórios pra fazer. Tantas coisas pra documentar. Minha mente tava tão emaranhada que devia ser por isso que eu tava tendo esses sonhos.

Então, mais um dia normal. Esqueci o pesadelo. Até ir pra cama naquela noite. Fiquei um tempo sentado na beirada da cama.

E se eu visse de novo?

Deitei e fiquei acordado por um bom tempo.

Outro pesadelo.

Dessa vez, eu não tava lá fora. Tava dentro de uma casa, meus passos ecoando. Uma mulher tava sentada no sofá assistindo TV. Ela não me viu. Eu fui em direção a ela. Mesmo quando tensei o corpo pra parar, nada mudou. Vi a faca na minha mão, levantada no ar. De repente, agarrei o pescoço da mulher e…

Melhor eu não escrever o resto.

E de novo, acordei. Coberto de suor.

O que tá acontecendo comigo?

Nem lembro como cheguei no trabalho. Quando o Fred me viu na porta, os olhos dele se arregalaram.

— Cillian, você tá bem?

Não queria preocupar ele. Só falei que não tinha conseguido dormir. Ele me comprou um café e me aconselhou a tomar um remédio pra dormir naquela noite. Por causa do meu estado, a ideia de remédios não parecia tão absurda. Naquela noite eu tomei e dormi bem, relativamente falando. No dia seguinte fui pro trabalho mais energizado. Nos próximos dias, nem sonhei. Pensei que o pesadelo tinha acabado.

Uns sete dias depois, uma noite, ouvi um choro de repente. Tava dentro de um galpão enorme, ou algo parecido. Mas dessa vez, era mais familiar que os outros lugares.

Era a fábrica abandonada logo fora da cidade. Quando o choro ficou mais alto, olhei pra baixo. Tinha um homem encolhido no chão. Um chute súbito na barriga fez ele se encolher ainda mais. A voz dele sumiu. A luz da lua entrava pela janela quebrada lá em cima. Vi o brilho da lâmina afiada. E então, como sempre, acordei.

Cheguei um pouco atrasado no trabalho. Encontrei meu chefe ranzinza. Tava certo que ele ia me dar uma palestra disciplinar de uma hora. Felizmente, o Fred interveio, disse que eu não tava bem nos últimos dias e me salvou.

— Obrigado, cara — falei. Assim que virei pra sair, ele segurou meu braço.

— Cillian, o que tá rolando?

— O que você quer dizer?

— Chegando no trabalho sem dormir, viajando… Você tá traindo a sua mulher?

— Eu nem sou casado, Fred.

Ele riu e deu um tapa no meu ombro.

— Tô brincando, relaxa um pouco.

Ri junto com ele. Afinal, ele era meu amigo. Não tinha motivo pra não contar o que tava passando. Me sentei e contei sobre os pesadelos que eu tava tendo. As versões menos sangrentas, pelo menos. Quando terminei, uma expressão pensativa tinha se instalado no rosto dele. Falei que eram coisas insignificantes. Mas ele levou tudo muito a sério. Na verdade, eu quase diria… ele tava com medo. Ele me fez um monte de perguntas. O que eu sentia no sonho, por exemplo — não emoções, mas coisas concretas: frio, luz, umidade…

Na maioria, só respondi que não sabia.

Finalmente, pra tranquilizá-lo, acrescentei que ia ver um psicólogo e voltei pro meu trabalho.

Naquela noite, a caminho de casa, começou a chover forte e durou a noite toda. Até lembrei disso enquanto adormecia.

E ao acordar.

Ouvi a chuva mais claramente. Tava encharcado. Tava lá fora. Tinha um lixo ao meu lado. Não conseguia definir exatamente onde tava. Na beirada da calçada, vi um homem gemendo. Pelo jeito que tava vestido, era óbvio que era um morador de rua. Ele tava gritando alguma coisa. O colarinho dele tava sendo puxado pra cima por alguém. Vi aquela faca, a mesma que sempre terminava meus sonhos; dessa vez, sangue pingava do metal frio. O homem soltou um gemido mais agudo. A faca tava prestes a cair e acabar com ele.

Mas parou, no ar, por segundos.

De repente, senti que alguém me observava. Alguém tava me olhando. Mas eu não conseguia ver. Mesmo assim, eu jurava.

Os olhos do morador de rua se desviaram da faca, pra outra coisa.

Aí o som da faca rasgando violentamente o casaco sujo ecoou nos meus ouvidos. Dessa vez… foi diferente. Mais cruel. Mais raivoso.

Acordei tremendo. Puxei o cobertor sobre mim. Tava escuro lá fora. Pensei que ia dormir um pouco mais.

Mas ainda tava com frio. Puxei o cobertor mais forte. O cobertor tava frio também.

Algo tava errado.

Quando liguei a luz, quase gritei com o que vi.

Tava molhado. Minha cama tava molhada. Água pingava onde eu tava em pé. Água escorria de mim. Será que eu tomei banho dormindo? Ou…

Sonhos realistas… os sons… a insônia sem fim…

Na minha mão direita, algo mais pingava junto com a água.

Sangue.

Mas eu não tava ferido.

Tinha manchas no meu pijama também. Pontilhadas.

Lembrei da chuva, quanto tinha caído… tinha parado agora, mas.

Será que foi um sonho? Ou… não foi? Eu matei eles? Todos eles…

Eu fiz isso.

Peguei o celular e liguei pro Fred. Falei pra ele vir na minha casa. Ele me perguntou mil vezes o que tava acontecendo e se eu tava bem. Só falei: vem.

Porque ele era o único que não ia ligar pra polícia quando me visse assim.

Quando ele bateu, corri pra abrir a porta. Como eu tinha imaginado, no instante em que me viu, ele cobriu a boca com a mão.

— Você… O que você fez?

Deixei ele entrar. Tava tremendo de frio, encharcado. Já tinha contado sobre os sonhos que tava tendo. Contei todos os detalhes daquela noite também.

— Acordei encharcado, Fred. E tem sangue. Tem sangue em mim. Eu tô fazendo isso. Não é sonho.

O rosto dele assumiu a expressão mais séria que eu já tinha visto.

— Eu devia ir pra polícia… Devia contar tudo. Eu matei todas aquelas pessoas. Sou um serial killer. Talvez tenha mais que eu nem lembro.

Enquanto eu entrava em pânico, andando de um lado pro outro e falando, ele sussurrou meu nome, fraco.

— Mas eu não fiz isso de boa vontade, eu não sabia. Os corpos… Eu não lembro depois de matar eles.

Ele disse meu nome de novo.

— Talvez eles estejam no meu porão, talvez eu tenha enterrado todos lá. Meu Deus… Eu tenho vivido por dias em cima de tantos cadáveres.

— Calma, Cillian.

Não tinha nem um pingo de pânico na voz dele. Tava me observando andar de um lado pro outro no quarto.

— Como eu posso? Como eu posso me acalmar? Eu sou um serial killer, Fred! Seu amigo é um matador! Como você tá tão calmo?

Até então, eu não tinha percebido. Ele tava sentado no sofá, pensativo. Nenhum sinal de pânico no rosto.

— Você não é um serial killer.

— Como você pode ter certeza? Tem sangue em mim. Tô encharcado. Eu matei aquele cara.

— Você não matou. Você assistiu.

Fiquei paralisado no lugar.

— O quê?

— Você assistiu a todos, Cillian. Acho que… você sempre esteve assistindo.

— Como… Como você sabe disso? Como você sabe que eu não os matei?

— Porque eu matei.

Recuei dois passos, chocado. Antes que eu conseguisse entender o que ele tinha dito, ele falou de novo.

— Eu devia ter percebido antes. Mas você… de algum jeito, você era invisível. Eu sempre senti. Sempre soube que não tava sozinho com eles. Mas quando você começou a falar dos sonhos, tudo ficou claro. Hoje à noite eu te vi, Cillian. Você tava me observando do canto. Como um fantasma. Aí você desapareceu. Você não fez isso. Mas você assistiu.

O Fred se levantou. Veio em minha direção.

— Não sei como isso tá acontecendo. Você… você é algum tipo de Ceifador.

Ele pegou a bolsa que tinha jogado no corredor quando entrou. Fiquei paralisado de choque enquanto ele passava por mim.

— Ainda não descobri o que é isso, Cillian. Você não é normal, você sabe disso agora. E tenho certeza que você não vai pra polícia até entender.

Ele olhou nos meus olhos. Me deu exatamente a mesma sensação que quando eu achava que estava sendo observado. Quando saiu, vi as marcas roxas no braço dele. Eram marcas de dedos, machucando o braço dele. Aquela mão… a mão que subiu no ar segurando a faca…

Ele bateu a porta e foi embora.

Eu ainda não fui à polícia. Não sei o que tá acontecendo, o que tá rolando aqui. Estou escrevendo isso pra ver se alguém pode me ajudar. Com coisas paranormais, ou qualquer campo que isso se encaixe. O Fred vai voltar por mim.

E eu tenho medo que a última coisa que eu assista seja o meu próprio assassinato.

Ela Foi Escolhida Muito Antes de Mim

É fácil admitir que meu mundo inteiro gira em torno da minha namorada. Eu sei que é vergonhoso ter sua vida inteira nas mãos de um parceiro romântico, mas ela preenche o vazio da minha vida vazia. Nunca fui próximo da minha família imediata e saí de casa aos dezoito anos. Agora tenho vinte e cinco, namorando felizmente minha parceira Isabel há quatro anos.

Nós nos conectamos logo no início do nosso relacionamento por causa das nossas famílias quebradas. Ela nunca entrou fundo na história da própria família e ficava desconfortável sempre que eu insistia em puxar o assunto. Ela tinha inúmeras cicatrizes espalhadas pelo corpo. A cicatriz mais assustadora — aquela que me abalou até os ossos — estava gravada bem no centro do corpo dela, cortada fundo na pele pálida: os números seis, seis, seis. Ela geralmente cobria com curativos de algum tipo, e levou muito tempo até ter coragem de me mostrar. Isso sozinho já deveria ter sido suficiente pra eu entender que o que ela passou foi um verdadeiro inferno na Terra.

Minha namorada sempre falou dormindo — algo que eu percebi quando começamos a morar juntos. Eu trabalho remoto e geralmente fico acordado até tarde, então ela sempre é a primeira a cair no sono. Na maioria das vezes é só baboseira, então eu ignorava.

Era uma noite normal de trabalho pra nós dois. Eu tinha acabado de lavar a louça enquanto Isabel corria pro quarto pra ler seu livro. Depois, fui até o quarto. Ela estava encolhida no canto da cama, focada no livro.

Eu interrompi: “Ei, preciso terminar umas coisas extras de trabalho.”

Ela levantou a cabeça, gemendo. “Ah, amor, sinto muito.”

Soltei um suspiro. “Vou terminar em umas duas horas, então descanse pra amanhã.”

Ela sorriu e pulou da cama, me abraçando. Sussurrei: “Eu te amo. Boa noite, minha deusa.”

Ela riu. “Eu te amo tanto. Vai dormir, meu Superman.”

Eu saí cambaleando pro escritório, amaldiçoando o trabalho que tinha que fazer.

Depois de algumas horas, entrei silenciosamente no quarto. O ambiente estava gelado enquanto eu me aproximava da cama. Isabel estava deitada de costas, soltando roncos suaves. Subi na cama com cuidado, sem querer acordá-la. Enquanto me ajeitava, virei pra ela, observando cada movimento minúsculo que ela fazia.

Beijei suavemente sua bochecha e sussurrei: “Boa noite, meu amor.”

Quando me virei e comecei a dormir, ouvi um risinho suave vindo da direção dela. Virei de novo — ela ainda estava profundamente dormindo. Não dei bola, fiquei olhando por alguns segundos.

Então ela começou a murmurar. Não conseguia entender, então aproximei o ouvido da boca dela. As palavras que saíram subiram de tom de repente.

“Eles precisam de mim. Querem me matar. Querem me levar.”

Ela repetia as mesmas palavras sem parar. O corpo dela lentamente se ergueu, sentando na cama. Num movimento rápido, a cabeça dela se virou pra mim.

Ouvi risinhos suaves atrás de mim. Senti a presença de alguém espreitando ali, enquanto o som abafava tudo o mais. Fiquei paralisado, ainda fixo em Isabel, enquanto ela continuava a cantarolar pra mim. Meu coração batia descontrolado, meus pensamentos se despedaçando.

Agarrei Isabel pelos ombros com força. Os risinhos sumiram. O canto parou imediatamente.

Ela abriu os olhos lentamente, me olhando com uma expressão confusa, mas acolhedora. Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu tentava falar, mas nenhuma palavra saía.

Ela inclinou a cabeça, confusa. “Amor, o que foi?”

Balancei a cabeça, ainda em choque com o que tinha acabado de acontecer. Ela sorriu — e então o sorriso começou a se alargar.

Num tom sombrio, ela sibilou: “Vou arrancar suas tripas e te pendurar como o maldito idiota que você é.”

O corpo dela relaxou, caindo na pilha de travesseiros.

Eu respirei, completamente atordoado. O quarto ficou em silêncio de novo. Deitei de novo, forçando-me a dormir e esquecer o horror que tinha acabado de testemunhar. Chorei em silêncio até finalmente adormecer.

Acordar com o sol cegante me atingindo nos olhos. Isabel tinha sumido da cama. Pulei sentado, procurando por ela freneticamente. Corri pro living e vi que o carro dela não estava. Percebi rapidamente que ela já tinha ido pro trabalho.

Ainda meio sonolento, cambaleei até a cozinha, onde uma nota dela me esperava. Era uma mensagem fofa de incentivo, dizendo que ia pegar uma sobremesa especial pra jantar. Não preciso dizer que eu não trabalhei naquele dia.

Todo o medo e confusão da noite anterior inundaram meus pensamentos. Passei o dia inteiro tentando racionalizar o que diabos tinha acontecido de verdade. Não tinha respostas. Não mandei mensagem pra ela, nem contei nada. Não queria estragar o dia dela com algo que eu mesmo não conseguia entender.

Honestamente, eu estava com medo. Chame de intuição, ou o que quiser, mas ela estava ciente naquele momento. Não sei se estava sob algum controle sobrenatural ou se estava brincando de um jeito horrível pra me fazer parar de trabalhar até tarde.

Eu temia as horas se esgotando até o pôr do sol.

Quando o sol se pôs, ouvi o ronco do carro dela entrando na garagem. Tremi ao me aproximar da porta da frente, as palmas das mãos suadas enquanto eu segurava a maçaneta. Forcei-me a avançar e abri a porta.

Fui recebido pelo sorriso mais lindo que já vi. Ela segurava um pacote de biscoitos do nosso lugar favorito da madrugada. Deixou-os cair e me abraçou.

“Senti tanta saudade de você,” ela sussurrou no meu ouvido. “Como foi seu dia?”

Eu me afastei devagar, o medo da noite anterior voltando com tudo. Ela me olhou, confusa.

“O que foi? Alguma coisa aconteceu hoje?”

Eu tremi. “Nada, amor. Só estou exausto. Tive muitas reuniões mais cedo.”

Ela sorriu e me abraçou de novo. Entramos e deitamos no sofá. Ela começou a mastigar os biscoitos enquanto eu a observava, a tensão aumentando no peito.

Sabia que tinha que perguntar. Me aproximei, mantendo contato visual.

“Algo estranho aconteceu ontem à noite,” eu sussurrei. “Você lembra de alguma coisa?”

Ela apertou minha perna. “Amor, para de brincadeira. Eu dormi a noite toda.”

Inclinei a cabeça, confuso.

De repente, um estrondo alto veio lá de fora.

“Você ouviu isso?” eu perguntei.

“Hehehe.”

Virei a cabeça rapidamente pra Isabel. Em puro horror, ela estava de quatro em cima do sofá, rindo de forma metódica.

No mesmo tom sombrio e familiar, ela sibilou: “Pare de fazer perguntas, ou vou te deixar numa poça de sangue.”

Eu gritei: “O que diabos você está fazendo?”

Ela desceu e se aproximou de mim. Senti sua respiração quente contra minha pele. Empurrei ela pra trás, gritando seu nome sem parar.

Ela caiu no chão, levantando a cabeça lentamente. “Por que você está gritando comigo? O que diabos deu em você?”

Ela se levantou, lágrimas escorrendo pelo rosto.

“Eu—eu—eu—”

“Me deixa sozinha essa noite e se controla,” ela disparou, entrando no quarto e batendo a porta.

Comecei a questionar minha sanidade. Fui pro quarto de hóspedes, revivendo tudo na minha cabeça.

Minha única conclusão foi que o trauma do passado dela estava se manifestando de algum jeito. Não era só imaginário — algo estava terrivelmente errado.

Finalmente adormeci.

Acordar com risinhos. Pulei da cama e acendi a luz — nada. Olhei no celular. 3:33 da manhã.

Os risinhos começaram de novo, dessa vez bem do lado de fora da porta. Fiquei preocupado com Isabel e corri pro quarto. A porta já estava aberta.

Ela tinha sumido.

Chamei seu nome repetidas vezes. Nenhuma resposta.

Então ouvi soluços baixos do banheiro. Me aproximei com cuidado e acendi a luz.

“Amor, o que você está fazendo?”

Ela estava ajoelhada no chão de azulejo frio. Preocupação me invadiu quando vi o sangue encharcando suas roupas. Corri até ela, implorando pra me dizer o que tinha acontecido.

Nenhuma resposta — só soluços.

“Eles estão aqui,” ela sussurrou. “Eu sinto.”

Risinhos explodiram atrás de nós.

Virei pra porta. Uma mulher estava ali, vestida com um manto vermelho, capuz puxado sobre o rosto. O cheiro de podridão encheu minhas narinas.

“Voltamos por você, minha filha,” ela cantarolou.

Ela ergueu uma faca de açougueiro.

Eu carreguei nela, a adrenalina tomando conta. Ela me esfaqueou nas costas enquanto eu a agarrava, levantando-a do chão. Gritando de dor, joguei ela pela janela sem hesitar.

O vidro se estilhaçou enquanto seu corpo tombava lá fora, batendo no chão. O ar frio invadiu o quarto enquanto eu olhava pra baixo, pra sua forma sem vida.

Quando olhei de volta, fiquei paralisado em choque completo. Em volta do lado direito da minha casa, havia quase quarenta pessoas vestidas de mantos vermelhos. Estavam paradas como estátuas, olhando diretamente pra mim.

Corri de volta pra Isabel, que ainda estava ajoelhada no chão, chorando. Exigi saber o que diabos estava acontecendo e pedi o celular dela. Ela levantou os olhos, cheios de lágrimas, e murmurou: “É minha família. Eu deveria ter te contado antes, mas eles nunca fizeram nada de errado comigo, como você sempre acreditou.”

Gaguejei: “Mas seu corpo — e você nunca quer falar do seu passado.”

Ela respondeu, baixinho: “Eu nasci pra ser um vaso. Eles adoram quem eu vou me tornar. Está quase na hora de eu entregar meu corpo e minha alma.”

Confuso além de qualquer compreensão, fiquei sem palavras. A adrenalina começou a desaparecer, e senti a dor aguda jorrando das costas. Cambaleei, puxando Isabel pra meus braços. Ela me abraçou, pedindo desculpas sem parar.

“Temos que ir embora ou chamar a polícia,” eu implorei.

Ela balançou a cabeça, recusando.

Eu me recusei a desistir. Levantei, segurando sua mão, implorando pra ela vir comigo. Cambaleamos até o quarto de hóspedes pra pegar meu celular. Quatro homens vestidos de mantos vermelhos subiram as escadas, bloqueando o corredor.

Cerrei os dentes e arranquei a faca das minhas costas. Eles vieram em cima de nós. Eu esfaqueei o primeiro no estômago, usei meu peso pra jogá-lo por cima da balaustrada. Outro homem me agarrou por trás, me jogando na parede. Fiquei preso pelos dois.

Fiquei ali, impotente, vendo o último homem arrastar a mulher da minha vida escada abaixo. Gritei e implorei pra eles pararem. Isabel nunca desviou o olhar de mim enquanto a levavam.

“Matt, eu te amo,” ela chorou. “Não importa quanto tempo leve — se eu ainda tiver uma alma, juro que vou te encontrar de novo!”

Eu não pude fazer nada além de assistir.

Fui arrastado escada abaixo e amarrado. Me levaram pra fora, onde fui recebido pela visão de uma cruz em chamas. Dezenas de figuras encapuzadas a cercavam. Me avisaram pra não dizer uma palavra. Fiquei completamente inútil, paralisado pela submissão.

Assisti enquanto Isabel era amarrada à cruz. Sua voz mudou para aquele mesmo tom sombrio enquanto proclamava: “Sim. Está na hora de eu renascer.”

Meu mundo inteiro foi destruído em segundos. Ela era minha alma gêmea — verdadeira e completamente.

Não sei quanto tempo o canto durou — minutos ou horas se misturaram enquanto o fogo subia mais alto.

Quando seu corpo foi engolido pelas chamas, algo mais surgiu. Uma abominação usando sua pele. A coisa se aproximou de mim, rindo maliciosamente. O cheiro de podridão saía da sua respiração enquanto rugia na minha cara.

“Você nunca mais vai vê-la,” ela zombou. “Ela está no inferno agora, queimando enquanto a gente fala.”

Mostrou suas novas presas a poucos centímetros do meu rosto.

Cuspi nela, recusando-me a falar. Ela me deu um tapa na cara e proclamou seu novo nome — Kali, a fonte da destruição do amor e da fé.

Ela pegou uma faca de um dos seguidores e a balançou na minha frente. Inclinando-se, sussurrou no meu ouvido: “Eu ainda tenho uso pra você, mortal.”

Tremi enquanto Kali cortava fundo no meu peito, gravando seus números na minha carne. A escuridão me dominou. A última coisa que vi foi o sorriso grudado no rosto lindo dela.

Acordar e descobrir que minhas feridas estavam completamente curadas.

Meses se passaram desde aquela noite. No começo, eu estava perdido. A pessoa a quem dediquei minha existência inteira tinha ido embora. Mas transformei aquele vazio em propósito.

Vingança.

Estou treinando. Me preparando. Sei que o culto e sua divindade ainda têm planos pra mim, mas eu vou atacar primeiro. Sigo cada pista, estudo cada rastro que eles deixaram.

Pela minha pesquisa, descobri que a cicatriz que Kali gravou no meu peito brilha sempre que estou perto dela.

Estou atualmente escondido perto da floresta na Costa Leste. A marca queimou há poucas horas. Há um rancho perto daqui onde membros proeminentes do culto residem.

Vou conseguir respostas.

E vou conseguir vingança.

Minha intuição me diz que Isabel ainda não sumiu completamente. Ela está presa — incapaz de seguir em frente — enquanto seu corpo ainda anda por esta Terra.

Eu vou te ver de novo, meu amor.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon