quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Minha experiência jogando com o tabuleiro Ouija...

Desde que a gente se conheceu, a gente sempre curtiu pra caralho contar histórias de fantasma. Na real, foi isso que nos uniu de verdade. Quando a gente era criança, ficava acordado até altas horas nas festinhas do pijama trocando histórias assustadoras. Eu poderia ter escrito um livro inteiro com todas as lorotas que eu contava pra ela, pro irmão e pra irmã dela. A satisfação que eu sentia vendo eles grudados em cada palavra minha, com aqueles olhos arregalados de medo...

Conforme a gente foi crescendo, isso virou assistir vídeo no YouTube de atividade paranormal e fenômenos bizarramente inexplicáveis. Depois a gente saía pra fazer nossas próprias caçadas a fantasma. Eu lembro que eles moravam no segundo andar, no apartamento dos fundos de um prédio antigo de dois andares no bairro Back of the Yards, em Chicago. Agora era a vez dela me contar histórias de fantasma. Só que dessa vez as dela eram de verdade.

Elas sempre envolviam o quartinho bem no fundo da casa. Um cômodo pequeno demais pra caber uma cama, então era onde ficava o computador da família. Era ali que a gente passava a maior parte do tempo vasculhando o YouTube atrás dos vídeos mais apavorantes que a gente conseguia achar. Ela vivia falando de como ouvia vozes. Aquele chiado de sussurros bem no ouvido dela quando estava sozinha. Até a mãe dela jurava que já tinha ouvido vozes estranhas saindo do quarto dos fundos.

Então, sempre que eu ia lá pra ficar, as histórias que eles contavam ficavam martelando na minha cabeça, me deixando com o ouvido ligado e olhando por cima do ombro o tempo inteiro.

Na maior parte do tempo eu nunca tinha vivido nada. Mesmo depois de todos aqueles vídeos sinistros que a gente assistia juntos, eu ainda não tinha presenciado porra nenhuma com meus próprios olhos. Isso até uma noite no verão de 2005. Ela me chamou pra ir lá depois da aula. A gente estudava na mesma escola. Normalmente o irmão e a irmã dela estavam por perto pra entrar na brincadeira macabra, mas acho que era sexta-feira, então eles deviam estar saindo com os amigos deles dessa vez.

Éramos só nós dois. Foi aí que minha amiga me mostrou que tinha comprado um tabuleiro Ouija. A gente sempre falava como seria foda pra caralho brincar com um, então ter um de verdade pra testar me deixou animadíssimo. Isso foi antes de todo mundo ter celular no bolso, então nas nossas caçadas a fantasma a gente geralmente filmava com a câmera digital Canon dela ou com o gravador de voz. Nessa noite a gente decidiu ir com o gravador de voz.

Era um dia quente pra porra em Chicago, máximas nos 80s. Quando entramos no quarto, eu lembro que estava abafado e úmido pra caralho, então minha amiga abriu uma fresta na janela pra deixar entrar uma brisa que simplesmente não existia. A gente limpou uma mesinha pequena, montou o tabuleiro e colocou o gravador de voz bem do lado. Os nervos já começaram a subir. A gente tinha passado a tarde toda maratonando nossos vídeos amadores de encontro com fantasma e fenômenos estranhos inexplicáveis, então o clima já estava tenso pra cacete. Ela colocou as mãos no planchette e eu fiz o mesmo. Ela explicou as regras: “A gente traça um oito três vezes e depois faz uma pergunta. Não solta até a gente dizer tchau pro tabuleiro, não importa o que aconteça.”

Minhas mãos já estavam suando frio. A gente fez o oito três vezes como ela mandou e deixou o planchette bem no meio do tabuleiro, com as nossas mãos descansando levemente em cima. “Vai, pergunta alguma coisa.” Ela me olhou com um sorrisinho de canto de boca; dava pra ver que ela também estava nervosa. “Tá bom. Tem alguém aqui nessa sala com a gente?” O silêncio era ensurdecedor. Eu lembro de conseguir ouvir meu coração batendo forte pra caralho no peito. Nada. “Tem alguém aqui? Fala com a gente.” A gente ficou sentado ali por um minuto inteiro, mas nada rolou. Minhas mãos estavam encharcadas de suor, segurando aquele planchette de plástico que brilhava fraquinho na luz baixa do quarto. Foi aí que eu tirei as mãos pra enxugar na calça... e aconteceu. Eu nunca vou esquecer essa merda.

Minha amiga ficou sentada ali, imóvel que nem estátua, mãos nunca saindo do planchette triangular. O cabelo dela caía na cara, fazendo sombra, mal dava pra ver o rosto dela. Ela falou. Mesmo estando bem na minha frente, eu não consegui entender porra nenhuma do que ela disse. “Quê?”, eu perguntei. Ela falou de novo, mas agora dava pra distinguir só um monte de besteira nessa voz rouca, gorgolejante, gutural pra caralho. Eu comecei a ficar apavorado de verdade. Chamei o nome dela: “Eu não tô entendendo nada do que você tá falando, para de brincar.” De repente eu senti a brisa mais gelada do mundo, tipo gelo puro, invadindo o quarto inteiro. Depois vieram aqueles estalos altos pra cacete de todos os cantos do quarto, igual quando a casa range de noite, só que nunca tinha sido tão alto e vindo de todo lado ao mesmo tempo.

Eu pirei completamente e pulei da cadeira. “Que porra tá acontecendo?!” Chamei o nome dela de novo. “Para de porra de brincar, eu tô com medo pra caralho!” Ela finalmente voltou a si. “Diz tchau. Você tem que dizer tchau”, ela me falou. Eu agarrei o planchette e a gente puxou ele pra baixo, até onde estava escrito “Goodbye” no pé do tabuleiro. Eu lembro de estar em pânico total, olhos enchendo de lágrima. “Tô fora, cara, eu não vou mexer com essa merda nunca mais”, eu falei. “Que porra aconteceu?! Você tá bem?” Eu nem conseguia firmar as mãos, tremendo pra caralho. “O que você tava falando? Você soava super estranha e eu não entendia nada do que você dizia.” Ela só me olhou, confusa. “Eu só tava fazendo a pergunta, tem alguém aqui com a gente.”

A gente ficou conversando sobre o que tinha rolado. Ela confirmou tudo que eu senti: o quarto ficou gelado do nada e ela também ouviu as paredes estalando e rangendo. Sobre ela ter começado a falar em línguas de repente, ela não tinha muita explicação. Tudo que eu sei é que ela estava falando sério pra caralho quando disse que não estava brincando. A única coisa que ela tinha perguntado foi exatamente aquela pergunta. Eu já tinha tido o suficiente. Estava tarde. Eu fui embora pra casa. Foi a caminhada de volta mais apavorante que eu já fiz na vida inteira.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Os Insetos Estão Ficando Maiores

"Você percebeu que os insetos estão ficando maiores, ou sou só eu?"

Não lembro quem disse isso no trabalho, mas a frase ficou martelando na minha cabeça enquanto eu terminava minhas tarefas. Foi uma frase tão casual, tipo um pensamento bobo de última hora. Eu já odiava insetos do jeito que eles são agora, exceto talvez as joaninhas, que até são legais. Só de pensar na frase eu já tremi e segui com meu dia. Empurrei aquilo pra fora da mente e pensei em outras coisas. O que eu ia fazer pro jantar, o que eu deveria escrever no meu diário, coisas desse tipo. Qualquer coisa pra manter minha cabeça longe de insetos gigantes.

Não posso dizer que sou a pessoa mais observadora do mundo, mas algumas semanas atrás eu vi uma aranha-saltadora na minha entrada de carro do tamanho de uma moeda de um dólar. Olha, onde eu moro elas normalmente são só do tamanho de centavos. Ver uma daquele tamanho me assustou pra caralho. Mantive distância, mas a última coisa que eu queria era aquele filho da puta peludo pulando na minha perna e me fazendo gritar tão alto que acordasse os vizinhos. Era grande, sim, mas não era nada fora do comum pra mim. Na minha opinião, todas as aranhas parecem ‘grandes demais’.

No dia seguinte, meu vizinho George bateu na minha porta e falou:

"Você não vai acreditar nisso."

"O que foi?", eu perguntei.

Ele estava com um sorriso enorme no rosto, quase eufórico. Tipo criança que acabou de encontrar algo que não devia. Ele acenou pra eu ir junto:

"Vem cá, me segue. Cara, espero que ele ainda não tenha voado!"

Calcei minhas chinelas e fui atrás dele pro quintal da casa dele. Assim que ele abriu o portão e apontou, meu queixo caiu ao ver um grilo do tamanho de um filhote de cachorro. O inseto gigante estava devorando o pé de tomate dele. As pernas traseiras esfregavam uma na outra fazendo um som de chirp surpreendentemente metálico e alto.

"Legal, né?"

"Legal se você acha que insetos nojentos são legais."

"Você acha que se eu começar a dar comida pra ele, ele fica por aqui, tipo um bicho de estimação?"

"Faça o que quiser, cara."

Naquela noite, os sons suaves normais dos grilos foram substituídos por um monte de chirps altíssimos, tão descarados quanto o grasnar de patos ou gansos. Enfiei tampões de ouvido e coloquei a música ambiente no volume máximo.

Acordei com um cachorro gritando, um som que gelava o sangue de qualquer um. Era um latido agudo, cheio de medo. Saí da cama e olhei pela janela do quarto pra ver o cachorro da outra vizinha, a Clara — um buldogue — se contorcendo na grama. Alguma coisa brilhante e preta estava enrolada nele, com pinças gigantes cortando a nuca dele.

Era a porra de uma centopeia.

Corri da cama, calcei os sapatos e saí correndo pra fora. Aquele cachorro podia até me acordar no meio da noite às vezes, mas nenhum animal de estimação merece aquela merda. Pulei a cerca e corri até o cachorro. A centopeia estava cravando as pinças no pelo, as centenas de pernas finas como lápis acariciando o corpo dele freneticamente. Quando eu agarrei ela, a sensação foi muito errada.

Quando você pega um inseto normal, ele parece estranho porque os animais geralmente são peludos ou têm textura dura. Insetos são diferentes: duros como pedra mas leves como uma pena. Quando peguei a centopeia, ela tinha peso, parecia que eu estava levantando uma cobra.

Ouvi uma voz:

"Que porra é essa?!"

Era a Clara, olhando em pavor pra mim enquanto eu arrancava aquele inseto do cachorro dela. Juro que, enquanto eu puxava, as pinças afundavam ainda mais no pelo. O sangue tingia o pelo branco do cachorro. Com um último puxão forte, arranquei ela do cachorro e as pinças levaram junto um pedaço de carne. Enquanto eu segurava aquilo nas mãos, ela se contorcia loucamente, as pernas se mexendo pra cima e pra baixo. Levantei ela acima da cabeça e joguei por cima da cerca na direção da rua, torcendo pra algum coitado passar por cima e ter que limpar as rodas.

Clara correu pro lado do cachorro e olhou os ferimentos.

"Que porra foi aquela?", ela gritou, "Pelo amor de Deus, o que era aquilo?"

"Eu não sei!", respondi, "Deve ter sido algum tipo de centopeia mutante ou sei lá o caralho!"

"Escuta… Obrigada, Burt!"

"Tranquilo, só leva ele pro veterinário agora mesmo!"

Ela assentiu e saiu correndo pro carro, deixando um rastro de sangue de cachorro pra trás.

No dia seguinte, antes de ir pro trabalho, eu estava cuidando do meu jardim e, embaixo da terra, alguma coisa enorme se mexeu. A pele rompeu a superfície da terra solta e eu vi um corpo grande, viscoso e cheio de anéis. Era claramente uma minhoca, mas também era algo gigantesco. Pensei em tocar nela, mas aí ela afundou de volta na terra.

Quando voltei pro trabalho, todo mundo estava reunido numa reunião discutindo como marketear um novo desodorante com cheiro de árvore Bradford Pear. Perguntei se alguém já tinha sentido o cheiro de uma árvore Bradford Pear e eles disseram que não. Quando eu contei como era o cheiro, eles piraram pensando em como vender aquilo. Fizemos um breve intervalo e, enquanto eu estava sentado perto de uma janela checando e-mails, ouvi um helicóptero passando. Só quando olhei pra fora que não vi helicóptero nenhum, mas ouvi o barulho pesado das hélices.

Aí eu vi o besouro-de-junho, com a casca verde-azulada brilhando sob o sol quente. A princípio parecia de tamanho normal, até eu perceber que ele estava bem longe. As asas batiam tão alto que pareciam um helicóptero. Levantei o celular pra tirar uma foto e foi aí que ele voou na minha direção. Não era pra me atacar, por assim dizer, ele só estava voando sem rumo. Quando passou perto da janela, o tamanho real ficou óbvio. Ele pairou do meu lado; as asas subiam e desciam rápido e barulhentas, fazendo as janelas tremerem. O besouro-de-junho era mais ou menos do tamanho de um urubu, a envergadura era absurdamente grande, e de perto dava pra ver aquelas pernas gigantes penduradas como pêndulos. Ele olhou pro reflexo dele por um segundo e depois zumbiu embora.

Quando eu estava dirigindo de volta pra casa, vi luzes piscando em volta de um acidente de carro. Na pista, tinha um carro virado e, do lado, um besouro-rinoceronte do tamanho de um cavalo, cheio de buracos de bala. Pus esverdeado escorria dos furos e pingava no asfalto. Baixei o vidro e perguntei pra um policial:

"Ei, que porra aconteceu aqui?"

O policial olhou pra trás pro cenário e voltou os olhos cansados pra mim:

"Estamos recebendo chamados assim a semana toda, mas os caras da delegacia achavam que era algum tipo de pegadinha elaborada. Aí recebemos uma ligação sobre um besouro virando um carro. Quando chegamos, não esperávamos ver aquela coisa correndo por aí. Ele partiu pra cima da gente e nós só abrimos fogo."

"Tem outros… desse tipo?"

"Insetos grandes? Não sei… talvez."

Ele fez sinal pra eu seguir e eu fui pra casa.

Tive muita dificuldade pra dormir, por razões óbvias. Eu não fazia ideia do que caralhos estava acontecendo com o mundo ao meu redor. Aqueles insetinhos insignificantes que se arrastavam debaixo dos nossos pés estavam simplesmente ficando maiores e maiores a cada dia. Eu estava quase pegando no sono quando ouvi alguma coisa empurrando e abrindo minha porta. Olhei por cima dos lençóis e vi algo me encarando da porta. Aquilo preenchia todo o batente, o corpo era imenso, e no escuro eu não conseguia identificar o que era. Coloquei meus óculos e peguei o celular. Acendi a lanterna e iluminei aquela forma escura gigantesca na minha frente… e queria não ter feito isso.

A aranha-saltadora tinha voltado.

Tudo por algumas garrafas de vinho

Caramba, isso não era nem um pouco o que eu esperava. Quando ouvi o Sam falando sobre um velho dirigível na floresta, achei que ele estava zoando. Só o tamanho da coisa já era de tirar o fôlego. Mesmo de longe não parecia real. Parecia algo que alguém tinha editado na paisagem por engano.

Era fim de tarde quando chegamos lá. A floresta estava presa naquele estranho lusco-fusco dourado, onde tudo fica laranja e silencioso. As árvores eram altas e finas, e a luz passava por entre elas em longos feixes. Poeira e pólen flutuavam no ar, brilhando levemente. O lugar todo parecia mais lento, como se estivesse prendendo a respiração.

No começo, eu estava bem cético sobre ir com o Sam. Ele tinha falado que era uma caminhada de 5 quilômetros mata adentro, e eu não sou muito fã de trilha. Quando chegamos perto, minhas pernas estavam doendo e a camisa grudada nas costas de suor. Mas no segundo em que vi o dirigível entre as árvores, esqueci tudo isso.

Era enorme. A carcaça de metal estava rasgada de um lado, como se algo tivesse cravado as garras nela. O tecido que um dia cobria a estrutura pendia em tiras do esqueleto, desbotado e quebradiço. Partes da carenagem externa tinham desabado para dentro, e cipós já começavam a subir pelas costelas quebradas da estrutura. Musgo se espalhava pela superfície em grandes placas, verde vibrante contrastando com o cinza opaco do metal.

Pelo que parecia, ele tinha caído direto na floresta. Várias árvores ao redor estavam partidas ao meio. Outras inclinavam em ângulos estranhos, como se tivessem tentado sair do caminho tarde demais. O chão estava irregular, coberto de galhos e pedaços de metal meio enterrados na terra. O estranho era que, embora o local do acidente estivesse selvagem e bagunçado, o interior parecia quase… arrumado com cuidado.

A gente passou por um rasgo grande no casco. O ar lá dentro estava mais fresco. Cheirava a ferrugem, madeira úmida e algo levemente doce, talvez tecido velho. A maior parte da estrutura agora parecia oca. As paredes curvavam sobre nossas cabeças, com costelas de metal arqueando como o interior de um esqueleto gigante. A luz entrava por fendas e buracos, formando formas pálidas no chão.

Havia destroços por todo lado, mas não parecia caótico. Os bancos estavam soltos, mas não destruídos completamente. Caixotes tinham rachado, mas o conteúdo ainda estava agrupado por perto. Papéis, agora amarelos e frágeis, formavam pequenas pilhas em vez de estarem espalhados para todo lado. Quase parecia intencional. Como se alguém tivesse arrumado tudo depois do acidente e depois simplesmente ido embora.

O metal estava enferrujando feio. Quando toquei de leve numa superfície, flocos saíram e grudaram nos meus dedos. Alguns painéis estavam amassados para dentro, outros retorcidos. Fios pendiam soltos do teto. Em alguns pontos o chão cedia um pouco sob nosso peso, fazendo um som oco e abafado.

Considerando o tempo que aquilo devia estar ali, não seria surpresa se tivesse virado casa de todo tipo de bicho. E tinha mesmo. Insetos andavam pelas vigas. Roedores disparavam entre as sombras. Eu até vi sapos descansando em pequenas poças formadas nas depressões rasas do chão. Por fora estava coberto de musgo, mas por dentro estava mais limpo do que eu imaginava. Empoeirado, sim. Velho, com certeza. Mas não completamente dominado pela natureza.

O Sam e eu tínhamos nossas lanternas e uma mochila pequena com suprimentos. Éramos imprudentes, mas não completamente idiotas. Os feixes de luz cortavam o interior escuro, iluminando a poeira que flutuava. Todo som que fazíamos parecia mais alto do que deveria. Nossos passos. Nossa respiração. Até o leve arrastar dos nossos sapatos no metal.

Foi aí que eu encontrei o caixote.

Ele estava guardado perto do que parecia ser uma área de armazenamento. A madeira tinha apodrecido e rachado, mas dentro havia várias garrafas cheias de líquido vermelho. Algumas tinham quebrado, e o conteúdo secou há muito tempo, manchando o chão. Outras estavam intactas e perfeitamente lacradas, cobertas por uma fina camada de sujeira.

Limpei uma com a manga da camisa e li o rótulo. Vinho tinto. Zinfandel. Chamei o Sam. Ele deu um assobio baixo.

Como dizem que vinho fica melhor envelhecido, achamos que podíamos levar algumas das garrafas intactas. Parecia que tínhamos achado um tesouro. Algo normal e valioso no meio de toda aquela estranheza.

Depois que guardamos algumas garrafas na mochila, decidimos que era hora de cair fora. A floresta lá fora estava ficando mais escura. A luz laranja tinha dado lugar a algo mais cinzento e fraco. As sombras dentro do dirigível se alongavam, preenchendo as paredes curvas.

Voltamos com cuidado por entre os destroços. O interior parecia mais silencioso do que antes. Até os insetos estavam menos ativos. Ou talvez a gente só estivesse prestando mais atenção.

Foi nesse momento que o Sam parou.

— Ei, Arch — disse ele, sem se virar. — Este zepelim voava com a ajuda de um piloto, né?

— É — respondi. — Provavelmente precisava até de uma equipe de pilotos.

— E devia ter passageiros também.

— É, provavelmente alguns.

De repente, uma barata voou direto na minha cara. Pulei para trás, me contorcendo de nojo. Minha lanterna piscou na minha mão, a luz enfraquecendo e fortalecendo de forma irregular. O interior ao nosso redor pareceu ficar mais escuro por um segundo.

Enquanto eu tentava consertar a lanterna, o Sam falou de novo, a voz mais baixa agora:

— Se tinha gente neste dirigível… por que não tem nenhum corpo ou esqueleto por aqui?

Ele Salvou Minha Vida Oito Anos Atrás. Acho Que Ele Planejou Tudo...

A parada da gratidão é que ela te desarma. É pra isso mesmo.

Oito anos atrás eu tinha vinte e quatro anos, tinha acabado de me mudar pra Chicago e não conhecia ninguém. Estava voltando pra casa do trem numa noite de quarta-feira em novembro quando escorreguei numa placa de gelo bem no topo da entrada de uma escadaria subterrânea — aquelas que descem pra um nível de rua mais baixo: oito degraus de concreto com um corrimão enferrujado que não estava parafusado direito. Eu passei por cima do corrimão. Não lembro da queda. Lembro do gelo debaixo da minha mão e, logo depois, de um homem agachado do meu lado no escuro, dizendo meu nome.

Na hora eu nem registrei essa parte. Ele disse meu nome. Eu estava com concussão, apavorada, e não registrei.

Ele ligou pro 911, ficou até a ambulância chegar, deu depoimento pro paramédico e sumiu antes que eu conseguisse agradecer direito. Tive uma concussão leve, duas costelas trincadas e um corte feio no antebraço esquerdo que precisou de onze pontos. A enfermeira do pronto-socorro falou que eu tive sorte de alguém estar ali. Aquela escadaria não era lugar de muito movimento. Já passava das dez da noite. Eu podia ter ficado ali horas.

Pensei nele de vez em quando durante algumas semanas, daquele jeito que a gente pensa num estranho que muda sua vida pra sempre — uma gratidão sem forma e sem endereço pra mandar. Depois parei de pensar. Segui a vida.

Ele se apresentou direito seis meses depois, numa cafeteria no Logan Square. Ele me reconheceu, disse ele, daquela noite. Tinha ficado preocupado comigo, disse. Ficou feliz de me ver bem.

O nome dele era Daniel. Tinha trinta e um anos, bonito de um jeito comum, aquele rosto que demora umas duas ou três vezes pra você gravar. Trabalhava com seguro. Tinha um jeito tranquilo, sem pressa, e uma forma de escutar que fazia você sentir que qualquer coisa que você estivesse falando era a coisa mais interessante que ele tinha ouvido na semana inteira.

A gente namorou dois anos.

Eu terminei por motivos que na época pareciam claros e que depois parei de confiar.

Ele não era cruel. Não era controlador do jeito que avisam as mulheres pra tomar cuidado. Não me isolava dos amigos, não ficava checando meu celular nem mandando no que eu vestia. Era atencioso, paciente, e quando eu dizia que precisava de espaço ele dava espaço. Quando eu dizia que estava infeliz ele fazia perguntas e escutava as respostas. Eu não conseguia apontar uma única coisa concreta.

Eu só sabia, daquele jeito que às vezes a gente sabe antes de conseguir provar, que tinha alguma coisa errada. Não nas coisas que ele fazia, mas na textura por baixo delas. O jeito como a consideração dele sempre parecia um pouco ensaiada. O jeito como o instinto dele sobre o que eu precisava era bom demais, consistente demais — como se ele não estivesse reagindo a mim, mas executando um plano pra mim que tinha desenhado em outro lugar.

Eu falei pra mim mesma que eu era quebrada. Tinha saído de um relacionamento ruim antes dele e falei pra mim mesma que estava sabotando uma coisa boa porque não acreditava que merecia. Falei isso na terapia. Minha terapeuta na época concordou que era possível.

Eu terminei mesmo assim. Ele aceitou sem discutir, o que deveria ter sido um alívio e, em vez disso, piorou tudo.

Não tive notícia dele por três anos. Me mudei pra outro bairro, troquei de emprego, reconstruí minha vida num formato que parecia meu. Pensava nele de vez em quando do mesmo jeito que pensava na queda: como um capítulo que tinha sido fechado.

Então, dois anos atrás, ele salvou minha vida de novo.

Não uso essa frase à toa. Eu estava numa faixa de pedestres perto do meu trabalho quando desci da calçada e um carro furou o sinal em alta velocidade. Daniel me puxou de volta pelo braço. Com força, as duas mãos, o peso dele contra o meu. O carro passou exatamente onde eu estava segundos antes e nem parou.

Eu tremia tanto que tive que sentar na calçada. Daniel agachou do meu lado e disse meu nome de novo, exatamente do mesmo jeito que tinha dito na escadaria oito anos antes. Quando olhei pra ele, ele também parecia abalado, pálido embaixo dos olhos, a respiração irregular.

“Você precisa tomar mais cuidado”, ele disse.

“O que você tá fazendo aqui?”

“Trabalho a dois quarteirões daqui. Comecei tem mais ou menos um mês.”

Eu acreditei. Agradeci. Deixei ele me pagar um café e fiquei sentada de frente pra ele até minhas mãos pararem de tremer. Ele não forçou nada. Não sugeriu a gente se reconectar. Me acompanhou até a porta do escritório e disse que estava feliz que eu estava bem. Depois foi embora.

Pensei naquilo duas semanas antes de fazer qualquer coisa.

Quero deixar bem claro o que me fez começar a investigar, porque eu sei como isso soa. Sei que soa como uma mulher que não consegue aceitar que um homem a amava e inventou um motivo pra transformar isso em algo sinistro. Eu mesma pensei isso, por bastante tempo.

O que me fez começar a investigar foi a coisa que ele disse na escadaria. Meu nome. Ele tinha dito meu nome antes de eu falar qual era. Eu nunca tinha contado isso pra ninguém. Tinha me convencido de que tinha me apresentado, que a concussão simplesmente apagou o momento. Mas dois anos atrás, parada naquela calçada, repassei tudo pela primeira vez com a cabeça limpa.

Eu não tinha me apresentado. Ele disse meu nome, esperou a ambulância, sumiu e reapareceu seis meses depois como um estranho que reconhecia meu rosto.

Ele sabia quem eu era antes mesmo de eu cair.

Quero contar o que eu descobri. Quero, mas preciso que vocês entendam que o que eu descobri não é prova de crime. Não é prova de nada, no sentido legal. Sei disso porque conversei com um advogado e com um detetive que é amigo de um amigo, e os dois falaram a mesma coisa com palavras diferentes.

Eu encontrei registros dele na minha vida antes da escadaria. Não muitos, nada óbvio. Um comentário num post público de rede social cinco meses antes da queda. Uma foto de uma festa de um amigo em comum, tirada meses antes da queda, na qual eu apareço ao fundo e ele também. Eu nunca tinha ido a uma festa onde conhecia ele. Perguntei pra minha amiga. Ela não lembrava dele estar lá. Ele aparecia ao fundo em três fotos daquela noite — exatamente no mesmo fundo onde eu também estava.

Voltei pra escadaria no Google Maps e passei duas horas no Street View olhando os ângulos.

O corrimão que eu passei por cima ficava do lado direito. Eu só teria batido nele vindo de uma direção específica, aproximando do oeste. Eu sempre voltava pra casa pela saída oeste da estação de trem. Todo santo dia, mesma rota. Ele teria que saber disso. Teria que ter sabido.

Tem um bar do outro lado da rua da escadaria. Liguei pra eles. As câmeras externas, que ficavam de frente pra entrada da escadaria, estavam quebradas durante as seis semanas em torno da minha queda. Tinham quebrado desde uma tempestade em outubro. Foram consertadas em janeiro.

Não estou dizendo o que estou dizendo. Quero ser cuidadosa. Estou só colocando o que encontrei e deixando ali.

Contei pra uma amiga. Ela escutou um tempão e depois falou: mas por quê. Por que alguém faria isso. Por que alguém ia planejar uma queda numa escadaria, ficar tempo suficiente pra chamar o 911 e voltar seis meses depois.

Pensei bastante nisso.

Acho que existem pessoas que precisam ser necessárias de um jeito que a vida comum não consegue satisfazer. Acho que existem pessoas que não suportam a ideia de alguém sobreviver sem elas. Acho que existem pessoas que decidem, por motivos que ninguém consegue mapear direito, que uma pessoa específica é delas pra salvar, e que o ato de salvar em si é uma espécie de posse, e que a única forma de segurar alguém é continuar sendo o motivo de ela estar viva.

Acho que Daniel me observou por meses em 2016, escolheu um dia e um lugar, soltou um corrimão que já estava quase caindo, e depois ficou parado no escuro esperando. Quando eu caí, ele estava lá antes de eu chegar no chão.

Acho que ele esteve nas margens da minha vida desde então, observando da distância que precisava, e quando eu me afastei demais da história que ele tinha escrito pra mim, ele arrumou um motivo pra se colocar no meu caminho numa rua movimentada e esperou o sinal abrir.

Acho que ele acredita que me ama. Acho que pode até estar certo, na definição de amor que permite isso.

Eu me mudei. Não vou dizer pra onde. Variei minhas rotas, não mantenho horário fixo e não postei nada público desde que encontrei as fotos.

O detetive me falou pra documentar tudo, e é isso que estou fazendo escrevendo aqui. Ele disse que sem uma ameaça direta não tinha muito que ele pudesse fazer — a mesma coisa que me falaram todas as vezes que tentei explicar isso pra alguém em posição de ajudar.

Aqui está o que eu não contei pro detetive porque ainda não consegui falar em voz alta.

A faixa de pedestres foi há dois anos. Passei dois anos olhando por cima do ombro e não encontrei nada. Nenhum contato, nenhuma aparição, nenhum sinal.

Dois meses atrás fui diagnosticada com uma arritmia cardíaca. Leve, controlável, pega cedo por uma cardiologista que me falou que eu tive sorte de ter ido naquele momento. Exatamente o momento certo. Ela disse que se tivesse ficado sem diagnóstico mais seis meses, os riscos aumentavam muito.

Nunca tive problema de coração antes. Não fui na cardiologista por causa do coração. Fui porque minha nova médica de família flagrou alguma coisa num exame de sangue de rotina e me encaminhou.

Minha nova médica de família veio super recomendada. Encontrei ela num fórum do bairro ano passado, quando estava me instalando num lugar que ele não sabia que eu tinha me mudado.

Pesquisei quem tinha postado a recomendação.

A conta tinha nove meses de existência. Três posts, todos recomendações de serviços locais. Sem foto, sem histórico.

O nome de usuário era uma sequência de letras aleatórias que não significavam nada… até eu olhar por tempo suficiente.

Eram minhas iniciais e minha data de nascimento numa sequência que só alguém que me conhecesse há oito anos pensaria em juntar.

Fechei o laptop e fiquei um tempão sentada na cozinha.

Ele não está mais só observando das margens.

Ele esteve dentro da história o tempo todo.

Estou escrevendo isso porque não sei mais o que fazer com essa história. A polícia precisa de um crime. Meus amigos precisam de algo que consigam imaginar. Meu advogado precisa de prova que aguente um processo.

Tudo que eu tenho é um homem que salvou minha vida duas vezes. Um homem atencioso, paciente, que planeja as coisas com muita antecedência e nunca, em momento nenhum, levantou a voz, fez ameaça ou fez qualquer coisa que parecesse alguma coisa pra quem não soubesse exatamente o que estava olhando.

Fico pensando no que ele falou, parado naquela calçada com as mãos nos meus braços e o carro já longe.

“Você precisa tomar mais cuidado.”

Na hora achei que era alívio misturado com susto. Achei que era preocupação.

Fiquei repassando e não consigo chegar em alívio. Não consigo chegar em preocupação.

Soa como instrução. Soa como algo que você fala pra alguém cuja sobrevivência você decidiu que é sua responsabilidade.

Soa como uma promessa.
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Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon