Era fim de tarde quando chegamos lá. A floresta estava presa naquele estranho lusco-fusco dourado, onde tudo fica laranja e silencioso. As árvores eram altas e finas, e a luz passava por entre elas em longos feixes. Poeira e pólen flutuavam no ar, brilhando levemente. O lugar todo parecia mais lento, como se estivesse prendendo a respiração.
No começo, eu estava bem cético sobre ir com o Sam. Ele tinha falado que era uma caminhada de 5 quilômetros mata adentro, e eu não sou muito fã de trilha. Quando chegamos perto, minhas pernas estavam doendo e a camisa grudada nas costas de suor. Mas no segundo em que vi o dirigível entre as árvores, esqueci tudo isso.
Era enorme. A carcaça de metal estava rasgada de um lado, como se algo tivesse cravado as garras nela. O tecido que um dia cobria a estrutura pendia em tiras do esqueleto, desbotado e quebradiço. Partes da carenagem externa tinham desabado para dentro, e cipós já começavam a subir pelas costelas quebradas da estrutura. Musgo se espalhava pela superfície em grandes placas, verde vibrante contrastando com o cinza opaco do metal.
Pelo que parecia, ele tinha caído direto na floresta. Várias árvores ao redor estavam partidas ao meio. Outras inclinavam em ângulos estranhos, como se tivessem tentado sair do caminho tarde demais. O chão estava irregular, coberto de galhos e pedaços de metal meio enterrados na terra. O estranho era que, embora o local do acidente estivesse selvagem e bagunçado, o interior parecia quase… arrumado com cuidado.
A gente passou por um rasgo grande no casco. O ar lá dentro estava mais fresco. Cheirava a ferrugem, madeira úmida e algo levemente doce, talvez tecido velho. A maior parte da estrutura agora parecia oca. As paredes curvavam sobre nossas cabeças, com costelas de metal arqueando como o interior de um esqueleto gigante. A luz entrava por fendas e buracos, formando formas pálidas no chão.
Havia destroços por todo lado, mas não parecia caótico. Os bancos estavam soltos, mas não destruídos completamente. Caixotes tinham rachado, mas o conteúdo ainda estava agrupado por perto. Papéis, agora amarelos e frágeis, formavam pequenas pilhas em vez de estarem espalhados para todo lado. Quase parecia intencional. Como se alguém tivesse arrumado tudo depois do acidente e depois simplesmente ido embora.
O metal estava enferrujando feio. Quando toquei de leve numa superfície, flocos saíram e grudaram nos meus dedos. Alguns painéis estavam amassados para dentro, outros retorcidos. Fios pendiam soltos do teto. Em alguns pontos o chão cedia um pouco sob nosso peso, fazendo um som oco e abafado.
Considerando o tempo que aquilo devia estar ali, não seria surpresa se tivesse virado casa de todo tipo de bicho. E tinha mesmo. Insetos andavam pelas vigas. Roedores disparavam entre as sombras. Eu até vi sapos descansando em pequenas poças formadas nas depressões rasas do chão. Por fora estava coberto de musgo, mas por dentro estava mais limpo do que eu imaginava. Empoeirado, sim. Velho, com certeza. Mas não completamente dominado pela natureza.
O Sam e eu tínhamos nossas lanternas e uma mochila pequena com suprimentos. Éramos imprudentes, mas não completamente idiotas. Os feixes de luz cortavam o interior escuro, iluminando a poeira que flutuava. Todo som que fazíamos parecia mais alto do que deveria. Nossos passos. Nossa respiração. Até o leve arrastar dos nossos sapatos no metal.
Foi aí que eu encontrei o caixote.
Ele estava guardado perto do que parecia ser uma área de armazenamento. A madeira tinha apodrecido e rachado, mas dentro havia várias garrafas cheias de líquido vermelho. Algumas tinham quebrado, e o conteúdo secou há muito tempo, manchando o chão. Outras estavam intactas e perfeitamente lacradas, cobertas por uma fina camada de sujeira.
Limpei uma com a manga da camisa e li o rótulo. Vinho tinto. Zinfandel. Chamei o Sam. Ele deu um assobio baixo.
Como dizem que vinho fica melhor envelhecido, achamos que podíamos levar algumas das garrafas intactas. Parecia que tínhamos achado um tesouro. Algo normal e valioso no meio de toda aquela estranheza.
Depois que guardamos algumas garrafas na mochila, decidimos que era hora de cair fora. A floresta lá fora estava ficando mais escura. A luz laranja tinha dado lugar a algo mais cinzento e fraco. As sombras dentro do dirigível se alongavam, preenchendo as paredes curvas.
Voltamos com cuidado por entre os destroços. O interior parecia mais silencioso do que antes. Até os insetos estavam menos ativos. Ou talvez a gente só estivesse prestando mais atenção.
Foi nesse momento que o Sam parou.
— Ei, Arch — disse ele, sem se virar. — Este zepelim voava com a ajuda de um piloto, né?
— É — respondi. — Provavelmente precisava até de uma equipe de pilotos.
— E devia ter passageiros também.
— É, provavelmente alguns.
De repente, uma barata voou direto na minha cara. Pulei para trás, me contorcendo de nojo. Minha lanterna piscou na minha mão, a luz enfraquecendo e fortalecendo de forma irregular. O interior ao nosso redor pareceu ficar mais escuro por um segundo.
Enquanto eu tentava consertar a lanterna, o Sam falou de novo, a voz mais baixa agora:
— Se tinha gente neste dirigível… por que não tem nenhum corpo ou esqueleto por aqui?


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