quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Silêncio de Rádio

A viagem de volta pra casa foi mais silenciosa do que eu gostaria. O vento sacudia meu Saturnzinho 99 como se fosse uma lata amarrada atrás de uma bicicleta, e o rádio estava morto desde mais ou menos 2010. Jess me encarava de lado, e eu sentia o olhar dela queimando na minha orelha. Tentei ignorar o máximo que consegui, mas a estrada era longa e reta, e o vento não era distração suficiente pra justificar deixar aquele olhar no vácuo.

“Sim, amor?” perguntei, tentando soar desarmado. Eu já sabia exatamente o que ela estava pensando; era a mesma conversa que a gente tinha tido pelo menos quatro vezes. Toda vez que saíamos pra jantar e algum amigo anunciava noivado, eu era submetido àquele olhar de sniper que não combinava nada com uma professora do ensino fundamental.

“Quanto tempo faz, Blake?” perguntou ela. A voz não estava irritada. Era pior: estava triste, arrasada.

“Quanto tempo faz o quê? A gente tá dirigindo…” Olhei pro celular no colo, o que me rendeu um tapa forte no ombro. “Tá, tá, dez e dois, olhos na estrada. Uns vinte minutos, mais ou menos. Ainda faltam umas ho—”

“Não é isso que eu tô perguntando, e você sabe muito bem, porra.” Ela cortou. Arrisquei uma olhada de canto e só vi a nuca dela. Estava olhando fixo pela janela, furiosa. Suspirei e coloquei a mão no joelho dela.

“Você tem razão. Mas você já sabe o que eu vou dizer, Jessamess. Nenhum de nós dois tá em condições de casar agora. Quer dizer, minha carreira inteira foi pro caralho depois daquele acordo desastroso do Elderson, e você não ganha o suficiente pra bancar nós dois.” Pelo menos isso fez ela virar o rosto pra mim. Também fez ela tirar minha mão da perna dela. Pois é, ganha-se uns, perde-se outros.

“É. Eu sei. Mas faz sete anos, Blake. Sete anos. Ano passado era porque você tava correndo atrás de promoção, antes disso era porque você não ganhava o bastante, e antes ainda era porque você queria voltar a estudar. Qual vai ser a desculpa no ano que vem?” Caralho, doeu. Senti aqueles olhos cor de café com creme de avelã queimando a lateral da minha cabeça como queimadura de sol. Só suspirei, abri um pouco a janela e peguei um cigarro no console central. Apertei o isqueiro. Um clique metálico satisfatório depois, tirei o isqueiro quente e encostei a bobina laranja incandescente na ponta do meu cigarro premium cheio de câncer. Mal dei a primeira tragada profunda e gostosa, Jess me deu outro soco no braço.

“Porra! Que isso?!” gritei, quase perdendo o controle do sedã verde-musgo na estrada de duas faixas. Estiquei o cigarro pra fora da janela, a fumaça ainda saindo dos meus lábios franzidos. Dessa vez nem olhei pra ela. Sabia que ela tinha passado do estágio de chateada e entrado direto na zona de Jessica Realmente Puta da Vida. Mantive os olhos na estrada. Aquela faixa longa, reta e monótona de asfalto preto cortando o meio do nada absoluto do Kansas. Mas antes que minha namorada — talvez noiva — pudesse responder, o rádio no console acendeu. Uma luz âmbar saiu da telinha velha, mostrando um “12:00” piscando.

“Que porra é essa—” Jessica começou, mas foi interrompida quando o rádio explodiu em ruído branco. Desviei o carro, tirei a mão livre do volante e girei o botão de volume pra baixo. Não adiantou. O rádio continuou berrando estática, os alto-falantes do carro trovejando com o som de radiação cósmica que, de algum jeito, a antena tinha captado e transformado em ondas chiando e estalando. Jessica enfiou o dedo bem cuidado no rádio, tentando calar aquele treco morto há anos, mas nada. Nenhum botão funcionava. O mostrador digital da frequência começou a subir: 87.9, 99.5, 100.3, tudo estática. Subiu cada vez mais rápido, os números passando num piscar tão veloz que meus olhos mal acompanhavam. 105.1, 109.9, 111.1.

Consegui jogar o carro de volta na faixa da direita bem na hora que um par de faróis passou voando na contramão. Virei a cabeça pra olhar, depois voltei rápido pra estrada e pro rádio, nessa ordem. 135.6. 178.3. 245.7. Frequências impossíveis, muito além da faixa que qualquer emissora usaria ou qualquer rádio conseguiria sintonizar. O visor acelerou ainda mais, piscando, enquanto a estática continuava num ritmo estranho que quase acompanhava o uivo do vento nos meus ouvidos. 999.9. O visor travou ali, mas eu tinha certeza de que o rádio ainda estava varrendo todas as frequências possíveis até sabe-se lá onde.

E então, ouvimos uma voz.

“Bem-vindo, caro ouvinte, à transmissão desta semana de Silêncio de Rádio. Fico muito feliz que você tenha podido se juntar a mim. No episódio de hoje, vamos refletir sobre ‘Obsessão’. Obrigado e aproveitem o silêncio.”

A voz era um barítono calmo, sereno. As palavras pareciam manteiga derretida e cera quente ao mesmo tempo. Olhei pra Jess. Ela estava quase em pânico, me encarando como se rezasse em silêncio pra aquilo tudo ser uma pegadinha elaborada. Balancei a cabeça. E então, ouvimos o silêncio.

A voz parou, sim. Mas com a ausência dela veio o silêncio. O ronco do motor, o barulho familiar dos pneus no asfalto, o vento uivando desde que entramos naquela estrada de merda de duas faixas — tudo sumiu. Não só isso. O som da minha respiração, da respiração dela, o sangue pulsando nos ouvidos. Aqueles barulhinhos da boca que a gente só percebe em quarto silencioso. Nossas porras de batidas do coração. Tudo. Tudo morreu e nada tomou o lugar. A falta repentina de qualquer som era avassaladora. Era um ataque aos sentidos de um jeito que eu nunca imaginei possível.

Era ensurdecedor.

Eu gritei. Ou acho que gritei. Senti a dor na garganta, senti o ar sumindo dos pulmões, senti os dentes trepidando na cabeça, mas não ouvi nada. Do meu lado, Jessica batia nas próprias orelhas com as palmas das mãos, sacudindo a cabeça loucamente. Continuei gritando. Ou acho que continuei. O carro derrapou pra esquerda, depois pra direita, até o vento agarrar e nos jogar pra fora da estrada.

Eu via o céu noturno acima de nós, as estrelas girando até virarem o chão de repente. A planície reta ao redor girou em sincronia, virando o céu. O silêncio continuou gritando, nosso mundo virou de ponta-cabeça. O tempo pareceu parar quando entendi o que tinha acontecido.

O som de metal rasgando e vidro esmagando nunca veio. A dor, porém, veio. Devo ter desmaiado, porque acordei de cabeça pra baixo. Sangue endurecido na cabeça, o braço esquerdo inteiro uma lança de agonia queimante. Tentei olhar pra direita, pra ver Jess, mas não conseguia mexer o pescoço. Estava de cabeça pra baixo, preso no cinto. O carro cheirava a fumaça, e eu sentia gosto de bile na boca. O console estava derretido, os botões do rádio fundidos no plástico ao redor. Fios soltando faíscas. A voz voltou.

“Esta foi mais uma transmissão de Silêncio de Rádio. Eu, mais uma vez, sou o Locutor. Nos vemos em breve, Jessica.”

Eu engasguei. Voltei a ouvir. Primeiro sirenes, distantes, mas subindo de tom conforme se aproximavam. Depois estalos. O carro? Estava pegando fogo? Batidas. Batidas fortes. Do lado de fora da minha porta. Virei a cabeça pro único lado que conseguia, à esquerda, e vi Jess batendo desesperadamente na minha porta. A perna direita dela estava torcida pra trás e inútil, mas ela continuava socando a porta, uma mão apertando a orelha. “Je-ssica…” consegui falar finalmente.

Ela olhou em choque. De dor. Do acidente. De voltar a ouvir. Caiu pra trás, soluçando e apertando as orelhas. Eu sorri e apaguei de novo.

Isso foi há duas semanas. Vou poupar vocês dos detalhes sangrentos e chatos da internação. Acordei depois de várias cirurgias e fui imediatamente cercado pela polícia. Respondi as perguntas deles com a maior honestidade possível, incluindo a transmissão bizarra e a ausência total de som depois. Eles dispensaram como delírio de motorista com concussão grave tentando culpar o acidente em qualquer coisa. Cerrei os dentes, mas assenti. Era mais fácil assim. No fim, levei multa por direção perigosa (ha ha ha) e a culpa caiu em mim e nos famosos ventos de primavera do Kansas.

Jessica teve alta três dias antes de mim. Perna quebrada, costelas machucadas, nariz quebrado. Ela veio me visitar quando saiu, a primeira vez desde o acidente que eu conseguia realmente olhar pra ela. Deu um sorriso meio sem força e disse que voltaria amanhã. Beijei a bochecha dela e pedi pra ela descansar.

Ela não apareceu no dia seguinte. Nem no outro. Bombardei o celular dela no Facebook, liguei, mandei Snapchat, tudo. Ela não estava online em lugar nenhum. Liguei pro trabalho dela, mas tinham liberado mais duas semanas pra ela descansar em casa. Liguei pra mãe dela, que mora em Nebraska. Ninguém a via desde que ela voltou pra casa. Eu estava enlouquecendo. Será que teve alguma complicação? Já vi House M.D. o suficiente pra imaginar cem coisas diferentes que poderiam ter matado ela.

No dia que me liberaram, tive que pegar Uber. Fui direto pra casa dela e subi mancando o mais rápido que as muletas permitiam. A porta da frente estava destrancada. Girei a maçaneta e empurrei com o ombro. O cheiro me atingiu primeiro. Engasguei, vomitei pro lado. Nem tinha cruzado a soleira ainda, mas o fedor que vinha de dentro era nauseante. Cheiro de esgoto e amoníaco. Tampei o nariz, limpei a boca e gritei pra dentro.

“Jessica, pelo amor de Deus, que cheiro é esse?!” berrei. Pra minha surpresa e horror absoluto, algo respondeu. Um grunhido baixo, gorgolejante. Não era reconhecimento, era mais o som de um animal com dor. Mordi o lábio por dentro, me preparei e escancarei a porta. Meus olhos lacrimejaram com o fedor cru, e senti gosto de sangue. Entrei mancando.

“Jess? Jessica, que porra é essa?! Você tá aí?” Outro gemido gorgolejante. Meu coração pareceu subir pra garganta e cair no estômago ao mesmo tempo. A adrenalina disparou, inundando meu corpo machucado com reação de luta ou fuga, mas minha mente travou. Olhei a sala. A bolsa dela estava jogada no sofá. O celular e um pacote de chiclete tinham caído da abertura aberta. Cambaleei mais pra dentro, olhando a cozinha ao virar o corredor. A geladeira estava aberta, e pelo menos parte do mistério do cheiro estava resolvida.

Comida podre e fétida dentro da geladeira, que já não estava nem remotamente fria. Talheres e pratos de uma refeição meio feita na bancada, e um peito de frango parcialmente cozido boiando numa frigideira cheia do próprio caldo podre. Outro vômito, outro passo pra trás saindo da cozinha. Algo estava muito, muito errado ali.

Voltei da cozinha nas muletas e na perna boa. Beleza. Um pesadelo resolvido. Agora era achar minha namorada e entender o que diabos tinha acontecido. Fui pelo corredor curto até o quarto dela e bati na porta com os nós dos dedos.

Dessa vez não veio gemido gorgolejante. Só um grito agudo, estridente. Empurrei a porta.

E entrei no inferno.

O quarto dela. Meu Deus, o quarto lindo da minha Jessamess. Sempre impecável. Organizado. Ela brincava que me fazia dormir no sofá se eu deixasse meia no chão. Mas agora o quarto era um manicômio. O chão coberto de manchas de origem indefinida. O assoalho de madeira parecia empenado por líquidos derramados, manchas escuras que talvez já foram comida em outras partes. Meus olhos subiram pras paredes. A tinta tinha sido arrancada em riscos longos e arranhados. Meus olhos desfocaram enquanto meu cérebro tentava aceitar o que via. Ela tinha riscado palavras na parede pintada.

É ALTO DEMAIS

EU AINDA CONSIGO OUVIR ELES

ELES ESTÃO DENTRO DOS MEUS OUVIDOS

OS SURDOS AINDA CONSEGUEM OUVIR É ALTO DEMAIS ALTO DEMAIS ALTO DEMAIS

O cheiro estava pior, de algum jeito. Pior que na cozinha. Atordoado, virei pro lado da cama encostada na parede do fundo. Lá estava ela. Minha Jessica. Meu amor. Sentada na cama, dentro de uma poça do próprio excremento. Um radinho transistor estava na cama à frente dela, e ela encarava ele. Aquele rádio não podia mais funcionar. Estava coberto quase até o alto-falante de fezes humanas liquefeitas. Então percebi que o rádio nem estava ligado na tomada.

Jessica. Pobre Jessica. Estava sentada de pernas cruzadas na cama, a sujeira cobrindo-a na depressão que o peso reduzido drasticamente do corpo dela fazia no colchão macio. A pele parecia pendurada nela. Esquelética. Os olhos injetados, marcas vermelhas longas de arranhões descendo de cima deles quase até o queixo. O cabelo caindo aos tufos, emaranhado nos fones de ouvido grandes que estavam plugados no rádio. A perna quebrada estava dobrada debaixo dela, e dava pra ver mesmo dali que tinha inchado e escurecido embaixo do gesso. Estava submersa naquela poça de merda líquida, mas os olhos dela ainda estavam fixos no rádio. Não tinha como tudo isso ter acontecido em três dias.

Eu gritei, e a cabeça dela virou rápido. Os olhos estavam selvagens. Ela rosnou, lábios rachados e sangrando se abrindo sobre dentes cinzentos e quebrados. “ALTO!” berrou, a voz seca e esfarelada como pergaminho antigo. Eu tremi. Cheguei mais perto, em vez de fugir. “Alto demais. Alto demais. Alto DEMAIS.” Ela chamou de novo, os dedos descoloridos tentando girar os botões do radinho sem força.

“Tá tudo bem, Jess. Sou eu, o Blake.” sussurrei. “Deixa eu… deixa eu chamar ajuda pra você. Tá bom?” Ela sibilou de novo e levou as mãos de volta pros fones. Apertou eles contra as orelhas e balançou a cabeça.

“Ainda alto demais alto demais alto demais alto demais…” disse ela, quase sem som. Fiz careta. As pontas dos dedos dela estavam sangrando. Cheguei mais perto, ao alcance do braço. Meu Deus, ela tinha desgastado sulcos nos botões do rádio. Larguei as muletas, a dor subindo pela perna. Devagar, devagar, estendi as mãos e segurei as dela por cima dos fones. Ela chorou. Grandes soluços sacudindo o peito afundado, mas nenhuma lágrima saiu dos olhos vermelho-sangue.

“Vamos tirar isso, tá? Vamos chamar ajuda.” falei só com os lábios, sem som. Ela balançou a cabeça de novo. Fechei os olhos, respirei fundo e puxei contra as mãos dela. As pontas dos meus dedos agarraram o plástico barato dos fones, e com um puxão forte, arranquei com toda a força que tinha.

Ainda lembro dos sons de rasgar. Estalos. E o grito dela.

Os pulsos dela quebraram como gravetos secos enquanto ela resistia. Depois os fones se soltaram. Sangue escorreu do rosto dela onde eu arranquei os fones. Puxei eles pra longe enquanto ela gritava, olhando pros pulsos dela, depois pra mim. Quase deixei cair de puro choque, mas então vi a linha fina, amarelo-pálida, conectando a cabeça dela aos fones. Estava manchada de vermelho.

Eu gritei. Jessica uivou. E eu larguei os fones. Eles caíram no chão com um barulho, o cordão fino e fibroso do nervo auditivo dela se rompendo. Olhei em terror absoluto pros fones. Dentro deles estavam as orelhas dela. E o que só podia ser a cóclea. Tudo tinha crescido pra dentro dos fones, invadindo frestas e espaços como uma infecção. A cóclea tinha se enrolado nos drivers, pequenas terminações nervosas amarelo-pálidas brotando como trepadeiras subindo pelas linhas mais grossas do headset. Ela olhou pra mim, depois pro headset deformado e profano. Avançou pra pegar, mas os músculos atrofiados falharam. Caiu da cama, derramando dias de fezes e bile do colo. Bateu a cabeça no chão. Outro estalo nauseante. Mas a essa altura eu já estava dessensibilizado. Eu ri. Ela gorgolejou uma respiração, mãos inúteis grudadas em pulsos quebrados ainda tentando alcançar o headset.

Ela engasgou, depois ficou imóvel. Eu ri de novo. Era impossível. Era impossível. Nada daquilo era real. Peguei as muletas e comecei a sair. Mancando, cheguei na sala e liguei 911. Não fazia ideia de como explicar o que eu tinha acabado de ver. Parte de mim torcia pra polícia me fuzilar quando entrasse, mas eles abriram a porta com calma, mandaram eu ficar parado e foram pro quarto. Os sons de nojo e confusão, seguidos de gritos e vômitos, me disseram que acharam o quarto certo. Chamaram o legista. Fui levado sob custódia.

Fui interrogado uns vinte minutos depois. As fotos que me mostraram eram pálidas perto das que estavam queimadas na minha mente. Ainda vejo elas quando fecho os olhos. Toda memória da Jessica agora tem aquela… coisa sobreposta. O interrogatório foi estranhamente calmo. Eu ainda estava em choque demais pra falar qualquer coisa absurda, e minha história batia. Fui liberado, mas mandaram ficar na cidade e esperar contato ou visita. Assenti e fiquei olhando fixo pra foto da parede da Jess. Tinha algo errado, mas eu não conseguia identificar o quê.

Então caiu a ficha. Ali, na parede cheia de rabiscos arranhados, a mesma parede que eu vi pessoalmente, tinha uma frase parecida. Mas uma palavra estava diferente.

“OS MORTOS AINDA CONSEGUEM OUVIR.”

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