Na minha cidade existe um… espaço esquisito. Ninguém consegue explicar nem mesmo compreender direito como esse lugar funciona, porque ele não faz o menor sentido lógico, e mesmo assim tem coisas vivendo lá dentro. Coisas que não se parecem com nada que exista neste mundo. Todo mundo da cidade tem pelo menos uma história ou um encontro com esse espaço em algum momento da vida. E a gente também tem uma das maiores taxas de pessoas desaparecidas de todo o país, muito provavelmente por causa desse lugar.
Imagina um bosque de árvores, não uma floresta inteira, mas um bosque que ocupa uma área mais ou menos do tamanho de um estacionamento. Dá pra atravessar a largura em uns 5 minutos e o comprimento em uns 10. Dá pra dar a volta inteira no bosque em cerca de 20 minutos. E tem uma trilha que corta o meio, que leva mais ou menos 10 minutos pra atravessar, e se você ficar nela, está perfeitamente seguro.
Agora, se você sair da trilha e entrar no meio das árvores… aí você pode andar, andar e andar pra sempre e continuar cercado de mata. É aí que a coisa começa a ficar estranha pra caralho. Rostos nas árvores que parecem te seguir enquanto você passa, galhos esticando como se quisessem te agarrar. Teias de aranha que só podem ser de uma criatura muito maior do que qualquer coisa que a natureza já produziu. Rosnados, estalos, sussurros vindo das copas das árvores, quase como se estivessem te chamando, te implorando pra subir e se juntar a eles.
Todo mundo da cidade tem uma história sobre esse lugar, ou vai ter uma em algum momento. Todo mundo sabe que é pra nunca, jamais, sair da trilha, senão você pode virar vítima das coisas que moram lá dentro. E a primeira coisa que qualquer visitante ouve quando chega na cidade é: “Se for naquele terreno das árvores, pelo amor de Deus, não saia da trilha”.
Descobrimos só duas exceções a essa regra. A primeira são as crianças. Não sabemos exatamente por quê nem como, mas as crianças podem se perder naquela floresta sem fim e, quando saem, sempre aparecem inteiras, de barriga cheia e sorrindo. A teoria mais aceita é que tem a ver com a inocência e a ingenuidade das crianças. A segunda exceção é uma garota que me formei junto. Uma professora chamada Mary, que passa todo o tempo livre dela dentro daquele bosque fazendo sei lá o quê. Ela? Ninguém tem a menor ideia do porquê ela está segura lá dentro. Ninguém sabe, mas todo mundo simplesmente aceita e convive com isso. Embora isso talvez tenha mudado pra mim depois do que acabou de acontecer.
Mas a minha história não começa com monstros da floresta. Começa com monstros feitos de gente.
Era sexta-feira à noite e eu estava no Stooges, um bar vagabundo local a uns trinta minutos a pé do meu apartamento — vinte minutos se eu cortasse pela trilha do bosque, mas eu conheço as histórias e preferi dar a volta e levar os dez minutos a mais só pra não chegar nem perto daquele lugar. Não queria dar um passo bêbado a mais e sumir pra sempre.
Eu precisava desesperadamente de uma cerveja depois daquela semana de merda no trabalho. Chamei uns amigos, mas todo mundo estava ocupado, então fui sozinho mesmo. Aqui é uma cidade pequena e segura, todo mundo se conhece, então eu me sentia relativamente tranquilo.
Cheguei lá, pedi duas cervejas. Tomei a primeira de uma vez, sentei e comecei a tomar a segunda devagar, só relaxando e respirando. Fiquei rolando o Reddit um pouco até que percebi uma gata bem bonita olhando na minha direção, fazendo aquela cara de “me salva” enquanto um bêbado babaca se pendurava nela como uma nuvem preta. Os dois eram de fora da cidade.
Achei que não era nada demais e fui até lá pra ajudar. No pior dos casos, ajudo uma garota em apuros e faço uma amiga nova. No melhor dos casos, viro o príncipe encantado e ainda consigo transar, o que seria ótimo porque fazia um tempo que eu não pegava ninguém.
“Ei, finalmente te achei! Tava te procurando por todo lado”, falei sorrindo e dando um abraço nela como se fôssemos velhos amigos.
“Nossa, que saudade! Quanto tempo faz?”, ela respondeu, com um alívio claríssimo nos olhos.
“Com licença, senhor, será que o senhor se importa se a gente ficar um pouco a sós pra colocar o papo em dia? Faz muito tempo que não vejo minha amiga.” Virei pro cara e falei isso com a maior educação.
“Hã?”, ele resmungou, babando.
“É que eu e minha amiga combinamos de nos encontrar depois de tanto tempo e a gente gostaria de conversar em particular, se o senhor não se importar.”
“Vocês duas podiam vir pro meu lugar e a gente podia ter um tempinho a sós juntos”, ele conseguiu dizer depois de alguns segundos.
“Hm… desculpa, mas a gente quer só colocar o papo em dia nós duas. Obrigada pela oferta, quem sabe numa próxima?”, falei no tom mais doce que consegui sem vomitar na cara dele.
“Tá bom… numa próxima então”, ele murmurou e saiu cambaleando.
“Muito obrigada por isso”, ela disse assim que ele ficou fora de alcance.
“De boa, acontece comigo o tempo todo”, ri. “Posso te pagar uma bebida?”
“Eu é que devia te pagar uma primeiro.” E aí começamos aquela discussão boba de quem ia pagar a bebida de quem. Passamos o resto da noite juntos. Descobri que o nome dela era Lauren. Era de um condado vizinho, tinha se mudado pra cá por causa de um emprego melhor no banco local e pra fugir do ex-noivo que a traiu. Também percebi bem rápido que ela não curtia alguém como eu, então decidi só aproveitar a companhia e fazer uma amiga nova pela noite.
Conversamos até o bar fechar. Depois fiquei esperando com ela o Uber chegar e me despedi. Na hora, pensei melhor e me aproximei, cochichei: “Qualquer coisa que aconteça, se você acabar naquele bosque no meio da cidade… nunca saia da trilha.” Ela era muito fofa, eu não queria ver ela sumir lá dentro como tanta gente.
Aí virei e comecei a caminhada bêbada de volta pro apartamento, me sentindo feliz e invencível. Devia ter uns dois minutos de caminhada quando ouvi passos atrás de mim. Olhei pra trás e era o bêbado babaca de antes, agora ainda mais bêbado e mais nojento.
“Ei, cadê sua amiga?”, ele arrastou as palavras quase sem conseguir falar direito.
“Foi pra casa, tava cansada depois da noite longa”, respondi seco.
“Então… quem sabe só você e eu podemos curtir um pouco. Você disse que podia ser mais tarde, e agora é mais tarde.” Ele ignorou completamente meu tom.
Tive que segurar um gemido de irritação. “Eu disse talvez mais tarde, e olha, eu tô muito cansado, hoje não rola.”
“Tá boooom. Pelo menos deixa eu te acompanhar até em casa. É perigoso uma garotinha jovem como você andar sozinha à noite desse jeito.” E começou a me seguir de novo.
“Não, obrigada, senhor. Aqui é bem seguro e eu chego em casa sozinha tranquilamente.” Dessa vez nem parei pra olhar pra ele, só continuei andando. O tempo todo pensando que idiota do caralho eu fui de não ter entrado no Uber com a Lauren.
“Ah, então quem sabe você me acompanha até o meu lugar? Eu não faço ideia de onde tô e podia usar uma local pra me ajudar a achar o caminho.” Continuou me seguindo.
Porra porra porra, saca a indireta, cara. “Eu nem sei onde o senhor tá hospedado, e eu preciso chegar em casa logo, tenho que acordar cedo.” Menti descaradamente — na real eu ia passar o dia inteiro na quarta maratona de Breaking Bad.
“Então quem sabe só um beijinho de boa-noite?” Ele disse exatamente quando dobramos outra esquina e eu tive que decidir: dar a volta no bosque (mais 20 minutos) ou cortar por dentro. Acelerei, fiz uma curva brusca à esquerda e comecei a andar na direção do bosque. Queria só me livrar desse babaca o mais rápido possível e nem respondi. Quando acelerei, ouvi ele acelerar atrás de mim também.
“Sabe que é extremamente grosso não responder quando alguém tá falando com você, né?” Ele gritou, já com raiva na voz. “Mas eu te perdoo se você me der esse beijo.”
“Desculpa, mas eu não tô interessada.” Respondi acelerando pra uma corridinha leve enquanto entrávamos na trilha, que estava particularmente assustadora sob a luz da lua.
“O que foi, tu é viado ou o quê?” Ele xingou, e dava pra ouvir que estava bem atrás de mim.
“É, sou. Agora cai fora.” Gritei de volta e comecei a correr de verdade, mas já era tarde. Ele estava ali, agarrou meu braço e me puxou com força contra ele.
“Vai, sua vadia, só significa que você nunca pegou um pau de verdade, senão ia adorar.” Ele disse, me segurando com força de torno enquanto eu me debatia.
“Me solta—” comecei a gritar, mas ele tapou minha boca com a mão. Eu não tenho treinamento de defesa pessoal, sou bem miúda, mas fiz as duas únicas coisas que me vieram à cabeça: mordi a mão dele com força — ele deu um pulo pra trás e me soltou por um segundo. Aproveitei pra virar e chutar com toda a força que tinha bem no saco dele. Quando ele caiu no chão, eu tive que decidir rápido. Eu tava fora de forma, ele provavelmente me alcançaria fácil. Então fiz a coisa mais idiota da minha vida: corri de peito aberto pras árvores.
Merda merda merda, era só isso que passava na cabeça. Eu nunca, jamais, devia estar aqui dentro. Será que eu volto pra trilha e torço pra ele ainda estar no chão? Antes que eu terminasse o pensamento, ouvi galhos quebrando atrás de mim. Só tinha uma escolha: continuar correndo mais fundo na floresta sem fim, pra longe dele.
Rasguei arbustos, pulei troncos caídos, atravessei galhos, tomando cortes e arranhões por todo o corpo até que não vi uma raiz no chão e rolei pra frente, batendo as costas com força numa árvore. Tentei levantar, mas alguma coisa prendeu meu pé — a mesma raiz que me derrubou.
“Porra!” xinguei, tentando puxar o pé, mas não saía. Ouvi ele se aproximando. Levantei pra me preparar pra brigar. Foi quando percebi que galhos e ramos tinham me envolvido completamente. Comecei a me debater, mas estava preso tão forte que eu não conseguia me mexer. Fui gritar, mas um galho cobriu minha boca inteira, me calando. Só conseguia tremer de medo enquanto ficava quase totalmente engolida pelos galhos. Eu ia morrer. Ia desaparecer como todo idiota que saiu daquela trilha maldita. Mais uma estatística. E talvez um destino bem pior do que o que aquele cara tinha planejado pra mim.
“Achei você”, o homem disse surgindo das árvores na minha frente. “Agora sai daí ou eu te corto pedaço por pedaço, sua vadia.” Ele veio na minha direção e eu tive que segurar os tremores. Com certeza nada que essa árvore fizesse comigo seria pior do que isso.
O barulho de batidas pesadas ficou mais alto, mais perto. A terra e as árvores ao redor começaram a tremer a cada pisada enorme.
Enquanto eu tentava me soltar de novo, o aperto da árvore aumentou e me puxou mais pra dentro. Ouvi um sussurro, como se o vento estivesse falando comigo: “Não se mexa, ela vai te ver. Não faça barulho, ela vai te ouvir. Não olhe pra ela, ela vai sentir você.”
A última coisa que vi antes de fechar os olhos foi o homem virando. “Meu Deus, que porra é essa?” Ele gritou enquanto as batidas ficavam ensurdecedoras, galhos caíam ao nosso redor e a árvore que me segurava tremia como uma criança de quatro anos depois de tomar café expresso.
“Porra”, ouvi ele gritar, seguido de respirações pesadas e quentes que dobraram um pouco a árvore pra trás. Depois vieram gritos horríveis, sem sentido, que foram cortados de repente por um estalo nojento. O estalo veio junto com uma onda quente e vermelha que lavou meu rosto e meu corpo. Precisei de toda a força de vontade pra não gritar de choque.
Fiquei ali entorpecida por um tempo que pareceu eterno. Olhos bem fechados, corpo preso, sem conseguir me mexer nem fazer som, só ouvindo estalos de osso e rasgo de carne enquanto a coisa lá fora mastigava a presa. Me perguntando se eu era a próxima. Me perguntando se esse era o plano da árvore pra mim. Xingando como era injusto estar presa ali, nesse lugar, só porque não quis virar vítima de um babaca e agora ia virar vítima desse lugar.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, o banquete acabou. Não ousei abrir os olhos, mas ouvi a criatura virar e começar a se afastar. As batidas pesadas foram ficando mais fracas, mais distantes. Quando mal dava pra ouvir, as raízes e galhos me soltaram.
Desabei no chão e vomitei toda a bebida que tinha no estômago num jato longo e doloroso. Aterrorizada por ainda estar naquele lugar e chocada por estar viva, abri os olhos devagar. A cena na minha frente era um massacre puro: pedaços meio comidos de carne e pedaços irreconhecíveis do que já foi aquele homem espalhados por toda a clareira. Vomitei de novo.
Comecei a olhar ao redor, apavorada com o que viria em seguida naquele lugar infernal. Foi quando ouvi a mesma voz sussurrar: “Vai pra esquerda por uns oitocentos metros e você vai encontrar segurança.”
“Obrigada”, gritei de volta. Depois me virei e fiz uma reverência pra árvore atrás de mim. “Obrigada você também.” E juro por Deus que os galhos pareceram se curvar de volta.
Comecei a mancar na direção que ela indicou, só esperando que fosse verdade e não me levasse pra algo pior. Foi quando a vi. Ela estava de vestido branco soltinho, mesmo sendo de madrugada, sentada ali aproveitando o luar, sorrindo. Linda como sempre. Era a Mary.
“Nossa Senhora”, ela exclamou quando me viu saindo coberta de vômito e sangue. “O que aconteceu com você, Samantha?”
“Na verdade prefiro Sam”, respondi por reflexo antes de continuar. “Um monte de coisa, mas basicamente um cara ruim me perseguiu depois do bar, entrou aqui, machuquei o tornozelo, uma árvore me salvou e o cara foi comido.”
“Nossa, que horror. Me desculpa. Você sabe o que comeu ele?” Ela perguntou, e eu olhei pra ela chocada.
“Hm… não…” respondi sem saber o que dizer. “Me falaram pra não olhar.”
“Ah, deve ter sido a Chewy.” Ela sorriu como se fosse a coisa mais normal do mundo. “Ela acabou de ter filhotes e fica muito sensível porque ainda não perdeu o peso da gravidez. Mesmo eu falando que ela continua linda.”
Fiquei parada, sem conseguir formar frase. A porra tem nome? Chewy? Que caralho estava acontecendo?
“Quer um abraço?” Ela perguntou com carinho, abrindo os braços.
“Hm… sim, na verdade quero.” Aceitei e me deixei envolver pelos braços dela. Não sei por que permiti, especialmente depois dela falar que conhece a criatura que comeu o cara. A gente nem era amiga. Se fosse qualquer outra pessoa tentando me abraçar naquela noite eu teria surtado. Mas a Mary tinha esse efeito: tudo que ela fazia parecia certo. Fiquei ali alguns minutos só curtindo o abraço. Não lembro de ter chorado, mas quando me afastei tinha uma mancha molhada no ombro do vestido dela.
“Vem, vamos te levar pra casa pra você descansar.” Ela disse suavemente, se soltando do abraço. Só consegui assentir e segui enquanto ela pegava minha mão e me guiava pra fora da floresta. Eu tinha certeza que estávamos indo na direção oposta da trilha e que já tínhamos andado pelo menos meia hora ou uma hora mata adentro. Mas assim que segui ela, em dois minutos estávamos de volta na trilha.
“Você consegue ir pra casa sozinha daqui, Sam?” Ela perguntou com carinho. Assenti. “Ótimo, então te deixo aqui.” E virou pra voltar pro meio do bosque.
“Espera, por favor não vai, é perigoso aí dentro, alguém acabou de morrer.” Implorei, dando um passo e segurando a mão dela.
“Não, não é”, ela sorriu. “Além do mais, eles precisam de mim lá dentro pra ficar de olho nas coisas. Senão a Chewy se solta e uma vida como a daquele homem se perde.” Ela balançou a cabeça, parecendo sentir pena, antes de sumir no meio das árvores e me deixar mais uma vez em choque.
Finalmente me virei, segui pela trilha até em casa, desabei na cama. Achei que não ia dormir, mas apaguei na hora e sonhei com pesadelos daquele homem sendo devorado, os estalos e o barulho de osso quebrando. Quando acordei, estava com uma dor absurda por causa dos cortes pelo corpo todo e a dor latejante no pé.
Mesmo assim tomei banho, tomei um gole de vodca, depois outro. Enchi um copo grande e escrevi tudo isso. Vou postar e depois vou pro hospital ver se meu corpo não ficou permanentemente fodido.
Meu último conselho pra vocês é esse: se algum dia vocês estiverem numa cidadezinha pequena e no centro dela tiver um bosque de árvores não maior que um estacionamento… pelo amor de Deus, não entrem nas árvores. Mas se entrarem, lembrem-se:
Não se mexa, ela vai te ver. Não faça barulho, ela vai te ouvir. E não olhe pra ela, ela vai sentir você.


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