domingo, 1 de fevereiro de 2026

As Horas Silenciosas

Não percebi de imediato porque não estava procurando por isso. Só notei porque minha vizinha percebeu primeiro — e, depois disso, ela parou completamente de falar comigo.

O nome dela era Diane. Apartamento 4B, exatamente em frente ao meu (4A). Morávamos no mesmo prédio havia três anos: cumprimentos rápidos na área dos correios, reclamações sobre o zelador, aquele ritmo de vizinhança que a gente nem nota até ele desaparecer. Ela era aposentada. Tinha um gato. Não consigo lembrar o nome dele.

O primeiro sinal foi um bilhete que alguém enfiou por baixo da minha porta em dezembro. Escrito à mão, em papel de caderno pautado, com a tinta um pouco borrada, como se tivesse sido feito com pressa.

Por favor, pare de andar à noite.

Eu não ando à noite. Trabalho em casa numa empresa de entrada de dados e logística, e minha rotina não mudou em dois anos. Acordo às sete. Café. Notebook. Durmo por volta das onze. Não tenho sonambulismo. Pelo menos, nunca tive.

No dia seguinte de manhã bati na porta dela. Ela atendeu, mas deixou a corrente de segurança. O rosto estava tenso de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Não era raiva. Era outra coisa.

“Diane, recebi seu bilhete. Acho que houve um mal-entendido.”

“Eu escuto você todas as noites”, ela disse. “Entre três e quatro da manhã. Andando de um lado para o outro no corredor. Só de um lado para o outro.”

“Não sou eu.”

“É a sua porta que abre.”

Ela fechou a porta na minha cara. Não bateu. Apenas fechou com cuidado. Depois ouvi o trinco girar.

Naquela noite coloquei um alarme para as 3:00. Fiquei sentado no sofá no escuro, olhando fixamente para a porta da frente. Nada aconteceu. Às 3:47 voltei para a cama me sentindo ridículo.

Na manhã seguinte, outro bilhete.

Você fez de novo.

Comprei uma câmera de segurança — barata, daquelas que se fixam com fita adesiva. Demorou dois dias para chegar, mais dois para instalar direito. Quando finalmente ficou pronta, Diane já não atendia mais a porta. A caixa de correio dela começou a encher no corredor. Principalmente catálogos. Alguns envelopes que pareciam vir de uma previdência privada.

Durante quatro noites a gravação não mostrou nada. Corredor vazio. Minha porta fechada. O relógio avançando em silêncio.

Na quinta noite, às 3:14 da manhã, minha porta abriu.

Assisti seis vezes antes de aceitar o que estava vendo. O trinco girou — suave, limpo — e a porta se abriu para dentro. Ficou aberta exatamente por quarenta e um segundos. Depois fechou. O trinco voltou à posição.

Nada entrou no corredor. Nada saiu do meu apartamento. A porta abriu e fechou sozinha, a partir de dentro.

Naquela tarde chamei um chaveiro e troquei todo o mecanismo. Trinco novo, maçaneta nova, contraferrolho novo. Duzentos dólares pelo ralo. Ele testou duas vezes antes de ir embora.

Naquela noite, às 3:14, o trinco novo abriu.

Comecei a revisar as imagens quadro a quadro, em câmera lenta. Foi quando percebi a vibração: a luminária do corredor, uma placa fluorescente barata, tremia às 3:13. Um minuto inteiro de tremor fino e rápido, como se algo pesado estivesse mudando de posição bem perto dali. Depois, silêncio. E então o trinco girou.

Verifiquei as cinco noites. A vibração estava lá todas as vezes. Exatamente um minuto antes.

Chamei o zelador. Ele mandou alguém olhar a soleira, as dobradiças. O cara deu de ombros, disse que estava tudo certo. Não mostrei a gravação. Não sei por quê.

Os quarenta e um segundos começaram a me incomodar. Cronometrei em onze noites seguidas. Nem uma variação. O que quer que estivesse acontecendo era preciso. Fazia exatamente o que pretendia, pelo tempo exato que precisava.

Então comecei a calcular. Quarenta e um segundos para ir até o fim do corredor e voltar? Doze segundos. Até a escada? Dezoito. Até a porta da Diane e voltar? Seis.

Nada batia.

Depois tentei outra coisa. Fiquei parado no corredor e simplesmente esperei, contando mentalmente. Quarenta e um segundos em pé, respirando devagar. Parecia o tempo que o corpo leva para voltar a dormir depois de acordar suavemente. O tempo que uma pessoa precisa para se aquietar de novo.

A porta não estava abrindo para algo sair ou entrar.

Depois disso deixei bilhetes para Diane. Enfiava pela fresta da caixa de correio.

Você ouviu de novo ontem à noite?

Tenho na câmera. Não sou eu.

Nenhuma resposta. A correspondência dela continuou se acumulando. Num sábado bati forte, três vezes, e encostei o ouvido na madeira. Fiquei ali quase um minuto inteiro. Quase chamei a administração do prédio para fazer uma visita de bem-estar, mas algo me segurou — não era exatamente preocupação. Era mais uma certeza. Como se eu já soubesse que ela estava bem. Como se soubesse que ela estava do outro lado daquela porta, a poucos centímetros, e simplesmente tinha decidido não abrir.

Deixei ela em paz.

No dia 9 de novembro cheguei do mercado e encontrei a porta do meu apartamento destrancada. Não aberta. Destrancada. Meio da tarde. O trinco estava na posição aberta, a maçaneta ligeiramente girada, como se alguém tivesse acabado de soltá-la.

Fiquei parado no corredor um tempo longo antes de entrar.

Nada fora do lugar. O notebook na mesa estava fechado como eu tinha deixado. O copo na pia era o mesmo que usei de manhã. Mas havia um cheiro — fraco, e errado de um jeito que demorei vários minutos para identificar. Fiquei no meio da sala respirando pelo nariz até entender.

Era o cheiro de sono. Aquele cheiro quente, próximo, de pele e respiração de alguém que ficou deitado por horas num quarto parado. Um corpo em repouso.

Minha cama estava arrumada. Lençóis esticados, como sempre deixo. Mas quando levantei o edredom, o colchão estava quente. Não temperatura ambiente. Quente de corpo. Como se alguém tivesse ficado deitado ali por muito tempo e tivesse se levantado poucos minutos antes de eu chegar.

Eu não estava dormindo sozinho.

Não sabia há quanto tempo.

Saí do apartamento dois dias depois. Não rescindi o contrato direito — só juntei o que consegui carregar em duas viagens e fui embora. Não avisei o zelador. Não avisei ninguém.

Quero ser honesto sobre o que acredito, porque sei como isso soa. Não sou supersticioso. Não acredito em fantasmas, assombrações ou qualquer coisa do tipo. Acho que existe uma explicação para tudo o que aconteceu naquele apartamento. Algo estrutural, algo no prédio, algo que eu não entendi. Provavelmente chato. Provavelmente mecânico.

Instalei a mesma câmera no novo lugar antes mesmo de terminar de desfazer as malas. Mesmo ângulo, apontada para a porta da frente. Coloco alarme para as 3:00 todas as noites. Sento no escuro, olho para a porta e espero.

Nas primeiras três noites, nada aconteceu. A porta ficou fechada. O trinco ficou parado. Comecei a me sentir normal de novo. Comecei a achar que tinha escapado.

Hoje de manhã acordei às 6:41, uma hora antes do alarme. Fiquei deitado um momento e então percebi — os lençóis do outro lado da cama.

Eles estavam puxados para trás. Puxados com cuidado, do jeito que alguém faz quando não quer acordar a pessoa ao lado.

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