terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Eu fui pescar no gelo no Rowforte Loch. Fui o único que voltou…

Preciso de conselho, e preciso rápido. Mas primeiro, deixa eu explicar o que aconteceu hoje.

Meu nome é Noah, e eu acabei de sobreviver a uma coisa que não consigo explicar. Estou sentado na minha caminhonete agora mesmo, com o aquecedor no máximo, as mãos ainda tremendo enquanto digito isso no celular. Eu deveria estar ligando pra alguém. Pra polícia, talvez. Mas quem vai acreditar no que eu vou contar?

Tudo começou como uma simples viagem de fim de semana pra desestressar depois de uma semana de merda no trabalho. Eu pesco no gelo desde moleque, e tem alguma coisa meditativa em ficar sentado dentro de uma barraca num lago congelado, esperando uma fisgada. Sem sinal de celular, sem e-mail, só você e o gelo.

Cheguei no Rowforte Loch por volta das 7 da manhã. É um cu pra achar — eu só sabia que existia porque o pai de um amigo me falou há um tempo, e mesmo assim precisei caçar no mapa de satélite.

O acesso exige uns bons trinta minutos descendo uma estrada de manutenção que mal é mantida. Hoje estava pior que o normal, com placas de gelo fazendo a viagem inteira parecer roleta-russa com o alinhamento da minha caminhonete.

Eu vi marcas de pneu de outros veículos, então pelo menos sabia que não era o único maluco tentando chegar lá, mas toda vez que a roda escorregava eu questionava todas as minhas escolhas de vida.

Mas é exatamente por isso que eu gosto do Rowforte Loch. O acesso horrível afasta a maioria das pessoas.

Exceto hoje. Tinha mais gente do que eu esperava. Contei uns quinze pescadores espalhados pelo lago, as barracas portáteis deles pontilhando o gelo como cogumelos coloridos. Dois caras perto da margem estavam descarregando equipamento de um trenó, e um deles me deu um aceno simpático quando passei.

“Já pegou alguma coisa por aqui antes?” eu gritei.

“Primeira vez no Rowforte Loch,” ele gritou de volta. “Mas o amigo disse que vale a pena a viagem!”

“Normalmente vale mesmo,” respondi, mostrando o joinha.

Mais adiante, passei por um cara mais velho que já estava montado, sentado no balde dele do lado de fora da barraca com uma garrafa térmica de café. Ele acenou com a cabeça quando passei.

“Caralho, que percurso do inferno pra chegar aqui,” eu disse.

“Sempre é,” ele concordou rindo. “Mas é melhor que ficar no trânsito nos lagos normais.”

Achei um lugar a uns setenta metros da barraca mais próxima e comecei a montar.

Foi aí que as coisas começaram a dar errado.

Primeiro, pisei num buraco de pesca que não tinha congelado completamente. O choque da água gelada entrando na bota quase me fez escorregar, e passei uns cinco minutos tentando torcer a meia no vento congelante. Depois o vento virou problema.

Já montei essa barraca cem vezes, mas hoje as rajadas estavam implacáveis, chicoteando o tecido e quase arrancando os varões da minha mão.

Num momento perdi a pegada e o varão voltou pra trás, a ponta de metal passando a uns dois centímetros da minha têmpora. Senti o ar assobiar e ouvi o “vuuush” bem perto da cara. Se tivesse acertado, eu estaria desmaiado no gelo agora.

Finalmente, depois de vinte minutos brigando com aquela porra, consegui fixar a barraca. Estava suando apesar do frio, puto da vida e já pensando que essa viagem tinha sido um erro.

Mas eu já estava lá. Então foda-se, vamos pescar.

Furei o buraco principal, vendo a broca comer oito polegadas de gelo sólido. Depois furei um segundo buraco a uns noventa centímetros pra câmera subaquática.

É um equipamento legal que investi na temporada passada — me deixa ver o que tá acontecendo embaixo do gelo, checar se tem peixe mesmo ou se tô perdendo tempo.

Joguei a câmera e fiquei olhando o monitor enquanto ela descia. Água esverdeada turva, umas plantas, o flash ocasional de alguma coisa pequena passando rápido. Coisa normal de lago. Não vi nenhum peixe decente, mas resolvi dar um tempo.

A primeira hora passou em silêncio. Silêncio demais, na real. Eu ficava esperando ouvir os sons normais dos outros pescadores — gente gritando pros amigos, o ronco das brocas abrindo buraco novo, talvez umas risadas ou reclamações do frio.

Mas não ouvi nada além do vento e do rangido ocasional do gelo se acomodando embaixo de mim.

Por volta das 9:30, ouvi o primeiro splash.

Veio de algum lugar à minha esquerda, uns cinquenta ou sessenta metros. Pensei que alguém tinha fisgado e estava puxando o peixe pelo buraco. Uns minutos depois, outro splash de outra direção. Depois mais um.

Olhei minha linha. Nada. Nem uma mordidinha. A câmera mostrava a mesma água vazia.

Outro splash, mais perto dessa vez. Depois um grito que parecia de alguém, mas o vento dificultava. Podia ser empolgação por causa de um peixe, ou alguém chamando o amigo. Lagos de pesca no gelo são estranhos com som. Às vezes a voz chega cristalina, às vezes o vento engole tudo.

Voltei a olhar a linha, mexendo no jig, tentando ter paciência. Os splashes continuaram de vez em quando, sempre de direções diferentes. Comecei a achar irritante. Se todo mundo estava pegando peixe, por que eu não tinha nada?

Aí veio o grito.

Dessa vez não tinha erro — um grito de puro terror que cortou o vento. Perto. Muito perto. Talvez da barraca mais próxima da minha.

Saí correndo da barraca, quase tropeçando no balde. O grito parou de repente, mas corri na direção de onde veio, as botas escorregando no gelo.

A barraca era laranja brilhante, balançando no vento. Quando cheguei mais perto, vi que a entrada estava aberta, o zíper todo escancarado.

“Ei!” gritei. “Tá tudo bem aí dentro?”

Nenhuma resposta.

Cheguei na barraca e olhei. Vazia. O equipamento do cara estava espalhado — a vara jogada no gelo, o balde tombado. Mas o que fez meu estômago revirar foi o buraco de pesca.

Era enorme. Não o furo padrão de vinte centímetros que a broca faz, mas fácil uns noventa centímetros de diâmetro. As bordas pareciam mastigadas ou quebradas pra fora, com pedaços de gelo espalhados em volta. E levando até o buraco tinham marcas de arrasto — duas linhas paralelas riscadas no gelo, como se alguém tivesse sido puxado.

Fiquei olhando aquele buraco, o cérebro se recusando a processar. Aí ouvi — um som molhado, de sucção, como se algo grande estivesse se movendo na água logo abaixo da superfície.

Recuei devagar, os olhos grudados naquele buraco grande demais. Foi quando notei uma coisa que gelou meu sangue mais que o ar lá fora.

Todas as outras barracas estavam caídas.

Todas. Quinze abrigos coloridos que estavam de pé quando montei a minha agora eram só montes murchos de tecido no gelo. E perto de cada uma dava pra ver círculos escuros — buracos de pesca aumentados, iguais ao da minha frente.

Os sons de splash que eu vinha ouvindo a manhã inteira fizeram um sentido horrível de repente.

Eu estava sozinho no gelo.

Corri de volta pra minha barraca, a cabeça a mil. Precisava juntar tudo e sair daquele lago imediatamente. Minhas mãos tremiam enquanto jogava as coisas na mochila — esquece organizar, esquece cuidado, só pega o que der e vaza.

Foi quando olhei pro monitor da câmera.

A tela mostrava água turva, mas tinha algo diferente. A câmera estava girando — não, sendo empurrada por uma corrente. E quando virou, eu vi.

Uma pessoa na água, uns seis metros da câmera.

Primeiro pensei em horror — alguém caiu no gelo, alguém estava se afogando agora e eu tava vendo acontecer na tela. Mas esse pensamento durou meio segundo antes do cérebro começar a gritar que tinha algo muito errado.

A pessoa só… flutuava ali. Sem se debater, sem nadar desesperada, sem fazer nada que uma pessoa se afogando faria. Só suspensa na água, completamente parada exceto pelo movimento leve da corrente.

E estava olhando direto pra câmera.

A pele era pálida, quase brilhante na água turva, inchada de um jeito que lembrava corpos tirados de rio na televisão. Mas não era um cadáver. Estava se movendo com propósito, com inteligência, mesmo sem ter se mexido um segundo antes.

O rosto era humano: olhos, nariz, boca, tudo no lugar certo. Mas os olhos estavam arregalados demais, sem piscar, e pegavam o pouquinho de luz que descia de um jeito que refletia como olho de animal. A pele tinha um brilho estranho, quase ceroso.

Foi quando notei o pescoço.

Tinha fendas dos dois lados, três ou quatro em cada, abrindo e fechando ritmicamente. Como guelras. Como se estivesse respirando debaixo d’água.

Meu cérebro tentou racionalizar. Iluminação estranha, água turva, talvez sombra enganando. Mas aí a coisa começou a nadar na direção da câmera, e qualquer esperança de explicação morreu.

Nenhum humano se move assim debaixo d’água. Não chutava as pernas nem puxava os braços como nadador. Deslizava, com uma graça fluida completamente errada. Os braços esticados na frente, e quando chegou mais perto eu vi as mãos claramente.

Os dedos eram compridos demais, e tinha membrana esticada entre eles. Membrana translúcida, tipo pé de sapo, conectando cada dedo.

“Meu Deus,” sussurrei, e isso quebrou minha paralisia.

Peguei o celular, carteira e chaves, enfiando tudo no bolso. O resto — a vara cara, a caixa de iscas, o aquecedor; deixei tudo. O monitor mostrava a coisa se aproximando, o rosto pálido ficando maior na tela.

Eu estava na metade da saída da barraca quando ouvi o gelo rachar atrás de mim.

Não olhei pra trás. Não consegui. Mas ouvi o som do gelo quebrando, de algo forçando passagem por um espaço pequeno demais pra ele, alargando o buraco com uma força terrível. Ouvi água espirrando no gelo, ouvi algo que podia ser respiração mas soava molhado demais, errado demais.

Eu corri.

O gelo estava escorregadio e quase caí duas vezes, mas o pavor me mantinha de pé e em movimento. Dava pra ouvir o vento, minha respiração ofegante e as botas escorregando, mas não ouvia nada atrás de mim. Isso de algum jeito piorava tudo.

Cheguei na margem, na caminhonete, atrapalhado com as chaves até finalmente abrir a porta. Me joguei pra dentro e tranquei tudo, as mãos tremendo tanto que mal conseguia colocar a chave na ignição.

Só então olhei de volta pro lago.

Minha barraca estava caída, igual às outras. E meu buraco de pesca… dava pra ver mesmo de longe que estava muito maior do que deveria. Bem maior.

O equipamento da câmera sumiu. O suporte, o cabo, tudo. Sumiu, como se nunca tivesse existido.

Fiquei sentado na caminhonete uns cinco minutos, talvez mais, só encarando aquele lago. As barracas caídas. Os buracos aumentados no gelo. A prova de algo que eu não consigo explicar.

Depois dirigi pra casa, seguindo a mesma estrada de manutenção ruim, a meia molhada chapinhando na bota toda vez que pisava no acelerador.

Agora estou em casa, e não sei o que fazer.

Essas pessoas sumiram. Quinze pescadores que estavam naquele lago hoje de manhã. Eu falei com alguns deles. O cara da garrafa térmica. Os dois amigos descarregando o trenó. Pareciam gente boa, só querendo passar um dia pescando como eu.

Eles tinham veículos — passei por eles no ponto de acesso na saída. Alguém vai procurar por eles. Família, amigos, colegas de trabalho. Vão perceber que estão sumidos.

Mas o que eu falo pra polícia? Que alguma coisa no lago arrastou todos eles pra baixo? Que vi uma coisa pálida e inchada nadando na direção da minha câmera com mãos membranosas e fendas de guelra no pescoço? Que era inteligente o suficiente pra levar minha câmera, pra sumir com a prova?

Vão achar que eu tô louco. Ou pior, vão achar que eu fiz alguma coisa com essas pessoas.

Não tenho prova nenhuma. Sem gravação da câmera, sem testemunha, nada. Só minha história sobre uma criatura no Rowforte Loch que caça pescadores no gelo.

Fico olhando as notícias locais, mas ainda não tem nada sobre desaparecidos. Talvez ninguém tenha percebido ainda. Talvez as famílias achem que eles ainda estão pescando, que vão chegar pra jantar.

Mas não vão.

Eu sei o que vi. Sei o que tem naquele lago. Mas saber e provar são coisas diferentes.

E, sinceramente? Uma parte de mim quer voltar. Não pro Rowforte Loch, nunca mais lá. Mas pra outros lagos, outros pontos de pesca no gelo. Faço isso há quinze anos. É uma das poucas coisas que me ajudam a relaxar, que me dão paz.

Mas como? Como sentar no gelo agora, sabendo o que pode estar embaixo? Todo buraco que eu furar de agora em diante, vou ficar imaginando se tem alguma coisa lá embaixo me olhando. Todo barulho no gelo vai me fazer pular. Todo splash distante vai me deixar em pânico.

Talvez isso seja a pior parte. Aquela coisa não só levou aquelas pessoas. Levou uma parte de mim também — o único hobby que me fazia sentir no chão, que me dava uma fuga do estresse do dia a dia.

Então tô perguntando pra vocês — o que eu faço? Devo denunciar? Devo ir na polícia e contar o que aconteceu, mesmo sabendo que não vão acreditar? Ou fico quieto e espero que outra pessoa, alguém com mais credibilidade, encontre prova do que tem lá fora?

Essas pessoas estão mortas ou pior. E eu escapei. Mas não consigo tirar da cabeça que ela me deixou ir. Que sabia que tinha levado minha câmera, eliminado minha prova, e decidiu que uma testemunha com uma história maluca era melhor que nenhum sobrevivente.

Alguém já passou por algo assim? Alguém já ouviu história sobre o Rowforte Loch?

Preciso saber que não tô louco. Preciso saber o que fazer.

Porque agora tudo que consigo pensar é naquele rosto pálido encarando a câmera, aquelas guelras abrindo e fechando, aqueles dedos compridos demais com membrana entre eles. E o som do gelo quebrando enquanto ela forçava passagem pra me alcançar.

Não sei se consigo pescar no gelo de novo algum dia. Mas, caralho, não quero desistir.

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon