As sirenes começaram logo depois do jantar, aquele longo uivo de animal ferido que aperta a espinha mesmo quando você já ouviu cem vezes. Eu estava lavando a louça na pia. Minha esposa, Karen, limpava a mesa. As crianças discutiam sobre quem tinha pegado o último pãozinho.
“Porão, agora!” eu disse. Não alto. Só firme. Nós treinávamos isso.
Moramos na divisa da cidade, lado sul, onde os campos se abrem e o céu parece maior do que deveria. Missouri é assim. A fé corre forte por aqui. O tempo também. Eu já tinha pregado sobre tempestades — como Deus manda chuva sobre justos e injustos, como Ele é refúgio. Eu acreditava nisso. Ainda acredito.
A porta do porão gemeu como sempre. Os degraus estavam úmidos. Acendi a luz e a lâmpada zumbiu. Descemos em fila: as crianças primeiro — Eli com sete anos, Ruth com onze, Caleb com catorze —, depois Karen, depois eu, puxando a porta e fechando-a. Tranquei o ferrolho. Já sentia a pressão mudando nos ouvidos.
O rádio chiou. Alerta de tornado. Rotação confirmada. Abrigar-se imediatamente.
Karen segurou minha mão. Eu sentia ela tremendo.
Ela se aproximou para que as crianças não percebessem o tremor na voz. “Darrell, o que a gente faz agora?”
Não hesitei. “A gente descansa em Deus”, respondi com convicção. “Como sempre fizemos.”
O vento começou a bater na casa, grave e pesado. Poeira peneirava das vigas.
Olhei para as crianças encolhidas no banco, olhos arregalados.
“Venham aqui, pessoal.” Eles se aproximaram, joelhos encostando uns nos outros. “Vamos orar.”
Baixamos a cabeça. Pedi a Deus que cobrisse nossa casa, que colocasse Sua mão entre nós e a tempestade. Disse que confiávamos Nele. Eu estava sendo sincero. O vento começou a gritar lá em cima, um som de trem de carga como os velhos dizem, só que mais alto do que qualquer trem que eu já ouvi.
Algo atingiu a casa. As paredes tremeram. Terra caiu do teto e empoeirou nossos ombros. Ruth começou a chorar. Continuei orando. Ore mais alto.
Então, tão repentinamente quanto veio, o som se afastou. A pressão diminuiu. O rádio disse que a célula tinha se elevado, desviado para leste, poupado o centro da cidade. De manhã, subimos e encontramos galhos quebrados e uma cerca destruída. Sem telhado levado. Sem paredes caídas. Louvado seja Deus.
Na igreja naquele domingo, o santuário estava lotado. As pessoas choravam e se abraçavam. Cantamos mais alto do que de costume. O pastor disse que fomos poupados por um motivo. Concordei com a cabeça. Pensei na oração no porão e senti certeza de que tinha sido ouvido.
Tudo começou com uma erupção no braço do Eli. Vermelha, irritada, parecida com hera venenosa, mas mais molhada. Passamos calamina. Depois antibióticos do pronto-socorro. A pele abriu mesmo assim. Cheirava errado. Doce e azedo ao mesmo tempo.
Karen ganhou uma mancha no pescoço dois dias depois. Depois veio o tornozelo do Caleb. Pessoas pela cidade começaram a aparecer com curativos, com lenços no calor. O pronto-socorro lotou. O estado mandou reforços. Homens de macacão branco de proteção química começaram a bater nas portas.
Uma mulher do CDC coletou cotonetes. Ela não olhava nos meus olhos. “Estamos pedindo para todos ficarem dentro de casa”, disse. “É temporário.”
Não foi.
A pele da Karen escureceu em volta da ferida, descascando como papel molhado. Ela tentou brincar. “Acho que não vou poder usar meu vestido de domingo”, disse. Depois chorou quando achou que eu não estava olhando.
Montaram bloqueios nas estradas. Caminhões da Guarda Nacional ficavam parados nas saídas. Os celulares vibravam com boatos. Bioterrorismo. Julgamento divino. Eu orei mais. Perguntei qual era a lição que deveríamos aprender.
Não nos reuniram pessoalmente. Em vez disso, todo mundo entrou numa chamada Zoom municipal, rostos em caixinhas tremidas, microfones abrindo e fechando. Um homem de cabelo grisalho e olhos cansados ocupou a tela principal. O áudio atrasou um segundo antes de ele falar, voz plana e cautelosa, como se cada palavra tivesse sido ensaiada.
“Acreditamos que o tornado aerosolizou a terra superficial de uma área agrícola e dispersou esporos de Mucorales presentes nela sobre a cidade.”
Uma mulher desmutou o microfone. “O que isso quer dizer?”
O cientista hesitou, dedos apertados no microfone. “É… complicado.”
Peguei meu celular, dedos desajeitados. Mucar—? Mucor—? O corretor automático corrigiu. Cliquei no primeiro resultado e senti a garganta fechar.
Desmutei e li em voz alta. “Mucormicose”, eu disse. “Uma infecção fúngica rara, mas grave. Causa morte de tecido. Às vezes chamada de—”
Engoli em seco. “Fungo preto comedor de carne.”
A chamada ficou em silêncio absoluto.
“Não há motivo para alarme…”, o cientista tentou nos tranquilizar. “Estamos trabalhando em antifúngicos. A contenção é crítica.”
Pensei na oração. Na tempestade que desviou do coração da cidade, como se um dedo tivesse sido levantado no último segundo.
O Eli não aguentou a semana. A infecção avançou rápido quando chegou ao ombro. Ele tentou ser corajoso. “Pai”, disse, voz fina, “eu fiz alguma coisa errada?”
“Não, filho…”, respondi. “Jesus te ama.”
Quando levaram o corpo dele, selaram o saco com força. Eu ainda sentia aquele doce errado impregnado na casa.
Karen foi dois dias depois. Depois Ruth. Segurei Caleb na noite em que a febre dele disparou. Ore mais forte do que nunca. Implorei a Deus que poupasse pelo menos um dos meus filhos.
Caleb morreu antes do amanhecer.
Estou sozinho agora. A fita de quarentena ainda tremula no fim da rua. Os campos estão quietos. O céu está limpo. Sento no porão com o rádio desligado e a Bíblia aberta, olhando para palavras sobre refúgio e misericórdia.
Abro numa página que não me lembro de ter marcado. Jó, papel fino sussurrando.
“O Senhor deu, e o Senhor tirou…”
Abaixo, vejo outro versículo: “Aceitaremos o bem de Deus, e não o mal?”
Fecho o livro.
Meus dedos coçam. A pele perto do pulso amoleceu, mais escura do que deveria estar. Tem um leve cheiro doce.
Não tenho mais medo.
Oro para que Deus me receba. Encontro consolo na promessa silenciosa de rever minha família no Céu.


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