sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ser pai não deveria terminar assim...

É difícil explicar pra quem não tem filhos como o amor que você sente pelo seu filho é diferente de qualquer outra emoção. Como, lá no fundo do seu estômago, você sabe que morreria por ele, que sacrificaria qualquer coisa — e qualquer um. Até uns dias atrás, eu nunca tinha parado pra pensar nas consequências de sentimentos desse tipo.

— Você não devia acordá-lo — disse minha esposa da cama.  

Na verdade, eu não ia acordar meu filho. Eu sabia — de onde, não sei — que você não acorda alguém que está sonâmbulo.

Eram 3 da manhã. Sullivan, nosso filho, estava parado feito uma estátua na porta do nosso quarto, uma espécie de manequim infantil vestindo pijama de beisebol. Quanto tempo ele já estava ali, eu não fazia ideia — só sei que, quando me levantei pra fazer minha visita noturna ao banheiro, lá estava ele. Silencioso. Na soleira da porta. Observando.

— Tá tudo bem, campeão? — sussurrei, passando a mão na frente dos olhos dele. Ele nem piscou, nem pareceu enxergar nada. Coloquei a mão no ombro dele pra guiá-lo de volta à cama quando a voz de Penelope me interrompeu:  

— Você acha mesmo que ele devia dormir com aquilo pendurado no pescoço? Pode se enforcar.

Aquela “coisa” era o pingente que eu tinha comprado pro meu filho mais cedo naquele dia.

Sully tinha uma peneira importante de beisebol na sexta-feira, pra ver se entrava no time da escola. Já era um garoto ansioso por natureza, e nos últimos sete dias virou um novelo de nervos. Então, quando esbarrei naquele pingente com trevo de quatro folhas na barraca lá fora da feira de quarta-feira, achei que tinha ganhado na loteria da paternidade. Beisebol é um esporte cheio de superstição — algo que Sully já tinha percebido.

— Ele disse que o pingente o faz se sentir com sorte, e a gente precisa de todos os bons pressentimentos que conseguir agora — falei, apontando pro Sully e fazendo uma cara de “tá vendo só?”.

Penelope franziu a testa.  

— Pelo menos a corrente é fina — murmurou, virando-se de lado.

Na manhã seguinte, quinta-feira, Sullivan não lembrou de nada. Durante o café da manhã de sempre — corn flakes e banana —, estava sendo o típico garoto de onze anos. Deixei ele na fila de carros da escola e rezei pra que, como minha pesquisa na internet sugeriu, o sonambulismo fosse só um episódio isolado causado pelo estresse.

Não foi. Naquela noite, foi Pen quem acordou primeiro. Ela me sacudiu (com força demais, na minha opinião) e lá estava Sully: de novo com aquele rosto em branco, mas dessa vez mais perto — aos pés da nossa cama.

Com delicadeza, como a internet orientava, Penelope disse:  

— Tá tudo bem, amor.

Sully, dormindo mas não exatamente, não respondeu.

— Que legal — sussurrou Penelope. — Acho que isso virou rotina agora.  

Tentou soar descontraída, mas eu conheço minha mulher e dava pra ver que ela tava estressada com aquilo. Pra falar a verdade, eu também tava. Não tanto pelo sonambulismo em si, mas mais porque nem eu nem ela conseguimos voltar a dormir fácil depois que a luz acende.

Na manhã seguinte, eu tava exausto; Penelope, ainda mais. Dizem que a juventude é desperdiçada nos jovens. Pois então, o sono também é desperdiçado neles. Nos nossos vinte e poucos anos, a gente não ligava pra dormir. Agora, na meia-idade, poucas coisas importam mais. Uma delas, claro, era o Sully. Tinha chegado a hora de procurar ajuda profissional. Pen disse que ligaria pro pediatra, mas que estaria em audiência o dia todo — será que eu podia marcar? Claro, respondi.

A única pessoa descansada em casa era o meu garoto. Nervoso com a peneira, sim — mas pulava pela casa feito um chihuahua cheio de cafeína. Ficava passando os dedos no pingente que usava por fora da camiseta. Gostei disso. Gostei de imaginar que aquele pingente era a fonte da energia e do bom humor dele.

Depois que deixei Sully na escola e me acomodei no escritório, liguei pro médico dele. A primeira consulta disponível era na segunda de manhã. Disse à atendente que minha esposa estava muito preocupada (desculpa, Pen!). A moça não ligou. “Crianças fazem esse tipo de coisa o tempo todo”, falou. Nada do que eu contei soou alarmante pra ela.

Quando fui buscar Sully na escola, eu tava mais preocupado com a peneira de beisebol do que com o sonambulismo — e fiquei aliviado ao vê-lo saltitando até o carro. Ele tinha dado um home run! Soltei um grito de comemoração: “Isso aí! Sensacional!”  

O que não foi tão sensacional foi que, em casa, ele ficou ainda mais hiperativo — tipo um chihuahua dopado em Red Bull. Penelope, que teve um dia infernal no tribunal, não tava no seu melhor momento e, por algum motivo, focou de novo no pingente, que Sully nem tirara no banho. Ela queria que ele tirasse aquela droga do pescoço.  
Sully respondeu que foi o pingente que o ajudou a acertar o home run.  

Eu concordei: achei que realmente tinha ajudado.  
E assim, aquela pequena bugiganga — aquele mimo de pai pra filho — virou motivo de discussão.

Pen saiu batendo o pé e foi dormir. Às 22h30, duas horas depois do horário normal de Sully ir pra cama, as luzes do quarto dele estavam apagadas e tudo estava quieto. Quando voltei pro nosso quarto, Pen já tinha acordado de novo, preocupada com o julgamento, preocupada com o nosso filho, e agora preocupada por não estar conseguindo dormir. Pediu que eu desse uma olhada em Sully. Fui lá. Estava totalmente apagado. De volta ao quarto, senti a tensão se dissipar — e, em vinte minutos, os dois estávamos, finalmente, dormindo.

A próxima coisa que lembro é o grito agudo de Penelope.  

Levantei num pulo.  

Sully estava ali, ao lado da cama, com as mãos pousadas no braço da mãe.

É uma sensação horrível sentir arrepios ao ver seu próprio filho. Mas vê-lo ali, com o rosto em branco e as mãos na pele dela, foi assustador.

Não disse nada enquanto repetia o ritual de guiá-lo de volta à cama.

— O pediatra só consegue nos atender na segunda? 

— perguntou Penelope quando voltei.  

O cobertor estava puxado até o pescoço dela.

— Disseram que não tem com o que se preocupar. Que isso é normal.  

Falei com convicção — tanto pra convencer a mim mesmo quanto a ela.

Nenhum dos dois ficou convencido, mas o que mais dava pra dizer? Não pensei em nada… até que pensei.

— Que tal a gente pegar um hotel amanhã à noite? Tipo, umas férias só pra dormir. Uma noite só. Minha irmã pode vir cuidar dele, se estiver livre.

Esperei Pen rebater a ideia, dizer que tava preocupada demais com Sully pra deixá-lo. Em vez disso, ela respondeu:  

— Acho uma ótima ideia.

As coisas começaram a se encaixar, quase como se fosse destino. Minha irmã estava disponível. Contei a ela sobre o sonambulismo, e ela nem se abalou. Sully ficou eufórico só de pensar em passar a noite vendo filmes e comendo porcaria com a tia Summer. Penelope e eu jantamos no nosso restaurante italiano favorito. De sobremesa, pedimos tiramisu — o preferido dela.

Pen adormeceu às sete da noite.

Antes de apagar também, dei uma olhada no celular. 

Tinha uma mensagem da minha irmã:  

“Tudo tranquilo por aqui. Sully deve tá tão cansado quanto vocês — desmaiou antes mesmo da metade de ‘The Sandlot’. Já coloquei ele na cama. Posso abrir aquela garrafa de Turley que você tá guardando?”

Sem hesitar, mandei um joinha.

Em minutos, eu estava tão inconsciente quanto minha esposa e meu filho.

Algum tempo depois, acordei com um clique suave — que agora percebo ter sido o som da porta do hotel se abrindo. Voltei a dormir, só pra despertar de novo segundos depois com o grito de Penelope.

O que vi na penumbra: uma silhueta pequena e escura com o braço erguido. O brilho de metal. Penelope ao meu lado, de costas, uma mancha escura se espalhando pela camiseta dela.

Sem pensar, rolei por cima da minha mulher e me lancei contra o agressor. O corpo era pequeno. E familiar.

Sully perdeu o equilíbrio, e, mesmo com minhas pernas enroscadas nos lençóis, meu peso foi suficiente pra prendê-lo no chão. Gritei o nome da minha esposa enquanto esmagava o braço do meu filho contra o carpete. Penelope calada. Sully calado. A faca saltou e deslizou pelo tapete.

Fui até os joelhos, sem soltar meu garoto, e olhei pra Penelope. A camiseta branca dela agora estava preta de sangue. Os olhos e a boca abertos, imóveis.

Sully tentou se soltar do meu aperto. Joguei ele no chão com mais violência do que jamais usei contra outra pessoa. Ele se encolheu e começou a berrar — o primeiro som que fazia desde que entrara no quarto.

Por mais insano que pareça, por um instante pensei em ir até ele, consolá-lo, fazer tudo voltar ao normal.

Mas Penelope…

Liguei a luz do criado-mudo. Enquanto virava a cabeça na direção dela, algo brilhou no chão. Era o pingente, arrancado do pescoço de Sully durante a luta. Tinha se partido ao meio, soltando o trevo de dentro do vidro.

O trevo não tinha quatro folhas. Tinha cinco.  
E, desenhadas nessas folhas, havia cinco linhas rabiscadas formando uma estrela.  
Um pentagrama.

0 comentários:

Tecnologia do Blogger.

Quem sou eu

Minha foto
Escritor do gênero do Terror e Poeta, Autista de Suporte 2 e apaixonado por Pokémon