Agora pega todas essas sensações do mergulho gelado e concentra só nos dedos, ou nos dedões dos pés, ou nos lábios, ou — pior ainda — nos olhos. Preciso me acostumar com isso. É um efeito colateral do remédio. Eu choraria, mas chorar em si doeria demais.
A mangueira que sai do porto cirurgicamente implantado no meu peito até a bomba só me deixa agachar até certo ponto. É uma puta chatice. Mais cedo, durante um dos meus primeiros tratamentos, eu puxei a mangueira — seja por descuido ou acidente — e uma mistura de remédio transparente e sangue vermelho jorrou de mim e da bomba. Lembrei que eles tinham me ensinado como fechar tudo com a pinça se algo assim acontecesse, fiz exatamente isso e dirigi até a clínica para consertarem. Fiquei surpreso comigo mesmo por ter mantido a calma o tempo inteiro. A bomba, minha âncora, agora fica guardada numa pochete preta junto com alguns pastilhas de THC que me ajudam a aguentar as infusões. No momento ela está pendurada no varão da cortina do box.
O chuveiro em si é decente. A água é quente. Está limpo; só porque minha esposa cuida disso. É uma banheira de plástico com paredes de plástico e um chuveirinho de plástico barato. Era para já estar bem melhor agora. Estou atrasado no cronograma. Estamos na terceira reforma total, morando dentro delas enquanto demolimos tudo até os montantes, mudamos paredes, adicionamos banheiros, trocamos cozinhas de lugar. É difícil (talvez isso seja um eufemismo), mas eu realmente gosto do processo. A gratificação imediata que você sente várias vezes durante a demolição até os ossos e a reconstrução de algo melhor e mais forte é suficiente para te manter em movimento. Para te fazer continuar.
Eu expulso com força um catarro do lado esquerdo do nariz que parece uma mistura de sangue e cartilagem. Será que tem um pedacinho de cérebro aí? Repito o processo no lado direito até ficar completamente limpo antes de mandar meus “amiguinhos” embora pelo ralo. A satisfação de limpar o nariz quase supera o horror absoluto do que é expelido… quase. Antigamente eu ficava muito perturbado com as partes do meu corpo que estavam sendo forçadas para fora e descendo pelo ralo, mas me disseram que era normal, então agora eu vejo de outro jeito. Imagino que todas essas partes se juntam lá no esgoto formando uma espécie de criança mutante usando camiseta do Nirvana, boné de beisebol (ele deixou o capacete na caixa de correio), andando de skate e dominando o submundo do esgoto junto com Don, Mike, Raf e Leo. Acho que estou perdendo a noção.
Voltei a ter o que poderia ser considerado sensibilidade nos dedos das mãos e dos pés. Eles ainda têm aquele formigamento constante, como quando um membro “acorda” depois de dormente, mas isso já virou o normal. Talvez seja uma boa hora de me levantar e começar de fato o banho? Estou me acostumando a lidar com a mangueira. Antes ela ficava do outro lado do peito. Quando tudo aconteceu, duas semanas depois do meu 45º aniversário, uma das 21 consultas nos 30 dias seguintes foi para implantar o porto — minha âncora — cirurgicamente no lado direito do peito. Meu corpo aceitou o porto, minha âncora, que permite que o remédio vá direto para a corrente sanguínea sem foder minhas veias e vasos menores, mas meu corpo rejeitou os pontos que mantinham a âncora no lugar. Isso iniciou um processo de nove meses de pontos saindo da pele, como se fossem cerdas plásticas afiadas crescendo do plástico da âncora para fora, até que a infecção finalmente se instalou e levou a uma cirurgia de emergência para remover a âncora e o tecido infectado, deixando apenas uma cicatriz foda. Duas semanas depois, reinseriram minha âncora no lado esquerdo do peito, dessa vez usando cola em vez de pontos.
Sou o único que usa barra de sabonete. Pelo menos acho que sou. Tentei adotar a esponja vegetal e o sabonete líquido que o resto da família usa, mas aquilo me deixa muito “condicionado”, muito escorregadio. Eu gosto do barulho de limpo da barra de sabonete. Meus filhos adolescentes gostam de cheirar a carvalho e baunilha, e minha esposa tem vários elixires da alma diferentes que ela escolhe dependendo do humor. Eu sou simples. Ensaboo as mãos, cuidado com a mangueira, pés, pernas, ensaboo de novo as mãos, partes íntimas, cuidado com a mangueira, ensaboo de novo, tronco, cuidado com a mangueira, pescoço, ensaboo de novo, rosto, repete… cuidado com a mangueira. Repito o mesmo ritual com xampu na cabeça, com a mangueira batendo constantemente no meu cotovelo. “Partes íntimas.” Não sei quando essa expressão entrou no meu vocabulário, mas me lembro de sempre usar com meus dois meninos quando eram muito pequenos. “Lava atrás da orelha. Não esquece os dedinhos do pé e não esquece as partes íntimas!” Hora do banho era sempre divertida. É engraçado que, olhando para trás, eu sempre me lembro das risadas. Sei que eu devia estar tão estressado quanto estou agora com a vida, só que sem o estágio quatro pairando sobre mim. Será que daqui a mais de dez anos eu vou olhar para trás e, na maior parte do tempo, lembrar das risadas? Será que eu sequer vou conseguir olhar para trás daqui a mais de dez anos?
Não me deram cronograma nem porcentagens. Me deram um caminho para seguir ou…
Acordo do transe que se instala quando a água quente do chuveiro bate na nuca inclinada por muito tempo. Está na hora de sair, contornar minha âncora para me secar e me vestir, e depois ir trabalhar. Me disseram que o remédio realmente não ia afetar meu dia a dia. “As pessoas nem vão perceber que você está tomando.” Afeta, sim. E eu não pergunto para as pessoas. Estou cansado de falar sobre isso.


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