Possuo uma linha telefônica não rastreável, presente de um amigo extremamente generoso. A maioria das pessoas fala comigo por telefone e despeja suas mágoas. Por pura cortesia, permito que me digam exatamente como desejam que o serviço seja executado. Alguns clientes não se importam com os detalhes: jogam o dinheiro na minha conta e mandam eu resolver do meu jeito. Houve casos extremamente diretos, com instruções tão simples quanto “apenas atire na cabeça dele”. Por outro lado, existem aqueles que planejam cada mínimo detalhe.
Um exemplo marcante foi uma mulher tímida, de voz quase inaudível, que me ligou dizendo que queria o marido fora do caminho. Antes que você pergunte: aquele filho da puta merecia. Ele espancava ela e a filha delas, era alcoólatra violento e, por tudo que se sabia, um verdadeiro monstro. Ela queria que eu o espancasse até a morte com um taco de beisebol enquanto ela assistia. Enquanto a criança estava na escola, nós o acorrentamos a um radiador no porão. Ela se sentou numa cadeira dobrável, acendeu um cigarro e falou comigo numa voz completamente monocórdia:
“Comece pelos dedos dos pés e vá subindo.”
Eu assenti. Apesar dos choramingos patéticos e das súplicas por misericórdia daquele merda, comecei: esmaguei os dedos dos pés, depois as canelas, os joelhos, esmaguei os testículos… você já entendeu o resto. A última informação que tive foi que ela agora vive sozinha com a filha e parece estar, enfim, feliz.
Eu pretendia continuar fazendo isso até ficar velho demais, e então simplesmente parar. Mas esse último trabalho me deixou marcado. Sinto nojo só de ter aceitado. Eu costumava me considerar um assassino com algum código moral — sei que é uma afirmação irônica, mas achava que era “um dos bons”. Agora, enquanto escrevo isso, sinto apenas vergonha profunda e arrependimento amargo pelo dia em que descobri que eles existem.
Em setembro do ano passado recebi uma ligação de um homem que queria várias pessoas mortas. Ele se recusou a falar detalhes pelo telefone e disse que precisávamos nos encontrar pessoalmente. Como profissional, aceitei. Dirigi por cerca de quatro horas para o norte até o local combinado. Cheguei à noite. Não havia postes de luz. Era um bairro abandonado: casas esvaziadas e em ruínas, gramados crescidos invadindo calçadas quebradas e entradas de veículos rachadas, carros enferrujados sem peças e com vidros estilhaçados. Continuei dirigindo até encontrar uma casa com luz acesa. Estacionei na frente, coloquei a pistola no coldre ao lado do corpo e entrei.
O interior estava tão ruim quanto o exterior: piso estilhaçado, papel de parede descascando, cheiro forte de mofo. À minha frente, um homem magro, calvo, segurando a mão direita enfaixada. Estava sentado numa cadeira de madeira, extremamente pálido, com olheiras profundas e suor escorrendo pela testa.
“Boa noite”, ele disse.
“Boa noite”, respondi.
Ele apontou para outra cadeira dobrável.
“Sente-se, por favor. Vamos conversar.”
Sentei-me e o encarei com curiosidade.
“Você está com uma aparência—”
“De merda, eu sei. Meu nome é Ted.”
Ele tentou rir, mas um acesso de tosse o interrompeu. Fez uma careta e rangeu os dentes.
“Merda. Desculpe.”
“Não tem problema. Já convivi com muita gente doente. Você não é nem de longe o pior que já vi.”
Ele me deu um sorriso breve antes de voltar ao assunto.
“Até onde sua imaginação consegue ir?”
Senti um frio na espinha por um segundo. Já fui colocado em caçadas absurdas antes: Pé Grande, Homem-Mariposa, o “verdadeiro” assassino de JFK, esse tipo de coisa. Na maioria das vezes, eu não sabia como proceder e acabava enviando uma foto adulterada no Photoshop mostrando o “serviço concluído”. Eles eram tão loucos que acreditavam. Engoli em seco e assenti.
“É, o mundo é estranho mesmo.”
“Hm. Você não faz ideia da metade.”
“Então qual é o seu problema?”
Ele tirou o celular do bolso e me mostrou uma foto, claramente tirada de longe, de um homem. Aparência comum, um pouco gordinho, cabelo castanho, óculos de armação fina. A única coisa estranha eram as sobrancelhas inexistentes.
“É esse o cara?” perguntei.
“Sim. Ele… ele é maligno.”
Levantei as sobrancelhas, surpreso com um sujeito tão banal, mas monstros frequentemente assumem as aparências mais inofensivas. Havia um nerd patético em Wisconsin que comia pessoas, e um empreiteiro desleixado de Chicago que era um palhaço assassino e escondia crianças no forro da casa. Tudo era possível. Mas o que saiu da boca dele me deixou genuinamente chocado:
“Esse homem… ele dá câncer nas pessoas.”
“…como é?”
“Não sei quem ou o que ele é, mas ele é um portador de câncer. Parece que está no toque dele, sei lá que porra é essa! Começou quando o vi passando pela nossa rua. Ele parou minha esposa, que estava cuidando do jardim. Perguntou que flores ela estava plantando. Begônias, ela respondeu. Ele estendeu a mão e disse que era um prazer conhecê-la.”
Ele parou, tentando segurar as lágrimas, mas não conseguiu. Elas escorreram enquanto ele continuava, com voz rouca e entrecortada:
“Naquele mesmo dia, ela desabou no quintal. Pensei que era cansaço… mas era leucemia. Ela nunca — nunca mesmo — teve nada disso. Ela era obcecada por saúde! Caminhava todo dia, nunca fumou, nunca bebeu, era até vegana, cara!”
Ele desmoronou em choro, mas a tosse voltou. Cuspiu uma golfada de catarro no chão. Olhei: havia fiapos de sangue misturados no muco. Ele se recompôs e limpou a garganta.
“Aquele filho da puta. Perguntei quem ele era. Com o último fôlego dela, ela disse o nome: ‘Carson’. E sabe o que é mais triste? Eu roubei o significado das últimas palavras dela. Sabe o que eu teria dado para ouvir um ‘eu te amo’ ou ‘vou sentir sua falta’? Em vez disso, só o nome daquele desgraçado.”
“Carson… o tal ‘homem do câncer’?”
“Sim.”
“Onde eu encontro ele?”
Ele me entregou um endereço escrito à mão.
“Ele é fácil de reconhecer. Usa a mesma roupa todos os dias. Não se aproxime diretamente. Talvez seja melhor matá-lo de longe.”
Guardei o papel no bolso da camisa e perguntei:
“Como você sabe tanto sobre ele?”
Ele levantou a mão enfaixada.
“Tentei fazer eu mesmo. Tentei cortar a garganta dele enquanto ele corria de manhã. Ele me deu um aperto de mão…”
Desenrolou as bandagens. O que restava era uma mão retorcida, deformada, grotesca — mais parecia um porrete do que uma mão.
“Câncer nos ossos”, ele disse. “Raro. Doloroso.”
Enquanto ele enrolava novamente a bandagem, perguntei:
“Quanto tempo você tem?”
“Não sei. Pelo que vejo, eu tinha duas opções: gastar o que me resta em cuidados paliativos e deixar uma pilha de contas médicas para a minha família, ou contratar você e morrer sabendo que esse desgraçado não está mais por aí espalhando morte.”
Olhei nos olhos dele. Não estava mentindo. Sempre sei quando alguém mente. Havia verdade absoluta naquele desespero. Não importava se eu acreditava ou não; ele acreditava piamente.
“Como você quer que seja feito?”
“Não me importa. Rifle de precisão, escopeta, um puta bazuca — eu não dou a mínima. Só faça.”
Assenti e me levantei para ir embora.
“Volto aqui depois que terminar. Combinado?”
“Combinado… e obrigado.”
Depois do encontro, dirigi até o bairro onde o tal “Portador de Câncer” supostamente morava. Era um fundo de saco com casas quase idênticas, diferenciadas apenas por enfeites de jardim. A casa de Carson era particularmente sem graça: sem bandeiras, sem decoração, sem jardim — mas impecavelmente limpa. Parecia artificial. Dirigi devagar, procurando pontos estratégicos. Matar em público estava fora de questão por causa de testemunhas. Além disso, Ted havia dito para fazer de longe. Enquanto rodava pelo bairro, um apito de trem ensurdecedor soou à frente. O universo tinha me dado a solução: um viaduto ferroviário elevado, perfeito como um ninho de atirador.
No dia seguinte, observei os movimentos de Carson. Aluguei um carro e o segui. Ele não conversava com quase ninguém, não fazia nada suspeito. Parecia uma pessoa comum. Parei num cruzamento, mas mantive os olhos nele. Vi quando ele esbarrou numa mulher; a mão dele roçou brevemente no seio dela. Baixei o vidro para ouvir:
“Desculpe muito! Não foi minha intenção—” ele disse.
“Tudo bem, essas coisas acontecem!” ela respondeu.
“Olha, isso é tão constrangedor… tem alguma coisa que eu possa fazer?”
“Está tudo bem, sério.”
“Desculpe mesmo… tenha um bom dia. De novo, desculpe.”
Eles seguiram caminhos opostos.
Olhei pelo retrovisor. A mulher de repente levou a mão ao peito, como se procurasse algo. Seu rosto empalideceu. Ela havia encontrado algo que não estava lá antes. Ignorei e olhei para a frente. A cena inteira me deixou inquieto. A história de Ted era absurda… mas a voz dele não mentia. Será que eu tinha acabado de ver aquele homem dar câncer naquela mulher?
Segui Carson por mais um quilômetro. Ele virou e voltou correndo para casa. Não parou, não esbarrou em mais ninguém, nem suou. Dei meia-volta e fui para o viaduto.
Levei um rifle sniper simples com silenciador. Ao entardecer, mirei pela luneta. Ele não tinha cortinas nem persianas. Acendeu a luz do quarto, sentou na cama e ficou olhando para o vazio, com expressão abatida. Esperei que se despisse e vestisse o pijama. Mas ele permaneceu sentado, imóvel, olhando pela janela. Ficou assim por horas. Do entardecer até altas horas da noite, como uma estátua. Comecei a sentir um mal-estar crescente. A expressão vazia, fixa, sem piscar… parecia que ele estava me encarando através da escuridão. Perdi a paciência e decidi que era a hora.
Carreguei a bala, mirei, segurei a respiração. Sem vento, sem obstáculos, sem testemunhas. Tiro perfeito. Atirei.
A bala acertou exatamente no olho.
Carson caiu para trás na cama. Observei para ver se tinha errado ou se, por algum milagre, ainda estava vivo. Sangue escorria do crânio, mas algo mais saía da cavidade ocular: massas grossas de tecido, tumores brotando e rolando sobre os lençóis. Tumores vazando. Fiquei nervoso. Já tinha visto de tudo em cadáveres — último suspiro, espasmos, olhos abertos após a morte… mas nunca isso. Fiz algo que nunca havia feito antes: atirei novamente. A bala abriu o abdômen. Não havia órgãos internos… só mais tumores. Eles escorriam como pedras numa avalanche. Eram tantos, saindo em ritmo constante e desumano. O primeiro tiro passou despercebido. O segundo foi ouvido. Luzes começaram a acender nas casas vizinhas. Pessoas saíram olhando em volta, nervosas. Peguei minhas coisas e corri.
Liguei para Ted e disse que o serviço estava concluído. Voltei ao ponto de encontro no bairro abandonado. A luz da casa estava acesa. Estacionei na entrada. Respirei fundo e tentei manter a postura profissional apesar do que tinha visto. Ao chegar na varanda, notei que a porta estava arrombada. Empurrei-a.
Lá estava Ted, ou o que restava dele, apoiado na cadeira dobrável como uma boneca quebrada. Cobertura de carne disforme, pus e sangue escorrendo de vários orifícios na pele. Era… antinatural. Os tumores cobriam tanto o rosto que demorei a enxergar os olhos. Dois pontos brilhantes enterrados em carne endurecida. Estavam abertos, mas não havia nada além de dor neles. Lágrimas escorriam enquanto ele gemia e ofegava. Havia um bilhete no peito dele. As mãos — agora duas massas inchadas — não conseguiam mais segurá-lo. Aproximei-me e peguei o papel. Virei-o e li:
‘VOCÊ ACHOU QUE ELE ERA O ÚNICO?’
Um calafrio percorreu meu corpo. Larguei o bilhete e corri para o carro. Uma voz fraca e chorosa me parou:
“Por favor!” gritou. “Só… mata… m…”
Ele não terminou. Mas eu sabia o que queria. Peguei o revólver e atirei na cabeça dele. Saí correndo da casa, entrei no carro e dirigi sem parar. Só parei para abastecer. Não comi, não dormi. Só dirigi.
Voltei para minha vida normal — a vida que eu mantinha separada do trabalho. Minha filha Janice e minha esposa Wendy são meu mundo. Depois daquele serviço, fiquei aliviado ao revê-las. Pensei que aquilo seria o fim. Desativei minha linha secreta, vendi as armas anonimamente e, com o passar dos meses, achei que tudo ficaria bem.
Até esta semana.
Janice brincava no quintal enquanto eu lia no alpendre. Uma mulher de uns 40 anos passou correndo. Ela tropeçou num desnível da calçada e caiu. Minha filha correu para ajudá-la. A mulher sorriu para ela. Senti orgulho.
“Ela é uma boa menina”, disse a mulher, olhando para mim.
“É sim”, respondi.
A mulher pegou a mão dela, bagunçou o cabelo e continuou correndo. Janice voltou a brincar, mas de repente levou as mãos à cabeça.
“Minha cabeça dói, pai.”
E desabou.
Era câncer no cérebro. Estágio quatro, agressivo. Os médicos ficaram chocados e tentaram de tudo. Fizeram o possível… e ela se foi. Wendy não aguentou e foi morar com a irmã. Eu também não estou lidando bem, para ser honesto. Afundei na garrafa e comecei a tentar descobrir como identificar essas… coisas. Elas parecem exatamente como nós. Vivem vidas normais, agem como pessoas comuns. Mas estão por aí espalhando dor e luto em massa. Estão caminhando entre nós, à vista de todos. Um único toque e você está acabado.
O que mais me aterroriza é que elas fazem isso quando querem, como querem. Não sentem remorso, não têm piedade, não escolhem quem será a vítima.
Elas são os Portadores de Câncer. Estão em toda parte, são malignas e há muito mais delas do que você imagina.


0 comentários:
Postar um comentário