Ainda não me acostumei a morar sozinho, embora já tenham se passado cinco meses desde o acidente. Minha namorada morreu porque um motorista bêbado bateu de frente com o carro dela. Naquele dia, algo dentro de mim se quebrou de vez. Sinto um vazio, como se tudo o que me fazia ser quem eu sou tivesse sido arrancado de mim num único instante.
O apartamento está um caos. A pia está entupida de louça suja, sacos de fast-food espalhados por todos os lados, as prateleiras cobertas por uma grossa camada de poeira. Não abro as janelas há meses, mal tenho comido alguma coisa e acabei ficando viciado em álcool. Sei que não é a melhor forma de lidar com esse vazio que carrego, mas é o que tem funcionado. As roupas dela ainda estão penduradas no nosso armário, os livros dela perfeitamente alinhados na estante, e eu não tirei nenhuma das nossas fotos que estão espalhadas pela casa. Há cerca de um mês que não abro as janelas. Digo a mim mesmo que é só para abafar o barulho das ruas movimentadas da cidade, mas no fundo eu sei que não é por isso. O apartamento parece me observar, como se fosse uma criatura viva constantemente respirando na minha nuca, me estudando. Depois que fechei as janelas, coisas estranhas começaram a acontecer aqui dentro.
O primeiro evento estranho aconteceu no dia em que comecei a mantê-las fechadas. Eu estava sentado no sofá, assistindo esporte sem prestar atenção nenhuma, quando senti o cheiro do perfume dela vindo do nosso quarto. Levantei-me e fui verificar. O frasco de perfume, que ficava no banheiro, estava agora no quarto. Não dei muita importância na hora. Pensei que talvez eu mesmo tivesse mexido nele sem perceber, borrifado um pouco no caminho e esquecido. Mas senti o peso no peito aumentar ainda mais. Eu não tinha amigos nem família próxima com quem pudesse desabafar. Tentei falar com meu pai, mas tudo o que ele disse foi: “Não chore por causa de uma garota idiota”.
No dia seguinte, pensei em sair para dar uma volta, mas desisti. Provavelmente eu parecia alguém que tinha acabado de sair de um caixão. Estava prestes a pegar outra bebida quando ouvi o chuveiro ligado. Quando foi a última vez que tomei banho? Pelo menos dois meses. Como eu não tinha intenção de sair, nem me dei ao trabalho. Sei que é isso que digo a mim mesmo, mas na verdade eu simplesmente não conseguia me forçar a fazer. Cambaleei até o banheiro, já meio bêbado, e desliguei o chuveiro. Voltei para a cozinha e minha cerveja estava estilhaçada no chão. Devia ter deixado cair sem querer. Sem energia para limpar, arrastei-me até o sofá e praticamente desabei ali. O tecido encardido e amassado virou meu travesseiro há meses. Adormeci.
Não sei o que me acordou, mas sei que já estava sentado antes mesmo de perceber que estava acordado. Esfregando os olhos, olhei para o relógio: 2:23 da manhã. Deitei de novo para voltar a dormir quando ouvi passos no corredor, perto do quarto. Sentei-me outra vez, ainda meio grogue, sem me importar se alguém tivesse invadido a casa. “Alguém aí?”, chamei com a voz rouca de tanto tempo sem usar. Os passos pararam por um segundo e depois voltaram na direção da sala, lentos e deliberados, como se a pessoa estivesse tentando fingir que não tinha sido pega. De repente, uma das nossas fotos caiu da parede e o porta-retrato se estilhaçou. Soltei um grito e corri até lá o mais rápido que consegui naquele estado semi-acordado. Com as mãos tremendo e evitando os cacos de vidro, peguei a foto e a virei. O rosto dela estava borrado, como se ela não estivesse mais na imagem.
Na manhã seguinte, decidi limpar os cacos do porta-retrato e acabei limpando também os da garrafa de cerveja da noite anterior. Depois de arrumar a bagunça, peguei a caneca favorita dela, enchi de água — a primeira água que eu bebia em meses. Foi uma sensação celestial. Não sei de onde veio aquela súbita motivação, mas admito que foi bom. Coloquei a caneca na mesa e, no mesmo instante, ela voou da mesa e se espatifou. “Meadow…?”, perguntei com a voz tremendo. Caminhei devagar até os cacos e os peguei com cuidado, tentando juntá-los de novo, mas não consegui. Acabei deixando os pedaços na mesa e me arrastei até o banheiro, onde finalmente me olhei no espelho depois de cerca de um mês.
Meu cabelo estava uma bagunça oleosa, a barba e o bigode tinham crescido descontroladamente, mas eu tinha medo de encostar numa lâmina. Meu rosto estava magro e pálido, os olhos injetados, com olheiras profundas. Soltei uma risada seca ao ver minha aparência. “Meu Deus… você tá ridículo”, murmurei para mim mesmo. Depois olhei para o chuveiro. Fazia meses, mas pela primeira vez senti que conseguia me obrigar. Fui até o armário pegar roupa limpa e percebi que algumas camisetas dela estavam faltando. Devo ter guardado em outro lugar, pensei, enquanto lutava para vestir a roupa. Finalmente consegui, voltei ao banheiro e abri o chuveiro, deixando o vapor quente encher o ambiente.
A água quente na pele foi maravilhosa, tirar a oleosidade do cabelo foi a melhor sensação que tive em meses. Colocar roupa limpa no corpo também foi incrível.
Depois desse momento, os eventos estranhos pararam por um tempo e eu comecei a melhorar. Voltei a comer aos poucos, comia melhor, consegui dormir na cama de novo — embora ainda olhasse ocasionalmente para o lado onde Meadow costumava dormir. Ainda sinto muita falta dela, mas parecia que eu estava seguindo em frente. Até que recaí. Durante aquele breve período de melhora, eu tinha parado de beber. Bastaram algumas doses para eu despencar de volta no buraco.
Naquela noite em que desabei de novo, aconteceu o pior de tudo. Adormeci no sofá outra vez e fui acordado pelo alarme do celular berrando no meu ouvido. Assustado, fiquei acordado o suficiente para não apagar de novo. Sentei por um instante para me espreguiçar e então eu vi. Uma criatura parada na entrada da sala. Estava escuro, difícil enxergar os detalhes, mas era alta. Os membros pareciam dobrar para o lado errado, o corpo era ossudo e alongado. Soltei um grito de puro horror e a criatura recuou para as sombras.
Depois disso, os eventos voltaram, mas muito mais intensos: as luzes piscavam, as portas dos armários batiam sozinhas, eu ouvia sussurros dentro das paredes, os objetos dela sumiam ou mudavam de lugar, e o perfume dela ficava sempre no ar. Eu não aguentava mais. Tentei afogar tudo no álcool, mas quanto mais eu bebia, pior ficava. Eu via a entidade no escuro, me observando.
Tudo parou quando cheguei ao fundo do poço. Não comia há uma semana, não dormia, estava paranoico ao extremo. Eram cerca de 13:54, exatamente a mesma hora em que recebi a ligação dizendo que Meadow tinha morrido. A criatura apareceu de novo, espiando por trás de um canto. Dessa vez eu consegui vê-la melhor: tinha um esqueleto visível, a “pele” esticada sobre os ossos como plástico. Dava para ver as costelas no peito, mas o rosto era a parte mais horrível. Sem feições, apenas uma depressão onde a boca deveria estar. “O que você quer de mim?”, perguntei, aceitando qualquer coisa que viesse. Ela caminhou até mim, a carne fazendo um som úmido e nojento de esmagamento, estendeu a mão e colocou um dedo no meu peito, exatamente onde fica o coração. Senti uma dor súbita. Não era uma dor aguda — era a dor da perda, do luto, de tudo que eu estava segurando dentro de mim esse tempo todo. Senti as lágrimas antes mesmo de entender o que estava acontecendo. Enterrei o rosto nas mãos e chorei como criança, finalmente permitindo que a verdade entrasse: ela se foi.
Depois disso, os fenômenos pararam. Consegui reorganizar minha vida. Mudei de apartamento, larguei o álcool de vez e até formei um pequeno grupo de amigos. Nunca contei essa experiência para ninguém. Acho que ela foi destinada só a mim.


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